
    AGORA E SEMPRE

Danielle Steel



      Captulo 1

      O tempo estava magnfico. Um dia ensolarado, azul e claro, com nuvens nitidamente delineadas no cu. O veranico perfeito. E to quente. O calor tornava tudo 
lento e sensual. E era totalmente diverso de San Francisco. Esta era a melhor parte. Ian sentava-se a uma pequena mesa de mrmore rosado, o seu lugar de costume, 
no restaurante Enrico, na Broadway. O trfego passava clere por ele, enquanto os casais da hora do almoo andavam lentamente. O calor era delicioso.
      Ian cruzou as longas pernas tranquilamente sob a mesa. Trs margaridas balouavam num copo, e o po era fresco e macio. Os dedos quase magros demais, porm 
graciosos, separaram cuidadosamente uma fatia de po das outras. Duas mocinhas o observavam, e deram risadinhas. Ele no era "engraadinho", era sexy. At mesmo 
elas o sabiam. E lindo. Bonito. Elegante. Tinha classe. Alto, magro, louro de olhos azuis, com mas do rosto altas e pernas interminveis, mos que a gente notava, 
um rosto que no dava vontade de parar de olhar... um corpo que chamava ateno. Ian Clarke era um belo homem. E ele o sabia, de uma maneira displicente. Ele sabia. 
A mulher dele sabia. E da? Ela tambm era linda. No era algo a que realmente dessem importncia. Mas as outras pessoas, sim. Elas adoravam olhar para eles, com 
aquele jeito esfaimado com que se fita as pessoas excepcionalmente atraentes, querendo saber o que esto dizendo, aonde esto indo, quem conhecem, o que comem... 
como se um pouco daquilo pudesse passar para elas. Nunca passa. A gente tem que nascer com isso. Ou gastar um dinheiro para simular. Ian no simulava. Ele era assim.
      A mulher com o grande chapu de palha de cor natural e vestido rosa tambm o notara. Fitava-o por entre o tranado da palha. Observava-lhe as mos que mexiam 
com o po, e a boca enquanto ele bebia. Podia at ver os plos louros nos seus braos, expostos ao sol com as mangas enroladas. Estava a vrias mesas de distncia, 
mas podia ver. Como j o tinha visto ali antes. Porm ele nunca a vira. Por que veria? Ela viu tudo, depois parou de olhar. Ian nem sabia que ela estava viva. Estava 
entretido com o resto da vista.
      A vida era incrivelmente boa. Madura e dourada e fcil. Era dele, bastava colh-la. Tinha trabalhado no terceiro captulo do seu romance a manh toda, o agora 
os personagens estavam ganhando vida, igual s pessoas que caminhavam pela Broadway.. passeando, rindo, divertindo-se. Os seus personagens j eram totalmente reais 
para ele. Conhecia-os intimamente. Era o seu pai, seu criador, seu amigo. E eles eram seus amigos. Era uma sensao to gostosa comear um livro. Ele povoava a sua 
vida. Todas aquelas caras novas, cabeas novas. Podia senti-las nas mos enquanto metralhava as teclas da mquina de escrever. At mesmo tocar o teclado dava-lhe 
prazer.
      Ele tinha tudo, uma cidade que amava, finalmente um novo romance, e uma mulher com quem ainda ria e brincava e tinha prazer em fazer amor. Sete anos, e tudo 
que dizia respeito a ela ainda lhe agradava: a sua risada, sou sorriso, a expresso dos seus olhos, o modo como se sentava nua no estdio, encarapitada na velha 
cadeira de balano de vime, tomando uma bebidinha fraca, e lendo o trabalho dele. Tudo estava bem, e agora melhor, com o romance comeando a florescer. E Jessie 
estava voltando para casa. Tinham sido trs semanas produtivas, mas de repente se sentiu solitrio e excitado como o... Jessie.
      Ian fechou os olhos e abafou os rudos do trfego que passa.....das pernas graciosas, do cabelo louro como cetim, dos olhos verdes com pintinhas douradas... 
comendo manteiga de amendoim e gelia de abric com po de passas s duas da manh, perguntando-lhe o que achava da sua linha de primavera para a loja...
      - Quero dizer sinceramente, Ian, fale a verdade, detestou as coisas de primavera, ou esto legais? Do ponto de vista masculino... seja .......
      Como se realmente importasse o ponto de vista masculino. Aqueles grandes olhos verdes perscrutando o rosto dele, como que a perguntar se ela tambm era legal, 
se ele a amava, se... ele amava.
      Sorvendo o seu gim-tnica, pensou em Jessie e sentiu-se novamente em dvida para com ela. Aquilo lhe dava uma sensaozinha de aperto na boca do estmago. 
Mas era parte da coisa: ele lhe devia muito. Ela suportara muito. Empregos de professor que pagavam uma ninharia, de professor-substituto que pagavam ainda menos, 
um emprego numa livraria, que ela detestava porque achava que o diminua. Ento, ele se despedira. Tentara at o jornalismo, por pouco tempo, depois que o seu primeiro 
romance fora um fracasso. E ento a herana de Jessie resolvera tantos dos problemas deles. Deles, mas no necessariamente dele.
      - Sabe, Sra. Clarke, um dia desses a senhora vai ficar cheia do estar casada com um escritor morto de fome.
      Observara atentamente o seu rosto, enquanto ela sacudia a cabea e sorria ao sol de um dia de vero, h trs.....
      - Voc no me parece estar morto de fome. - Deu uma palmadinha na barriga dele e beijou-o suavemente nos lbios. - Eu o amo, Ian.
      - Voc deve ser maluca. Mas eu tambm a amo.
      Fora um vero duro para ele. H oito meses que no ganhava um tosto. Porm Jessie tinha o dinheiro dela,  caro. Merda.
      - Por que sou maluca? Porque respeito o seu trabalho? Porque acho que  um bom marido embora no esteja mais trabalhando na Madison Avenue? E da, Ian? Quem 
est dando a mnima para a Madison Avenue? Voc est? Sente tanta falta dela, ou vai apenas us-la para atormentar-se pelo resto da vida? - Havia um leve toque de 
amargura na sua voz, misturada  raiva. - Por que no pode curtir o que ?
      - E o que sou?
      - Um escritor. E dos bons.
      - Quem falou?
      - Os crticos, quem mais?
      - Os meus royalties no "falavam".
      - Fodam-se os seus royalties.
      Ela estava com uma cara to sria que ele no pode deixar de rir.
      - Eu ia ter um .trabalho tentando... no tm tamanho nem para a gente fazer ccegas neles, que dir fod-los.
      - Ora, cale a boca... seu chato... s vezes voc me deixa com tanta raiva.
      Um sorriso comeou a aquecer o rosto dela de novo, e ele se Inclinou para beij-la. Ela correu o dedo de leve pela parte interna da coxa dele, observando-o 
com aquele seu sorriso tranquilo, e ele ficou todo arrepiado...
      Ainda se lembrava. Perfeitamente.
      - Mulher malvada, eu a adoro. Venha, vamos para casa.
      Tinham sado da praia de mos dadas, como duas crianas, partilhando o seu sorriso ntimo. Nem tinham esperado at chegar em casa. Alguns quilmetros adiante, 
Ian tinha visto um crrego estreito a curta distncia da estrada, e eles tinham estacionado ali e feito amor sob as rvores, perto do crrego, com os sons do vero 
em volta. Ainda se lembrava de ficar deitado na terra macia com ela, depois, apenas de camisa, deixando os dedos dos ps brincarem com as pedrinhas e a grama. Ainda 
se lembrava de pensai que jamais compreenderia totalmente o que a prendia a e..... por que mais? Ningum no seu juzo perfeito fazia essas perguntas. Porm ele se 
sentia tentado a faz-las. As vezes temia que o que o prendia a ela fosse a f que tinha na sua capacidade de escrever. No queria pensar que fosse isso, mas isso 
certamente era parte do seu pensamento.
      Todas aquelas noites de discusso com caf e vinho no estdio dele. Ela sempre tinha tanta certeza! Quando ele precisava que tivesse. Este era o melhor momento.
      - Sei que voc vai conseguir, Ian.  s. Simplesmente sei que vai.
      Tanta certeza ela tinha! Fora por isso que fizera com que ele largasse o emprego na Madison Avenue, porque tinha tanta certeza. Ou seria porque queria torn-lo 
dependente dela? As vezes ficava se questionando.
      - Mas como voc pode saber, droga? Como pode saber que vou conseguir?  um sonho, Jessie. Uma fantasia. O grande romance americano. Sabe quantos imbecis esto 
por a, escrevendo merda, pensando " este"?
      - Estou me lixando para eles. No so voc.
      - Quem sabe so.
      Certa vez ela jogara uma taa de vinho em cima dele quando dissera isso, o ele rira. Tinham acabado de fazer amor no tapete espesso de pele enquanto o vinho 
pingava do queixo dele nos seios dela, e os dois riram juntos.
      Por isso tudo ele precisava escrever um bom romance agora. Precisava. Por ela. Por si mesmo. Precisava, desta vez. Seis anos de trabalho tinham produzido um 
romance desastroso o um belo livro de fbulas que os crticos tinham aclamado como um clssico. Vendera menos de 700 exemplares. O romance nem sequer se sara to 
"bem". Mas esse ia ser diferente. Sabia disso. Era a sua realizao, comparvel  dela, Lady J.
      Lady J era a butique de Jessie. E Jessie fizera dela um sucesso absoluto. Os toques exactos, a bossa certa, a linha adequada na hora corta. Ela era uma dessas 
pessoas que lanam um encanto em tudo o que tocam. Uma vela, um leno, uma jia, um lampejo de cor, um vislumbro de sorriso, um brilho do calor, um toque de audcia, 
um naco de classe. Um barril do classe. Jessie nascera com classe, transpirava classe. Nua em plo o do olhos fechados, tinha classe.
      Com o jeito que entrava pelo estdio dele adentro na hora do almoo, a cabeleira loura esvoaando, um sorriso nos olhos, um beijo no pescoo dele, e de repente 
uma fantstica rosa cor de salmo largada em cima dos jornais. Uma rosa perfeita, ou uma tulipa amarela num vaso de cristal ao lado da xcara de caf dele algumas 
fatias do presunto, um pouco de melo, uma lasquinha do Brie... The New York Times... ou Le Figaro. Era dela esse dom de transformar tudo o que tocava em algo mais, 
algo melhor.
      O facto de pensar nela fez Ian sorrir de novo enquanto observava as pessoas nas outras mesas. Se Jessie estivesse ali estaria usando algo levemente escandaloso, 
um vestido de vero com as costas de fora, mas que cobria os braos, ou algo totalmente coberto mas com uma fenda que dava a quem passasse uma rpida viso das pernas, 
ou um chapu extremamente lindo que permitiria que tivessem um vislumbre de um fascinante olho verde, enquanto o outro flertava, depois se escondia. O facto de pensar 
nela desse jeito chamou a sua ateno para a mulher de chapu do palha a algumas mesas do distncia. No a vira antes. E achava que ela definitivamente valia a pena 
ser vista. Numa tarde quente e ensolarada com dois gins-tnicas no bucho. Mal podia enxergar-lhe o rosto. Apenas a ponta do queixo.
      Tinha braos esbeltos o mos bonitas, sem anis. Ficou olhando enquanto ela tomava uma bebida espumante de canudinho. Sentiu uma excitao familiar enquanto 
pensava na mulher e observava a moa do chapu. Era mesmo uma pais que Jessie no estivesse em casa. Era um dia para se ir  praia, e nadar, e suar, e ficar todo 
coberto de areia, e esfregar as mos umas nas outras, besuntadas de leo para bronzear. O jeito como a mulher de chapu de palha mexia com a boca no canudinho perturbava-o. 
Fazia com que desejasse Jessie. Agora.
      O cannelloni chegou, mas a escolha no fora boa. Cremoso demais, quente demais, quantidade demais. Devia ter pedido uma salada. E sentia-se relutante em pedir 
o caf depois de algumas garfadas do almoo. Era um dia gostoso demais para bancar o duro consigo mesmo. Era bom mais fcil soltar-se, ou soltar os pensamentos, 
pelo menos. Isso no fazia mal. Estava se divertindo. Sempre se divertia, no Enrico. Podia relaxar ali, observar os estranhos, encontrar escritores que conhecia, 
e admirar as mulheres.
      Por nenhum motivo especial, deixou que o garom lhe trouxesse uma terceira bebida. Raramente tomava outra coisa alm de vinho branco, mas o gim era fresco 
e agradvel. E uma terceira dose no o mataria. Havia alguma coisa que mexia com a gente nos das quentes num clima geralmente fresco... a gente ficava um pouco maluco.
      A multido no Enrico flua e reflua, amontoando-se atrs das mesas nas caladas, rejeitando os reservados vermelhos l dentro. Empresrios livravam-se das 
gravatas, modelos se exibiam, artistas rabiscavam, msicos de rua tocavam, poetas pilheriavam. At mesmo os rudos do trfego ficavam abafados pela msica e pelas 
vozes. Aquilo o fazia lembrar do ltimo dia de aula. E os bares topless que ladeavam o restaurante estavam silenciosos, as luzes a neon apagadas at o cair da noite. 
Isso era muito melhor que o neon. Era real. Era jovem e vivo e tinha o sabor de um jogo.
      A garota do chapu no revelou o rosto enquanto Ian se retirava, mas o observava, e depois deu de ombros silenciosamente e pediu a conta. Sempre podia voltar, 
ou quem sabe... ora, e da....
      Ian estava pensando nela enquanto se dirigia para o carro, ligeiramente tonto, mas no tanto que deixasse aparecer. Estava inventando versos de uma "Ode a 
Uma Beldade Sem Rosto". Ria consigo mesmo enquanto deslizava para trs do volante do carro de Jessie, desejando que estivesse deslizando para dentro de Jessie. Estava 
totalmente aceso de desejo.
      Guiava o pequeno Morgan vermelho de Jessie. E estava curtindo adoidado. Fora uma beleza de presente, reflectiu, enquanto puxava o afogador. Uma beleza de presente. 
Para uma beleza de mulher. Comprara-o para ela com o seu adiantamento pelas fbulas. O cheque inteiro pelo carro. Uma loucura. Porm ela o adorara. E ele a adorava.
      Voltou a entrar na Broadway e parou num sinal vermelho, passando de novo pelo Enrico a caminho de casa, quando um sussurro de rosa perpassou pelo seu olho 
direito. Ela agora girava o chapu num dos dedos enquanto o rosto fitava o cu, o traseiro ondulando livremente enquanto caminhava com sandlias brancas de salto 
alto. O vestido rosa apertava-lhe os quadris, mas no escandalosamente, e o cabelo ruivo emoldurava-lhe o rosto em cachos soltos. Ela ficava to bonita de rosa, 
e to danada de sensual. To redonda e madura e jovem... Vinte e dois anos... vinte e trs? Sentiu de novo a mesma fome sexual ao olhar para ela. O seu cabelo cor 
de cobre reflectia o sol. Teve vontade de toc-lo. De arrancar-lhe o chapu da mo e fugir, para ver se ela iria atrs. Estava com vontade de brincar, e no tinha 
ningum com quem brincar.
      Passou por ela guiando devagar, e ela ergueu os olhos e depois enrubesceu, afastando o olhar, como se no esperasse v-lo de novo, e agora aquilo tivesse mudado 
tudo. Virou a cabea e olhou para ele novamente, a surpresa substituda por um sorriso lento e um dar de ombros que mal era visvel. O destino. Hoje fora o dia, 
afinal. Ela se vestira para isso. E agora estava contente. Parecia no estar disposta a prosseguir, sob o calor do olhar dele. Ele no seguira em frente. Ficara 
simplesmente sentado ali, enquanto ela parara na esquina e o observava. No era to jovem quanto ele pensara. Vinte e seis... vinte o sete? Mas ainda cheia do frescor. 
Frescor suficiente, copos do trs gins-tnicas e pouca comida.
      Os olhos dela perscrutaram o rosto dele, um pouco insistentes demais, porm, cautelosos, e ento, enquanto ele observava, ela se aproximou, mostrando os meios 
fartos em vivo contrasto com o formato juvenil dos braos.
      - Eu o conheo?
      Ela ficou ali, segurando o chapu, repentinamente cruzando os tornozelos; os ossos dos quadris ficaram salientes, e as calas de Ian, instantaneamente, justas 
demais.
      - No, acho que no.
      - Estava me olhando.
      - ... desculpe. Eu... gostei do seu chapu. Raparei nele na hora do almoo.
      O rosto dela se suavizou, e ele retribuiu-lhe o sorriso, embora desapontado. Ela era mais velha do que Jessie, talvez at um ou dois anos mais velha do que 
ele. Maquiada para parecer extica a nove metros do distncia, a sois metros a iluso se destroava. E o cabelo ruivo deixava ver uma linha fina do razes pretas. 
Mas ele estivera olhando, ela tinha razo.
      - Sinto muitssimo. Quer uma carona?
      Por que no? Ela no podia estar indo para muito longe; provavelmente para um escritrio a alguns quarteires de distncia.
      - Quero sim. Obrigada. Est quente demais para andar.
      Sorriu de novo e lutou com a maaneta do carro. Ian soltou-a pelo lado de dentro, e ela se aboletou no assento, mostrando uma quantidade reconfortante de busto. 
Pelo menos isso era verdadeiro.
      - Para onde quer que a leve?
      Ela fez uma pequena pausa, depois sorriu.
      - Market com a Dcima. Tiro voc do seu caminho?
      - No, tudo bem. No estou com pressa.
      Mas estava surpreso com o endereo. Era um lugar estranho para se trabalhar, um lugar ruim para morar.
      - Tirou o dia de folga?
      Olhava para ele, indagadoramente.
      - Mais ou menos. Trabalho em casa.
      Geralmente no era to expansivo, mas ela o deixava constrangido, fazia com que sentisse que devia conversar. Usava um perfume forte, e a saia tinha subido 
bastante nas coxas. Ian estava com fome. Mas de Jessie. E ela ainda estava a dez horas de distncia.
      - O que voc faz?
      Por um estranho momento teve vontade de dizer que era um gigol, sustentado pela mulher. Debateu esse ponto mentalmente, enquanto franzia a testa.
      - Sou escritor.
      A resposta foi seca.
      - No gosta do que faz?
      - Adoro. Por que fez essa pergunta?
      Desta feita ficou surpreso.
      - Pelo jeito com que comeou a franzir a testa. Voc  um cara bonito, quando sorri.
      - Obrigado.
      - De nada. Tambm dirige um carro bonito. - Ela j tinha feito a sua avaliao. A camisa St. Tropez bem talhada, os sapatos Gucci som meias. No sabia que 
eram Gucci, mas sabia que eram caros. - Que marca ? Um MG?
      - No. Um Morgan. - E  da minha mulher... As palavras ficaram entaladas na garganta. - O que voc faz?
      Elas por elas.
      - No momento sou garonete no Condor, mas queria ver como era a vizinhana  luz do dia. Foi por isso que vim almoar aqui.  um pessoal totalmente diferente. 
E a essa hora est todo mundo bem mais sbrio do que quando chega s nossas mos, mais tarde.
      O Condor no era conhecido por ter uma clientela cheia do decoro. Era o bero do "Original Topless" o Ian imaginou que a mulher servia s mesas seminua. Ela 
deu de ombro e depois deixou o rosto suavizar-se num sorriso. Parecia quase bonita do novo, mas havia uma tristeza no fundo dos seus olhos. Uma espcie de pesar, 
obcecante e longnquo. Lanou-lhe um olhar estranho, uma ou duas vezes. E novamente Ian sentiu que ela o deixava constrangido.
      - Voc mora na Market com a Dcima?
      Era alguma coisa para falar.
      - . Num hotel. E voc? - Esta era uma parada para responder. O que podia dizer? Porm ela preencheu a pausa por ele.
      - Deixe que eu adivinho. Pacifie Heights?
      O olhar dela no estava mais animado, e a pergunta parecia amarga e acusadora.
      - Por que diz isso?
      Tentou soar divertido e parecer falsamente magoado, mas no se saiu bom. Olhou para ela quando pararam num trecho engarrafado da Montgomery Street. Ela parecia 
ser a secretria de algum, ou uma garota fazendo figurao num filme. No parecia vulgar. Parecia cansada. E triste.
      - Meu bem, voc cheira a Pacifie Heights. Est na cara.
      - No deixe que as fragrncias a enganem. "Nem tudo que reluz...."
      Riram juntos e ele brincou com o afogador enquanto o engarrafamento diminu a. Virou com o carro na Market.
      - Casado? - Ele fez que sim com a cabea. - Que pena. Os bons sempre so.
      - Isso atrapalha?
      Era uma loucura dizer isso, mas perguntou mais por curiosidade do que outra coisa, e alm disso os gins-tnicas estavam comeando a fazer efeito.
      - As vezes topo os homens casados, s vezes No. Dependo do sujeito. No seu caso... quem sabe? Gosto de voc.
      - Estou lisonjeado. Voc  uma mulher bonita, tambm. Como se chama?
      - Margaret. Maggie.
      - Que nome simptico. - Ela sorriu do novo. -  esse aqui, Maggie?
      Era o nico botei no quarteiro, e no era nenhuma beleza.
      - .  esse. Lar doce lar. Lindo, no ?
      Tentou disfarar o seu embarao com irreverncia, e ele teve pena dela. O hotel tinha um ar desolador e deprimente.
      - Quer subir o tomar uma bebida?
      Ele percebeu pelo seu olhar que ficaria magoada se no fosse. E, que diabo, no estava em condies do ir para casa trabalhar. E ainda tinha que esperar nove 
horas e mesa at chegar a hora de ir para o aeroporto. Mas tambm sabia o que podia acontecer se aceitasse o convite de Maggie. E deixar que aquilo acontecesse era 
uma coisa nojenta de se fazer com Jessie, no dia em que estava voltando para casa. Ele aguentara firme, durante trs semanas. Por que no mais uma .......
      Mas a garota parecia to s, to mal-amada, e o gim e o sol estavam girando no crebro dele. Sabia que no estava caiu vontade de voltar para casa. Nada ali 
dentro era dele, dele de verdade, excepto cinco gavetas de arquivos sobre os seus escritos, o a nova mquina de escrever Olivetti que Jornal. lhe dera. O rei gigol. 
O consorte do Jessie.
      - Claro. Tenho tempo para uma bebida, contanto que seja um caf. O que fao com o carro?
      - Acho que pode estacion-lo em frente da porta. Aqui no  zona proibida, e no h perigo do ser rebocado.
      Ele estacionou o carro na frente do hotel o Maggie observou atentamente a traseira do carro enquanto ele o encostava ao meio-fio. Era uma placa fcil de guardar. 
Soletrava o que ela pensava ser o nome dele. Jessie.
      
      
Captulo 2
      
      Jessica ouviu o trem de aterrissagem descendo da barriga e sorriu. O cinto estava amarrado, a luz do teto apagada, e ela sentia o corao bater mais forte 
enquanto o avio rodeava pela ltima vez. Tinha uma viso ntida das luzes.
      Olhou para o relgio. Conhecia Ian to bem. Age procurando desesperadamente um lugar para estacionar na garagem do aeroporto, apavorado de estar atrasado e 
no encontr-la no porto. Acharia uma vaga, e correria feito um doido para o terminal, e estaria ofegante e sorridente, os nervos  flor da pele visse. Mas chegaria 
a tempo. Sempre chegava. Aquilo transformava o chegar em casa em algo especial.
      Sentia-se como se tivesse passado um ano fora, mas tinha comprado coisas muito boas. A linha de primavera seria linda. Pasteis suaves, lis macias cortadas 
de vis, xadrezes claros, blusas de seda com mangas fartas e umas camuras maravilhosas. No conseguia resistir s camuras. Seria uma primavera fantstica na boutique. 
As coisas que tinha encomendado s comeariam a chegar dali a trs ou quatro meses, mas ela j estava excitada s de pensar nelas. Tinha tudo decorado. A linha de 
primavera estava definida. Gostava de planejar antecipadamente. Gostava de saber o que estava por vir. Gostava de saber que tinha a sua vida, e o seu trabalho, todo 
organizados. Podia haver quem achasse isso uma chateao, mas no era o caso de Jessie.
      Ela e Ian estavam planejando uma viagem a Carmel em Outubro. O Dia de Aco de Graas seria passado com amigos. Quem sabe o Natal esquiando no Lago Tahoe, 
e depois um pulinho at o Mxico para tomar sol, depois do Ano Novo. E ento a linha de primavera comearia a chegar. Era tudo perfeitamente planejado. Como as suas 
viagens, as suas refeies, o seu guarda-roupa. Ela tinha o que era necessrio para fazer planos... um negcio que funcionava, um marido a quem amava e com quem 
sempre podia contar, e tente de confiana  sua volta. Muito pouco era varivel e ela gostava que fosse assim. Perguntava-se se seria por isso que nunca quisera 
um beb: ele seria uma varivel. Uma coisa que no poderia planejar totalmente. No sabia como seria a aparncia dele, como agiria, ou exactamente quando nasceria, 
ou o que faria com ele depois de t-lo. A idia de um beb a perturbava. E a vida era to mais simples assim. Apenas Jessie e Ian. Sozinhos. E assim no havia rivais 
para o afecto de Ian. Jessie no gostava de competir, no pelo Ian. Ele era tudo o que lhe restava agora.
      As rodas tocaram a pista e ela fechou os olhos... Ian... sentira saudades dele nas ltimas semanas. Os dias tinham sido cheios e as noites ocupadas, no entanto 
ela geralmente ligava para ele quando chegava no hotel,  noite. Mas no pudera estender a mo e toc-lo, ou ser abraada. No pudera rir dentro dos seus olhos, 
ou fazer-lhe ccegas nos ps, ou ficar ao lado dele no chuveiro, perseguindo as gotas d'gua nas suas costas sardentas com a lngua. Esticou as longas pernas  frente 
enquanto esperava que o avio parasse totalmente.
      Era difcil ser paciente. Queria que a viagem estivesse terminada. Queria correr ao encontro dele. Nesse momento. Nunca tinha havido outros homens. Erra difcil 
acreditar, mas no tinha. Ela chegar. a pensar na possibilidade, uma ou duas vezes, mas nunca parecera valer a pena. Ian era to melhor do que qualquer outra pessoa, 
aos olhos. dela. Mais sensual e mais inteligente o mais bondoso e mais carinhoso. Ian compreendia to bem o que ela precisava, o preenchia tantas necessidades. Nos 
sete anos em que estavam casado., ela perdera contacto com a maioria das suas amigas ntimas em Nova York, e no as substitura por outras em San Francisco. No 
precisava de amigas, de uma confidente, de uma "melhor" amiga. linha o Ian. Ele era o seu melhor amigo, seu amante, at mesmo sou irmo, agora que Jake estava morto. 
E o que  que tinha se de vez em quando Ian tinha um "casinho"? No acontecia com frequncia, e ele era discreto. Aquilo no a incomodava. Os homens faziam essas 
coisas quando precisavam, quando as mulheres estavam longe. Ele no fazia estardalhao, no jogava na cara dela. Jessie simplesmente suspeitava que ele os tinha. 
Era s isso. Ela compreendia. Contanto que no tivesse que saber. Ela imaginava, o que era diferente de saber.
      Os pais dela tinham tido um casamento desses, o haviam sido felizes durante anos. Observando-os, Jessie aprendera sobre as coisas que no se mencionavam, no 
se usavam, no se aproveitavam para ferir um ao outro. Um bom casamento dependia do considerao, e as vezes ficar calada e deixar o outro em paz era considerao... 
amor. Os pais dela estavam mortos; j no eram jovens quando ela nascera. A me tinha 30 e poucos anos, o pai 45. E Jessie estava com quatro anos quando Jake nasceu. 
Porm, pelo facto de casar tarde, eles se haviam respeitado mais do que a maioria dos casais. No se sentiam inclinados a modificar um ao outro. Isso ensinara muito 
a Jessie.
      Mas todos eles estavam mortos, agora. J fazia trs anos. Quase exactamente. Os pais tinham morrido com diferena de meses um do outro. Jake morrera um ano 
antes deles, no Vietn, no auge dos seus 20 anos. Todos mortos. S sobrara Jessica. Porm ela tinha o Ian. Graas a Deus que havia o Ian. Quando pensava assim, sentia 
arrepios na espinha... o que faria sem o Ian? Morreria... como o pai morrera sem a me... morreria... no poderia viver sem o Ian. Ele agora era tudo. Abraava-a 
tarde da noite, quando tinha medo. Fazia com que risse quando algo a emocionava demais e a deixava triste. Lembrava-se dos momentos que importavam, conhecia as coisas 
que ela amava, compreendia a sua linguagem pessoal, ria das suas piores piadas. Ele sabia. Era a mulher dele, e a sua garotinha. Era disso que precisava. Do Ian. 
Portanto, que mal fazia se havia indiscries ocasionais das quais nem tomava conhecimento? Contanto que ele estivesse presente na hora corta. E sempre estava.
      Ouviu as portas soado abortas; as pessoas comearam a se apertar nos corredores. O voo de cinco horas tinha terminado. Estava na hora de ir para casa. Jessie 
alisou o vinco das calas com uma das mos e pegou o casaco com a outra. Era um casaco alaranjado de camura que usava com calas de camura bege e uma blusa estampada 
de seda em tons de caramelo. Os olhos verdes brilhavam no rosto bronzeado e o cabelo louro oscilava solto e espesso alm dos seus ombros. Ian adorava v-la de alaranjado, 
e ela comprara o casaco em Nova York. Sorria consigo mesma, imaginando o quanto ele o adoraria... quase tanto quanto o blazer Pierre Cardin que comprara para ele. 
Era gostoso mimar o Ian.
      Trs empresrios e um bando do mulheres saram na frente dela, mas era alta o bastante para enxergar por cima das cabeas das mulheres tagarelas. Ian estava 
l no porto, o ela acenou enquanto ele dava um amplo sorriso, acenando do volta, e depois moveu-se rapidamente na sua direco, abrindo caminho por entre as pessoas 
que estavam na fronte dela. E ento alcanou-a o tomou-a nos braos.
      - No via a hora de voc chegar em casa... e bonita desse jeito, vai ter sorte se eu no estupr-la aqui mesmo.
      Ele parecia to satisfeito. E ento a beijou. Ela estava em casa.
      - Ande. Me estupro. Quero ver. - Porm ficaram parados onde estavam, saboreando um ao outro, dizendo tudo com os olhos Jessie no podia deixar de sorrir, ou 
de tocar-lhe o rosto com as mios. - Est to gostoso.
      Adorava a maciez e o cheiro de limo forte da pele dele.
      - Jessie, se voc soubesse a falta que senti...
      Ela concordou, com a cabea. Sentira pelo menos tanta falta quanto ele.
      - Como vai o livro?
      - Bom. - Falavam com as breves banalidades daqueles que ao conhecem mais do que bem. No precisavam de muitas palavras. - Bem, mesmo. - Ele apanhou do cho 
a sacolona de couro marrom que ela largara para beij-lo. - Vamos, lady sexy, vamos para casa.
      Enlaou o brao no dele e juntos caminharam com passadas longas o iguais, o cabelo de Jessie roando o ombro dele, cada movimento seu um complemente para o 
dele.
      - Trouxe um presente para voc.
      Ele sorriu. Ela sempre trazia.
      - Comprou um para voc, tambm, estou vendo.  um casaco e tanto.
      - Gostou? Ou  horrvel? Estava com medo de ser exagerado demais.
      Era caramelo queimado, quase cor do chama.
      - Em voc fica bem. Tudo fica.
      - Puxa, mas voc est sendo bonzinho comigo! O que foi que fez? Bateu com o carro?
      - Ora, mas isso  l coisa que se diga? Pergunto s: isso  coisa que se diga?
      - Bateu?
      Mas ela estava rindo, o ele tambm.
      - No, troquei-o por uma motocicleta Honda. Achei que voc talvez gostasse mais.
      - Mas que idia genial! Puxa, querido, estou emocionada. Agora vamos, conte a verdade. O carro ficou muito estragado?
      - Estragado? Quero que saiba que ele no apenas est em condies impecveis, mas limpo, condio na qual no estava quando voc foi embora. Aquele pobre carrinho 
estava imundo!
      - , eu sei.
      Ela deixou pender a cabea, e ele riu.
      - Voc  uma vergonha, Sra. Clarke, mas eu a amo.
      Beijou-lhe a ponta do nariz, e ela envolveu-lhe o pescoo com os braos.
      - Adivinho s.
      - Quantas chances eu tenho?
      - Uma.
      - Voc me ama?
      - Adivinhou!
      Ela deu uma risadinha e beijou-lhe o pescoo.
      - O que eu ganho de prmio por ter acertado?
      - Eu.
      - Fantstico. Aceito.
      - Puxa, mas como estou feliz por estar em casa.
      Soltou um pequeno suspiro o ficou aninhada dentro do crculo formado pelos braos dele, enquanto esperavam que as malas dela aparecessem na esteira rolante. 
Podia ver o alvio nos olhos de Jessie. Detestava ter que viajar, detestava andar de avio, tinha medo de morrer, tinha medo que ele morresse num desastre de carro 
enquanto estava fora. Desde que os pais e o irmo... tantos terrores. No que tivessem morrido de morte violenta. A me j estava idosa. Velha o bastante, 68 anos. 
O pai estava na casa dos 70. Ele morrera do saudade menos de um ano mais tarde. Mas Jessie no estava preparada para a dupla perda, e foi terrvel ver como aquilo 
a afectou. Nunca havia se recuperado totalmente da morte do irmo, o depois dos pais... s vezes, Ian duvidava que ela superasse a crise. Os terrores, a histeria, 
os pesadelo.. Sentia-se to sozinha e assustada. s vezes nem parecia a pessoa que ele conhecia. Ficou subitamente to dependente dele, to diferente da antiga Jessie. 
E parecia querer estar certa do que ele fosse igualmente dependente dela... Fora nessa poca que ela o convencera a largar o emprego e ficar escrevendo em horrio 
integral. Ela tinha meios para manter aos dois. Mas, do alguma forma, ele no tinha certeza de que aquilo era certo. Porm, na maior parte do tempo, era o ideal 
para os dois. E o facto do sustenta-lo fazia com que Jessie se sentisse segura. Ele realmente era tudo o que tinha, agora.
      Ergueu de novo os olhos para ele, o sorriu.
      - Espere s at eu a pegar em casa, Sra. Clarke.
      - Tarado.
      - Sou. E voc adora.
      -  Adoro.
      As pessoas os observavam, mas eles nem reparavam. Davam s pessoas uma coisa bonita de se olhar, para a qual sorrir, com a qual se sentir bom, pela qual torcer. 
E algo para desejar, tambm. Eram duas lindas pessoas que tinham tudo. Isso geralmente despertava uma miscelnea de emoes naqueles que os observavam.
      Foram at a garagem para pegar o Morgan e Jessie abriu um sorriso de orgulho quando o viu.
      - Oh, mas est lindo. O que fez com ele?
      - Mandei lavar. Voc devia experimentar isso, de vez em quando. Vai adorar o efeito.
      - Ora, cale a boca.
      Deu um soco nele, de brincadeira, o Ian se abaixou, pegando-lhe o brao enquanto ela ria.
      - Antes que voc me bata, amazona, entre no carro.
      Deu-lhe uma palmada no traseiro e destrancou a porta.
      - No me chame de amazona, seu peste miservel! Seu metido a gostoso!
      - O qu? Ser que ouvi voc me chamar de metido a gostoso? - Fez um ar de chocado e voltou para onde ela estava. - Moa, como ousa me chamar duma coisa dessas? 
- E, dizendo isso, tomou-a no colo e colocou-a no banco do carro. - Pronto. E deixe que eu lhe diga, com uma dona do seu tamanho, isso no  caf pequeno!
      - Ian, voc  uma bosta. - Mas ele sabia que ela no tinha complexos do seu tamanho. Ambos gostavam dele. - Alm disso, acho que estou encolhendo. 
      - ? Baixou para 1,86m, foi?
      Deu uma risadinha abafada enquanto terminava de prender as malas no bagageiro do carro. Ainda estava com a capota arriada e ela o observava com um sorriso.
      - V  merda. Sabe perfeitamente que s tenho 1,80m, porm me medi no outro dia e deu s 1,78m.
      - Voc devia estar sentada.
      Entrou no carro, ao lado dela, e virou-se para olh-la nos olhos.
      - Al, Sra. Clarke, bem-vinda ao lar.
      - Al, meu amor.  bom estar de volta. - Compartilharam um longo sorriso enquanto ele dava partida no carro, e ela tirava o casaco novo e enrolava as mangas 
da blusa. - Fez calor aqui, hoje? Ainda est um pouco quente.
      - Esteve fervendo e maravilhoso e ensolarado. E se amanh fizer um dia igual, voc pode ligar para a boutique e dizer-lhes que ficou presa em Chicago por causa 
da neve. Ns vamos  praia.
      - Presa por causa da neve, em setembro? Voc est maluco. Mas, querido, eu realmente no posso.
      Ela gostou da idia, e ele percebeu.
      - Pode, sim. Nem que eu tenha que sequestr-la.
      - Quem sabe eu possa chegar mais tarde.
      - Agora, sim!
      Riu vitorioso enquanto puxava o afogador.
      - Foi mesmo to gostoso, hoje?
      - Gostosssimo. E teria sido ainda melhor se voc estivesse em casa. Fiquei meio de porre no Enrico e no sabia o que fazei para passar o tempo, o resto do 
dia.
      - Estou certa do que encontrou alguma coisa.
      Porm no havia malcia no tom de voz dela, e nenhuma expresso no rosto dele.
      - No. Nada de especial.
      

      
Captulo 3
      
      
      - Jessie, voc  sem sombraDE  dvida a mulher mais bonita que conheo.
      -  inteiramente mtuo.
      Ela estava deitada de bruos, sorrindo para ele, o odor dos seus corpos pesando no ar, os cabelos despenteados. No estavam acordados h muito tempo. Apenas 
o tempo suficiente para fazer amor.
      - No pode ser muito, boba. No sou uma mulher bonita.
      - No, mas  um homem magnifico.
      - E voc  adoravelmente cafona. Deve morar com um escritor.
      Ela sorriu de novo o ele correu o dedo suavemente pela sua espinha.
      - Vai se meter em encrencas de novo, querido, se fizer isso.
      Aceitou uma baforada do cigarro que compartilhavam e soltou a fumaa por cima da cabea dele antes de sentar-se para beij-lo outra vez.
      - A que horas vamos  praia, Jessie, meu amor?
      - Quem disse que vamos  praia? Pombas, querido, tenho que ir para a loja. Estive fora durante trs semanas.
      - Ento fique fora mais um dia. Voc falou que ia  praia comigo, hoje.
      Parecia-se levemente com um garotinho emburrado.
      - No falei.
      - Falou, sim senhora. Bem, quase. Eu disse que ia sequestr-la o voc pareceu gostar da idia.
      Ela riu, correndo os dedos pelos cabelos dele. Era impossvel, um menino grande. Mas um menino to bonito. No conseguia resistir-lhe.
      - Sabe de uma coisa?
      - O qu?
      Parecia satisfeito enquanto olhava para o rosto dela. Era linda, pela manh.
      - Voc  doido de doer, isso  o que voc . Tenho que trabalhar. Como posso ir  praia?
      - Facilmente. Ligue para as garotas, avise que s vai poder ir trabalhar amanh, e l vamos ns. Como pode desperdiar um dia como esses, pela madrugada?
      - Ganhando a vida.
      Esses eram os comentrios de que ele no gostava. Insinuavam que ele no ganhava a vida.
      - E se eu for de manh e encerrar o expediente mais cedo?
      - . E sair da boutique na hora da neblina. Jessica, voc  uma desmancha-prazeres. Desmancha-prazeres de primeira classe.
      Mas ela j se dirigia para a cozinha, para fazer caf, e respondeu-lhe por cima do ombro enquanto entrava nua na cozinha.
      - Prometo que sairei da loja  uma hora. Que tal?
      - Melhor do que nada. Caramba, eu adoro seu bumbum. E voc emagreceu.
      Ela sorriu e jogou-lhe um beijo.
      - Uma hora, prometo. E podemos almoar aqui.
      - Isso quer dizer o que eu estou pensando? - Ele sorria de novo, e ela fez que sim com a cabea. - Ento ou pego voc ao meio-dia e meia.
      - Negcio fechado.
      
      
      A Lady J se aninhava no andar trreo de uma bem-cuidada casa em estilo vitoriano, numa transversal  Union Street. A casa era pintada de amarelo com acabamentos 
brancos, e uma pequena placa de lato na porta dizia LADY J. Jessie mandara instalar uma ampla vitrina e ela mesma a decorava, duas vezes por ms. Era simples e 
eficaz, e enquanto parava o Morgan na entrada da garagem, ergueu os olhos para ver o que tinham feito com a vitrina, na sua ausncia. Uma saa de tweed marrom, uma 
blusa de colarinho alto cor de camelo, miangas cor de mbar, um chapu de tric, e urna pequena jaqueta de pele de raposa jogada sobre uma cadeira de veludo verde. 
Estava excelente, e era coisa certa para o outono... embora no para o veranico. Mas isso no importava. Ningum fazia compras para o veranico. Compravam para o 
outono.
      As coisas que tinha comprado em Nova York passaram rapidamente pela sua cabea enquanto tirava a pasta do carro e subia correndo os poucos degraus que levavam 
at a porta. Ela estava aberta; as garotas sabiam que chegaria cedo.
      - Ora, vejam s quem chegou! Zina! A Jessie voltou! - Uma moa minscula de delicadas feies orientais bateu palmas e se ps de p, correndo para Jessie com 
uma expresso de contentamento. - Voc est fantstica!
      As duas formavam um par impressonante. A beleza loura e longilnea de Jessie contrastava vivamente com a graa delicada da japonesinha. O cabelo dela era 
negro e lustroso e pendia num corte enviesado da nuca at a ponta do queixo.
      - Kat! Voc cortou o cabelo!
      Jessie ficou momentaneamente atnita. Apenas um ms antes o cabelo da moa chegava at a cintura... quando ela no o usava num coque apertado no alto da cabea. 
O nome dela era Katsuko, que significava paz.
      - Enjoei de us-lo preso. Gostou?
      Fez uma rpida pirueta num p s e deixou o cabelo balanar livremente enquanto sorria. Estava vestida de preto, o que era frequente, e aquilo acentuava a 
sua esbeltez e flexibilidade. Era a sua graa felina que lhe dera o apelido que Jessie usava.
      - Adorei. Muito chique.
      Sorriram uma para a outra e foram rapidamente interrompidas por um grito de guerra de alegria.
      - Aleluia! Voc voltou para casa! - Era Zina. Cabelos avermelhados, olhos castanhos, sensual, sulista. Tinha o busto farto enquanto as outras tinham seios 
pequenos e elegantes, e uma boca que dizia que adorava risos e homens. Os seus cabelos danavam junto  cabea num pequeno halo de cachos, e possua pernas espectaculares 
e sensuais. Os homens se desmanchavam quando ela se mexia, e ela adorava provocar. - Viu o que a Kat fez com o cabelo? - Disse "cabelo" como se a palavra no fosse 
nunca terminar. - Eu teria chorado um ano inteiro. - Sorriu, deixando as palavras deslizarem pela boca. Transformava cada uma delas numa malcia. - Que tal estava 
Nova York?
      - Linda, maravilhosa, terrvel, feia e quente. Curti adoidado. E esperem s at ver o que comprei!
      - Que espcie de cores?
      Para uma moa que quase sempre usava branco ou preto, Kat tinha uma bossa para as cores quentes. Sabia como compr-las, mistur-las, contrast-las, junt-las. 
Tudo, excepto us-las.
      - Tudo pastel e lindo de morrer. - Jessica percorreu o carpete bege e grosso do cho da Lady J. Era gostoso estar de volta aos seus domnios. - Quem arrumou 
a vitrina? Est ptima.
      - Zina. - Kat apressou-se a deixar o elogio para a amiga. - Aquela cadeira verde como contraste no foi um belo toque?
      - Est fantstico. E estou vendo que nada mudou por aqui. Vocs duas ainda esto ligadas como gmeas siamesas. Ganhamos algum dinheiro enquanto estive fora?
      Sentou-se na sua poltrona favorita do couro bege, uma bem funda que dava bastante espao para as suas pernas. Era nessa poltrona que os homens geralmente se 
sentavam, enquanto esperavam.
      - Ganhamos muito dinheiro. Nas duas primeiras semanas, pelo menos. Esta semana tom sido meio devagar; o tempo est bom demais.
      Kat apressou-me a responder, e a ltima parte da resposta lembrou a Jessie. que s tinha quatro horas para trabalhar, antes que Ian viesse roub-la para irem 
 praia.
      Zina entregou-lhe. uma xcara do caf enquanto ela olhava ao seu redor. O que viu fora linha de outono que comprara h cinco meses, a maioria na Europa, e 
que, de encontro s ls e couros marrons e beges da decorao subtil da loja, ficava realada. Duas paredes eram de espelhos e havia uma selva de plantas em cada 
canto. Mais plantas pendiam do teto, realadas por uma iluminao subtil.
      - Como vai indo a linha dinamarquesa?
      Os dinamarqueses tinham carregado a mo no vermelho... saias, suteres, trs estilos diferentes de blazers um maravilhoso casaco envelope cor do cereja que, 
ao seu modo, fazia uma mulher sentir-se to extica e sexy como se estivesse usando peles. Era um casaco fantstico. Jessie encomendara um para si mesma.
      - Vai indo muito bem - aparteou Zina, com o seu sotaque arrastado do Nova Orleans. - Como vai o Ian? H semanas que no o vejo.
      Ele aparecera uma vez para descontar um cheque, no dia seguinte  partida do Jessie.
      - Est trabalhando no novo livro.
      Zina sorriu calorosamente e meneou a cabea. Gostava dele.
      Kat no tinha tanta certeza disso. Ajudava aia contabilidade, portanto sabia como ele gastava os lucros de Jessie. Porm Zina estava na loja h muito mais 
tempo e aprendera a conhecer o Ian e apreci-lo. Kat era mais nova e ainda usava o manto Irritvel de Nova York sobre o corao. Fora compradora do roupas esporte 
ali at que se cansara das presses e resolvera se mudar para San Francisco. Conseguira o emprego na Lady 1 uma semana aps a sua chegada, o sentia-se to afortunada 
por estar trabalhando l quanto Jessie se sentia por t-la na loja. Conhecia o ramo. Totalmente.
      As trs mulheres passaram meia hora batendo papo e tomando caf, enquanto Katsuko mostrava a Jessie alguns recortes de artigos que tinham sado nos jornais, 
mencionando a boutique. Contavam com duas freguesas novas que tinham praticamente liquidado com o estoque da loja. E conversaram tranquilamente sobre o que Jessie 
tinha aprontado para o outono. Ela queria fazer um show de moda arnica do viajar para Carmel, em outubro. Kat podia comear a bolar idias.
      A loja ficava viva com a presena dela, e juntas faziam um trio poderoso. Todas as trs tinham algo a oferecer. Isso ficava evidente no facto de que a boutique 
no tinha sofrido enquanto ela estivera ausente. No podia se dar ao luxo de que asso acontecesse, e tampouco o teria tolerado. As duas moas sabiam disso, e adoravam 
o seus empregos. Ela pagava bem, tiravam com desconto roupas maravilhosas, e era uma mulher razovel para quem trabalhavam, o que era raro. Kat trabalhara seguidamente 
para trs megeras em Nova York, e Zina fugira de uma longa fila de homens tesudos que queriam que ela dactilografasse, taquigrafasse e fodesse, no necessariamente 
nessa ordem. Jessica contava com muitas horas de trabalho duro, mas trabalhava assim igualmente, ou mais. Fizera da Lady J um sucesso, e esperava que elas a ajudassem 
a mant-lo. No era uma tarefa difcil. Punha vida nova na loja a cada estao, e a sua clientela adorava. Lady J era slida como uma rocha. Como a prpria Jessica, 
e tudo que a cercava.
      - E agora, vocs duas,  melhor eu dar uma espiada na correspondncia. Muita coisa?
      - No. - Zina respondeu - s coisas chatinhas. As cartas das mulheres texanas que estiveram aqui em maro e querem saber ao aquela blusa de gola role amarela 
ainda est em liquidao. Esse tipo de coisa... ela respondeu a todas.
      - Zina, adoro voc.
      - As ordens.
      Ela fez uma profunda reverncia e a fronte nica verde-viva que usava com calas brancas balanou com o peso dos seus seios. Mas as outras duas j tinham parado 
de implicar com ela h muito tempo. Cada uma estava contente consigo mesma, e todas as trs tinham bons motivos para estar.
      Jessie entrou no seu pequeno escritrio, nos fundos, subindo uma escadinha de trs degraus, e olhou ao seu redor, satisfeita. As plantas estas estavam lindas, 
a correspondncia estava dividida e empilhadas, direitinho, as contas tinham sido pagas. Viu de relance que tudo estava em ordem. Agora s o que tinha a fazer  
dar uma espiada em tudo. Estava na metade da correspondncia quando na apareceu no vo da porta, parecendo intrigada.
      - Tem um homem a que quer v-la, Jessie. Disse que  urgente.
      Parecia quase preocupada. Ele no era um dos fregueses habituais, e no tinha vindo ali para comprar.
      - Quer me ver? Sobre o qu?
      - No disso. Mas pediu que eu lhe desse o seu carto.
      Zina passou-lhe o pequeno rectngulo de papel-carto, e Jessie olhou nos olhos dela.
      - Algum problema? - Zina deu de ombros, demonstrando ignorncia, e Jessie leu o nome: "William Houghton. Inspector. Polcia de San Francisco." No compreendeu, 
e voltou a olhar para Zina, buscando pistas. - Aconteceu alguma coisa enquanto estive fora? Fomos roubadas?
      E pombas, no seria bem tpico delas no preocup-la a princpio, mas esperar e contar-lhe uma ou duas horas depois!
      - No, Jessie. Juro. Nada aconteceu. No tenho idia do que se trata.
      O sotaque ficava infantil, quando Zina estava preocupada.
      - Nem eu. Por que no o traz aqui?  melhor falar logo com ele.
      William Houghton apareceu, acompanhando Zina com algum interesse. As calas ajustadas nos quadris esbeltos contrastavam vivamente com a fartura na frente nica. 
O inspector parecia estar com fome.
      - Inspector Houghton? - Jessie ficou de p, com toda a sua altura, e Houghton pareceu impressonado. As trs formavam um grupo interessante; Katsuko no escapara 
do seu olhar atento. - Sou Jessica Clarke.
      - Gostaria de falar-lhe a ss por um minuto, se for possvel.
      - Pois no. Aceita uma xcara de caf? - A porta se fechou s costas do Zina, e ele sacudiu a cabea enquanto Jessie indicava uma cadeira perto da sua mesa, 
o depois voltava a se sentar na sua. Girou a cadeira para olhar para ele. - Em que posso ajud-lo, Inspector? A Srta. Nelson disse que era urgente.
      - Sim,  sim. Aquele  o seu Morgan, l fora?
      Jessie balanou a cabea, sentindo-se enjoada ante o olhar penetrante do homem. Estava se perguntando se Ian tinha esquecido de pagar as suas multas de novo. 
J tivera que tir-lo da cadeia uma vez, por causa de uma multa de 200 dlares. Em San Francisco, no se brincava em servio. Ou voc pagava as suas multas, ou ia 
para a cadeia. No ultrapasse o Siga e no recolha 200 d. lares.
      - Sim,  o meu carro. Meu nome est nas placas.
      Sorriu de modo agradvel e torcia para que a sua mo no tremesse enquanto acendia outro cigarro. Era absurdo. No tinha feito nada de errado, mas havia algo 
naquele homem, na palavra "Polcia" que produzia culpa instantnea. Pnico. Terror.
      - A senhora o estava guiando ontem?
      - No, ou estava em Nova York a negcios. Voltei do avio ontem  noite.
      Como ao ela tivesse que provar que estivera tora da cidade, e por um motivo legtimo isso era uma loucura. Puxa, ao o Ian estivesse em casa! Ele sabia tratar 
das coisas to mclhor do que ela.
      - Quem mais dirige o seu carro?
      No "algum mais?" porm "quem mais?".
      - O meu marido.
      Sentiu um frio na barriga quando mencionou Ian.
      - Ele o dirigiu ontem?
      O Inspector Houghton acendeu um em cigarro do seu mao e olhou-a do alto a baixo, como que a avali-la.
      - No sei ao certo. Ele tem o carro dele, mas estava guiando o meu quando me apanhou no aeroporto. Posso ligar para ele e perguntar.
      Houghton balanou a cabea o Jessica esperou.
      - Quem mais dirige o carro? Um irmo? Um amigo? Um namorado?
      Os olhos dele enterraram-se nos dela, com a ltima palavra, e finalmente ela sentiu raiva.
      - Sou uma mulher casada, Inspector. E ningum mais dirige o carro. S meu marido e eu.
      Conseguira ser bem clara, mas algo no rosto do Houghton lhe que no fora uma vitria.
      - O carro est registrado no nome do seu negcio? Tem plane comerciais, e o endereo do registro  esta loja. - Loja! Boutique, sua besta, boutique! - Presumo 
que seja dona deste lugar?
      - Exactamente. Inspector, do que se trata?
      Soltou a fumaa e ficou olhando para ele enquanto sentia a mo tremer ligeiramente. Havia algo errado.
      Gostaria de falar com o seu marido. Quer me dar o escritrio do escritrio dele, por favor?
      Instantaneamente puxou uma caneta e ficou esperando, segurando-a acima das costas de um dos seus cartes.
      -  sobre multas por estacionamento proibido? Sei que o meu marido... bem, ele  esquecido.
      Sorriu para Houghton, mas o sorriso no colou.
      - No, no  sobre multas por estacionamento proibido. O endereo comercial do seu marido?
      Os olhos dele pareciam gelo.
      - Ele trabalha em casa. Fica a sois quarteires daqui. Em Vellejo.
      Teve vontade de oferecer-se para ir com ele, mas no teve coragem. Rabiscou o endereo num dos seus prprios cartes e entregou-o para ele.
      - Obrigado. Me comunicarei com a senhora.
      Mas a respeito do que, merda? Queria saber. Porm ele se ps de p e estendeu a mo para a porta.
      - Inspector, gostaria muito que o senhor me dissesse do que se trata. Eu...
      Ele a olhou estranhamente de novo, com aquele seu olhar perscrutador que fazia perguntas, mas no as respondia.
      - Sra. Clarke, eu mesmo no estou inteiramente certo. Quando estiver, eu a avisarei.
      - Obrigada.
      Obrigada? Obrigada por qu? Merda.
      Mas ele j tinha ido embora, e enquanto ela se dirigia para a sala principal da boutique, viu quando ele entrou num sed verde-oliva e partiu. Havia um outro 
homem ao volante. Eles andavam em pares. A antena na traseira do carro oscilava loucamente enquanto se dirigiam para Vallejo.
      - Do que se tratava?
      O rosto de Katsuko estava srio, e Zina parecia perturbada.
      - E eu l sei! Ele simplesmente me perguntou quem dirigia o carro e depois falou que queria conversar com o Ian. Droga, aposto que ele esqueceu de novo de 
pagar as multas por estacionamento proibido.
      Mas no parecia ser isso, e Houghton dissera que no era... ou era? Jesus! Que bela recepo de volta ao lar.
      Voltou para o escritrio e ligou para a casa deles. Deu ocupado. E ento Trish Barclay entrou na loja e Jessie ficou entretida com bobagens como a jaqueta 
de pele na vitrina, que Trish comprara. Ela era uma das suas melhores freguesas e Jessie teve que manter as aparncias pelo menos por algum tempo. Foi s 25 minutos 
mais tarde que conseguiu voltar ao telefone para ligar para o Ian. Desta feita, no atenderam.
      Era ridculo! Ele tinha que estar l. Estava l quando ela sara para ir para a boutique. E a linha estava ocupada quando ligara da primeira vez... a policia 
estava se dirigindo para l. Deus, quem sabe era uma coisa sria. Quem sabe ele sofrera um acidente com o carro e no tinha contado para ela. Quem sabe algum tinha 
ficado ferido. Mas ele teria dito alguma coisa. Ian no deixaria uma coisa dessas acontecer sem contar para ela. O telefone tocou interminavelmente, e ningum atendeu. 
Quem sabe ele estava vindo para a boutique. Passava um pouco das 11.
      Mas Nick Morria precisava de alguma coisa "fabulosa" para o aniversrio da mulher; tinha se esquecido, o agora precisava de pelo menos 400 dlares em mercadoria 
para dar-lhe at o meio-dia. Ela era uma megera nojenta, e no valia isso, mas Jessie ajudou-o. Gostava de Nick, e antes de ele sair da loja carregado do caixas 
lustrosas marrom e amarelo, Barbara Fuller apareceu, e Holly Jenkins, e depois Joan Wlcox, e... era meio-dia. E no tivera noticias do Ian. Tentou de novo o telefone 
e comeou a entrar em pnico. Nenhuma resposta. Quem sabe agora ele estava a caminho. Tinha dito que viria busc-la ao meio-dia e meia.
      A uma hora ele no tinha aparecido ela estava  beira das lgrimas. Tinha sido uma manh horrvel. Gente, presses, entregas, problemas. Bem-vindo ao lar. 
E nada do Ian. E aquele cretino do Houghton deixando-a nervosa com as misteriosas perguntas sobre o carro. Refugiou-se no escritrio enquanto Zina saa para almoar. 
Precisava ficar sozinha por um minuto. Para recobrar o flego. Para tomar coragem para fazer o que no queria fazer. Mas precisava saber. Seria um jeito fcil de 
descobrir, afinal, de contas. Pombas, s o que tinha a fazer era ligar para a delegacia e perguntar se tinham um Ian Powers Clarke e soltar um suspiro de alvio 
quando dissessem que no. Ou pegar o seu talo de cheques e ir correndo para l e tir-lo da cadeia se estivesse preso de novo por estacionamento proibido. Nada 
de muito difcil. Mas foi preciso tomar mais um gole de caf e fumar outro cigarro antes de conseguir levar a mo ao telefone.
      Conseguiu o nmero com Informaes. Palcio da Justia. Priso Municipal. Isso era ridculo. Sentia-se tola, e abriu um sorriso pensando no que Ian diria se 
ela estivesse ligando para a cadeia quando ele entrasse. Ia gozar com a cara dele durante uma semana. Uma voz forte ressoou no seu ouvido, do outro lado.
      - Priso Municipal. Fala Palmer.
      Jesus. E agora? Bem, voc telefoneu, agora pergunte para o homem, pateta.
      - Eu... eu queria saber se vocs tm ai um... um Sr. Ian Clarke, Ian Powers Clarke, Sargento. Por estacionamento proibido.
      - Como se escreve?
      O sargento da recepo no estava achando graa. Multas por estacionamento proibido eram coisa sria.
      - Clarke. Com um E no fim. Ian I-A-N C-L-A-R-K-E.
      Deu outra tragada no cigarro enquanto esperava o Katsuko metou a cabea pela porta perguntando o que queria para o almoo. Jessica sacudiu a cabea com veemncia 
e fez sinal para que a outra fechasse a porta. Os nervos dela tinham comeado a ficar sensveis h horas, com a chegada do Inspector Houghton.
      A voz voltou ao telefone depois de uma pausa interminvel.
      - Clarke. . Est aqui.
      Bem, e da? Jessica soltou um pequeno suspiro de alvio. Era desagradvel, mas no o fim do mundo. E pelo menos agora ela sabia, e poderia tir-lo de l em 
meia hora. Perguntou-se quantas multas ele teria esquecido de pagar, desta vez. Mas, agora, ia dar-lhe a maior bronca. Deixara-a morta de medo. E isso era provavelmente 
o que Houghton quisera fazer. E conseguira, sem dvida, no admitindo que o problema era multas por estacionamento proibido. Filho da me.
      - Ns o autuamos faz uma hora. Esto falando com ele agora.
      - Por causa de multas?- Que ridculo. Agora chegava. Jessica j estava mais do que farta.
      - No, dona. No por causa de multas. Por causa de trs acusaes de estupro e uma de agresso.
      Jessie pensou que podia sentir o tecto baixando sobre a sua cabea enquanto as paredes a espremiam tirando-lhe o flego dos pulmes.
      - Como?
      - Trs acusaes de estupro. E uma de agresso.
      - Meu Deus. Posso falar com ele?
      As mos dela tremiam tanto que precisou das duas para segurar o telefone e sentiu nsias de vmito.
      - No. Ele pode falar com o advogado dele, e a senhora pode v-lo amanh. Entre as 11 e as duas. Ainda no estabeleceram a fiana. A citao ser na quinta-feira.
      O sargento da recepo desligou na cara dela, e ela estava segurando o fone mudo, com um olhar inexpressivo e as lgrimas comeando a escorrer-lhe pelo rosto 
quando Katsuko abriu a porta, estendendo-lhe um sanduche. Levou um momento para absorver o que estava vendo.
      - Meu Deus. O que aconteceu?
      Parou de chofre e fitou o tumulto dos olhos de Jessica. Jessica nunca se descontrolava, nunca chorava, nunca vacilava, nunca... Pelo menos, nunca tinham visto 
esse lado dela na loja.
      - No sei o que aconteceu. Mas foi uma porta de um erro incrvel, horrvel, ridculo!
      Ela estava gritando e agarrou o sanduche que Kat trouxera o arremessou-o para o outro lado da sala. Trs acusaes de estupro. E uma acusao de agresso. 
Que diabo estava acontecendo?
      
      
Captulo 4
      
      
      - Jessie? Aonde vai?
      Ela passou por Zina, que retornava do enquanto saa porta afora.
      - Faam de conta que no voltei de Nova York. Vou para casa. Mas no liguem para mim.
      Escancarou a porta do carro e entrou.
      - Est doente? - perguntava Zina, do alto da escada, mas Jessica apenas sacudiu a cabea, puxou o afogador, girou a chave na ignio e engrenou uma marcha 
 r.
      Zina entrou na boutique, confusa, mas Katsuko no pode dizer nada alm do que ela presenciara. Jessie estava nervosa, mas Kat no sabia por que. Tinha algo 
a ver com a visita do policial, na manh. As duas moas estavam preocupadas, mas Jessie dissera que no ligassem para a sua casa, e a parte da tardo na boutique 
estava atarefada demais para dar-lhes tempo para especular. Katsuko imaginou que tinha algo a ver com o Ian, mas no sabia o que. Zina ficou na ignorncia total.
      
      
      Quando chegou em casa, Jessica agarrou o telefone com uma das mos e o caderno do endereos com a outra. Uma xcara semicheia do caf estava em cima da mesa 
da cozinha. Ian estava no meio do seu desjejum quando eles o tinham levado, e algo no corao de Jessie lhe dizia que Houghton fora a pessoa que levara Ian preso. 
Ficou imaginando se os vizinhos tinham visto.
      Uma pilha de pginas do novo livro jazia ao lado do caf. Nada mais. Nenhum bilhete ou recado para ela. Ele devia ter ficado chocado. E obviamente era uma 
acusao absurda. Eles tinham pegado o homem errado. Dali a algumas horas o pesadelo teria acabado e ele estaria em casa. Ela recobrara a sanidade. Agora, s que 
o precisavam era do um advogado. Ela simplesmente no se permitiria entrar em pnico.
      No seu caderno de endereos encontrou o nome que buscava, e teve sorte; ele estava desocupado quando ela ligou, e no na hora do almoo, como temera. Era um 
homem que ela e Ian respeitavam, um advogado com boa reputao, scio mais antigo da sua firma. Phillip Wald.
      - Mas, Jessica, no fao advocacia criminal.
      - Que diferena isso faz?
      - Muitssima, infelizmente. O que voc precisa  de um bom advogado criminalista de defesa.
      - Mas no foi ele, ora bolas! S precisamos de algum para acertar as coisas e livr-lo dessa confuso.
      - J falou com ele?
      - No, no deixaram. Olhe, Phillip, por favor. D s um pulo at l e fale com eles. Fale com o Ian. Essa histria toda  absurda.
      Do outro lado da linha, fez-se silncio.
      - Isso eu posso fazer. Mas no posso aceitar o caso. No seria justo para nenhum dos dois.
      - Que caso? Trata-se apenas de identificao errada.
      - Sabe no que se baseia?
      - Algo a ver com o meu carro.
      - Eles tm o nmero da sua placa?
      - Tm.
      - Bem, ento podem ter invertido a ordem dos nmeros ou letras. - Ela ficou calada, mas era difcil inverter a ordem das letras de "Jessie" e dar o nome errado. 
Isso era a nica coisa que a preocupava. A ligao com o carro. - Vou lhe dizer o que vou fazer. Vou at l v-lo, descobrir o que est acontecendo, e lhe indicarei 
alguns nomes de advogados de defesa. Comunique-se com eles, e depois que escolher um, diga-lhe que ligarei para ele mais tarde, contando o que descobrir. E diga 
a eles que mandei que voc ligasse.
      Ela soltou um suspiro profundo.
      - Obrigada, Phillip. Isso j ajuda.
      Ele deu-lhe os nomes e prometou que daria uma passada na casa dela to logo visse o Ian. E Jessie se acomodou com a xcara de caf frio de Ian para telefonar 
para os amigos de Phillip. Todos advogados criminalistas. Os telefonemas no foram animadores.
      O primeiro no estava na cidade. O segundo estaria ocupado no tribunal pelo menos durante a semana seguinte, e no podia ser incomodado com um novo caso. O 
terceiro estava ocupado demais para falar com ela. O quarto tinha sado. Mas o quinto passou algum tempo no telefone conversando com ela. Jessie detestou a sua voz.
      - Ele tem ficha criminal?
      - No. Claro que no. S multas de trnsito.
      - Drogas? Problemas com drogas?
      - Nenhum.
      - Ele bebe?
      - No, apenas vinho, socialmente.
      Cristo, o homem j pensava que fora o Ian. Isso estava bem aro.
      - Ele conhecia essa mulher antes... ah... ele a conhecia anteriormente?
      - No sei de nada sobre a mulher. E presumo que tudo isso seja um erro.
      - O que a faz pensar assim?
      Filho da me. Jessie j o odiava.
      - Conheo o meu marido.
      - Ela o identificou?
      - No sei. O Sr. Wald pode dizer-lhe tudo isso depois que tiver visto o Ian.
      Na cadeia... ah, Jesus... Ian estava na cadeia, e era para valer, e aquele maldito advogado ficava fazendo perguntas cretinas obre se Ian conhecia ou no a 
mulher que o estava acusando de estupro. Quem se importava? Ela s o queria em casa, raios. Agora. ler que ningum entendia isso? Sentiu um aperto no peito e dificuldade 
em respirar enquanto tentava manter a voz calma para ocultar o pnico crescente nas suas entranhas.
      - Bem, mocinha, deixe que lhe diga. A senhora e seu marido esto com um problemo. Mas  um caso interessante. - Diabo de homem. - Estou disposto a cuidar 
do caso para vocs. Mas h a questo dos meus honorrios. Pagos adiantado.
      - Adiantado? - exclamou, chocada.
      - . Vai descobrir que a maioria dos meus colegas, se no todos, age da mesma maneira. Eu realmente preciso cobrar antes de assumir um caso, porque, uma vez 
que aparea na Corte Superior representando o seu marido, passo a ser o advogado oficial dele e legalmente estou preso ao caso, quer vocs paguem os honorrios, 
por no. E se o seu marido for para a priso, vocs simplesmente podem deixar de me pagar. Vocs tm bens?
      O Ian ir para a priso? Foda-se, cara.
      - Sim, temos bens.
      Mal podia descerrar os dentes.
      - Que tipo de bens?
      - Asseguro-lhe que posso pagar os seus honorrios.
      - Bem, gosto de ter certeza. Meus honorrios por esse caso mo de 15.000 dlares.
      - O qu? Adiantados?
      - Quero metade antes da citao. Creio que a senhora falou que ser na quinta-feira. E a outra metade imediatamente aps.
      - Mas no tenho meios de transformar meus bens em dinheiro vivo em dois dias!
      - Ento infelizmente no posso cuidar do caso.
      - Obrigada.
      Tinha vontade de mandar que ele fosse se foder. Porm a esta altura estava comeando a entrar em pnico de novo. Em nome do Deus, quem iria ajud-la?
      A sexta pessoa cujo nome Phillip lhe dera acabou sendo mais humana. Chamava-se Martin Schwartz.
      - Parece que vocs esto com um problemo dos diabos, ou pelo menos o seu marido est. Acha que ele fez aquilo?
      Era uma pergunta interessante, e ela gostou dele por presumir que havia alguma dvida. Hesitou por apenas um minuto. O homem merecia uma resposta reflectida.
      - No, acho que no. E no apenas porque sou a mulher dele. No acredito que fosse capaz de fazer uma coisa dessas. No  do feitio dele, e no tem necessidade 
de fazer isso.
      - Est certo, aceitarei a sua resposta. Porm as pessoas fazem coisas estranhas, Sra. Clarke. Para o seu prprio bem, esteja preparada para aceitar isso. O 
seu marido pode ter um lado da sua personalidade que a senhora nem conhece.
      Era possvel. Tudo era possvel. Mas ela no acreditava. No podia.
      - Gostaria de falar com o Phillip Wald depois que este o vir - continuou Schwartz.
      - Agradeceria se o fizesse. H uma coisa chamada citao marcada para quinta-feira. Vamos precisar de consultoria legal at l, e o Phillip no se sente qualificado 
para acoitar o caso.
      O caso... o caso.... o caso... j detestava a palavra.
      - O Phillip  um bom homem.
      - Eu sei. Sr. Schwartz... detesto ter que tocar no assunto, mas...
      - Os meus honorrios?
      - Os seus honorrios.
      Soltou um profundo suspiro e sentiu um n se apertar na barriga.
      - Podemos discutir isso. Tentarei ser razovel.
      - Vou lhe falar com franqueza, o homem com quem falei antes do senhor pediu 15.000 dlares at quinta-feira.  impossvel para num providenciar isso.
      - A senhora tem bens?
      Ah, Deus, vamos comear de novo.
      - Sim, tenho. - O tom de voz dela ficou subitamente desagradvel. - Tenho um negcio, uma casa e um carro. E meu marido tambm tem um carro. Mas simplesmente 
no podemos vender a casa, ou o meu negcio, em dois dias.
      Ficou interessado no modo como ela disse "meu negcio", no "nosso". Perguntou-se qual seria o negcio "dele", se  que havia.
      - No estava esperando que liquidasse os seus bens imediatamente, Sra. Clarke. - O tom de voz dele era calmo, mas firme. Algo nele a acalmava. - Mas estava 
pensando que talvez precisasse de alguma garantia para a fiana... se eles conseguirem manter a acusao, o que ainda veremos. A fiana pode ser bem alta. Vamos 
nos preocupar com isso mais tarde. Quanto aos meus honorrios, acho que 2.000 dlares at o julgamento seria razovel. Se for a julgamento, 5.000 dlares adicionais. 
Mas isso ainda levar uns dois meses, e se a senhora  amiga do Phillip, eu no me preocuparei. - Ela ficou pensando que as pessoais que no eram "amigas do Phillip" 
estavam encrencadssimas. Sentiu-se repentinamente agradecida. - Que tal lhe parece?
      Balanou a cabea, silenciosamente, consternada, mas aliviada. Era certamente bem melhor do que os honorrios que tinham sido mencionados h alguns momentos. 
Ela teria que raspar a sua caderneta de poupana, mas pelo menos tinha os 2.000. Podiam se preocupar com os outros cinco mais tarde, se chegasse a ser necessrio. 
Ela venderia o Morgan, se precisasse, sem pensar duas vezes. O destino de Ian estava em jogo, e ela precisava dele muitssimo mais do que precisava do Morgan. E 
sempre havia as jias da me dela. Mas estas eram sagradas. At mesmo para o Ian.
      - Daremos um jeito.
      - ptimo. Quando poderei v-la?
      - Quando quiser.
      - Ento, gostaria de v-la amanh no meu escritrio. Falarei som o Wald hoje  tarde, e irei ver o Sr. Clarke pela manh. Pode estar no meu escritrio s dez 
e meia?
      - Posso.
      - ptimo. Lerei os relatrios policiais e verei direitinho a quantas andamos. Que tal?
      - Maravilhoso. Sinto de repente como se um peso enorme tivesse sido tirado das minhas costas. Juro, estive completamente desesperada. No entendo nada disso. 
Policia, fiana, acusaes disso e acusaes daquilo, citaes... nem sei que diabo est se passando. Nem sei que diabo aconteceu.
      - Bem, vamos descobrir. Portanto, relaxe.
      - Obrigada, Sr. Schwartz. Muito obrigada.
      - At amanh.
      Desligaram, o subitamente Jessica estava chorando de novo. Ele fora amvel com ela. Finalmente algum a tratara decentemente, em tudo isso. Desde inspectores 
de polcia que nada lhe contavam, at sargentos da recepo que anunciavam as acusaes e desligavam na cara dela, at advogados que queriam 15.000 dlares em espcie 
nas suas mesas em 48 horas, at... Martin Schwartz, um, ser humano. E segundo Phillip Wald, Schwartz era um advogado competente. Tinha sido um dia incrvel. E,  
Deus, onde estava o Ian? As lgrimas abriam uma trilha quente e hmida pelo seu rosto, de novo. Parecia que estivera chorando o dia todo. E precisava ao controlar. 
Wald logo estaria chegando.
      
      
      Phillip Wald chegou s cinco e meia. Tinha uma expresso do grave preocupao no rosto, e os olhos cansados.
      - Voc o viu?
      Jessie podia sentir os olhos ardendo de novo e teve que lutar contra as lgrimas.
      - Vi.
      - Como est ele?
      - Est bem. Abalado, mas bem. Estava muito preocupado com voc.
      - Disse a ele que estou bem?
      As mos dela tremiam violentamente e o caf que bebera o dia todo s piorava as coisas. Parecia estar tudo, menos "bem".
      - Disse-lhe que estava muito nervosa, o que  muito natural, dadas as circunstancias. Jessica, vamos nos sentar.
      Ela no gostou do jeito que ele falou, mas quem sabe estava apenas cansado. Todos tinham tido um dia muito longo. Um dia interminvel.
      - Falei com o Martin Schwartz - disse. - Acho que vai aceitar o caso. E ele falou que ligaria para voc hoje  tarde.
      - ptimo. Acho que vocs dois gostado dele.  um excelente advogado, e tambm um homem muito simptico.
      Jessica levou Phillip para a sala de visitas, onde ele se sentou no comprido sof branco que dava para a janela. Jessica escolheu uma poltrona de camura bege 
que ficava ao lado de uma velha mesa de bronze que ela e Ian haviam descoberto na Itlia, na sua lua-de-mel. Inspirou fundo, suspirou, e deixou os ps se enterrarem 
no tapete. Aquela era uma sala clida, agradvel, que sempre a acolhia. Um lugar onde se sentia em casa e podia se descontrair... excepto agora. Agora, sentia como 
se nada jamais fosse voltar a ficar bem de novo, o como se fizesse anos desde que estivera nos braos do Ian, ou vira a luz nos seus olhos.
      Quase instintivamente, seus olhos se dirigiram a um pequeno quadro dele que pintara h anos. Pendia sobre a lareira, e sorria-lhe suavemente. Era do agoniar. 
Onde estava ele? Sbita e dolorosamente lembrou-se da sensao que tivera vendo as fotos de ginsio de Jake, quando estava separando as suas coisas, depois de terem 
recebido o telegrama da Marinha. Aquele sorriso depois que tudo acabara.
      - Jessica? - Ergueu os olhos com uma expresso chocada, e Phillip ficou aflito. Ela parecia perturbada, confusa, como se estivesse meio fora de si. Ele a vira 
fitando a pequena tela a leo, o por um momento exibira a expresso desolada de uma viva sofredora... o rosto que simplesmente no compreende, os olhos que se afogam 
na dor. Que coisa pavorosa. Olhou para a janela por um momento, depois voltou a olhar para ela, torcendo para que j tivesse se recomposto. Mas no havia nada para 
recompor. Os modos dela eram absolutamente controlados; era a expresso dos seus olhos que contava o resto da histria. No tinha certeza do quanto ela estava preparada 
para ouvir agora, mas precisava contar-lhe. Tudo. - Jessica, a coisa est feia.
      Ela deu um sorriso cansado e limpou uma lgrima da face.
      - Puxa, no diga! Quais as outras novidades?
      Phillip ignorou a frgil tentativa de fazer graa e continuou. Queria acabar logo com aquilo.
      - Realmente no creio que ele o tenha feito. Mas admite ter dormido com a tal mulher ontem  tarde. Quero dizer, ele... teve relaes com ela.
      Concentrou-se no seu joelho direito, tentando amontoar as palavras desagradveis numa longa slaba ininteligvel.
      - Entendo.
      Mas no entendia. O que havia para entender? Ian tinha feito amor com algum. E este algum o estava acusando de estupro. Por que no conseguia sentir alguma 
coisa? S havia essa dormncia incrvel que pousava em cima dela como se fosse um chapu gigantesco. Nem raiva, nem nada, s dormncia. E talvez pena do Ian. Mas, 
por que estava dormente? Talvez porque estivesse tendo que ouvi-lo da boca de Phillip, um estranho, afinal. Seu cigarro queimou at o filtro e apagou na sua mo, 
e ela ainda esperava que ele continuasse.
      - Ele falou que bebeu demais ontem na hora do almoo e que voc devia chegar  noite. Algo sobre voc ter passado vrias semanas fora e ele ser um homem... 
vou poupar-lhe essa parte. Ele reparou nessa moa no restaurante, e aps alguns drinques ela no lhe pareceu to m.
      - E ele foi paquer-la?
      Sentia-se como se outra pessoa estivesse falando as palavras por ele. Podia ouvi-las, mas no podia sentir a boca se mover. Nada parecia estar funcionando. 
Nem a sua mente, nem o seu corao, sem a sua boca. Quase riu histericamente, perguntando-se o que aconteceria se tivesse que ir ao banheiro; sem dvida mijaria 
toda a poltrona de camura e nem se daria conta do que estava fazendo. Sentia-se como se tivesse tomado uma dose excessiva de Novocana.
      - No, no foi exactamente assim. Saiu do restaurante para ir para casa trabalhar no seu livro, mas passou pelo Enrico de novo, no caminho, e ela simplesmente 
estava parada na esquina quando ele parou no sinal. E s de curtio ele lhe ofereceu uma carona. Ela no era l grande coisa, vista de perto, era bem mais velha 
do que ele imaginara. Ela alega ter 30 anos, no relatrio policial, mas ele disse que deve ter pelo menos 37 ou 38. Deu-lhe um endereo na Market de um hotel onde 
alegava residir, e Ian disse que sentiu pena dela quando o convidou para subir e tomar alguma coisa. Ento ele subiu, tomou um drinque... havia meia garrafa de bourbon 
no quarto dela... e disse que ele lhe subiu  cabea e ele... eles tiveram relaes. - Wald pigarreou, desviou os olhos, e continuou. O rosto de Jessica no demonstrava 
nenhuma expresso; o filtro do cigarro ainda estava na sua mo. - E ele falou que foi s isso. Falando s claras, vestiu as calas e foi para casa. Tomou um banho, 
tirou um cochilo, fez um sanduche e foi receber voc no aeroporto. Esta  toda a histria. A histria de Ian.
      Mas ela podia perceber pela voz dele que havia mais.
      - Parece uma coisa de muito mau gosto. Mas no me parece estupro. No que esto baseando as acusaes?
      - Na histria dela. E  preciso que se lembre, Jessica, como o tpico de estupro  delicado, hoje em dia. Durante anos, as mulheres disseram ter sido estupradas 
e os homens faziam declaraes difamatrias sobre essas mulheres nos tribunais. Detectives particulares descobriam o facto supostamente espantoso de que a queixosa 
no era virgem, e instantaneamente os homens eram exonerados, os casos encerrados, e as mulheres caam em desgraa. Por muitos motivos, agora no  mais assim. No 
importa o que realmente tenha acontecido. Agora a polcia e os tribunais so mais cautelosos, mais inclinados a acreditar nas mulheres e dar  vtima uma oportunidade 
mais justa.  uma coisa muito certa, e estava mais do que na hora... excepto que, de vez em quando, aparece alguma mulher com uma pinimba, conta uma mentira e um 
sujeito decente entra pelo cano. Do mesmo modo que algumas mulheres decentes costumavam sair prejudicadas do jeito que as coisas eram no passado, agora alguns sujeitos 
decentes acabam levando no... - pigarreou - bem, se prejudicando.
      Jessica no pode abafar um sorriso. Phillip era completamente certinho. Estava certa de que ele fazia amor com a mulher usando uma cueca samba-cano.
      - Francamente, Jessica, acho que o que aconteceu aqui  que o Ian caiu nas mos de uma mulher doente e infeliz. Dormiu com ele depois alegou que era estupro. 
Ian disse que ela bancou a sedutora e falou que era garonete num bar topless, o que no  ver.. Mas ela podia estar fazendo um jogo psicolgico muito anormal com 
ele. E Deus sabe quantas vezes j fez isso antes, de maneiras subtis, com ameaas e acusaes. Aparentemente, contudo, nunca foi  polcia antes. Acho que vo ter 
um trabalho provando que est mentindo. Certamente no sem um julgamento. O estupro  difcil de provar, mas tambm  difcil provar que no houve estupro. Se ela 
est insistindo que foi, ento o promotor tem que restaurar processo. E aparentemente o inspector encarregado do caso acredita na histria da mulher. Portanto, estamos 
entalados. Se eles decidirem que querem a cabea do Ian, seja l por que motivos, o caso ter que ir a julgamento.
      Os dois ficaram calados durante longo tempo, depois Phillip soltou um suspiro e falou de novo:
      - Li os relatrios policiais, e a mulher alega que ele a paquerou e ela lhe pediu que a levasse ao seu escritrio.  secretria de um hotel na Van Ness. Ao 
invs disso, ele a levou para esse hotel na Market onde eles... onde tomaram aquele ltimo drinque. Levando em conta essa parte da histria, ele teve um bocado de 
sorte de no o terem acusado de rapto, tambm. De qualquer forma, ela alega que ele a forou a ter relaes normais e... a praticar actos anormais.  a que entram 
a segunda e a terceira acusaes de estupro, e a de agresso. Embora eu presuma que vo deixar de lado ....... no h prova mdica dela.
      Phillip parecia to horrivelmente displicente ao falar nos detalhes que Jessica comeou a se sentir mal. Sentia-se como se estivesse nadando num mar de melado, 
como se tudo  sua volta fosse lento e irreal. Tinha vontade de raspar as palavras da pele com "Actos anormais." Que actos anormais?
      - Pelo amor de Deus, Phillip, o que quer dizer com "anormais"? Ian  perfeitamente normal na cama.
      Phillip enrubesceu. Jessica no. No estava na hora de bancar a pudica.
      - Cpula oral e sodomia. So delitos graves, sabe. - Jessica apertou os lbios e fez uma cara feia. A cpula oral no tinha nada de anormal. - No havia provas 
claras da sodomia, mas no creio que desistam da acusao. Novamente,  a palavra dela contra a dele, e a esto escutando, e infelizmente antes da minha chegada 
o Ian admitiu ao inspector encarregado do caso que tinha tido relaes sexuais com a mulher. No confessou o coito oral ou a sodomia, mas nem devia ter admitido 
as relaes sexuais. Foi uma pena incrvel que o tenha feito.
      - Isso vai prejudicar o caso?
      - Provavelmente no. Podemos impedir a fita de aparecer nos tribunais alegando que ele estava perturbado na hora. Martin cuidar disso.
      Jessica ficou sentada com os olhos fechados por um momento, sem acreditar no peso daquilo tudo.
      - Por que ela est fazendo isso com a gente, Phillip? O que pode estar querendo dele? Dinheiro? Droga, se  isso o que ela quer, eu darei, no importa o quanto 
queira. Simplesmente no consigo acreditar que isso esteja realmente acontecendo.
      Abriu os olhos e olhou para ele de novo, sentindo a onda de confuso e irrealidade j conhecida inund-la outra vez.
      - Sei que isso  muito difcil para voc, Jessica. Mas agora est com um advogado excelente. Tenha f nele; far um bom servio. Uma coisa que absolutamente 
no pode fazer, sejam quais forem as circunstncias,  oferecer dinheiro a essa mulher. A polcia no desistir do caso, mesmo que ela desista, e voc estar acobertando 
um delito grave, o sabe l Deus o que mais, se tentar suborn-la. E estou falando srio... a polcia parece estar tomando um interesse especial pelo caso. No  
sempre que botam as mos num caso de estupro em Pacific Heights, e tenho a impresso de que alguns deles acham que est mais do que na hora da classe superior receber 
o que merece. O Sargento Houghton, o inspector encarregado do caso, fez umas piadinhas muito desagradveis sobre "certos tipos de pessoas que acham que podem sair 
impunes de qualquer situao a expensas de cortas outras pessoas que no tm tantos meios . No  uma bela concluso, mas se  assim que ele pensa, deve ser tratado 
com luvas de pelica. Tive a impresso de que ele no gosta da aparncia do Ian, ou do que viu de voc. Quase me pergunto se ele no acha que vocs so dois tarados 
fazendo o que lhes der na telha como curtio. Quem sabe o que ele pensa... estou apenas dando a minha impresso... mas quero que tome muito cuidado, Jessica. E 
faa o que fizer, no d dinheiro a essa mulher. Estar prejudicando o Ian, e a si prpria, se tentar fazer isso. Se ela quiser dinheiro, se ligar para ..... deixe-a 
falar. Voc poder testemunhar a respeito mais tarde. Mas no lhe d um tosto! - Foi enftico na ltima frase, e depois correu a mo pelos cabelos. - Odeio ter 
que lhe contar tudo isso, Jessica. Ian estava se sentindo pssimo, quanto a isso. Mas  bvio que voc tem que saber o que aconteceu. Mas no  bonito, e devo dizer 
que voc est reagindo admiravelmente.
      Mas as lgrimas afloraram de novo, ante as palavras dele, e teve vontade de suplicar-lhe para no ser gentil com ela, no parabeniz-la por estar reagindo 
bem. Podia aguentar a dureza, mas sabia que, se algum a abraasse, tivesse pena, se importasse... ou se Ian entrasse porta adentro naquele momento... ela soluaria 
at morrer.
      - Obrigada, Phillip. - Ele achou a voz dela estranhamente fria, como se estivesse querendo evit-lo. - Pelo menos, obviamente no se trata de estupro, o que 
ficar claro no tribunal. Se o Martin Schwartz for bom.
      - , mas... Jessie, a coisa vai ser feia. Tem que estar preparada para isso.
      Os olhos dele buscaram os dela, e Jessie meneou a cabea.
      - Estou compreendendo.
      Mas no estava. No realmente. A coisa toda ainda nem comeara a calar nela. Como poderia? Nada calara nela desde as 11 da manh. Estava em estado de choque. 
Sabia apenas de duas coisas, e nem mesmo as entendia: que Ian sumira, que ela no podia v-lo, senti-lo, escut-lo, toc-lo; que ele dormira com outra mulher. Tinha 
que enfrentar isso agora, tambm. Publicamente. O resto calaria nela
      No havia muito mais que Phillip pudesse fazer, e ele no conhecia Jessica bem o suficiente para dar-lhe algum conforto. Apenas Ian conhecia Jessica o suficiente 
para isso. E Jessie deixava Phillip nervoso. Permanecia to calma. Sentia-se grato por ela ser discreta, mas aquilo o deixava frio em relao a ela, e confuso. Surpreendeu-se 
imaginando o que ela estava realmente pensando. Pensou na sua mulher e em como reagiria a uma coisa dessas, ou a sua irm, ou qualquer das mulheres que conhecia. 
Jessie era  uma raa inteiramente diferente. Controlada demais para o gosto dele... e no entanto havia algo esmagador nos seus olhos. Como duas janelas quebradas. 
Eram o nico indcio de que tudo no estava bem l por dentro.
      - H alguma chance de que ele possa ligar para mim? Pensei que a pessoa tinha direito a um telefonema da cadeia.
      Ele ligara da vez anterior, quando fora em cana por causa das multas.
      - . Mas entendi que ele no quis ligar para voc, Jessie.
      - No quis?
      Ela pareceu enfurnar-se mais dentro das suas reservas.
      - No. Disse que no tinha certeza de como voc se sentiria. Disse que talvez essa fosse a ltima gota.
      - Babaca.
      Phillip desviou os olhos, e dali a alguns momentos se retirou. Fora um dia excessivamente desagradvel. Sentiu-se grato por no praticar advocacia criminal. 
No tinha estmago para isso. No invejava Martin Schwartz por cuidar desse caso, no importa quanto dinheiro ganhasse com ele.
      Jessie ficou sentada na sala de visitas ainda muito tempo depois da sada de Phillip. Esperava pelo toque do telefone... ou pelo rudo da chave de Ian na porta. 
Isso no podia estar acontecendo. No de verdade. Ele viria para casa. Sempre vinha. Tentou fingir que a casa no estava quieta. Cantou pequenas canes e falou 
sozinha. Ele no podia deix-la s... no!... s vezes ela ouvia a voz da me, tarde da noite... e do Jake... e do seu pai... mas nunca a Ian.... nunca o Ian... 
....... Ele ligaria, tinha que ligar. No podia deix-la sozinha, assustada desse jeito, no faria isso com ela, prometera que jamais o faria, e Ian jamais quebrava 
as suas promessas... mas quebrara. Quebrara uma promessa agora. Lembrou-se disso enquanto ficava sentada no cho do corredor, no escuro, noite adentro. Assim escutaria 
a chave mais depressa, quando ele voltasse para casa. Voltaria para casa, mas tinha quebrado uma promessa. Dormira com outra mulher, e agora estava fazendo com que 
ela enfrentasse isso. No podia ignor-lo mais. Odiava-a... odiava-a... odiava... a mulher, mas no a ele. Ah, Deus... quem sabe o Ian no a amava mais... quem sabe 
estava apaixonado pela outra ....... quem sabe... por que no telefonava, porra? Por que ele no... por que ele... as lgrimas escorriam pelo seu rosto como a chuva 
quente do vero enquanto jazia sobre o piso macio de madeira do corredor e esperava pelo Ian. Ficou deitada no chio at de manh. O telefone no tocou.
      
      
Captulo 5
      
      
      Os escritrios de Schwartz, Drewes e Jonas localizavam-se no Edifcio Banco da Amrica, na Califrnia Street, um excelente ponto. Jessica subiu no elevador 
at o 44o andar, com aparncia recatada, elegante o cansada. Usava um par grande de culos escuros e um costume azul-marinho severo. Era um traje reservado para 
encontros de negcios e enterros. A ocasio continha um pouco das duas coisas. Eram 10:25. Estava cinco minutos adiantada, mas Martin Schwartz estava esperando.
      Uma secretria conduziu-a por um longo corredor atapetado, com uma vista impressonante da baa. Os escritrios ocupavam um canto do lado norte do prdio. 
Era evidentemente uma firma grande o prspera.
      O gabinete de Martin Schwartz exibia duas paredes de vidro, mas a decorao era espartana e fria. Levantou-se de trs da sua mesa, um homem de estatura mdia 
com uma farta cabeleira grisalha. Usava culos, e franzia a testa.
      - Sra. Clarke?
      A secretria a anunciara, mas ele a teria conhecido, do mesmo modo. Era do jeito que ele esperava - rica, elegante. Mas era mais jovem do que imaginara, e 
mais serena do que ousara esperar.
      - Sim. Como est?
      Estendeu a mo e ele se apercebeu de toda a sua altura. Era uma moa impressonante. Combinou-a mentalmente com o moo cansado, barbudo mas ainda assim bonito, 
que tinha visto na priso municipal pela manh. Deviam fazer um par e tanto, juntos. Tambm deviam ficar bem, no tribunal. Talvez bem demais - bonitos demais, jovens 
demais. No estava gostando da cara desse caso.
      - No quer se sentar?
      Ela meneou a cabea, sentou na cadeira do outro lado da mesa, e recusou a oferta de caf.
      - Viu o Ian?
      - Vi. E o Sargento Houghton. E a promotora assistente encarregada do caso. E falei com Phillip Wald por mais de uma hora, ontem  noite. Agora quero falar 
com a senhora, e depois vamos ver que tipo de caso realmente temos. - Tentou dar um sorriso, o mexeu em alguns papis na mesa. - Sra. Clarke, j tomou drogas?
      - No. E nem o Ian. Nada mais do que uns poucos baseados, do vez em quando. Mas acho que no fumamos maconha h mais do um ano. Nenhum de ns dois gosta muito. 
E no bebemos nada mais extico do que vinho.
      - No vamos botar o carro adiante dos bois. Primeiro vamos falar dos txicos. Alguns dos seus amigos curte essa?
      - No que eu saiba.
      - Alguma coisa desse tipo poderia aparecer nas investigaes da sua pessoa ou do Sr. Clarke?
      - No, estou certa que no,.
      - ptimo.
      Pareceu apenas ligeiramente aliviado.
      - Por que pergunta?
      - Ah, pressenti que o Houghton pode estar trabalhando em certos ngulos. Fez alguns comentrios desagradveis sobre a sua loja. Uma garota que trabalha l 
que parece uma "danarina do ventre", aparentemente, e uma oriental "extica" que ele mencionou. Tambm o facto do que o seu marido  escritor, e a senhora sabe 
o tipo de fantasias que as pessoas tecem a esse respeito. Houghton  um homem com uma imaginao muito viva, uma mentalidade tipicamente baixa classe mdia, e uma 
forte antipatia por qualquer coisa que venha da sua parte da cidade.
      - Foi o que suspeitei. Ele veio falar comigo na loja antes do prender o Ian. E a "danarina do ventre" sobre quem est tecendo fantasias  uma moa que tem 
a infelicidade de usar suti 48, bojo grande. E que vai  igreja duas vezes por semana.
      Jessica no estava sorrindo. Mas Martin Schwartz estava.
      - Ela parece um encanto.
      Forou um sorriso da parte dela, com algum esforo.
      - E se o Sargento Houghton acha que parecemos ter dinheiro demais, tambm est enganado a esse respeito. Mas o que ele v pode ser explicado pelo facto de 
que meus pais e meu irmo morreram h vrios anos. Herdei o que eles tinham. Meu irmo no tinha mulher nem filhos, e no havia outros irmos ou irms.
      - Sei. - E depois de uma curta pausa, voltou a olhar para ela. - Deve ser solitria, sem nenhuma famlia.
      Ela balanou a cabea, silenciosamente, mantendo os olhos fitos na vista permitida pela janela de vidro.
      - Tenho o Ian.
      - Tm filhos?
      Ela fez que no com a cabea, e ele comeou a compreender. O porqu de ela no estar zangada, de desejar to desesperadamente que o marido voltasse para casa, 
sem uma palavra de crtica sobre as acusaes. O porque da urgncia quase assustadoras que pressentira na sua voz ao telefone, e agora novamente no seu escritrio. 
O "Tenho o Ian" dizia tudo. Soube repentinamente que, no que dizia respeito a Jessica Clarke, isso era tudo que tinha.
      - Suponho que no haja possibilidades de desistirem das acusaes 
      - Nenhuma. Politicamente, no podem. A vtima nesse caso est fazendo a maior onda. Quer ver a caveira dele, se me perdoa a expresso. E acho que  razovel 
esperar que eles vo futicar ao mximo as suas vidas. Vo poder aguentar? - Jessie assentiu ele no lhe contou que Ian estava com medo de que ela no pudesse suportar 
a presso. - Existe algo que eu deva saber? Alguma indiscrio da sua parte? Problemas com o casamento? Digamos algum "exotismo" sexual, orgias que tenham frequentado, 
ou coisas no gnero? - Ela sacudiu a cabea de novo, com ar aborrecido. - Desculpe ter que perguntar, mas tudo vir  tona, de qualquer maneira.  melhor ser franca 
agora. E  claro que faremos a nossa prpria investigao da moa. Tenho um homem muito bom. Sra. Clarke, vamos dar o nosso mximo pelo Ian.
      Sorriu para ela de novo, e por um momento ela pensou que estava vivendo num sonho. Esse homem no era real, no estava lhe perguntando se j frequentara orgias, 
se usava txicos... Ian no estava realmente na cadeia... esse homem era amigo do pai dela e era tudo um grande jogo. Sentiu que ele a fitava, ento, o teve que 
voltar  realidade. Pior ainda,  realidade do que Ian estava na cadeia.
      - Podemos tirar Ian da cadeia antes do julgamento?
      - Espero que sim. Mas isso provavelmente depender da senhora. Se as acusaes fossem um pouco menos severas, talvez consegussemos libert-lo sob a sua prpria 
obrigao... em outras palavras, sem fiana a pagar. Mas ante acusaes dessa natureza, estou quase certo de que o juiz insistir em que se pague fiana, a despeito 
do facto de Ian no ter ficha criminal. E se ele sair ou no vai depender da senhora poder pagar ou no a fiana. Esto falando em estipul-la em 25.000 dlares. 
 uma fiana bem alta, o significa que a senhora ter que entregar 25.000 dlares em dinheiro aos cuidados da corte at que o julgamento esteja terminado, ou pagar 
2.500 dlares a um fiador o dar-lhe garantia suficiente para cobrir a sua fiana. De um modo ou outro,  muito puxado. Mas vamos ver se conseguimos baixar isso para 
uma quantia mais razovel.
      Jessica soltou um profundo suspiro e distradamente tirou ou culos escuros. O que ele viu ento deixou-o chocado. Duas manchas roxas o fundas jaziam sob os 
olhos dela, que estavam injectados o inchados e cheios de terror. Estava olhando para uma mulher com olhos do criana. Toda aquela pose era s fachada. Tinha tido 
tanta certeza de que ela era o "macho" da dupla, mas talvez sim, talvez no. Talvez fosse apenas o esteio, mas com o Ian como corda salva-vidas. Do alguma maneira, 
isso o fez sentir-se melhor em relao ao Ian. Ele estava em melhor forma do que ela, quanto a isso no havia dvida.
      Schwartz forou-se a voltar o pensamento para a questo da fiana, enquanto os olhos de Jessica continuavam a fit-lo. Parecia no se ter dado conta do quanto 
lhe havia revelado.
      - Acha que ser capaz de pagar a fiana, Sra. Clarke?
      Ela olhou cansadamente nos olhos dele e deu ligeiramente de ombros.
      - Suponho que possa oferecer o meu negcio como garantia. Mas sabia que no poderia pagar a taxa do fiador se entregasse ao Schwartz o cheque de 2.000 dlares 
que trazia na bolsa. E no tinha escolha. Precisavam de um advogado antes que pudessem comear a se preocupar com fiadores. Teria que conseguir um emprstimo com 
o carro como garantia. Ou com... alguma coisa. Que diabo. Isso agora no importava. Nada importava. Abriria mo at da casa, se fosse preciso. Mas, e se... precisava 
saber. - E se no pudermos pagar toda a fiana imediatamente?
      - Ai no existe crdito, Sra. Clarke. Ou a senhora paga toda a taxa do fiador o oferece uma garantia satisfatria, ou eles simplesmente no deixam o Ian sair 
da cadeia.
      - At quando?
      - Depois do julgamento.
      - Deus. Ento no tenho mesmo muita escolha, no ? Em que sentido?
      - Torci que dar como garantia o que for preciso.
      Ele assentiu, com pena dela. Raramente sentia alguma coisa se mexer no seu corao por um cliente, e se ela tivesse esbravejado, choramingado o chorado, ter-lo-ia 
aborrecido. Ao invs disso, ganhara o sou respeito - e a sua piedade. Nenhum deles merecia esse tipo de encrenca. Aquilo fez com que se perguntasse de novo qual 
seria a verdadeira histria das acusaes de estupro. Sentia nas suas entranhas que no tinha sido um estupro. Mas a questo era, poder-se-ia prov-lo?
      Passou mais dez minutos explicando o processo da citao: uma simples apario no tribunal para registrar as acusaes, estabelecer a fiana, e marcar uma 
data para a apario seguinte do Ian no tribunal, numa audincia preliminar. A vtima no estaria presente na citao. Jessica ficou aliviada.
      - A senhora tem um telefone, Sra. Clarke, onde possa me comunicar ainda hoje, se precisar?
      Ela fez que sim, e rabiscou o telefone da boutique. Era a primeira vez que pensava em ir trabalhar.
      - Estarei a depois que for ver o Ian. Vou at l para v-lo, agora. Sr. Schwartz, por favor, chame-me de Jessica, ou Jessie. Parece que ns dois vamos nos 
ver um bocado.
      - , vamos, sim. E quero-a de volta ao meu escritrio na sexta-feira. Quero a ambos, se conseguir libertar o Ian sob fiana.
      O "se" fez correr um arrepio pela espinha dela. - No,  melhor na segunda-feira. Se voc realmente conseguir tir-lo de l, vocs dois vo merecer um tempinho 
de folga. E depois nos poremos trabalhar para valer. No temos muito tempo.
      - Quanto tempo?
      Era como perguntar a um mdico quanto tempo se tinha do vida. 
      - Saberemos melhor depois da citao. Mas o julgamento ser provavelmente daqui a uns dois meses.
      - Antes do Natal?
      Ela lembrou-lhe novamente uma criana grande.
      - Antes do Natal. A no ser que consigamos um adiamento, por qualquer motivo. Mas o seu marido me disse hoje de manh que quer acabar com isso o mais rpido 
possvel para poderem deixar tudo para trs e esquecer.
      Esquecer? pensou Jessica. Quem jamais esqueceria?
      Ele se levantou e estendeu a mo, tirando os culos por um momento.
      - Jessica, tente relaxar. Deixe as preocupaes comigo, por enquanto.
      - Farei o possvel. - Ela tambm se levantou, apertou a mo dele, que ficou mais uma vez impressonado com a sua altura. - Obrigada, Martin, por tudo. Algum 
recado para o Ian? - perguntou, parada no vo da porta.
      - Diga-lhe que falei que ele  um homem de sorte.
      Os olhos dele a aqueceram e ela sorriu ante o elogio e saiu porta afora.
      
      
      Martin Schwartz sentou-se, girou a cadeira para ficar de frente para a janela, mordiscou a haste dos culos e sacudiu a cabea. Esse caso ia ser um abacaxi 
daqueles. Tinha certeza de que o Ian no tinha cometido estupro, mas os dois iam ser um problema o tanto no tribunal. Jovens, felizes, belos o ricos. O jri se ressentiria 
por ele andar chifrando uma mulher como a Jessie; as mulheres no tribunal detestariam Jessie; os homens antipatizariam com Ian porque no acreditariam que escrever 
era trabalho. E eles pareciam ter dinheiro demais, no importa que a explicao da herana de Jessie fosse razovel. Simplesmente no estava gostando da cara desse 
caso. E a vtima era obviamente uma mulher estranha, talvez doente. A sua nica esperana era descobrir coisas suficiente sobre ela para destru-la. Era um jogo 
feio, mas a nica chance de Ian.
      
      
Captulo 6
      
      
      Jessica parou no saguo para ligar para a boutique. A voz de Zina estava preocupada ao ouvi-la.
      - Jessie, voc est bem?
      Finalmente haviam ligado para a casa dela s dez e meia da manh, mas ela j havia sado.
      - Estou bem. - Mas Zina no gostou do som da sua voz. - Tudo bem a com vocs?
      - Claro, tudo bem. Voc vem trabalhar?
      - Depois do almoo. At logo mais.
      Desligou antes que Zina pudesse fazer mais perguntas e foi tirar o Morgan da garagem. Ia para o Palcio da Justia ver o Ian.
      Estava 2.000 dlares mais pobre, mas agora se sentia melhor. Deixara o cheque num envelope azul com a secretria na recepo. A primeira parte dos honorrios 
de Martin Schwartz. Cumprira a sua palavra. Agora tinham apenas 181 dlares na sua caderneta de poupana conjunta, mas o Ian tinha um advogado. Que preo iam pagar 
por uma trepada!
      Tentou no pensar enquanto guiava para o outro lado da cidade. No estava exactamente com raiva, mas confusa. O que acontecera? Quem era aquela mulher? Por 
que estava fazendo isso com eles?
      O que tinha contra o Ian? Depois de falar com Martin Jessie estava mais certa do que nunca de que Ian no tinha feito nada de errado... excepto escolher a 
mulher errada para uma tarde de prazer. Ah, Jesus, e como escolhera a mulher errada!
      Achou uma vaga na Bryant Streot, oposta a uma longa fileira de escritrios de fiadores, iluminados a gs neon. Descobriu-se pensando com qual deles estaria 
barganhando, amanh  tarde. Todos pareciam to vulgares; no gostaria de entrar num daqueles lugares nem para fugir do frio, que dir para fazer negcios. Entrou 
rapidamente no Palcio da Justia onde um detector de metal a vistoriou, enquanto um guarda revistava a sua bolsa. Teve que parar para obter um passe para a cadeia, 
mostrar a carteira de motorista e Identificar-se como mulher de Ian. Havia muita gente formando fila, mas esta movia-se rapidamente.
      Era uma parte da humanidade desalinhada, amarfanhada, o ela estava deslocada, de modo impressonante. A sua altura destacava-a do rosto das mulheres e da maioria 
dos homens, e o costumo azul-marinho parecia absurdo. Havia mulheres brancas de calas imitando couro, usando jaquetas de pele de leopardo sinttica, cabelos bolo-de-noiva 
e sandlias brancas tipo chinelo. Homens negros vestindo cetim castanho-avermelhado, e garotas negras usando o que pareciam ser camisolas ou pijamas de cetim barato. 
Era um grupo interessante, mas para um filme, no para a vida. No pode deixar de pensar se a mulher com quem Ian dormira se parecia com uma dessas. Esperava que 
no... no que isso importasse, a esta altura. Os joelhos dela j estavam trmulos e no sabia o que diria para ele. O que podia dizer?
      Sua mo tremia enquanto apertava o boto do elevador para o sexto andar. Sentia uma sensao alternada de descida e subida na barriga, enquanto ao perguntava 
como seria a cadeia. Vira-a rapidamente daquela vez em que pagara as multas, mas nunca houve tempo para uma visita, graas a Deus. Simplesmente descera o apanhara-o. 
Desta vez era tudo to diferente.
      O elevador deixou-a no sexto andar, o s o que sabia era que queria ver o Ian. Subitamente soube que poderia rastejar por entro qualquer quantidade de medo 
e raiva, por cima de mil cafetes vestidos de cetim, s para chegar at o Ian.
      Os visitantes esperavam em fila indiana diante de uma porta do forro e um guarda os deixava entrar na sala .que ficava do outro lado, em grupos de cinco ou 
seis. Saiam por outra porta na extremidade o porta da sala. Mas, para Jessie, parecia que estavam sendo engolidos para nunca mais serem vistos.
      Um momento mais tarde, Jessica estava l dentro. A sala era quente o abafada, sem janelas o iluminada com luz fluorescente. Havia longas vidraas nas paredes 
interiores com pequenas prato-loiras do cada lado, contendo telefones. Deu-se conta ento que o veria atravs de um vidro. No tinha pensado nisso. O que se podia 
dizer ao telefone?
      O rosto dele apareceu num dos vidros mais longnquos enquanto ela se perguntava a qual deles devia se dirigir, e ficou parado ali, olhando para ela enquanto 
Jessie sentia as lgrimas queimando-lhe os olhos. No se podia deixar ... no a... no podia... no podia! Dirigiu-se devagar para o telefone, sentindo um torno 
aportar-lhe o corao o as pernas virarem palha, mas estava caminhando, um p depois do outro, e ele no podia ver suas mos tremendo enquanto ela acenava, hesitante. 
E ento, subitamente, estava frente a fronte com ele, o segurava o telefone. Observaram-se brevemente, calados. E ento ele falou primeiro.
      - Voc est bom?
      - Estou. Como vai voc?
      Ficou calado de novo por um momento, depois balanou a cabea com um sorriso pequeno e retorcido.
      - Fantstico. - Mas o sorriso desapareceu rapidamente. - Ah, querida, sinto tanto fazer voc passar por isso.  tudo to maluco, to... Acho que s o que quero 
lhe dizer, Jess,  que a amo e que no sei como toda merda aconteceu. Eu no tinha Certeza de como voc reagiria.
      - O que imaginou? Que eu fugiria? Alguma vez fiz isso?
      Parecia to magoada que ele teve vontade de desviar os olhos. Era difcil olhar para ela. Muito difcil.
      - No, mas este no  exactamente um problema corriqueiro como um saque a descoberto de 30 dlares no banco. Quero dizer, isto ... Jesus, o que posso dizer, 
Jessie?
      Ela lhe deu um sorrizinho, em resposta.
      - J disse. E eu o amo tambm.  s o que importa. Vamos resolver tudo isso.
      - ... mas... Jess, no est parecendo que vai ser fcil. A mulher est mantendo as acusaes e esse tira, o Houghton, age como se achasse que est com o estuprador 
local nas mos.
      - Adorvel, no ?
      - Ele falou com voc?
      Ian parecia surpreso.
      - Pouco antes de ir  nossa casa ver voc.
      Ian empalideceu.
      - Ele lhe contou do que se tratava? - Ela sacudiu a cabea o desviou os olhos. - Ah, Jess... que coisa pavorosa para fazer voc suportar. Nem posso acreditar.
      - Nem eu. Mas vamos sobreviver. - Deu-lhe o seu melhor sorriso de garota corajosa. - O que pensa do Martin?
      - Schwartz? Gosto dele. Mas isso vai lhe custar uma nota violenta, no vai? - Jessie tentou parecer neutra, e comeou a dizer alguma coisa, mas ele a interrompeu. 
- Quanto?
      Havia uma expresso momentnea de amargura nos seus olhos.
      - Isso no  importante.
      - Talvez no para voc, Jessie, mas  para mim. Quanto?
      - Dois mil agora, o mais cinco se for a julgamento.
      No havia como driblar aquela expresso nos olhos dele. Tinha que contar-lhe.
      - Est brincando!
      lente sacudiu a cabea, como resposta.
      - O homem com quem falei antes dele queria 15 mil, em espcie, at o final desta semana.
      - Santo Deus, Jessica...  uma loucura. Mas eu lhe devolverei o dinheiro do Schwartz.
      - Voc est me chateando, querido
      - Eu a amo, Jess.
      Trocaram um olhar longo e terno e Jessica sentiu novamente as brasas quentes por trs dos olhos.
      - Por que no ligou para mim ontem  noite?
      No contou para ele que ficara deitada no cho a noite toda, esperando, assustada, quase histrica, mas cansada demais para se mexer. Sentira como se o corpo 
estivesse paralisado enquanto a cabea corria a mil por hora.
      - Como poderia ligar para voc, Jess? O que poderia dizer?
      - Que me ama... - Acho que estava em estado de choque. Ficava ali sentado, atnito. No conseguia compreender.
      Ento por que trepou com ela, merda? Mas o lampejo de raiva deixou os seus olhos de novo to logo olhou para ele. Estava to infeliz quanto ela. Mais ainda.
      - Por que ser que ela o acusou de... de...
      - Estupro? - Falou como se fosse uma sentena de morte. - No sei. Quem sabe ela  doente ou maluca, ou est puta da vida com algum, ou quem sabe queria apenas 
dinheiro. E eu l vou saber? Fui um idiota de fazer aquilo, de qualquer maneira. Jessie, eu... - Desviou o olhar e depois voltou a fit-la, com lgrimas aflorando 
nos cantos dos olhos. - Como vamos viver com isso? Como voc vai viver com isso, Jessie? Sem me odiar? E... simplesmente no vejo...
      - Pare com isso! - Cuspiu as palavras no fone, num sussurro.
      - Pare j com isso! Vamos superar essa coisa e ela vai acabar e ficar resolvida e nunca mais vamos ter que pensar nisso de novo.
      - Mas voc no vai? Sinceramente, Jessie, voc no vai? Cada vez que olhar para mim, no vai me odiar um pouco por ela, o pelo dinheiro que isso lhe custou 
e... merda.
      Correu as mos pelo cabelo e metou a mo no bolso para pegar um cigarro. Jessie fitava-o, e subitamente reparou nas suas calas. Estava usando calas de pijama 
de hospital de algodo branco.
      - Santo Deus, o que houve com as suas calas? No lhe deram tempo para se vestir?
      Os olhos dela se arregalaram enquanto visualizava o Sargento Houghton a arrast-lo de casa de bunda de fora e algemas.
      - Adorveis, no? Levaram minhas calas para o laboratrio para fazer o teste de esperma. - Era tudo de tanto mau gosto, to feio, to... - A propsito, vou 
precisar de um par de calas para o tribunal, amanh de manh. - E ento ele ficou pensativo por um momento e deu uma longa baforada no cigarro. - No d para entender. 
Sabe, se ela quisesse dinheiro, tudo o que tinha a fazer era telefonar e fazer chantagem comigo. Disse a ela que era casado.
      Que amor... e ento, sem que pudesse imaginar o motivo, olhou para o Ian, para o seu pijama amarrotado do algodo branco, para o rosto juvenil e o cabelo louro 
despenteado, para aquela gente de hospcio ao seu redor, e comeou a rir.
      - Voc est bem?
      Ficou subitamente assustado. E se ela ficasse histrica? Mas No parecia histrica, parecia genuinamente divertida.
      - Sabe de uma coisa louca? Estou bem. E amo voc, e isso ridculo, porra, portanto quer fazer o favor de vir para ,a... e sabe o que mais? Voc fica uma graa 
de pijama.
      Era a mesma risada que ele escutara um milho de vezes s duas da manh, quando ela implicava com ele por estar andando pela casa lendo o seu trabalho, nu 
em plo, e com um lpis atrs de cada orelha. Era a risada de jogar gua um no outro sob o chuveiro, de fazer ccegas nele quando entrava na cama. Era Jessie, e 
isso o fez sorrir subitamente, como no sorrira desde o comeo desse pesadelo.
      - Dona, a senhora  absolutamente pinel, mas eu a adoro. Por favor, quer me tirar desse lugar de bosta para eu poder ir para casa e...
      Parou de chofre e ficou subitamente plido.
      - E me estuprar? Por que no?
      E ento eles sorriram de novo, mas discretamente. Ela agora estava bem. Tinha o Ian bem  sua frente, e sabia que era amada, estava segura e protegida. Com 
o Ian subitamente desaparecido e aquele silncio incrvel, era como se ele estivesse morto. Mas ele no estava morto. Estava vivo. Sempre estaria vivo, e era todo 
dela. Subitamente teve vontade de danar, ali na cadeia, no meio de cafetes e ladres, teve vontade de danar. Tinha o Ian de volta.
      - Sr. Clarke, como  que eu o amo tanto?
      - Porque voc  retardada mental, mas eu a amo desse jeito. Ei, senhora, quer ficar sria por um instante?
      O rosto dele demonstrava que falava a srio, mas Jessie ainda exibia o riso nos olhos cansados e injectados.
      - O que ?
      - No estava brincando quando falei que ia lhe pagar. Vou pagar.
      - No se preocupe com isso.
      - Mas eu vou. Est na hora de eu voltar a pegar algum tipo de emprego, de qualquer maneira. No funciona desse jeito, Jessie, e voc tambm est sabendo.
      - Funciona, sim, O que quer dizer com "no funciona"?
      Parecia assustada, de novo.
      - Quero dizer que no gosto de ser sustentado, mesmo que seja para o bem da minha carreira de escritor.  pssimo para o meu ego, e pior ainda para o nosso 
casamento.
      - Babaquice.
      - No  babaquice. Falo a srio. Mas agora no  o lugar ou a hora de estarmos falando nisso. S quero que saiba, contudo, que seja qual for a quantia que 
gastar com isso, a receber de volta. Fui claro? - Ela fez um ar evasivo, e a voz de Ian ficou mais alta no seu ouvido. - No estou brincando. No me sacaneie com 
isso. Voc no vai ter que pagar.
      - T legal.
      Olhou para ele significativamente, e nesse momento um guarda bateu-lhe no ombro. A visita tinha acabado. E ainda tinham tanto a se dizer.
      - V com calma, querida, vejo-a amanh no tribunal.
      Ele percebera a expresso angustiada no seu rosto.
      - Pode ligar para mim hoje  noite?
      Ele fez que no com a cabea.
      - Agora no vo me deixar.
      - Ah.
      Mas eu preciso ouvir ....... preciso de voc, Ian... eu...
      - Tenha uma boa noite de sono antes do negcio no tribunal, amanh. Promete? - Ela balanou a cabea, parecendo uma criana, e ele sorriu para ela. - Eu a 
amo tanto, Jess. Por favor, cuide-se, por mim.
      Ela balanou a cabea de novo.
      - E voc tambm? Ian... eu... morreria sem voc.
      - No pense assim. Agora, v, vejo-a amanh. Jess... obrigado. Por tudo.
      - Eu o amo.
      - Eu tambm a amo.
      Com as ltimas palavras, os telefones subitamente emudeceram nas suas mos, e ela acenou para ele enquanto acompanhava o bando de visitantes para dentro do 
elevador. Estava sozinha do novo com eles. Ian se fora. Mas agora era diferente. Sentia-se plena da fisionomia dele, da sua voz, da cor do seu cabelo e at do cheiro 
da sua pele. Ele agora estava vivido de novo. Ainda estava. com ela.
      
      
Capitulo 7
      
      
      
      Tanto Zina quanto Katsuko estavam ocupadas com fregueses quando Jessica entrou, e ela teve um momento para se recompor no escritrio antes de juntar-se a elas. 
Era uma loucura, na verdade. Adivinhem onde estive? Visitando o Ian na cadeia. Da priso municipal  Lady J num rpido salto. Loucura.
      As moas estavam servindo duas mulheres que queriam vestido. para PaIm Springs. Elas tinham excesso de peso, eram exageradas no vestir, mandonas e no muito 
simpticas. E Jessica estava achando quase impossvel trabalhar. Ficava pensando no Ian, na cadeia, em Martin Schwartz, no Inspector Houghton. Os olhos do inspector 
pareciam persegui-la.
      - E o que o seu marido faz? - perguntou-lhe uma das mulheres, enquanto examinava um mostrurio de saias de veludo. Eram suma bela cor bordo, com debruns em 
cetim preto. Cpias de St Laurent.
      - Meu marido? Ele estupra... quero dizer, escreve!
      As mulheres acharam aquilo hilariante, e at Zina e Kat tiveram que rir. Jessica riu por entre as lgrimas.
      - O meu marido tambm era assim... at que comeou a jogar golfe.
      A segunda mulher achou o intervalo encantador, e decidiu-se por duas saias e uma blusa, enquanto a primeira voltava a examinar as calas compridas.
      Foi um longo dia, mas evitou que tivesse que conversar com Zina e Kat. Eram quase cinco horas quando se sentaram para tomar um caf.
      - Jess, est tudo bem agora?
      - Muito melhor. Tivemos alguns problemas, mas tudo estar resolvido at amanh.
      Pelo menos ento ele estaria em casa, e poderiam resolver tudo juntos. Contanto que ele voltasse para casa!
      - Estvamos preocupadas s pampas com voc. Que bom que tudo est bem.
      Zina parecia satisfeita, mas Katsuko continuava a perscrutar os olhos de Jessie. Alguma coisa no cheirava bem.
      - Voc est muito bem, Jessica Clarke.
      - Lisonjas, lisonjas.  s esse costumo severo.
      Olhou ao seu redor, perguntando-se se devia vestir alguma coisa da linha de outono da loja apenas para levantar o nimo. Mas j era tarde e ela estava cansada 
e no tinha a energia para entrar ou sair de qualquer coisa. Dali a uns dez ou 15 minutos Zina estaria trancando as portas da loja.
      Jessica se levantou, se espreguiou o sentiu dor nas costas e no pescoo devido  longa noite maluca que passara no cho. Seno falar na tenso do dia. Estava 
arqueando as costas cuidadosamente, tentando aliviar as cibras, quando uma mulher entrou na boutique Jessie, Kat o Zina entreolharam-se rapidamente, decidindo disporia 
a servi-la, mas foi Jessie quem se virou para a mulher com um sorriso. A mulher parecia simptica, e fazia bem a Jessie com as clientes. S assim no pensava em 
si mesma.
      - Pois no?
      - S quero dar uma olhadinha. Uma amiga me falou boutique, e vocs tm umas coisas lindas na vitrina.
      - Obrigada. Chame se precisar de ajuda.
      Jessica e a mulher trocaram um sorriso sereno, e a cliente comeou a olhar as roupas esporte. Era elegante, parecia ter de 35 anos, talvez at 40, mas era 
difcil dizer. Usava um terninho preto simples, uma blusa de linho creme, um leno no pescoo, e uma boa quantidade de jias de ouro obviamente caras - uma bela 
pulseira, uma corrente, vrios anis de aparncia muito slida - e um impressonante par de brincos de nix e diamantes que chamara a ateno de Jessie quando ela 
entrara na A mulher significava dinheiro. Mas o rosto dela demonstrava e algo mais... como se curtisse as coisas bonitas que estava usando, mas compreendesse que 
havia outras coisas na sua vida que importavam mais.
      Jessie observava-a enquanto ia de porta-cabides em porta-cabides. Parecia contente, feliz. E tinha uma espcie de graa que tornava agradvel olh-la. O rosto 
era jovem, o cabelo louro-acizentado mechado de grisalho. De uma maneira estranha, ela lembrava Jessie uma gata siamesa, especialmente os olhos de porcelana azul-plido. 
Havia algo nela que fazia a gente querer saber mais.
      - Desejava alguma coisa em especial? Temos algumas novas l atrs.
      A mulher sorriu para Jessie e deu de ombros.
      - Deviam me dar um tiro pela minha extravagncia, quanto quele casaco de camura ali? Tem tamanho 40?
      Tinha um ar de culpa, como uma criancinha que estivesse comprando mais chiclete de bola do que devia, mas tambm parecia estar se divertindo. E tambm parecia 
poder pagar um monto do chiclete de bola, ou outra coisa qualquer.
      - Vou dar uma olhada.
      Jessie desapareceu na sala de estoque, perguntando-se se teriam mesmo aquele casaco em tamanho menor.
      No tinham. Mas tinham um parecido que custava 40 dlares a mais. Jessica retirou a etiqueta com o preo e levou o casaco para a mulher. Era uma cor quente 
de canela, com um corte suave o ajustado. Na verdade era um casaco mais bonito que o primeiro e a mulher reparou nisso imediatamente.
      - Droga. Estava torcendo para detest-lo.
      -  um casaco difcil de detestar. E fica bem na senhora.
      Ficaram vendo a mulher rodopiar graciosamente no casaco do camura marrom. Ficava-lhe estupendamente bem, e ela sabia disso. Era um prazer ver roupas em algum 
assim. Afinal, ela podia estar usando o tapete, e ficaria fabulosa.
      - Quanto custa?
      - Trezentos e dez.
      Zina e Kat trocaram um olhar indagador, mas no eram bobas de questionar o preo em voz alta. Jessie sempre tinha um mtodo para a sua loucura, e geralmente 
tinha razo. Quem sabe esta era uma pessoa especial que Jessie buscava atrair para a loja. Ela certamente tinha o jeito de algum que se devia reconhecer. E a mulher 
no pareceu impressonada com o preo do casaco.
      - Tem as calas combinando?
      - Tinha, mas j foram vendidas.
      - Que pena. - Mas ela deu um jeito do reunir descuidadamente trs suteres, uma blusa e uma saia de camura para combinar com o casaco antes de concluir que 
j fizera estragos bastante por um dia. Foi uma bela venda para a loja, o uma venda fcil. Pegou o talo de cheques, num invlucro de camura verde-esmeralda, o 
olhou para Jessie com um sorriso. - E se eu aparecer aqui em menos de uma semana, pode me jogar porta afora.
      - Preciso? - brincou Jessie, com ar de pesar simulado.
      -  uma ordem, no um pedido!
      - Que pena.
      s duas mulheres acharam graa e a compradora preencheu o cheque. Era de bem mais do 500 dlares. Mas ela no parecia preocupada. O nome dela era Astrid Bonner, 
e o seu endereo era na Vallejo, a apenas um quarteiro da casa de Jessie.
      - Somos quase vizinhas, Sra. Bonner.
      Jessie deu-lhe o seu endereo, e Astrid Bonner ergueu os olhos com um sorriso.
      - Conheo a casa!  aquela azulzinha e branca, aposto, com todas aquelas flores fabulosas na frente!
      - D para ver a gente num raio do quilmetros?
      - No se desculpe; vocs fazem maravilhas por aquela rea! E voc tem um carrinho esporte vermelho?
      Jessie apontou pela janela.
      - Eu mesma. - Elas riram juntas e Zina trancou discretamente as portas. Eram quinze para as seis. - Quer tomar alguma coisa?
      Guardavam uma garrafa de Johnnie Walker nos fundos. Algumas das freguesas ficavam at mais tarde batendo papo. Era um outro toque simptico.
      - Adoraria, mas no vou aceitar. Voc provavelmente est querendo ir para casa.
      Jessie sorriu e Katsuko colocou as compras da Sra. Bonner em duas grandes e lustrosas caixas marrons cheias de papel fino amarelo e laranja e amarrou-as com 
fita xadrez.
      - A loja  sua? - Jessie fez que sim. - Tem coisas Lindas. E eu precisava daquele casaco como preciso de outro buraco na cabea. Mas... no tenho fora de 
vontade.  o meu maior problema.
      - Ai vezes uma extravagncia faz bem  alma. 
      Astrid Bonner balanou a cabea suavemente, ante o comentrio, e as duas mulheres trocaram um longo olhar. Jessie sentia-se muito confortvel com ela. Lamentou 
que Astrid Bonner no quisesse ficar para tomar o drinque. Jessie no tinha pressa de ir para casa, e gostaria de poder conversar com ela. Ficou imaginando qual 
das casas no quarteiro seguinte seria a dela. E ento teve uma idia.
      - Posso dar-lhe uma carona at em casa? J estou de sada. Aquilo tambm a pouparia das perguntas que Zina e Kat podiam ter guardado para despejar em cima 
dela depois do expediente. Ainda no tinha foras para isso. E Astrid Bonner lhe daria um salvo-conduto. Ela ainda no lhes contara que no viria trabalhar na manh 
seguinte, quando compareceria  citao.
      - Uma carona seria fantstico. Obrigada. Geralmente vou p, estando assim to perto de casa, mas com essas duas caixas... maravilha!
      Ela sorriu e pareceu ainda mais moa. Jessie ficou imaginando quantos anos teria realmente.
      Jessica pegou o casaco, a bolsa e acenou para as outras duas.
      - Boa noite, senhoras. Vejo-as amanh, a qualquer hora. No virei trabalhar de manh.
      As quatro sorriram entre si, Jessie destrancou a porta para Astrid, Zina trancou-a de novo s suas costas, e as duas se puseram a caminho. Nada de perguntas, 
nem de respostas, nem de mentiras.
      Jessie ficou enormemente aliviada. No se tinha dado conta do quanto estivera temendo isso, a tarde toda. 
      Destrancou a porta do carro e Astrid entrou, as caixas empilhadas no colo, e l se foram para casa.
      - A loja deve mant-la ocupada.
      -  verdade, mas eu adoro. A propsito, sou Jessica Clarke. Acabo de perceber que no tinha me apresentado. Desculpe. - Trocaram outro sorriso e a brisa nocturna 
farfalhou pelo cabelo de Astrid, recm-sada do cabeleireiro. - Quer que suba a capota?
      - Claro que no. - Riu de repente e olhou para Jessie. - No sou assim to velha e cheia de histria, pelo amor de Deus. E deixe que lhe diga, tenho inveja 
da sua loja: Eu trabalhava numa revista, em Nova York. Isso foi h dez anos, e ainda sinto falta de moda, de qualquer espcie.
      - Ns tambm viemos de Nova York. H seis anos. O que a trouxe para c?
      - Meu marido. Bem, na verdade foi uma viagem de negcios. Depois fiquei conhecendo o meu marido aqui. e nunca mais voltei. 
      Pareceu satisfeita ante a lembrana.
      - Nunca? Eles ainda esto esperando que volte?
      As duas mulheres riram em meio ao crepsculo suave.
      - No, voltei durante trs semanas. Dei aviso prvio, e fim do papo. Eu era o tipo de mulher de carreira, jamais ia me casar, toda essa histria... e ento 
conheci o Tom. E pronto, fim da carreira.
      - Alguma vez se arrependeu?
      Era uma coisa estupidamente pessoal de se perguntar, mas ela parecia convidar as pessoas a ficarem  vontade com ela. E Jessie ficou.
      - No. Nunca. Tom mudou tudo. Jessica teve vontade de dizer "que coisa horrvel", e depois se perguntou por qu. Afinal do contas, Ian tambm mudara as coisas 
para ela, mas no daquele jeito. No lhe custara uma carreira, no a forara a sair de Nova York. Ela quisera se mudar para San Francisco, mais jamais conceberia 
desistir da Lady J. - No, nunca me arrependi nem por um momento. Tom era um homem notvel. Faleceu no ano passado.
      - Ah, sinto muito. A senhora tem filhos?
      Astrid riu e sacudiu a cabea.
      - No. Tom estava com 58 anos quando casei com ele. Tivemos dez anos esplndidos... sozinhos. Foi como uma lua-de-mel.
      Jessie lembrou-se da sua vida com Ian, o sorriu.
      - Ns pensamos mais ou menos da mesma forma. Os filhos interferem com tanta coisa.
      - No  o que a gente quer. Mas ns dois achvamos que ramos velhos demais. Eu estava com 32 anos quando casei com ele, o no era do tipo maternal. Nunca 
nos arrependemos. Excepto que a vida  um bocado quieta, agora.
      Ento Astrid tinha 42 anos. Jessie ficou surpresa.
      - Por que no arruma um emprego? - falou.
      - E fazendo o que? Trabalhei para o Vogue, mas por aqui no h nada igual. E nem o Vogue me quereria mais, depois de dez anos. A gente fica enferrujada, e 
estou enferrujadssima. E alm do mais, no tenho a menor inteno do voltar para Nova York. jamais.
      - Arranje um emprego num campo relacionado  moda.
      - Como por exemplo?
      - Uma boutique.
      - O que nos traz de volta ao comeo, minha querida. Estou verde de inveja da sua boutique.
      - No fique invejosa demais. Tem seus problemas.
      - E suas recompensas, aposto. Vocs voltam com frequncia a Nova York?
      - Cheguei de l faz dois dias.
      E ontem meu marido foi preso por estupro. A frase estava na ponta da sua lngua, mas Astrid teria ficado horrorizada. Qualquer pessoa ficaria. Soltou um profundo 
suspiro, esquecendo por um momento que no estava s.
      - A viagem foi assim to ruim? - Astrid perguntou, sorrindo.
      - Que viagem?
      - A viagem para Nova York. Voc falou que tinha voltado do Nova York faz dois dias, e depois soltou um suspiro como se a sua melhor amiga tivesse morrido.
      - Desculpe. Tive um longo dia.
      Tentou sorrir, mas de repente tudo ficou pesado de novo; o pesadelo voltara para tomar conta dela. Houve uma pausa momentnea, e ento Astrid olhou para ela 
por cima das caixas marrons no seu colo.
      - Algum problema?
      Era um olhar profundo e perscrutador, difcil de ser respondido com uma mentira.
      - Nada que no possa ser resolvido em breve.
      - Posso ajudar em alguma coisa?
      Que mulher simptica, eram estranhas completas, e estava perguntando a Jessie sobre os seus problemas. Jessie sorriu e diminuiu a marcha do carro na esquina.
      - No, tudo est bem, juro. E a senhora j ajudou. Terminou o meu dia com uma bela dose de luz do sol. Bem, qual  a casa?
      Astrid sorriu e apontou.
      - Aquela. E voc foi um anjo em me trazer.
      Era uma sbria manso de tijolos com persianas pretas e molduras brancas e sobes bem-comportadas  volta. Jessie teve vontade de assobiar. Ela e Ian tinham 
reparado na casa com frequncia e imaginado quem vivia ali. Desconfiavam que os donos viajavam muito, porque a casa frequentemente parecia estar fechada.
      - Sra. Bonner, gostaria de retribuir-lhe o elogio feito  minha casa. H anos que invejamos a sua.
      - Estou lisonjeada. E me chame de Astrid. Mas a sua casa parece to mais divertida, Jessica. Esta  to... bem... - Soltou uma risadinha. - De gente grande, 
imagino que seja a expresso certa. Tom j a possua quando nos casamos, e tinha umas coisas muito bonitas. Voc precisa vir tomar caf comigo um dia desses. Ou 
um drinque.
      - Adoraria.
      - Ento, que tal agora?
      - Eu... adoraria, mas para falar a verdade estou exausta. Tem sido uma roda-viva desde que cheguei, e me esfalfei  bea em Nova York. Posso deixar o convite 
para outro dia?
      - Pois no. Obrigada de novo pela carona.
      Ela saiu do carro e acenou enquanto subia os degraus que a levavam  casa. Jessie acenou tambm. Puxa, mas que casa! E estava satisfeita em ter conhecido Astrid 
Bonner. Uma mulher encantadora.
      Jessica entrou com o carro na sua casa, pensando em Astrid e no que fora dito. Parecia que tinha desistido de muita coisa pelo marido. E parecia contente com 
isso.
      Jessie entrou na casa s escuras, tirou os sapatos e sentou no sof sem acender as luzes. Estava recordando o dia. Tinha sido Incrvel. Tudo, desde o encontro 
com Martin Schwartz, at esvaziar a. suas economias nos bolsos dele, at visitar Ian na cadeia, at as amenidades civilizadas com Astrid Bonner..... quando a vida 
ficaria real de novo?
      Pensou em preparar um drinque, mas no conseguia arranjar a energia para se mexer. A sua cabea corria a mil por hora, mas o corpo se transformara em pedra. 
A maquinaria simplesmente no a. mexia mais. Mas a sua cabea... ficava pensando as visita ao Ian. Estava em casa de novo. Sozinha, quando ele sempre esperava por 
ela  noite. A casa estava to insuportavelmente quieta... do jeito que o apartamento de Jake estivera quando da voltara a ele... depois da sua morte.... por que 
ficava pensando no Jake agora? Por que ficava comparando-o ao Ian? Ian no estava morto. E estaria em casa amanh... no estaria? Estaria. Mas e se... ela no podia 
parar. A campainha da porta tocou e ela nem escutou, at que finalmente o barulho insistente arrancou a sua ateno do carrossel dos seus pensamentos. Precisou recorrer 
 sua ltima gota de energia para levantar o ir atender  porta.
      Ficou parada de meias na escurido do corredor e falou atravs da porta. Estava cansada demais at para adivinhar quem era.
      - Quem ?
      A voz mal penetrou atravs do lado oposto. Mas o homem a ouviu. Olhou por cima do ombro para o companheiro e fez um gesto de cabea. O segundo homem caminhou 
devagar de volta ao carro verde.
      - Polcia.
      O corao de Jessie disparou violentamente ao ouvir a palavra, e se apoiou trmula contra, a parede. E agora?
      - Sim?
      -  o Inspector Houghton. Quero falar com a Sra. Clarke.
      Mas j sabia que era ela. E, do outro lado da porta, Jessica sentiu-se tentada a dizer-lhe que a Sra. Clarke no estava em casa. Mas o carro dela estava bem 
visvel na frente, e ele ficaria ali, esperando. No havia mais como escapar deles. Eram donos da vida dela, e do Ian.
      Jessie destrancou a porta lentamente e ficou parada no corredor escuro. Mesmo sem sapatos, era uns trs centmetros mais alta do que o inspector. Eles se fitaram 
nos olhos por um longo momento. Todo o dio que no podia sentir pela traio de Ian ela derramou sobre o Inspector Houghton. Ele era fcil de se odiar.
      - Boa noite. Posso entrar?
      Jessica afastou-se para o lado, acendeu as luzes, e depois procedeu-o na direco da sala de visitas. Ficou parada no centro da sala, de frente para ele, e 
no o convidou a sentar-se.
      - E ento, Inspector? Agora  o que?
      O tom de voz dela nada escondia.
      - Pensei que podamos ter uma conversinha.
      - ? isso  comum?
      Estava com medo, mas com mais medo ainda de demonstr-lo. E se ele quisesse estupr-la? Um estupro real, desta vez. E se...  Deus... onde estava o Ian?
      -  perfeitamente comum, Sra. Clarke.
      Pareciam rodear-se com os olhos, inimigos de nascena. Uma jibia e a sua presa. Ela no gostava do seu papel. Tinha medo dele, mas no ia deixar transparecer. 
Ele a achava linda, mas tambm no deixava transparecer. Ele odiava o Ian por vrios motivos. Isso era evidente.
      - Incomoda-se se eu me sentar?
      Sim. Muitssimo.
      - Absolutamente.
      Jessie indicou-lhe o sof e sentou na sua poltrona do costume.
      - Linda casa a sua, Sra. Clarke. Mora aqui h muito tempo?
      Ele olhou ao seu redor, parecendo captar todos os detalhes, "quanto ela fantasiava mandar que ele fosse se foder e arrancar-lhe os olhos com as unhas. Mas 
agora sabia que aquilo no era real. Voc pode odiar os tiras, mas no deixa a sua hostilidade transparente. Ela era inocente, Ian era inocente, mas estava apavorada.
      - Inspector, este  um interrogatrio formal ou uma visita social? Nosso advogado me disse hoje que no preciso falar com ningum a no ser que ele esteja 
presente.
      Ela estava observando a perna da cala marrom e a meia castanha, perguntando-se se ele ia tentar estupr-la. Usava uma gravata lustrosa cor de mostarda. Ela 
estava comeando a sentir-se nauseada, e subitamente entrou em pnico, perguntando-se se tomara plula pela manh. E ento subitamente olhou para ele e soube que 
o mataria se ele tentasse. Teria que faz-lo.
      - No, a senhora no precisa falar com ningum a no ser que seu advogado esteja presente, Sra. Clarke, mas tenho algumas perguntas, e achei que seria mais 
agradvel para a senhora respond-las.
      Grande favor!
      - Acho que prefiro respond-las no tribunal.
      Mas ambos sabiam que ela no tinha que responder nada no tribunal. Ela era a mulher do ru. Legalmente, no tinha que testemunhar.
      - Como queira. - Levantou-se para ir embora, depois parou junto ao bar. - A senhora tambm bebe?
      A pergunta deixou-a furiosa.
      - No bebo, e nem o meu marido.
      - , foi o que pensei. Ele alega que estava de porre quando levou a vtima para o hotel. Mas eu imaginei que estivesse mentindo. No me parece um beberro.
      O corao de Jessie afundou dentro do peito e seus olhos ficaram cheios de dio. Aquele filho da puta estava tentando enred-la.
      - Inspector, estou lhe pedindo que saia. Agora. 
      Houghton ento virou-se para ela e perscrutou-lhe os olhos com ar de bondade fingida. Mas os seus prprios olhos reflectiam a raiva do Jessie. A sua voz mal 
era audvel, enquanto ficava parado a 30 centmetros dela.
      - O que voc est fazendo com um vagabundo molenga daqueles?
      - Sala da minha casa!
      A voz dela era to baixa quanto a dele o todo o seu corpo tremia.
      - O que vai fazer quando ele for em cana? Arrumar outro namorado gigol feito ele? Pode crer, irm, no se preocupe. eles esto por ai, aos montes.
      - Saia daqui!
      As palavras eram como dois murros na cara dele, que deu meia-volta e caminhou at a porta. Parou por um momento e voltou a olhar para ela.
      - Tchau.
      A porta fechou-se s suas costas e pela primeira vez na vida Jessie teve vontade de matar.
      Ele voltou s dez da noite, com dois policiais  paisana e um mandado de busca, para procurar armas e txicos.
      Desta feita Houghton estava srio e estritamente profissonal, o evitou o olhar dela durante a hora inteira que passaram l, remexendo em armrios e gavetas, 
desdobrando a roupa de baixo do Jessica, jogando as suas bolsas sobre a cama, esvaziando caixas do sabo em p e espalhando as roupas e os papis de Ian por toda 
a sala de visitas.
      No encontraram nada, e Jessie nunca falou disso ao Ian. Nunca. Ela levou quatro horas e meia para arrumar tudo e mais duais para parar de soluar. Os seus 
temores tinham sido justificados. Eles a haviam violentado. No do modo como temera, mas do outro. Fotos da mo dela jaziam espalhadas em cima da escrivaninha, as 
suas plulas anticoncepcionais estavam jogadas na cozinha, metade delas levadas pelos policiais para serem testadas no laboratrio. A sua vida inteira estava espalhada 
por toda a casa. Agora era a sua guerra, tambm. E estava pronta para lutar. Aquela noite modificara tudo. Agora eles eram o inimigo dela, tambm, no apenas do 
Ian. E pela primeira vez em sete anos, Ian no estava l para defend-la. No apenas isso, mas fora ele que a colocara cara a cara com o inimigo. Ele arranjara esse 
problema para ela, alm de para ele. E estava indefesa. Era culpa do Ian. Agora ele era o inimigo, tambm.
      
      
Captulo 8
      
      
      Jessica esperou com Martin Schwartz rias filas de trs do tribunal at depois das dez. O rol das causas era imenso, e a corte estava atrasada. Jessie achou 
muito enfadonho os processos a que assistiu. A maioria das acusaes era enunciada por nmero, as fianas eram estipuladas arbitrariamente, e entravam caras novas. 
Ian finalmente chegou por uma porta que vinha da cadeia, ladeado por dois guardas.
      Martin se dirigiu para a frente da sala e, misericordiosamente, as acusaes foram enunciadas por nmero, no por descrio. Perguntaram ao Ian se entendia 
do que estava sendo acusado, e ele respondeu, solene e afirmativamente.
      A fiana foi estipulada em 25.000 dlares. Martin pediu para que fosse reduzida e o juiz ficou pensando no assunto enquanto uma assistente do promotor se ps 
de p e objectou. Achava que o assunto em questo merecia uma fiana mais pesada. Mas o juiz mo concordou. Baixou-a para 15.000, bateu o martelo, e mandou que entrasse 
outro homem. A audincia preliminar foi marcada para dali a duas semanas.
      - E agora, o que fazemos? - sussurrou Jessica para Martin, quando ele voltou para o seu lugar. Ian j tinha sado do tribunal e estava de volta  cadeia.
      - Agora voc arranja 1.500 dlares para pagar a um fiador e lhe entrega algo no valor de 15.000 como garantia.
      - Como  que fao isso?
      - Vamos... eu mesmo a levo.
      Mas, Jesus... 15.000? Agora, de repente, sentiu o choque. Quinze mil. Era uma quantia enorme. Ser que alguma coisa valia tanto dinheiro? Sim. O Ian.
      Desceram at o saguo e cruzaram a rua at um dos escritrios de fianas iluminados a neon, que ficavam um ao lado do outro. No pareciam lugares simpticos, 
e aquele em que entraram no diferia dos demais. Fedia a fumaa de charuto, os cinzeiros transbordavam, o dois homens dormiam num sof, aparentemente esperando. 
Uma mulher com cabelo louro eriado perguntou-lhes o que desejavam e Martin explicou. Ela ligou para a cadeia e tomou nota das acusaes, enquanto olhava longamente 
para Jessie. Esta tentou no crispar o rosto.
      - Ter que dar a garantia. Tem casa prpria?
      Jessie fez que sim, e explicou a hipoteca.
      - E tambm sou dona do meu negcio.
      Deu  mulher o nome e o endereo da boutique, o endereo da casa deles e o nome do banco onde tinham a hipoteca.
      - Quanto acha que vale o seu negcio? O que , afinal? Uma loja de roupas?
      Jessie assentiu, sentindo-se degradada, de alguma forma, embora sem saber ao certo por qu. Talvez fosse porque agora a mulher sabia quais eram as acusaes.
      - ,  uma loja de roupas. E temos um estoque bem grande.
      Por que queria impressonar aquela mulher idiota? Mas ento soube que era porque a mulher estava com a chave para a fiana de Ian nas mos. Martin Schwartz 
estava parado a um canto, observando o que se passava.
      - Teremos que ligar para o seu banco. Volte s quatro horas.
      - E depois podem pagar-lhe a fiana?
      Ah, Deus, por favor, podem pagar-lhe a fiana? O pnico estava voltando de novo na sua garganta, espesso e doce e amargo, como bile.
      - Pagaremos a fiana dele dependendo do que o seu banco disser sobre a casa e a loja - declarou, secamente. - Usa o mesmo banco para as duas? - Jessie concordou, 
com o rosto sombrio. - ptimo. Isso poupar tempo. Traga os 1.500 com a senhora quando voltar. Em dinheiro.
      - Em dinheiro?
      - Dinheiro ou cheque administrativo. Nada de cheque pessoal.
      - Obrigada.
      Voltaram para a rua e Jessie inspirou fundo o ar puro. Parecia que h anos no sentia ar puro. Inspirou de novo e olhou para Martin.
      - O que acontece s pessoas que no tm dinheiro?
      - No saem sob fiana.
      - E da?
      - Ficam sob custdia at o veredicto.
      - Mesmo se forem inocentes? Ficam na cadeia todo esse tempo?
      - No se sabe se so inocentes at o julgamento.
      - Que diabo aconteceu ao "inocente at que seja provada a culpa"?
      Ele deu de ombros e desviou os olhos, ficando calado. Ficara deprimido no escritrio do fiador. Raramente ia aos fiadores com os clientes. Mas o Ian lhe pedira, 
e ele tinha prometido. Parecia estranho tratar uma mulher to alta e com cara de independente como se fosse frgil e indefesa. Mas ele suspeitava que o Ian estava 
certo; por baixo daquela couraa, Jessica escondia uma vulnerabilidade aterradora. Perguntou-se se a couraa racharia antes dessa guerra terminar. Era s o que lhes 
faltava.
      - Como  que os pobres arranjam advogados?
      Bolas! J tinha dores de cabea de sobra sem bancar o assistente social.
      - Conseguem defensores pblicos, Jessica. E ns j temos muito em que pensar agora sem ficar nos preocupando com os pobres, no acha? Por que no vai logo 
para o banco e acaba com isso?
      - Est bem. Desculpe.
      - No precisa. O sistema  um nojo, eu sei. Mas no foi feito para o conforto dos pobres. Sinta-se agradecida por no ser um deles, e deixe para l.
      -  difcil fazer isso, Martin.
      Ele sacudiu a cabea e deu-lhe um sorrizinho.
      - Vai ao banco?
      - Sim, senhor.
      - ptimo. Quer que v com voc?
      - Claro que no. O servio de ama-seca faz sempre parte do negcio, ou o Ian o forou a isso?
      - Eu... no... ora, pela madrugada. V logo ao banco. E avise-me quando eu puder tir-lo de l. Ou antes disso, se houver algo que possa fazer.
      Que tal nos emprestar 1.500 mangos, meu chapa? Ela sorriu, se despediu e caminhou devagar at o carro. Ainda no tinha idia de como ia arranjar o dinheiro. 
E que diabo ia dizer ao banco? A verdade. E suplicaria, se fosse preciso. Quinze mil..., parecia o alto do Monte Everest.
      
      
      Depois de seis cigarros o meia hora de conversa angustiante com o gerente do banco, Jessica tirou um emprstimo pessoal de 1.500 dlares dando o carro como 
garantia. E eles lhe asseguraram que tudo estaria em ordem quando o escritrio do fiador telefonasse. Durante toda a conversa havia um ar de espanto no rosto do 
gerente do banco, embora ele tentasse desesperadamente ocult-lo. Sem xito. E Jessica nem lhe contara quais eram as acusaes, apenas que Ian estava na cadeia. 
Rezava para que do escritrio do fiador tambm no revelassem quais as acusaes, e que, se o fizessem, ele ficasse de boca fechada. J tinha jurado para ela que 
providenciaria para que tudo fosse confidencial. E pelo menos tinha os 1.500 dlares... tinha o dinheiro.. tinha o dinheiro! E a casa e o negcio valiam dez vezes 
a garantia de que precisava. Mas, de alguma forma, ela ainda no sentia que fosse o suficiente. E se ainda no quisessem soltar o Ian? E foi ento que teve a idia. 
O cofre individual.
      - Sra. Clarke? - Ela no respondeu. Ficou ali sentada. - Sra. Clarke? Mais alguma coisa?
      - Desculpe. Eu... estava pensando numa coisa. , eu... acho que gostaria de ver o meu cofre, hoje.
      - Est com a chave? - Fez que sim com a cabea. Guardava-a no chaveiro. Enfiou a mo na bolsa e passou-a para ele. - Mandarei a Srta. Lopez abrir o cofre para 
a senhora.
      Jessie acompanhou-o, pensativa, e depois seguiu a Srta. Lopez, a quem no conhecia. E logo depois estava parada diante do seu cofre individual e a Srta. Lopez 
olhava para ela, com a caixa nas mos. Era um cofre grande.
      - Quer lev-lo para uma sala?
      - Eu... eu... quero. Obrigada.
      No devia ter feito isso. No precisava. Era um erro... no.... mas, e se a casa e a Lady J no fossem o suficiente? Sabia que agora no estava fazendo sentido. 
Estava entrando em pnico. Mas era melhor ter certeza... ter... pelo Ian. Mas era tudo to doloroso. E agora tinha que enfrent-lo sozinha.
      A Srta. Lopez conduziu-a a uma salinha deserta com uma mesa de frmica marrom e uma cadeira de vinil preto. Na parede havia ama feia gravura de Veneza que 
parecia ter sido recortada da parte de cima de uma caixa de chocolates. E ela ficou sozinha com o cofre. Jessie abriu-o com cuidado e tirou de dentro trs grandes 
caixas de couro marrom e dois estojos de jias de camura vermelha desbotada. Havia outra caixa menor no fundo, de um azul desbotado. A caixa azul estava cheia dos 
poucos tesouros de Jake. As abotoaduras que o pai lhe dera no seu 21 aniversrio, o seu anel de colgio, o anel da Marinha. Na sua maioria, nada de valor, mas muito 
ao jeito de Jake.
      As caixas de couro marrom continham os verdadeiros tesouros. Cartas que os pais tinham escrito um para o outro ao longo dos anos. Cartas que tinham trocado 
quando o pai servia na guerra. Poemas que a me escrevera para o pai. Fotos. Cachos dos cabelos dela e de Jake. Tesouros. Todas as coisas que tinham tido importncia. 
Agora, todas as coisas que mais machucavam.
      Abriu a caixa azul primeiro, e sorriu por entre um vu de lgrimas enquanto via os enfeites sem valor de Jake jogados ao acaso sobre a camura bege. Ela ainda 
guardava o mais leve indcio do cheiro de Jake. Lembrava-se de ter implicado com ele sobre o anel de ginsio. Dissera-lhe que era um mostrengo, e ele tinha tanto 
orgulho dele. E agora, l estava ele. Botou-o no dedo. Ficava enorme nela. Tambm ficaria enorme no Ian. Jake media quase 1,95 m.
      Virou-se a seguir para as caixas marrons. Conhecia-lhes o toque to bem. Tinham gravadas as iniciais dos pais dela, letrinhas douradas no canto inferior direito. 
As duas caixas idnticas. Eram uma tradio familiar. Na primeira caixa ela achou um retracto dos quatro tirado num domingo de Pscoa. Ela teria uns 11 ou 12 anos; 
Jake, sete. Era mais do que podia suportar. Fechou suavemente a caixa e voltou-se para o verdadeiro motivo que a trouxera ali.
      Os estojos de jias de camura vermelha. Era incrvel, na verdade. Ia mesmo levar consigo as jias da me. Eram to preciosas para ela, to sagradas, to parte 
da me, ainda, que Jessie no usara nenhuma delas durante todos esses anos. E agora estava disposta a deix-las nas mos de estranhos. Pelo Ian.
      Abriu os estojos com cuidado e olhou para a fileira de anis. Um rubi num engaste antigo que pertencera  av. Dois lindos anis de jade que o pai trouxera 
do Extremo Oriente. O anel de esmeraldas que a me desejara tanto, e ganhara no seu 50 aniversrio. O anel de noivado do brilhantes... e o anel de casamento, o 
de "verdade", a aliana fina de ouro que sempre usara, sempre preferira  aliana de esmeraldas e brilhantes que o pai de Jessie comprara para fazer jogo com o anel 
de esmeraldas. Havia tambm duas pulseiras simples de ouro. Um relgio de ouro com minsculos diamantes ao redor do mostrador. E um grande broche de safiras e diamantes 
que tambm pertencera  av de Jessie.
      No segundo estojo havia trs fios de prolas perfeitamente combinadas, brincos de prolas e um pequeno par de brincos de brilhantes que ela e Jake tinham comprado 
juntos para a me no ano anterior  sua morte. Estava tudo ali. O estmago de Jessie ficou revolto ao olhar para as jias. Sabia que no teria coragem de deix-las 
com o fiador, mas pelo menos ficaria com elas, para o caso do precisar. Dois dias antes nem sequer pensaria numa coisa dessas, mas agora...
      Botou o resto das caixas de novo no cofre de metal e saiu da sala quase duas horas depois de ter entrado. Estava quase na hora do banco fechar.
      Quando voltou para Bryant Street, a mulher estava comendo um cheeseburger, deixando pingar o molho em cima do jornal da tarde.
      - Trouxe o dinheiro?
      Ergueu os olhos e falou com Jessica com a boca cheia.
      Jessica fez que sim com a cabea.
      - Falou com o banco sobre a garantia?
      J estava chateada, e ter passado pela agonia que representara mexer no cofre individual fora o limite. Queria que o pesadelo terminasse. Agora.
      - Que banco?
      O rosto da mulher tinha uma expresso inesperadamente vaga, e Jessie apertou as mos com fora para se impedir de gritar.
      - O Banco Califrnia Union Trust. Quero tirar o meu marido da cadeia ainda hoje.
      - Quais foram as acusaes?
      Por Deus, o que essa mulher estava tentando lazer com ela? Lembrava-se que Jessica devia voltar trazendo dinheiro... como podia ter-se esquecido do resto? 
Ou estava fazendo um jogo? Se estava, que fosse se foder.
      - As acusaes foram estupro e agresso.
      Quase berrou as palavras.
      - Tem alguma propriedade?
      Ah, merda.
      - Pelo amor de Deus, j vimos tudo isso hoje  tarde, e vocs iam ligar para o meu banco sobre o meu negcio e a hipoteca. Estive aqui com o nosso advogado, 
preenchi os papis e...
      - Tudo bem. Como se chama?
      - Clarke. Com "E".
      - Pronto. Est aqui. - Pegou o formulrio com dois dedos engordurados. - Mas no posso pagar a fiana dele agora.
      - Por que no?
      O estmago de Jessie deu voltas de novo.
      - Tarde demais para ligar para o banco.
      - Merda. E agora?
      - Volte amanh de manh.
      Claro, enquanto o Ian passava outra noite na cadeia. Que maravilha. Lgrimas de frustrao sufocaram-lhe a garganta, mas no havia nada que pudesse fazer excepto 
ir para casa e voltar pela manh.
      - Quer falar com o patro?
      O rosto de Jessie se iluminou.
      - Agora?
      - . Ele est aqui. Nos fundos.
      - Fabuloso. Diga a ele que estou aqui.
      Ah, Deus, por favor... por favor, deixe que ele seja humano... por favor.
      O homem surgiu da sala dos fundos palitando os dentes com um dedo sujo que exibia um pequeno anel de ouro com um grande brilhante rosado. Na outra mo trazia 
uma lata de cerveja. Usava jeans e camiseta, e tinha um bocado de cabelo preto e crespo nos braos e no colarinho da camiseta, O penteado era quase blackpower. E 
no era muito mais velho do que Jessie. Abriu um sorriso quando a viu, deu uma ltima catucada no dentes, depois tirou a mo da boca e estendeu-a para ela apertar. 
Jessie o fez, mas com dificuldade.
      - Como vai? Sou Jessica Clarke.
      - Barry York. Em que posso ajud-la?
      - Estou tentando libertar o meu marido sob fiana.
      - Do que? Quais so as acusaes? Ei... espere ai. Vamos para o meu escritrio. Quer uma cerveja?
      Para falar a verdade, queria. Mas no com ele. Estava cansada, com calor e com sede, chateada e com medo, mas no queria beber nada com Barry York, nem gua.
      - No, obrigada.
      - Caf?
      - No, verdade. Obrigada, de qualquer maneira.
      Ele estava tentando ser decente. Era preciso dar-lhe crdito por isso. Levou-a at um escritrio pequeno e sujo com fotos do mulheres peladas nas paredes, 
sentou-se numa cadeira giratria, botou uma viseira verde na cabea, ligou o som, e abriu um sorriso para ela.
      - No vemos muitas pessoas como a senhora, Sra. Clarke.
      - Eu... no... obrigada.
      - Ento, qual  o galho do seu homem? Andou dirigindo embriagado?
      - No,  estupro.
      Barry soltou um longo assobio enquanto Jessie fitava a barriga dele. Pelo menos, era honesto sobre o que pensava.
      - Isso  fogo. De quanto  a fiana?
      - Quinze mil.
      - Isso  mau.
      - Bem,  por isso que estou aqui. -  bom para voc, Barry, meu chapa; quem sabe at possa comprar um palito de ouro, depois disso, com ponta de brilhante. 
- Falei com a moa l fora hoje, mais cedo, e ela disse que ia ligar para o meu banco, e...
      - E?
      O rosto dele endureceu ligeiramente.
      - Ela esqueceu.
      Barry sacudiu a cabea.
      - No esqueceu. No cuidamos de fianas to altas.
      - No?
      Ele sacudiu a cabea de novo.
      - No de um modo geral. - Jessica pensou que ia chorar. - Acho que ela no teve coragem de lhe dizer.
      - E ento eu perdi um dia, meu marido ainda est na cadeia, e o meu banco est contando em receber notcias suas, e... e agora, Sr. York? Que diabo vou fazer 
agora?
      - Que tal jantar comigo?
      Diminuiu o volume do som e deu uma palmadinha na mo dela O seu hlito recendia a alho e carne condimentada. Ele fedia.
      Jessica simplesmente olhou para ele, e se levantou.
      - Sabe, o meu advogado deve estar completamente equivocado sobre este lugar, Sr. York. E eu tenho toda a inteno de dizer-lhe isso.
      - Quem  o seu advogado?
      - Martin Schwartz. Esteve aqui comigo hoje de manh.
      - Olhe, Sra.... como se chama, mesmo?
      - Clarke.
      - Sra. Clarke. Por que no se senta e vamos falar de negcios?
      - Agora ou depois do jantar? Ou depois de escutarmos mais alguns discos?
      Ele sorriu.
      - Gostou dos discos? Achei que foi um toque simptico.
      Aumentou de novo o estreo, e Jessie no sabia se achava gra, chorava ou gritava. Era bvio que jamais iria tirar o Ian da cadeia. No desse jeito. - Quer 
jantar?
      - Quero, Sr. York. Com o meu marido. Quais so as chances do senhor tirar o meu marido da cadeia para eu poder jantar com ele?
      - Ainda hoje? Nem sonhando. Primeiro preciso falar com o seu banco.
      - Foi exactamente assim que ficamos acertados ao meio-dia e meia de hoje.
      - , bem, desculpe. E eu vou cuidar disso pessoalmente amanh de manh, mas no posso fazer nada depois do expediente bancrio, no com uma fiana do tamanho 
dessa que a senhora quer. O que vai oferecer como garantia?
      - Meu negcio e/ou minha casa. Cabe ao senhor decidir. Estou resolvida a dar um ou a outra como garantia, ou ambos. Ou estava. Mas tenho outra idia. - Era 
uma loucura, era uma burrice, era imoral, era errado, mas ela estava to cheia, afinal, que tinha que faz-lo. Metou a mo na bolsa, tirou de l os dois estojos 
com as jias da me. - E quanto a estas?
      Barry York sentou-se muito suavemente e no disse palavra por quase dez minutos.
      - Bonitas.
      - Mais do que isso. Os anis de esmeralda e brilhantes so de pedras muito boas. E o broche de safira vale uma nota. As prolas tambm.
      - .  provvel. Mas o problema  que no sei de nada at lev-las a um joalheiro. Ainda no posso livrar o seu marido hoje. - O marido... cretino. - Mas so 
jias muito bonitas. Onde as arranjou?
      Ns as roubamos.
      - So da minha me.
      - Ela sabe que o seu marido est em cana?
      - Isso seria muito difcil, Sr. York. Ela morreu.
      - Ah. Sinto muito. Escute, vou lev-las ao avaliador logo amanh cedo. Ligarei para o seu banco. Vamos livrar o seu homem at o meio-dia. Juro, se o material 
for bom. Antes disso, no h nada que eu possa fazer. Mas, ao "meio-dia, tudo estiver em ordem. Tem a minha taxa?
      Sim, querido, em centavos.
      - Tenho.
      - Tudo bem, ento estamos acertados.
      - Sr. York, por que no fica com todas as jias agora e deixa que ele v para casa? Ele no ir a parte alguma e ns acertaremos toda a parte financeira amanh? 
Se a sua assistente tivesse ligado para o banco quando disse que ligaria...
      Ele sacudia a cabea, limpando os dentes de novo e espalmando a outra mo.
      - Gostaria muito. Mas no posso.  isso a. Meu negcio est em jogo. Cuidarei disso logo de manhzinha. Juro. Esteja aqui s dez e meia e acertaremos tudo.
      - Muito bem.
      Ps-se de p, sentindo como se o peso do mundo estivesse apoiado nos seus ombros. Fechou os dois estojos de camura e colocou-os na bolsa, novamente.
      - No vai deix-las comigo?
      - No. Isso era s se eu pudesse libert-lo ainda hoje. Pensei que o senhor reconheceria o valor delas. Caso contrrio, prefiro muito mais dar a casa e o negcio 
como garantia.
      - T legal. Tudo bem. - Mas no parecia satisfeito. -  uma fiana danada de grande, a senhora sabe.
      Ela meneou a cabea, cansadamente.
      - No se preocupe.  uma bela casa, um bom negcio, e ele  um homem decente. No fugir, deixando-o na mo. O senhor no perder um tosto.
      - A senhora ficaria surpresa ao ver quem foge.
      - Eu o verei s dez e meia, Sr. York.
      Ela estendeu a mo e ele a tomou, sorrindo de novo.
      - Tem certeza quanto ao jantar? Est com cara de cansada. Quem sabe um pouco de comida lhe faria bem. Um pouco de vinho, danar... que diabo, divirta-se um 
pouco antes do seu marido voltar para casa. E encaro a coisa por esse prisma, se ele est em cana por estupro, a senhora est sabendo que ele no estava se divertindo 
com os amigos.
      - Boa noite, Sr. York.
      Ela saiu discretamente porta afora, foi at o carro e voltou para casa.
      Meia hora mais tarde estava dormindo no sof, e s acordou s nove da manh seguinte. Quando acordou, sentiu como e tivesse morrido na vspera. E teve um terrvel 
ataque de tremedeira.
      Os efeitos estavam comeando a se fazer sentir. As olheira cada vez mais profundas agora pareciam irreparveis, olhos em si pareciam estar encolhendo, e ela 
notou que comeava a emagrecer. Fumou seis cigarros, tomou duas xcaras de caf, brincou com um pedao de torrada e ligou para a boutique avisando que no podiam 
contar com ela de novo naquele dia. Chegou de volta . Yorktowne Bonding s dez e meia. Em ponto.
      Havia dois funcionrios novos na recepo - uma moa com cabelos negros tingidos da cor de botas militares, que ficava estourando chiclete de bola, e um rapaz 
barbudo com sotaque mexicano Desta feita, Jessie pediu para falar com o Sr. York imediatamente.
      - Ele est me esperando.
      Os dois funcionrios ergueram os olhos como se nunca tivessem escutado essas palavras antes.
      Ele apareceu dois minutos mais tarde, usando shorts brancos sujos e uma camiseta azul-marinho, segurando um exemplar Playboy e uma raquete de tnis.
      - A senhora joga?
      Ah, Jesus.
      - s vezes. Falou com o banco?
      Ele sorriu, com ar satisfeito.
      - Venha para o meu escritrio. Caf?
      - No, obrigada.
      Estava comeando a sentir como se o pesadelo nunca fosse terminar. Iria simplesmente passar o resto da vida ricocheteando os Inspectores Houghtons e os Barry 
Yorks, os tribunais e as os bancos e... era interminvel. Sempre que parecia que ia surgiria outra porta falsa. No havia sada. Tinha quase certeza disso agora. 
E o Ian no passava de um mito. Algum que tinha inventado e jamais conhecera. O guardio do Santo GraaL
      - Sabe, est com cara de cansada. Est comendo direito?
      - Esplendidamente. Mas o meu marido est na cadeia, Sr. York, e eu gostaria muito de tir-lo de l. Quais so chances disso, num futuro imediato?
      - Excelentes. - Abriu um amplo sorriso. - Falei com o banco o tudo est em ordem. A senhora d a casa como garantia e concorda com um penhor do. seus rendimentos 
na boutique me ele no se apresentar. E ns guardamos o anel do esmeraldas e o broche do safira para a senhora.
      - Como? - ele falara com a naturalidade de quem estivesse pedindo um almoo para ela, mas chamara a sua ateno quando falara nas jias da me. - Acho que 
o senhor no entendeu, Sr. York. A casa e a boutique so s o que estou penhorando. Disse-lhe ontem  noite que s lhe estava oferecendo as jias da minha me se 
pudesse libert-lo na hora, sem o senhor ter que ligar para o banco e tudo o mais. Como uma espcie de garantia.
      - . Bem, eu me sentiria melhor com a mesma garantia agora.
      - Pois bem, eu no.
      - Como o seu marido se sentiria continuando na cadeia?
      - Sr. York, no existo uma lei contra os fiadores pedirem garantias excessivas?
      Martin lhe falara nisso.
      - Est me acusando de ser desonesto?
      Ah, Deus, ela ia botar tudo a ....... ah, no... 
      - No. Olhe, por favor...
      - Olhe, boneca, no vou fazer negcio com nenhuma dona que me chame de desonesto. Fao-lhe um favor e arrisco o pescoo pelo seu velho com uma fiana de 15.000 
dlares e voc me chama do ladro. Quero dizer, escute, no tenho que aturar essa merda de ningum.
      - Desculpe.
      As lgrimas queimavam-lhe os olhos de novo. Estava comeando a se perguntar se suportaria tudo isso, som morrer. E ento ele olhou para ela e deu de ombros.
      - Est certo. Vamos l, eu fico s com o anel. Voc pode levar o broche. Est melhor?
      - Est ptimo.
      Casa e a boutique e o carro e o anel de esmeraldas. Nada importava. Nem mesmo importava que o Ian fugisse e eles lhe tomassem a casa e a boutique e o carro 
e o anel de esmeraldas. Nada importava.
      York deu um jeito de fazer o preenchimento dos formulrios durar o dobro do tempo necessrio, e de escorregar a mo pelo seio dela enquanto pegava outra caneta. 
Ela olhou-o na cara e ele sorriu e disse que ela seria bonita se comesse direito e que ele tivera uma namorada alta no ginsio. Uma garota chamada Mona. Jessica 
apenas meneou a cabea e continuou assinando o seu nome. Finalmente, toda a papelada ficou pronta. Ele cortou com os dentes a ponta de um charuto longo e fino, e 
pegou o telefone para avisar a cadeia.
      - Mandarei que a Bernice a acompanhe, Jessica. - Resolvera chama-la pelo nome de baptismo. - E olho, se precisar do alguma ajuda, basta telefonar. No perderei 
o contacto com voc.
      Ela rezava para que perdesse, mas apertou-lhe a mo antes de sair do escritrio. Sentia como se fosse tropear enquanto se retirava. Tinha chegado ao seu limite. 
H dias.
      Quando Barry York mandou a funcionria mascadora de chiclete levar Jessie para o outro lado da rua para retirar o Ian da cadeia, j era quase meio-dia. Para 
Jessie, era como se fosse meia-noite. Estava confusa e exausta e tudo estava comeando a ficar borrado. Estava vivendo num mundo irreal cheio de gente malvada e 
debochada.
      A mulher que ele chamara de Bernice tomou conta dos papis, folheou-os por um momento. Depois cruzou a rua com Jessie para entrar no Palcio da Justia. Enfiou 
a pilha de papis que Jessie o Barry York tinham assinado pela abertura de um guich no segundo andar, depois virou-se para olhar para Jessica por um momento.
      - Vai aguentar as pontas do seu velho?
      - Como disse?
      - Vai ficar ao lado do seu marido?
      - Sim... claro... por qu?
      Estava se sentindo confusa de novo. E por que essa mulher estava lhe perguntando isso?
      -  uma encrenca das bravas, irm. E o que  que uma garota bonita como voc quer com um perdedor como ele? Vai lhe custar uma nota essa brincadeira.
      Sacudiu a cabea e estourou duas bolas de chiclete.
      - Ele vale a pena.
      A garota deu de ombros e indicou os elevadores.
      - Pode subir para a cadeia, agora. J acabamos.
      No, moa, eu j acabei.  diferente. A moa se afastou, estourando mais uma bola de chiclete, e desceu uma escadaria.
      Jessica chegou na cadeia alguns momentos mais tarde e teve que apertar uma pequena campainha para trazer um guarda at a porta.
      - Sim? Ainda no  hora de visita.
      - Estou aqui para libertar o meu marido sob fiana.
      - Como  o nome dele?
      - Ian Clarke. - Sabe, o famoso estuprador. - A Yorktowne Bonding acabou de ligar para c.
      - Vou verificar.
      Verificar? Verificar o qu? Com a casa, a boutique, o anel de esmeraldas de minha me empenhados, voc vai verificar, meu chapa? Ora, foda-se. E a Yorktowne 
Bonding... e o Inspector Houghton... e... o Ian tambm? No tinha mais certeza. No sabia o que sentia. Estava com raiva de Ian, mas no pelo que tinha feito, e 
sim por no estar ao seu lado quando precisava tanto dele.
      Esperou diante da porta por quase meia hora, entorpecida, atordoada, encostada  parede e sem saber direito por que. E se nunca mais o visse? Porm subitamente 
a porta se abriu e l estava ele, fitando-a. Estava com a barba grande, sujo, seboso, e exausto. Mas estava livre. Tudo que ela possua agora estava empenhado nele. 
E ele estava livre. Caiu devagarinho nos braos dele com um choramingar que no lhe era comum, e ele a conduziu meigamente para o elevador. 
      - Tudo bem, querida... est tudo bem. Vai ficar tudo bem, Jessie... psiu... - Era o Ian. Era o Ian de verdade, em carne e osso. E segurava-a com tanta meiguice 
o quase a carregava at o carro. Ela no aguentava mais, e ele sabia. No conhecia todos os detalhes do que acontecera, mas quando viu os papis da fiana e leu 
a meno ao anel de esmeraldas da me dela, compreendeu muito mais do que ela poderia dizer-lhe. - Tudo bem, querida... tudo vai dar certo. - Ela se agarrou cegamente 
a ele enquanto ficavam parados ao lado do carro, as lgrimas a lhe escorrerem pelas faces, o rosto num rctus de choque e desespero, os mesmos rudos de choramingo 
se lhe escapando por entre os soluos. - Jessie... meu bem... eu a amo.
      Ele a abraou com fora, depois levou-a em silncio para casa.
      
      
Captulo 9
      
      
      - O que vai fazer hoje, querido? - Jessie serviu a Ian uma segunda xcara de caf o olhou para o relgio. Eram quase nove horas o h dois dias que no aparecia 
na boutique. Sentia como se estivesse sumida h um ms, existindo numa zona crepuscular toda sua. Um pesadelo interminvel, mas que agora acabara. Ian estava em 
casa. Passara a maior parte do dia anterior dormindo nos seus braos. E ele se parecia de novo com o Ian. De barba feita, limpo, um pouco mais descansado. Usava 
calas cinzentas e uma blusa de gola role cor do vinho. Todas as vezes que olhava para ele tinha vontade de toc-lo para ver se era real. - Vai escrever hoje?
      - Ainda no sei. Acho que talvez passe o dia me sentindo bem.
      Mas no pediu a ela para fazer gazeta com ele. Sabia que ela tinha que trabalhar. J fizera o bastante por ele nos ltimos dias. No podia pedir-lhe mais.
      - Gostaria de poder ficar em casa com voc.
      Olhou para ele com olhar comprido por cima da beirada da xcara e ele deu uma palmadinha na sua mo.
      - Pego voc para irmos almoar.
      - Tenho uma idia. Por que no fica l pela boutique, hoje?
      Fitou os olho dela o soube o que estava pensando. Depois que Jake morrera, ela passara meses desse jeito. Aquele terror de que, se sasse das suas vistas, 
desapareceria.
      - Voc no iria conseguir trabalhar, meu amor. Mas eu estarei por perto. Estarei aqui em casa a maior parte do tempo. - Mas, o quanto ao resto do tempo. Ela 
estendeu o brao e segurou a mo dele. Nada foi dito. No havia o que dizer. - Pensei em falar com umas duas pessoas sobre um emprego.
      - No! - Ela retirou a mo e seus olhos faiscaram. - No, Ian! Por favor.
      - Jessica, seja razovel. J pensou no que esse desastre est nos custando? Custando a voc, para ser mais preciso? E agora  uma hora to boa quanto outra 
qualquer para arranjar um emprego. Nada do extico, apenas um emprego para fazer entrar algum dinheiro.
      - E o que acontece quando voc tiver que comear a aparecer no tribunal? E durante o julgamento? Acha que vai servir para algum, nessas condies?
      Segurou com fora a mo dele de novo e ele viu a dor nos seus olhos. Ia levar meses at que o desespero passasse.
      - Bem, o que exactamente voc espera que eu faa, Jess?
      - Acabe o livro.
      - E deixe que voc pague a conta por toda essa confuso?
      Ela fez que sim com a cabea. 
      - Mais tarde a gente pode acertar tudo, se voc quiser. Mas eu estou me lixando, para falar a verdade. O que importa quem esteja assinando os cheques?
      - Para mim, importa. - Sempre importara, sempre importara. Mas ele sabia, tambm, que jamais seria capaz de concentrar-se em alguma coisa com aquele caso pendendo 
sobre a sua cabea. O julgamento... o julgamento... no conseguia pensar em outra coisa. Enquanto ela dormira todas aquelas horas, na tardo anterior, aquilo no 
lhe sala da.... o julgamento. No estava mesmo em condies do arranjar emprego. - Veremos.
      - Eu o amo.
      Ela estava com lgrimas nos olhos de. novo, e ele torceu-lhe e ponta do nem.
      - Se ficar de olhos molhados de novo, Sra. Clarke, vou arrast-la de volta para a cama e dar-lhe um motivo de verdade para chorar.
      Ela riu, em resposta, o serviu-lhe mais caf.
      - No consigo acreditar que voc est em casa. Foi to incrivelmente horrvel quando esteve fora... foi... foi com...
      As palavras ficaram entaladas na sua garganta.
      - Foi provavelmente paz o quietude, para variar, e voc foi boba de no aproveitar. Que diabo, no estava pensando que em Ia ficar l para sempre, estava? 
Quero dizer, mesmo para um escritor aquele tipo do pesquisa viva cansa, depois de um corto tempo.
      - Palhao.
      Mas agora ela estava sorrindo; no tinha nada a temor.
      - Quer que a leve at o trabalho?
      - Para falar a verdade, adoraria.
      Abriu um sorriso enquanto punha as xcaras na pia e tirava o casaco de camura alaranjado das costas do uma cadeira. Usava-o por cima de jeans bem talhados 
e uma suter de cashmere bege. Parecia de novo a velha Jessie... excepto ao redor dos olhos. Enfiou os culos escuros e sorriu para ele. - Acho melhor no me desgrudar 
deles por uns dois dias. Ainda estou com cara do quem curtiu um porre de duas semanas.
      - Voc est com uma cara linda, e eu a amo. - Beliscou o traseiro dela enquanto saam pela porta da fronte e ela debruou-se para trs para beij-lo desajeitadamente 
por cima do ombro. - At mesmo est com um cheiro bom.
      - Nada alm do melhor. Eau de Mille Pieds.
      Ela falou com um amplo sorriso, e ele gemeu.
      - Puta que o pariu!
      Era uma das piadas mais antigos deles. gua de mil ps.
      Ela lhe indicou a casa de Astrid enquanto se dirigiam para a boutique, e contou-lhe sobre a sua visita  loja.
      - Parece um amor de mulher. Muito serena e agradvel.
      - Porra, eu tambm seria sereno o agradvel, com toda essa grana.
      - Ian!
      Mas sorriu para ele e correu a mo pelos seus cabelos. Como era gostoso estar sentada ao lado dele de novo, olhando para o seu perfil enquanto guiava, sentindo-lhe 
a pele do pescoo com a boca enquanto o beijava. Acordara uma dzia de vezes durante a noite para se certificar de que ele ainda estava ali.
      - Venho busc-la por volta do meio-dia. Est bem?
      Olhou para ele por um momento, antes de assentir.
      - Vem mesmo? De verdade?
      - Ah, meu bem... venho sim. Prometo. - Tomou-a nos braos e ela o apertou tanto que chegou a doer. Sabia que ela estava pensando no dia em que fora preso e 
no aparecera para busc-la para almoar. - Seja uma mocinha.
      Ela abriu um sorriso o saltou do carro e jogou-lhe um ltimo beijo antes de subir correndo a escadinha da loja.
      Ian acendeu um cigarro enquanto se afastava, o deu uma olhada nos navios na baa. Era um belo dia. O veranico estava passando, o no fazia tanto calor quanto 
h alguns dias, mas o cu era azul o claro, o havia uma leve brisa. Aquilo o fez pensar naquele dia, cinco dias atrs. Parecia que eram cinco anos ele ainda no 
conseguia compreender.
      Parou num sinal, o outro pensamento veio-lhe  cabea. O anel de esmeraldas que Jessie dera para fiana. Ainda estava atnito. Sabia como ela se senda em relao 
as coisas da me. Nem sequer queria us-las. Eram sagradas, as ltimas relquias de um santurio h muito demolido. E o anel significava mais para ela do que qualquer 
das outras peas. Certa vez vira quando o colocara no dedo, o a sua mo comeara a tremer descontroladamente. Pusera o anel de volta no estojo, o nunca mais mexera 
no cofre. E agora entregara-o a um fiador, por causa dele. Aquilo lhe dizia algo que mais nada dissera. Era uma loucura, mas sentia que a amava mais agora do que 
antes do tudo aquilo comear, e, quem sabe, Jessie tambm aprendera alguma coisa. Quem sabe, agora eles sabiam o que tinham. Quem sabe, deviam tomar melhor conta 
do que tinham. De uma coisa ele estava certo. Os seus dias de encontros discretos tinham terminado. Para sempre. Subitamente sentia que tinha uma mulher. Uma mulher 
mais fabulosa do que pensara ter. O que mais podia querer? Um filho, talvez, mas j tinha se resignado  ausncia de filhos. Estava suficientemente feliz apenas 
com Jessie.
      
      
      - Bom dia, senhoras.
      Jessie entrou na loja com um Sorriso sereno no rosto. E Katsuko ergueu os olhos da sua mesa de trabalho
      - Ora, ora, vejam s quem chegou. E num sbado! Estvamos pensando que voc tinha arranjado um emprego melhor.
      - Quem sou eu.
      - Tudo bem?
      - Tudo bem.
      Jessica balanou a cabea, lentamente, e Katsuko soube que era verdade. Jessie voltara a ser o que era.
      - Que bom.
      Katsuko passou-lhe uma xcara de caf e Jessie encarrapitou-se num canto da mesa de vidro e cromado.
      - Cad a Zina?
      - L atrs, verificando o estoque. A Sra. Bonner apareceu procurando voc, ontem. Comprou uma das novas saias de veludo vinho.
      - Deve ter ficado linda nela. Experimentou-a com a camisa de cetim creme?
      - H-h. Comprou as duas, e o novo terninho verde de veludo. O dinheiro daquela mulher deve abrir buracos nos seus bolsos.
      . E a solido deve abrir buracos no seu corao. Jessie provara-a recentemente. Conhecia-a.
      - Ela vai voltar - acrescentou Katsuko.
      - Espero que sim. Mesmo que no compre nada. Gosto dela. Tem alguma coisa alinhavada para o desfile de modas?
      - Tive algumas idias ontem, Jessie. Tomei algumas notas e deixei-as na sua mesa.
      - Vou dar uma olhada.
      Espreguiou-se e foi para o seu gabinete, levando o caf. Era uma manh sem movimento, e ela se sentia como se estivesse voltando depois de uma longa ausncia, 
uma doena prolongada, quem sabe. Sentia-se lenta e cuidadosa e frgil. E tudo parecia diferente, subitamente. A loja parecia um amor, as moas to bonitas... Ian 
to lindo... o cu to azul... tudo parecia melhor e em mais quantidade.
      Leu a sua correspondncia, pagou contas, mudou a vitrina, e discutiu o desfile de modas com Katsuko enquanto Zina atendia os fregueses. A manh voou, o Ian 
chegou cinco minutos antes do meio-dia. Com uma braada do rosas. Da cor delicada de salmo que Jessie mais gostava.
      - Ian! So fabulosas!
      Eram umas trs dzias, e ela podia ver um volume quadrado deformando-lhe o bolso do palet. Ele a estava mimando, e ela adorava. Sorriu para ela e dirigiu-se 
para o seu escritrio.
      - Pode me atender por um minuto, Sra. Clarke?
      - Pois no, senhor. Por trs dzias de rosas posso atend-lo durante vrias semanas!
      As duas moas riram e Jessie acompanhou Ian at o escritrio. Ele fechou a porta suavemente a abriu um sorriso para ela.
      - A sua manh foi boa?
      - Trouxe-me a este local isolado para perguntar se a minha manh foi boa? - Ele sorria o ela estava comeando a dar risadinhas. - Ande, conte a verdade.  
maior do que um cesto de po?
      - O qu?
      - A surpresa que voc trouxe para mim,  claro.
      - Que surpresa? Comprei-lhe rosas e voc quer mais! Sua safadinha gananciosa - Mas ele estava com um ar to satisfeito consigo mesmo que no convencia Jessie. 
- Ora, v l.
      Tirou a caixa do bolso o sorriu amplamente. Era uma pulseira slida de ouro, o na parte de dentro estava gravado TODO O MEU AMOR, IAN. Passara a manh toda 
literalmente pendurado em cima dos joalheiros enquanto eles faziam a gravao. No era a hora de estar gastando dinheiro, mas percebera que ela estava precisando 
do uma coisa assim, e tivera conscincia disso quando estava sentando para comear a trabalhar. Era uma bola pulseira, e as propores eram exactas para a mo dela. 
Custara-lhe o restinho das suas economias particulares.
      - Ah, querido....  linda. - Colocou-a no pulso e ficou segurando-a. - Puxa.  perfeita! Ah.... voc  maluco.
      - Acontece que estou loucamente apaixonado por voc.
      - Estou comeando a achar que descobriu petrleo. Gastou uma fortuna hoje de manh. - Mas a voz dela no estava irritada, s satisfeita, e Ian deu de ombros. 
- Espero s at eu mostrar s garotas! - Pespegou-lhe um beijo no cento da boca, abriu a porta o esbarrou em Zina, que ia passando para ir ao depsito. - Olho s 
para a minha pulseira!
      - Ora, vejam s! isso quer dizer que ficou noiva do bonito com as rosas?
      Deu uma risadinha e piscou para leu.
      - Ora, cale a boca. No  um barato?
      - Fantstica. E s o que quero saber  onde a gente encontra outro como ele.
      - Experimente no Departamento de Elencos.
      Ian olhou por cima do ombro do Jessie, com um sorriso.
      - Acho que  o que vou fazer.
      Zina desapareceu dentro do depsito e, com um ar de vitria, Jessie mostrou a sua nova pulseira para Katsuko. Alguns minutos mais tarde, ela e Ian estavam 
saindo para almoar.
      - Puxa, mas adorei a minha pulseira! - Parecia uma criana com um brinquedo novo, e levantou o brao para olhar para a jia na luz. - Querido,  maravilhosa! 
E como conseguiu que fizesse a gravao to depressa? 
      - Sob a mira de um revlver,  claro. De que outro jeito?
      - Ora, pela madrugada... sabe, voc tem mesmo um bocado de classe.
      - Para um estuprador.
      Mas sorria enquanto falava.
      - Ian!
      - Sim, meu amor?
      Beijou-a e ela riu enquanto entrava no carro. Ele tinha mais classe do que qualquer homem que conhecia.
      Foram ao cinema  noite, e dormiram at tarde no domingo do manh. Era mais um dia quente e azul, com nuvens estufadas, parecendo coladas no cu, que passavam 
rolando, como se fosse um cenrio pintado.
      - Quer ir  praia, Sra. Clarke?
      Ele se espreguiou no seu lado da cama e depois virou-se para ela o a beijou. Ela gostava de sentir o seu comeo de barba contra a face. Era spera, mas no 
chegava a machucar.
      - Adoraria. Que horas so?
      - Quase meio-dia.
      - Est mentindo. Devem ser nove horas.
      - No estou. Abra os olhos e d uma espiada.
      - No posso. Ainda estou dormindo.
      Mas ele mordiscou-lhe o pescoo e fez com que ela risse e os seus olhos se abriram.
      - Pare com isso!
      - No paro. Levante-se e faa o meu caf.
      - Feitor do escravos. Nunca ouviu falar no movimento de libertao da mulher?
      Ficou deitada de costas, e bocejou.
      - O que  isso?
      - Movimento de libertao da mulher. Diz que os maridos tm que preparar o caf aos domingos... mais... por outro lado. - Olhou para a pulseira de novo, com 
largo sorriso. - No diz que  preciso dar  mulher uma jia to linda. Ento, quem sabe, eu vou preparar o caf.
      - Corao de Ouro, no se esforce demais.
      - Pode deixar. Que tal ovos fritos?
      Acendeu um cigarro e se Sentou na cama.
      - Tenho uma idia melhor.
      - Ir comer no Fairmount?
      Sorriu para ele e agitou a pulseira de novo.
      - No. Eu ajudo. Voc est ocupada demais agitando a sua pulseira na minha cara para fazer um desjejum decente para ns. Que tal uma omelete de queijo e ostras 
defumadas?
      Parecia encantado com a combinao, e Jessie fez uma careta terrvel.
      - Epa! No d para deixar de lado as ostras defumadas?
      - Por que no deixar de lado o queijo?
      - Que tal deixar de lado a omelete?
      - Ento,  caf no Fairmount?
      - Ian, voc  maluco... mas eu o amo.
      Mordiscou a coxa dele e ele correu a mo pela maciez da espinha dela.
      Foi s dali a uma hora que saram da cama. At mesmo faziam amor de modo diferente, agora. Havia uma estranha mistura do desespero e gratido, do ", Deus, 
eu o amo" misturado com "Vamos fingir que tudo est melhor do que o normal". No estava, mas o fingimento ajudava. Um pouco. Os motores deles ainda estavam correndo 
um pouco depressa demais.
      - Afinal, vamos ou no vamos  praia hoje?
      Ele sentou na cama, o cabelo louro despenteado como o do um garotinho.
      - Por mim, tudo bem, mas ainda no fui alimentada hoje.
      - Ah... pobrezinha. Voc no quis a minha omelete de ostras defumadas.
      Jessie puxou um cacho do cabelo dele.
      - Prefiro o que tive, ao invs da omelete.
      - Que vergonha.
      Ela lhe mostrou a lngua, saiu da cama o foi para a cozinha.
      - Aonde vai, de rabo de fora, desse jeito?
      -  cozinha, preparar o caf. Alguma objeco?
      - Neca. Est precisando de ajuda de um voyeur?
      Um minuto mais tarde ela ouviu a porta do jardim bater e depois viu que ele reaparecia na cozinha, usando um cobertor ao redor da cintura. segurando um buque 
das suas petnias.
      - Para a dona da casa.
      - Desculpe, ela saiu. Ser que posso ficar com elas?
      Beijou-o suavemente e tirou as flores da sua mo e pousou-as no corredor enquanto ele a tomava nos braos e deixava o cobertor cair no cho.
      - Querida, eu a amo loucamente, mas se voc no parar, o bacon vai queimar e ns nunca chegaremos na praia.
      - Voc se importa?
      Ambos sorriam, e o bacon pulava furiosamente enquanto os ovos comeavam a borbulhar.
      - No. Mas  melhor comermos assim que estiver pronto. Merda.
      Deu uma palmada no traseiro dela e Jessie apagou o gs e serviu ovos mexidos, bacon, torrada, suco de laranja e caf. Ainda nus, sentaram-se para comer o desjejum.
      
      
      Quando chegaram  praia eram quase trs horas, mas ainda era um lindo dia e o sol continuou quente at as seis. Jantaram peixe em Sausalito, no caminho para 
casa, e ele comprou-lhe um cachorrinho bobo feito de conchas.
      - Adorei. Agora estou me sentindo como uma turista.
      - Achei que voc devia ter alguma coisa realmente cara como lembrana dessa noite.
      Estavam animadssimos enquanto cruzavam a ponte para ir para casa, mas as palavras dele soaram-lhe estranhas. Subitamente l estavam eles comprando souvenirs 
e agarrando-se a lembranas.
      - Ei, querido, que tal est indo o livro?
      - Melhor do que eu quero admitir. No me pergunte ainda.
      - Jura?
      - Juro.
      Olhou para ele, satisfeita. Parecia quase orgulhoso de si mesmo, o com um pouco de medo de estar.
      - J mandou alguma parte para o seu agente?
      - No, quero esperar para terminar mais alguns captulos antes de faz-lo. Mas acho que este  bom. Talvez at muito bom.
      Falou com uma gravidade que a emocionou. H anos que no falava desse jeito sobre o seu trabalho. No desde as fbulas, e elas tinham sido muito boas. No 
muito lucrativas, mas definitivamente boas. Os crticos tinham elogiado, embora o pblico no.
      No caminho para casa, pararam diante do iate clube perto da ponte e desligaram as luzes e o motor. Era gostoso ficar ali sentado vendo a gua lamber uma pequena 
extenso de praia enquanto as sirenas de nevoeiro soavam suavemente a distncia. Os dois estavam estranhamente cansados, como se cada dia fosse uma jornada interminvel. 
Aqueles poucos dias traumticos tinham lhes custado muito. Ela notava isso pelo sono pesado que ele tinha, agora, e ela prpria se sentia cansada o tempo todo, no 
importa o quo feliz estivesse novamente. Havia uma nova paixo, tambm. Uma nova necessidade, uma nova fome um do outro, como se fosse preciso estocar para um inverno 
longo e vazio  sua frente. Um perodo difcil os esperava. Este era apenas o comeo.
      - Quer ir tomar um sorvete de casquinha?
      Havia uma expresso inquieta nos seus olhos.
      - Sinceramente? No. Estou estourada.
      - . Eu tambm. E quero ler um pouco ainda hoje. O captulo que terminei.
      - Posso ler um pouco, tambm?
      - Claro.
      Parecia satisfeito enquanto ligava o motor e se dirigia para casa. Era engraado como nenhum deles queria ir para casa. A parada perto do iate clube, o convite 
para o soverte... qual o demnio  espreita que temiam encontrar em casa? Jessica se perguntava, mas sabia quem era o seu demnio particular. O Inspector Houghton. 
Esperava constantemente que ele fosse saltar de algum canto e levar o Ian de novo sob custdia. Pensara nisso o tempo todo, na praia, imaginando se saltaria de trs 
de alguma duna e tentaria levar Ian embora. No dissera nada a Ian. Nenhum dos dois agora falava na priso dele. Era s no que conseguiam pensar, e a nica coisa 
sobre a qual se recusavam a falar.
      Ele estava espichado diante do fogo lendo o seu manuscrito quando ela decidiu que era preciso lembrar-lhe. Detestava ter que falar no assunto, mas algum tinha 
que faz-lo.
      - No se esquea de amanh, amor.
      Falou suave e pesarosamente.
      - H?
      Ele estava imerso no seu trabalho.
      - Falei: no se esquea de amanh.
      - O que  que tem amanh?
      Tinha uma expresso vaga.
      - Temos um encontro s dez horas com Martin Schwartz.
      Tentou fazer com que parecesse ser uma hora marcada no cabeleireiro, mas no teve muito xito. Ian ergueu os olhos para ela e no disse palavra. Seus olhos 
diziam tudo.
      
      
Captulo 10
      
      
      A reunio com Martin Schwartz mexeu com eles. Sentados ali com ele, tendo que discutir as acusaes, no podiam mais se esconder. Jessica sentia-se mal enquanto 
escutava. Agora era real. Sentia-se at mal pensando em tudo que tinha empenhado. Dava-se conta agora de que tinha arriscado tudo. A casa. Os lucros da loja. At 
o anel de esmeraldas. Tudo... Jesus.... e se o Ian entrasse em pnico e fugisse? E se... meu Deu... ela perderia tudo. Olhou para ele, sentindo um bolo na garganta, 
e tentou concentrar-se no que estava sendo dito. Quase no conseguia escutar. Ficava s pensando no facto de que precisava de um homem to desesperadamente que dera 
tudo por ele. E agora, o que aconteceria?
      Martin explicou-lhes como seria a audincia preliminar e eles concordaram em contratar um investigador para ver o que se poderia descobrir sobre a "vtima". 
Um bocado, esperavam, e tudo condenvel. No iam ser bondosos com a Srta. Margaret Burton. Destru-la era a nica sada de Ian.
      - Mas tem que haver um motivo para isso, Ian. Pense com cuidado. Maltratou-a de alguma forma? Sexualmente? Verbalmente? Humilhou-a? Machucou-a? - Martin olhou 
para Ian significativamente, e Jessie desviou o olhar. Detestava a expresso constrangida no rosto de Ian. - Ian? - E ento Martin olhou para ela. - Jessie, talvez 
voc deva nos deixar discutir isso a ss por alguns minutos.
      - Claro.
      Era um alvio sair da sala. Ian no ergueu os olhos quando ela saiu. Agora estavam enfrentando a verdade nua e crua. De quem tinha feito o que com quem, onde, 
como, por quanto tempo e quantas vezes. Morria s de pensar no que Jessie iria ouvir no tribunal, durante o julgamento.
      Ela percorreu os corredores acarpetados, olhando para as gravuras na parede, fumando, sozinha com os seus pensamentos, at que achou uma pequena poltrona macia 
perto de uma janela com a mesma vista esplndida que se tinha do escritrio de Martin. Tinha muita coisa em que pensar.
      Uma secretria veio busc-la meia hora mais tarde e acompanhou-a do volta ao escritrio de Martin. Ian parecia atormentado o Martin estava do cara fechada. 
Jessie tentou levar a coisa na brincadeira.
      - Perdi todas as partes interessantes?
      Mas o sorriso dela era forado, e eles no tentaram retribui-lo.
      - Segundo o Ian, no houve partes "interessantes. Deve ser algo relacionado a algum ressentimento pessoal.
      - Contra o Ian? Por qu? Voc a conhecia?
      Virou-se para o marido, com ar de surpresa. Ao que lhe constava, a tal mulher era uma estranha para ele.
      - No. Eu no a conhecia. Mas o que o Martin quer dizer que ela estava resolvida a ferir algum, qualquer um, quem sabe simplesmente um homem, e eu cheguei 
na hora errada.
      - Ora se chegou.
      - S espero que possamos prov-lo, Jan. O Green deve descobrir alguma coisa sobre ela.
      -  o que espero, a 20 mangos por hora.
      Ian franziu a testa do novo e olhou para Jessie, que balanou a cabea quase imperceptivelmente. Agora no era a hora de ser po-duro. Arranjariam o dinheiro 
onde fosse possvel, mas no podiam economizar nisso.
      Martin explicou-lhos a preliminar mais uma vez para certificar-se de que tudo estava claro. Era uma espcie de minijulgamento no qual a queixosa/vtima e o 
ru contariam as suas verses da histria, e o juiz decidiria se o caso deveria ser arquivado ou ir para uma instncia superior para uma deciso ....... nesse caso, 
a um julgamento. Martin no tinha esperanas do que o caso seria arquivado. As histrias conflitantes eram igualmente veementes, as circunstncias nebulosas. Nenhum 
juiz se meteria a decidir um caso desses no estgio preliminar. No ajudava nada o facto da mulher catar no mesmo emprego h anos, e ser respeitada no seu local 
do trabalho. E havia certos aspectos psicolgicos do caso que deixavam Martin Schwartz tremendamente pouco  vontade: o facto de que Ian era virtualmente sustentado 
pela mulher e que no tinha um livro de sucesso M anos, embora estivesse escrevendo h quase seis, podia ter criado um certo ressentimento contra as mulheres; pelo 
menos, um bom promotor podia fazer com que parecesse assim. O investigador iria conversar com Ian  tarde, ou na manh seguinte.
      Jessie e Ian desceram no elevador em silncio, e Jessie finalmente falou quando chegaram e rua.
      - Ento, bem, o que voc achou?
      - Nada do bom. Parece que, se no descobrirmos alguma sujeira sobre ela, estou preso pelos colhes. E segundo o Schwartz em tribunais no gostam desse tipo 
de assassino do carcter, hoje em dia. Mas, nesse caso,  a nossa nica esperana.  a verso dela contra a minha, e claro, o testemunho mdico tambm, mas esse 
 bem fraco. Podem dizer se houve relao sexual, mas ningum pode dizer se houve estupro. A acusao de agresso j foi abandonada. Agora estamos limitados ao facto 
em si e s minhas "aberraes sexuais".
      Jessica assentiu e ficou calada.
      Foi uma viagem silenciosa at a boutique. Ela pensava com temor na audincia. No queria ver a tal mulher, mas no havia como fugir. Tinha que v-la, tinha 
que ouvir, tinha que manter a posse, pelo, bem de Ian, no importa o quanto o negcio se tornasse feio.
      - Quer que deixe o carro com voc, amor? Posso ir a p para casa.
      Ian preparou-se para saltar depois de t-la levado at a loja.
      - No querido, eu... para falar a verdade, vou precisar dele hoje, isso o atrapalha?
      Estava tentando parecer agradvel, mas acabar de pensar numa coisa. Precisava do carro hoje, e ia ficar com ele, quer o atrapalhasse, quer no.
      - No tem problema. Tenho a bomba sexual sueca, se precisar.
      Estava se referindo ao seu Volvo, e ela sorriu.
      - Quer entrar e tomar um caf?
      Mas nenhum dos dois estava com muita disposio para conversar. A entrevista da manh deixara-os pensativos e distantes um do outro.
      - No. Vou deix-la trabalhar. Quero passar um pouco de tempo sozinho.
      Era intil perguntar-lhe se estava perturbado. Ambos estavam.
      - Tudo bem, amor. At logo mais.
      A porta da boutique separaram-se com um beijo rpido.
      Ela se refugiou rapidamente no seu escritrio e marcou hora para uma e meia. Era a nica coisa na qual podia pensar. Ian ficaria arrasado, mas que escolha 
tinha ela? E ele no estava em posio de fazer objeces.
      
      
      - Bem, o que acha?
      Odiou a aparncia do homem, e j o estava detestando. Era gordo, seboso e astuto.
      - Nada mau. Um carrinho jia. Que tal est debaixo do cap?
      - Impecvel.
      Ele estava examinando o Morgan vermelho como se fosse um pedao de carne num supermercado ou uma prostituta num bordel. Jessie estava toda arrepiada; parecia 
que estava vendendo o filho deles,  escravido branca. Para aquele homem gordo e nauseante.
      - Est com pressa de vender?
      - No. S curiosa quanto ao preo que posso conseguir por ele.
      - Por que quer vend-lo? Precisa da grana?
      Examinou Jessie dos ps  cabea.
      - No. Preciso de um carro maior.
      Mas era tudo muito doloroso. Ainda se recordava do seu espanto o alegria no dia em que Ian tinha aparecido no Morgan e entregado as chaves para ela, com um 
amplo sorriso no rosto. Vitria. E agora, seria mo vender o corao dela. Ou o dele.
      - Bem, vou lhe fazer uma oferta.
      - Quanto?
      - Quatro mil... no... quem sabe, como um favor para a senhora, 4.500.
      O negociante olhou-a de alto a baixo e esperou.
      - Isso  ridculo. Meu marido pagou sete por ele, e est em melhores condies agora do que quando o comprou.
      -  o mximo que posso fazer. E acho que  o mximo que poder conseguir, assim em cima do lance. Precisa de uma ajeitada.
      No precisava, o ambos sabiam disso, mas ele tinha razo quanto a ser em cima do lance. O Morgan era um belo carro, mas muito poucas pessoas queriam ter um, 
ou podiam se dar ao luxo de ter um.
      - Eu o avisarei se quiser vender. Obrigada.
      Sem mais comentrios entrou no carro e foi embora. Morda. Que coisa triste ter que pensar em se desfazer dele. Mas tinha o resto dos honorrios do Schwartz 
para pagar, e agora o investigador, a casa e a loja j estavam comprometidas com a Yorktowne Boading, e j tinha contrado um emprstimo com o carro como garantia. 
Teria sorte se o banco deixasse que ela o vendesse. Mas eles a conheciam bem. Podiam deixar. E a despeito da bravata de Ian de ir procurar emprego, no fizera nada. 
Estava atolado no livro, e no ia a parte alguma excepto ao estdio com um lpis enfiado atrs da orelha. Artstico, mas nada lucrativo, a essa altura. E mesmo que 
arranjasse emprego, quanto ganharia no ms ou dois antes do julgamento, servindo mesas ou bancando o barman enquanto escrevia  noite? Quem sabe o livro venderia 
bem. Sempre havia essa esperana. Mas Jessie sabia por experincia prpria que isso levava tempo, e muitas vezes eles j se haviam apegado inutilmente a essa tnue 
esperana. Agora ela no era mais boba. Teria que ser o Morgan. Mais cedo ou mais tarde.
      Ficou Isolada o resto do dia, e foi uma surpresa agradvel quando Astrid Bonner entrou na loja, pouco antes das cinco. Poderia trazer alivio das tenses do 
dia.
      - Puxa, Jessica, mas como  difcil encontrar voc!
      Mas ela estava de muito bom humor. Acabara de comprar um novo anel de topzio, um belo trabalho de ourivesaria, 32 quilates engastados numa pequena fortuna 
em ouro, e ela "no conseguira resistir Em outra pessoa qualquer seria vulgar, em Astrid tinha classe. Mas o corao do Jessie doeu outra vez ao pensar no Morgan. 
O topzio com as baguetes estreitas de brilhantes provavelmente tinham custado a Astrid duas vezes a quantia de que ela to estava precisando.
      - A vida tem sido uma loucura desde que voltei de Nova. York. E esse  um anel e tanto, Astrid!
      - Se algum dia me cansar dele sempre posso us-lo como maaneta. Ainda no consegui concluir se  fabuloso ou pavoroso, e sol que ningum jamais vai me dizer 
a verdade.
      -  fabuloso.
      - Jura?
      Olhou para Jessie, com ar de troa.
      - Tanto que estou verde de inveja desde que voc entrou.
      - Que legal! Foi mesmo uma coisa chocantemente auto-indulgente a que eu fiz.  surpreendente o que um pouco de tdio pode provocar na gente.
      Riu com coqueteria, e Jessie sorriu. Que problema simples. Tdio.
      - Quer uma carona at em casa ou veio fazer compras?
      - Nada de compras, e tenho o carro, obrigada. Passei por aqui a caminho de casa para convidar voc o seu marido para jantar.
      As garotas tinham lhe dito que Jessie era casada.
      - Que idia gentil. Adoraramos. Quando quer que a gente v?
      - Que tal amanh?
      - Combinado.
      Trocaram um sorriso do satisfao, o Astrid caminhou  vontade pelo escritrio pequeno o alegre de Jessie.
      - Sabe, Jessica, estou me apaixonando por este lugar. Um dia desses posso dar um jeito de torn-lo de voc.
      Riu maliciosamente o observou os olhos de Jessica.
      - No desperdice as suas energias tentando tom-lo de mim. Eu posso at d-lo a voc. Do jeito que estou agora, posso at embulh-lo para presente.
      - Est me fazendo babar.
      - Guardo a sua saliva. Posso convenc-la a tomar um drinque? No sei quanto a voc, mas um bem forte me cairia muito bem.
      - Ainda aqueles problemas que mencionou no outro dia?
      - Mais ou menos.
      - O que quer dizer no se meta onde no  chamada. Muito justo.
      Sorriu serenamente; no sabia que Jessica tinha passado o dia tentando esquecer que Bany York tinha penhorado a sua loja. Jessica se sentia mal s de pensar 
nisso, e enquanto isso Ian ficava fora do mundo, trabalhando naquele maldito livro dia e noite. Jesus. Precisava de algum com quem conversar. E por que ele tinha 
que comear a sair do ar justo agora? Sempre ficava assim quando estava imerso num livro. Mas agora?
      - Tenho uma idia Jessica.
      Jessie ergueu os olhos, espantada. Por um momento tinha se esquecido totalmente de Astrid.
      - Que tal tomar o drinque na minha casa?
      - Sabe do que mais? Adoraria. Tem certeza de que no  muito trabalho?
      - No  trabalho algum; ser divertido. Vamos l, vamos indo.
      Jessie despediu-se rapidamente das garotas e ficou aliviada em sair da boutique. Antigamente no era assim. Costumava sentir-se bem s de entrar pela porta 
de manh, e satisfeita consigo e a vida ao sair,  noite. Agora detestava pensar na loja. Era chocante como as coisas podiam se modificar em to pouco tempo.
      Jessie seguiu atrs de Astrid no seu carro. A mulher mais velha dirigia um sed Jaguar preto de dois anos atrs. Era perfeito para ela, vistoso e elegante 
como ela. Essa mulher vivia cercada de coisas bonitas. Inclusive a sua casa.
      Era uma mistura de tirar o flego de delicadas antiguidades francesas e inglesas, Lus XV, Lus XVI, Heppelwhite, Sheraton. Mas nada opressivo. A casa era 
leve. Muito amarelo e branco, delicadas cortinas de organdi, sedas finssimas e, no andar de cima, estampados de flores em cores vivas, e uma magnfica coleco 
de quadros. Dois Chagall, um Picasso, um Renoir, e um Monet que dava uma sensao de noite de vero  sala de jantar.
      - Astrid, mas que fabuloso!
      - Tenho que admitir que adoro isso. Tom tinha coisas to maravilhosas. E so coisas felizes de se conviver. Compramos algumas peas juntos, mas a maioria j 
era dele. Mas fui eu mesma que escolhi o Monet.
      -  uma beleza.
      Astrid parecia orgulhosa. Tinha todo o direito de estar.
      At mesmo os copos nos quais serviu o usque eram lindos... cristal fino como papel, com uma tonalidade de arco-ris que ficava visvel quando eles eram erguidos 
 luz do fim de tarde. E havia urna vista impressonante da Ponte Golden Gate e da bafa da biblioteca do andar superior, onde se acomodaram com as suas bebidas.
      - Deus, que casa magnfica. Nem sei o que dizer.
      Era esplndida. A biblioteca era em lambris e cheia de livros antigos. Numa das paredes havia uma tela de um homem com ar srio, e um Cezanno encaixando a 
pequena lareira de mrmore marrom. A tela representava Tom. Jessie podia facilmente imagin-los juntos, a despeito da grande diferena de idade. Havia uma luz clida 
nos seus olhos; pressentia-se que o riso vinha chegando. Enquanto olhava para o quadro, Jessie subitamente se deu conta do como Astrid devia estar se sentindo s, 
agora.
      - Era um belo homem.
      - , e combinvamos tanto! Perd-lo foi um golpe terrvel. Mas tivemos sorte. Dez anos  um bocado, quando so dez anos como os que tivemos.
      Mas Jessie podia ver que Astrid ainda no resolvera o que fazer da sua vida. Flutuava... de lojas de roupas e joalheiros para peleiros e viagens. No tinha 
nada para ancor-la. Tinha a casa, o dinheiro, as telas, as roupas... mas no, tinha mais o homem. E ele era a chave. Sem Tom nada realmente significava coisa alguma. 
Jessie podia imaginar como seria. E ficava gelada s de pensar.
      - Como  o seu marido, Jessica?
      Jessie sorriu.
      - Fantstico.  escritor. E... bem,  meu melhor amigo. Acho que  maluco e maravilhoso e brilhante e bonito.  a nica pessoa com quem posso realmente conversar. 
 algum muito especial.
      - Isso diz tudo, no ?
      Havia uma luz suave nos olhos de Astrid, enquanto falava, e Jessie subitamente sentiu-se culpada. Como podia exaltar as qualidades do Ian to abertamente para 
essa mulher que havia perdido o homem que significava para ela tanto quanto o Ian significava para Jessie?
      - No, Jessica, no fique com essa cara. Sei o que est pensando, e est errada. Deve mesmo sentir-se assim. Deve dize-lo exactamente com esta maravilhosa 
expresso de vitria no rosto. Era assim que eu me sentia em relao ao Tom. Acalente o seu sentimento, exiba-o, curta-o, jamais pea desculpas por ele, e seguramente 
no para mim.
      Jessica balanou a cabea, pensativa, enquanto sorvia o seu drinque, e depois ergueu os olhos para Astrid.
      - Estamos tendo uns problemas bem feios, agora.
      - Um com o outro?
      Astrid estava surpresa. No era visvel no rosto de Jessica. Algo havia, mas no problemas com o marido... ela parecia feliz demais quando o descrevera. Quem 
sabe problemas financeiros. Os jovens tinham esses problemas. Porm havia algo mais. Vinha  tona nos momentos mais inesperados. Um sussurro de medo, quase tenor. 
Doena, quem sabe? A perda de um seio? Astrid estava curiosa, mas no queda se intrometer.
      - Acho que pode chamar de uma crise. At mesmo uma grande. Mas o problema no  um com o outro, no nesse sentido.
      Olhou para a baa e ficou calada.
      - Estou certa de que vocs o resolvero.
      Astrid sabia que Jessie no queda conversar a respeito.
      - Espero que sim.
      A conversa delas passou inesperadamente para negcios, ento, para como a loja era gerida e que tipo de clientes tinha. Astrid f-la rir-se contando algumas 
histrias dos seus tempos do Vogue em Nova York. Eram quase sete horas quando Jessie se levantou para ir para casa. E no estava com a mnima vontade de ir.
      - At amanh. s sete e meia?
      - Estaremos aqui impreterivelmente Mal posso esperar para mostrar a casa ao Ian. - E ento, teve uma idia. - Astrid, gosta de bal?
      - Adoro.
      - Quer vir ver o Joffrey com a gente na semana que vem?
      - No... eu...
      Houve uma tristeza momentnea nos seus olhos.
      - Qual , no seja chata. Ian adoraria nos levar, s duas. Deus, o que isso far ao seu ego.
      Riu, e Astrid pareceu hesitar. Depois fez que sim, com um sorrizinho de garota.
      - No posso resistir. Detesto segurar vela... passei por isso quando o Tom morreu, e  a coisa mais triste do mundo. e at bem mais fcil ficar sozinha. Mas 
adorada ir com vocs, se o Ian no se importar.
      Separaram-se como duas novas colegas de escola que tm a sorte de descobrir que moram na mesma quadra. E Jessie correu para casa para contar ao Ian sobre a 
casa que visitara.
      Ele ia ador-la, e a Astrid. Ela lembrava a Jessie a sua prpria pessoa, como gostaria de ser. Todo o equilbrio do mundo, e to meiga, to aberta, to bem-humorada. 
Podia estar incerta quanto ao rumo que a sua vida ia tomar, mas h muito que acertara os ponteiros consigo mesma, o que era evidente. Irradiava carinho o paz, no 
mais tentava agarrar a vida, como Jessie. Mas Jessie no tinha inveja dela. Ainda tinha o Ian, e Astrid no mais tinha o Tom. E, enquanto se dirigia para casa, Jessica 
pegou-se dobrando a toda na entrada para carros, ansiosa para ver o Ian, no apenas a sua imagem pintada.
      
      
      Enquanto se acercava da porta da frente, viu um homem que p afastava da casa e se dirigia para um carro estranho estacionado na entrada para carros. Deu-lhe 
um longo olhar avaliador, e depois balanou a cabea. E Jessie sentiu o terror inund-la. A policia... a policia estava de ....... o que estavam fazendo agora? O 
terror chegou-lhe aos olhos enquanto ficava parada ali, grudada ao cho.
      O pesadelo recomeara. Pelo menos ele no era o Inspector Houghton. E onde estava o Ian? Tinha vontade de gritar, mas no podia. Os vizinhos podiam ouvir.
      - Sou Harvey Green. Sra. Clarke? - Ela meneou a cabea e ficou parada, ainda olhando-o com horror. - Sou o investigador a quem. Martin Schwartz entregou o 
seu caso.
      - Ah, sei. J falou com o meu marido?
      Sentiu subitamente a brisa fresca no rosto, mas ainda levaria algum tempo para o seu corao deixar de bater loucamente.
      - Sim, j falei.
      - H mais alguma coisa que queira que eu acrescente?
      Alm do dinheiro.
      - No. Temos tudo sob controle. Eu me comunicarei com vocs.
      Fez uma continncia simulada, junto ao cabelo descorado o continuou o caminho para o seu carro. Era bege ou azul-claro, Jessie no tinha certeza ao crepsculo. 
Quem sabe era branco. Ou verde-claro. Como ele, era totalmente indeterminado. Tinha olhos desagradveis e um rosto fcil de esquecer. Sumiria no meio de uma multido. 
Parecia no ter idade, as suas roupas estariam fora de moda em qualquer dcada. Era perfeito para o papel.
      - Querido, cheguei! - Mas agora a voz dela tinha uma entonao nervosa, como tinha a dele quando respondeu. - Querido?... Fomos convidados para jantar amanh.
      No que nenhum deles estivesse interessado. Subitamente Harvey Green parecia muito mais importante do que Astrid.
      - Convidados? Por quem?
      Ian estava se servindo de uma bebida na cozinha. E no era o costumeiro vinho branco. Era bourbon ou scotch, que ele raramente bebia, excepto quando tinham 
convidados de Nova York.
      - Pela nova freguesa que conheci na loja. Astrid Bonner. Ela  um amor; acho que vai gostar dela.
      - Quem?
      - Voc sabe. J lhe contei. A viva que mora no palcio de tijolos ali na esquina.
      - Est bem. - Tentou forar um sorriso, mas estava difcil. - Encontrou com o Green, quando estava chegando?
      Ela fez que sim.
      - Pensei que ele era um tira. Dei um pulo de mais de um metro.
      - Eu tambm. Divertido, no , viver desse jeito?
      Ela tentou ignorar o comentrio e sentou-se na sua cadeira habitual.
      - Quer me preparar um tambm?
      - Usque com gua?
      - Por que no?
      Seria o seu terceiro.
      - Est bem. A viva deve ter uma casa e tanto.
      Mas ele no parecia realmente estar interessado. Colocou o gelo num outro copo.
      - Voc a ver amanh. E Ian... convidei-a para nos fazer companhia no bal. Importa-se?
      Passou-se um momento e dois goles antes que ele a olhasse nos olhos e respondesse e, quando o fez, ela no gostou do que viu.
      - Meu bem, a esta altura, eu estou me lixando.
      Tentaram fazer amor naquela noite depois do jantar, e pela primeira vez desde que se tinham conhecido, Ian No conseguiu. Tambm se lixou para o facto. Parecia 
o comeo do fim.
      
      
Captulo 11
      
      
      - J est pronto? - Jessica podia ouvir Ian fazendo barulho no quarto em que trabalhava, e ela acabara de escovar o cabelo. Usava calas de seda branca e uma 
suter de croch cor de turquesa, e ainda No tinha certeza de estar adequadamente vestida. Provavelmente Astrid estaria usando algo fabuloso, e parecia que Ian 
ficara submerso no estdio. - Ian, est pronto?
      O barulho cessou, e ela ouviu passos.
      - Mais ou menos.
      Sorria para ela do vo da porta do quarto e ela olhou nos seus olhos enquanto se dirigia para ele.
      - Sr. Clarke, o senhor est absolutamente lindo.
      - A senhora tambm.
      Usava o novo blazer azul-escuro de Cardin que ela trouxera de Nova York, camisa creme e gravata de li vinho, com calas do gabardina bege que ela comprara 
na Frana. Esculpiam-lhe as pernas longas e graciosas.
      - Est terrivelmente alinhado e terrivelmente lindo e acho que estou terrivelmente apaixonada por voc, querido.
      Ele fez uma bela reverncia e abraou-a quando ela chegou perto dele.
      - Nesse caso, ento que tal ficarmos em casa?
      Tinha um brilho malicioso nos olhos.
      - Ian, no me toque! Astrid ficaria to desapontada se ns no fssemos. E voc vai ador-la.
      - Promessas, promessas.
      Porm ofereceu-lhe o brao enquanto ela pegava a jaqueta do seda branca que deixara na cadeira do corredor. Ele ia ao jantar pira agrad-la. Estava preocupado 
com outras coisas.
      Caminharam a meia quadra at a casa de tijolos na esquina, era a primeira noite que fazia um friozinho. O outono estava chegando,  sua moda suave. San Francisco 
no outono no tinha nada a ver com essa estao em Nova York. Era parte do motivo pelo qual ambos se tinham apaixonado por San Francisco, para comeo de conversa. 
Adoravam o clima suave, temperado.
      Jessica tocou a campainha e eles esperaram. Por um momento, ningum veio atender.
      - Quem sabe ela resolveu que no quer a gente.
      - Ora, cale a boca. Voc est  querendo ir para casa trabalhar no seu livro.
      Porm sorria para ele, e ento ouviram passos.
      A porta se abriu um segundo mais tarde, e l estava Astrid, resplendente num longuinho preto de malha e um comprido fio de prolas. O cabelo estava preso num 
coque frouxo na nuca e os olhos brilhavam enquanto os levava para dentro. Estava ainda mais linda do que Jessica a achara antes. E Ian estava obviamente estupefacto. 
Esperava uma viuva de meia-idade, o concordara com o jantar mais como concesso  Jessie. No tivera idia de que ia encontrar esta viso de negro com a cinturinha 
de bibel de Dresden e o pescoo longo e elegantemente arqueado... e aquele rosto. Gostava do rosto. E da expresso dos olhos dela. Esta no era nenhuma senhora 
de idade. Era uma mulher.
      As duas mulheres se abraaram o Ian ficou de lado por um momento, observando-as, fascinado pela mulher mais velha que ainda no conhecia, e pela casa fantstica 
que comeava a vislumbrar por cima do ombro dela. Era impossvel no olhar fixamente, quer olhasse para a casa ou para ela.
      - E este  o Ian.
      Obedeceu ao chamado, sentindo-se como um garotinho sendo apresentado pela me - "Cumprimente a senhora, querido" - e estendeu a mo.
      - Como vai?
      Subitamente ficou satisfeito por ter usado o novo palet Cardin e a gravata. Este no ia ser simplesmente mais um jantar. E ela provavelmente era uma esnobe 
do quatro costados. Tinha que ser, num ambiente desses. E viva, ainda por cima. Nouveau-riche como o diabo... mas uma desconfiana murmurada dizia-lhe que no era 
assim. Ela no tinha os olhos do peixe-morto de uma esnobe, ou as sobrancelhas altivas. Tinha olhos simpticos, num rosto simptico. Parecia uma pessoa.
      Astrid ria alegremente enquanto os conduzia para o andar do cima, para a biblioteca, e Ian e Jessica trocaram olhares enquanto passavam por esboos e gravuras 
delicados nas paredes Picasso... Renoir... Renoir de novo... Manet... Klimt... Goya... Cassalt... Tinha vontade de assobiar, o Jessica sorria para ele como uma conspiradora 
que o ajudara a entrar na casa mal-assombrada da vizinhana. Ele ergueu as duas sobrancelhas o ela mostrou-lhe a lngua. Astrid estava na frente deles, e j descia 
o corredor. Tinha vontade do sussurrar, Jessie de dar risadinhas, mas no podiam. Pelo menos at chegarem em casa. Mas ela estava curtindo adoidado a expresso do 
rosto dele. Fazia-a sentir-se subitamente arteira.
      Beliscou-o delicadamente no traseiro enquanto passava por ele para entrar na biblioteca.
      Astrid tinha um prato de canaps e um pat esperando por eles. Um fogo ardia na lareira. Ian aceitou uma fatia de pat num pedacinho de torrada e depois riu 
para Astrid.
      - Sra. Bonner, nem sei como dizer isso, e sinto-me como se tivesse 14 anos, mas estou embasbacado com a sua casa.
      E com a minha anfitri. Deu aquele sorriso cativante que Jessie adorava, e Astrid riu junto com ele.
      - Estou encantada,  um lindo elogio, mas chamar-me de "Sra. Bonner" no . Voc pode sentir-se com 14 anos, mas est fazendo com que eu me sinta com 400. 
Experimente "Astrid" - espalmou as duas mos, com ar travesso - ou eu posso ter que bot-lo porta afora. E no "Tia Astrid", tambm, pelo amor de Deus! - Os trs 
acharam graa e ela tirou os sapatos e dobrou as pernas sob o corpo numa poltrona ampla e confortvel. - Mas fico muito contente que voc goste da casa. Ela s vezes 
 embaraosa, agora que o Tom no est mais aqui. Eu a adoro, mas ocasionalmente sinto como se no tivesse estatura para tudo isso. Quero dizer, ela  to... to... 
bem, como se ela devesse ser da minha me, e eu estivesse apenas tomando conta. Quero dizer, de verdade, eu? Nisso tudo? Que ridculo!
      Excepto que no era nada ridculo. Combinava com ela perfeitamente. Ian se perguntava se ela sabia o quo perfeitamente, ou se realmente estivera falando a 
srio. Imaginava que Tom tivesse construdo a casa para complement-la, incluindo os quadros e a vista.
      - Combina com voc muito bem, sabe?
      Ian fitava-a nos olhos, e Jessica observava o dilogo.
      - , combina, de algumas maneiras, o no combina, de outras. s vezes afugenta as pessoas. O estilo de vida. A opulncia. A... acho poder-se-ia chamar de aura. 
Um bocado dela  o Tom, e parte  apenas... ah... coisas. - Fez um gesto vago indicando a sola, abrangendo rapidamente uma fortuna em objectos de arte. Coisas. E 
parte dela sou eu. - Ian gostava do facto que ela admitia isso. - As pessoas esperam que voc seja muita coisa, quando se vive desse jeito. s vezes esperam que 
eu seja algo que no sou, ou vo embora sem ver o que sou. J lhe disse, Jessie, trocaria esta casa pela sua jia de casa a qualquer hora. Mas... - Ela sorriu ama 
uma gata espreguiando-se ao sol. - .. .Aqui tambm no  um mau lugar para se morar.
      - Me parece um lugar danado de bom para morar, se quer a minha opinio, Sra.... Astrid. - Trocaram rpidas risadas pelo deslize. - Mas duvido que quisesse 
fazer a troca pela nossa "jia", quando ligasse o secador de cabelo e a mquina de lavar pifasse ou quando o encanamento despencasse at o poro. O nosso cantinho 
tem as suas mazelas.
      - Parece divertido.
      Era evidente que nada desse tipo acontecia ali, e Jessie estava dando um amplo sorriso, lembrando da ltima vez em que todos os fusveis tinham queimado e 
Ian tinha se recusado a tomar providncias; tinham passado resto da noite  luz de velas.... at que ele precisou da mquina de escrever elctrica para trabalhar. 
Olhou para ela encabulado, sabendo o que estava pensando.
      - E ento, crianas? Querem conhecer toda a casa?
      Astrid interrompeu os seus pensamentos. Jessie no tinha ainda visto tudo, e Ian concordou rapidamente.
      Ela desceu descala o corredor acarpetado, acendendo interruptores sob arandelas de bronze, abrindo portas, acendendo mais luzes. Havia trs dormitrios no 
andar de cima. O dela era todo estampado do flores, em cores amarelas-vivas, com uma grande cama de armao e a mesma vista esplndida da bala. Tinha um pequeno 
quarto de vestir todo espelhado e um banheiro de mrmore branco, que era repetido em verde-claro do outro lado do corredor, para combinar com um quarto discretamente 
elegante cheio de pequenas antiguidades franco-provincianas.
      - Minha me dorme aqui quando vem  cidade, e o quarto combina perfeitamente com ela. Entendero o que quero dizer quando a virem. Ela  muito cheia de vida 
e pequenina o engraada, e gosta de flores por toda parte.
      - Mora no Leste?
      Ian estava curioso, o lembrava-se apenas de que Jessie tinha dito que Astrid viera originariamente de Nova York.
      - No, mame mora numa estncia aqui perto, imaginem s. Comprou-a h alguns anos, e est adorando. Para espanto nosso, est se dando bem l. Pensvamos que 
estaria cheia dela em seis meses, mas no est. Ela  muito independente, anda muito a cavalo e adora bancar o cowboy. Aos 72 anos, vejam s. Faz a gente pensar 
um pouco em Colette.
      Jessie sorriu ao pensar numa mulherzinha de cabelos brancos e roupa de vaqueiro metida nesse quarto todo delicado. Mas, se ela fosse em algo semelhante  filha, 
tiraria de letra. Com botas do vaqueiro feitas sob encomenda no Gucci e chapu de Adolfo.
      O quarto ao lado de Astrid era mais severo o tinha aparentemente pertencido ao seu marido. Jessie e Ian trocaram um rpido olhar... eles tinham quartos separados? 
Mas Jessie se lembrou da diferena de idade. Havia um escritrio pequeno o elegante ao lado do  quarto, todo em couro vermelho, com uma bela escrivaninha aluga coberta 
de fotos de Astrid.
      Esta passou rapidamente pelo quarto e voltou ao corredor, fechando a porta do quarto de hspedes verde enquanto Jessie e Ian a seguiram. 
      -  uma casa magnfica - suspirou Jessie. Era o tipo de casa que dava vontade da gente aparecer para o prximo convite para jantar trazendo todos os pertences 
nos braos. Dava vontade de ficar ali para sempre. Agora os dois entendiam por que no fechava a casa o procurava algo menor. Ela contava uma histria de gente que 
gostava... de beleza, um do outro, de viver bem.
      - E vocs viram a parte de baixo? No  muito excitante, mas  bonita.
      Jessie se perguntava por que no havia sinal de criados. A gente ficava esperando pelo menos uma empregada de avental branco, ou um mordomo, mas ela parecia 
morar sozinha.
      - Vocs gostam de siri? Eu devia ter telefonado e perguntado, mas esqueci.
      Parecia levemente encabulada.
      - Adoramos sim - respondeu Jessie pelos dois.
      - Ah, que ptimo! Parece que toda vez que quero servi-lo aos amigos, e esqueo de perguntar antes, algum  alrgico ou coisa parecida. Eu adoro!
      Foi um banquete fora do comum. Astrid empilhou uma montanha de siris desmembrados e partidos numa imensa travessa no centro da mesa da sala de jantar, trouxe 
uma jarra grande de vinho branco, acrescentou uma salada e pezinhos quentes, e convidou as visitas a porem mos  obra. Enrolou as mangas do vestido preto do malha, 
convidou Ian a tirar o palet e ficou sentada ali como uma criana, disputando as ganas com quem as via primeiro.
      - Ian, voc  um monstro. Vi essa primeiro, voc sabe!
      Bateu de leve com a garra nos dedos dele enquanto ficava com ela, dando risadinhas e sorvendo o seu vinho. Tinha razo... parecia mesmo uma garotinha cuja 
me tinha sado e deixado que ela convidasse amigos para jantar, "contanto que todos se comportem bom". Ela era encantadora, e tanto Jessie quanto Ian se apaixonaram 
por ela.
      Foi uma noite descontrada; pareciam trs pessoas sem nenhum problema - s gostos dispendiosos, uma queda para o prazer. J passava da meia-noite quando Ian 
se levantou e estendeu a mo pare Jessie.
      - Astrid, eu podia ficar aqui at as quatro da manh, mas tenho que levantar cedo para trabalhar no livro, e se Jessie no dorme o suficiente, vira um monstro. 
- Mas era evidente que todos compartilhavam do pesar pelo trmino da noite. - Vira connosco ao bal na semana que vem?
      - Com prazer. E: deixe que lhe diga que Jessie tinha me dito que eu o adoraria e estava absolutamente cem por cento certa. No posso imaginar outras duas pessoas 
para quem gostaria mais do segurar vela.
      - ptimo. S que com voc no se trata de segurar vela, ora.
      Todos riram e Astrid abraou os dois quando saram, como se os conhecesse h anos. Sentiam como se fosse assim, vendo-a do p  porta, descala, acenando antes 
de fechar a porta preta lustrosa com a aldrava de bronze representando uma cabea de leo.
      - Puxa, Jess, mas que noite gostosa. E que mulher maravilhosa. Ela  um espanto.
      - No ? Mas deve se sentir solitria como o diabo. H algo no jeito com que convida as pessoas a entrarem na sua vida, como se tivesse muito amor sobrando 
e ningum para d-lo, de um modo geral.
      Jessie bocejou, dizendo as ltimas palavras, e Ian concordou. Conversar sobre os acontecimentos da noite era sempre a melhor parte. Ela j no conseguia se 
lembrar mais de quando Ian No estava por perto para partilhar segredos e opinies e perguntas. Ele estivera com ela desde sempre.
      - Como voc acha que era o marido dela, Jess? Desconfio que no era to divertido quanto ela.
      - Por que est achando isso? - O comentrio surpreendeu-a. No havia nada para sugerir que Tom Bonner tivesse sido menos divertido do que a mulher. E ento 
Jessica riu, adivinhando o que Ian quis dizer. - Os quartos separados? - Ele deu um sorriso maroto e ela o beliscou. - Voc  um monstro.
      - No sou, no. E deixe que lhe diga uma coisa, madame, no me importo se eu estiver com noventa anos, a senhora nunca me tirar do seu quarto.... ou da nossa 
cama!
      Parecia intransigente e muito satisfeito consigo mesmo enquanto a apertava mais junto a si na curta caminhada at em casa.
      - Isso  uma promessa, Sr. Clarke?
      - Por escrito, se quiser, Sra. Clarke.
      - Olhe que eu quero! - Pararam por um momento e se beijaram antes de dar os ltimos passos na direco de casa. - Que bom que voc gostou da Astrid, amor. 
Eu a curto de verdade. Gostaria de conhec-la melhor. Ela  uma pessoa boa de se conversar. Sabe, eu... bem, quase tive vontade de contar-lhe o que est acontecendo 
com a gente. Comeamos a conversar no outro dia, e... - Jessie deu de ombros. Era difcil verbalizar, e Ian estava comeando a fechar a cara. - Ela me d uma vontade 
de contar-lhe a verdade.
      Ian parou de andar e olhou para ela.
      - Contou?
      - No.
      - ptimo. Porque acho que est se enganando, Jess. Ela  uma mulher simptica, mas ningum vai entender o que est acontecendo com a gente agora. Ningum. 
Como  que a gente conta para algum que vai a julgamento por estupro? Faa-nos um grande favor, meu bem, o no fale nisso. Temos que torcer para que toda essa confuso 
acabe logo para que possamos esquece-la. Se contarmos s pessoas, isso poderia nos perseguir durante anos.
      - Foi o que resolvi. E ei, qual ... confie em mim um pouquinho, t legal? No sou burra. Sei que seria difcil para a maioria das pessoas entender.
      - Ento no pea para que elas o faam.
      Jessica no respondeu, e Ian foi andando na frente para abrir a porta da casa. Pela primeira vez que Jessie podia se lembrar, a sua separao do resto do mundo 
feita por escolha, quase uma sociedade secreta, agora parecia um isolamento solitrio. No podia falar com mais ningum, excepto o Ian. Ele proibira. No passado 
sempre fora uma questo de escolha.
      Jessie entrou atrs dele e deixou a jaqueta no corredor da entrada.
      - Quer uma xcara de ch antes de ir para a cama, amor?
      Botou uma chaleira d'gua no fogo e ouviu-o ir para o estdio.
      - No, obrigado.
      Ficou parada  porta do estdio por um momento e sorriu para ele enquanto se sentava  mesa. Tinha um clice de conhaque ao lado o uma pequena pilha de papis 
 frente, na mesa de trabalho. Afrouxou a gravata, recostou-se e olhou para a mulher.
      - Ol, linda senhora.
      - Oi. - Trocaram o mais subtil dos sorrisos por um momento, depois Jessie inclinou a cabea para o lado. - Est pretendendo trabalhar?
      - S um pouquinho.
      Ela meneou a cabea e foi tirar a chaleira do fogo; estava assobiando feito doida. Preparou uma xcara de ch, apagou o resto das luzes e foi suavemente para 
o quarto. Sabia que Ian levaria horas at vir para o quarto. No poderia vir antes. No poderia tentar fazer amor com ela hoje. No depois da vspera. O gosto amargo 
do fracasso permanecera com eles. Como o resto do que lhes estava acontecendo, era novo, doloroso, cru.
      
      
      A noite do bal com Astrid foi um sucesso to grande quanto o jantar na casa dela. Chegaram ao teatro pouco antes da hora do pano subir, e Jessie preparara 
uma ceia que os esperava quando chegassem em casa. Bife trtaro, aspargos frios, uma variedade de queijos e pio francs, e um bolo de chocolate feito em casa. A 
um canto uma tigela grande de morangos frescos e creme batido, uma vasilha de cristal cheia do Schlag  moda vienense para os morangos ou o bolo. Era um banquete, 
e a plateia aprovou.
      - Minha cara menina, no h nada que voc no saiba fazer?
      - Um bocado.
      Mas Jessie estava muito satisfeita com o elogio.
      - No acredite nela. Pode fazer qualquer coisa.
      Ian complementou o elogio com um beijo enquanto servia uma rodada de vinho de Bordus. Chateau Margaux 55. Era uma ocasio especial, e ele estava servindo 
um dos seus vinhos preferidos.
      A esta altura os trs formavam um trio, contando piadas, partilhando histrias, sentindo-se  vontade. J estavam no meio da segunda garrafa de vinho quando 
Astrid se levantou e olhou para o relgio. 
      - Santo Deus, crianas, so duas horas. No que eu tenha algo para fazer amanh, mas vocs tm. Sinto-me muito culpada deixando-os acordados at esta hora.
      Ian o Jessica trocaram um olhar penetrante; tinham mesmo que acordar cedo no outro dia. Mas Astrid no viu o olhar. Estava procurando a sua bolsa.
      - No seja boba. Noites como esta so um presente para ns.
      Jessie sorriu para a amiga.
      - No podem ser para vocs tanto quanto o so para mim. No tem idia do quanto adorei tudo isso. E o que vai fazer amanh, Jessica? Posso tent-la a almoar 
comigo no Villa Taverna?
      - Eu... desculpe, Astrid, mas no posso ir almoar amanh. - Outro olhar foi lanado para o lado do Ian. - Temos que ir a uma reunio de negcios de manh, 
e no sei a que horas estaremos livres.
      - Ento por que ns trs no vamos almoar? - Encontrara a bolsa e estava pronta para sair. - Podem ligar para mim quando acabar a reunio.
      - Astrid, embora eu lamente muito, acho melhor deixarmos para outro dia.
      Ian estava pesaroso, mas firme.
      - Acho que vocs dois so uns malvados.
      Mas agora estava sentindo algo entre eles, urna tenso que no tinha estado l antes. Algo estava um pouco fora do tom, ela no sabia dizer o que, e ficou 
se lembrando do problema que Jessie mencionara quando tinham se conhecido. Ele nunca fora mencionado de novo, e Astrid continuara imaginando que fosse um problema 
de dinheiro. Era difcil de acreditar, mas obviamente no podia ser mais nada. No era sade, nem problemas com o casamento, sem dvida... havia abraos demais, 
e contactos, beijos, palmadinhas nas costas, rpidos apertes quando estavam lado a havia demais de tudo isso para que algum pudesse acreditar que aquele casamento 
estivesse encrencado.
      - Quem sabe podemos ir todos ao cinema no fim de semana - Ian olhou as duas mulheres e tentou aliviar o momento quieto demais. - No  to classe A quanto 
o bal, mas h um novo thriller francs passando na Union. Algum interessado?
      - Ah, vamos!
      Jessie bateu palmas e olhou para Astrid, que abriu um sorriso e fez um ar cauteloso.
      - S se vocs absolutamente me jurarem que vo me comprar um quilo de pipoca.
      - Juro.
      Ian ergueu a mo solenemente num juramento formal.
      - Por tudo que  mais sagrado?
      - Por tudo que  mais sagrado - repetiu, e os trs comearam a rir. - Voc  mesmo exigente.
      - Tenho que ser. Sou viciada em pipoca. Com manteiga! - Olhou para ele com ar severo e ele lhe deu um abrao fraterno. Astrid retribuiu o brao e inclinou-se 
para dar um beijo no rosto do Jessie. - E agora vou dar boa-noite a ambos. E deixar que durmam um pouco. Sinto muito que tenha ficado to tarde.
      - No sinta. Ns no estamos sentindo.
      Jessica acompanhou-a at a porta e Astrid foi embora com uma sensao curiosa, quase sinistra. No era nada que pudesse ver ou tocar ou estar absolutamente 
certa da existncia, mas algo parecia pairar no ar, bem acima das cabeas deles... como um bloco de concreto.
      A audincia preliminar estava marcada para a manh seguinte.
      
      
Captulo 12
      
      
      Jessie entrou no tribunal em miniatura apertando com fora a mo de Ian. Usava o costume azul-marinho e os culos escuros de novo, e Ian parecia cansado e 
plido. No dormira muito, e estava com dor de cabea por causa do vinho da vspera. Os trs juntos tinham tomado as duas garrafas do Margaux.
      Martin Schwartz estava esperando por eles no tribunal. Estava examinando uma pasta numa mesinha a um canto da sala, e fez-lhes sinal para se reunirem a ele 
l fora.
      - Vou pedir uma audincia a portas fechadas. Achei que deviam saber, para no ficarem surpresos.
      Parecia terrivelmente profissonal, e ambos sentiram-se confusos. Ian falou primeiro, com uma ruga de preocupao na testa.
      - O que  uma audincia a portas fechadas?
      - Acho que a vtima poder falar mais livremente se no houver observadores no tribunal. Apenas voc, ela, a promotora assistente, o juiz e eu prprio.  uma 
precauo sensata. Se trouxer amigos, vai querer que pensem que  pura como a neve. E pode reagir mal  presena de Jessica.
      Sem entender o motivo, Jessica crispou-se involuntariamente ao som do prprio nome.
      - Escute, se eu posso aguentar, ela tambm pode.
      Jessica estava insuportavelmente nervosa, e com pavor de ver a tal mulher. Queria estar em qualquer lugar, menos ali. Cada fibra do seu ser gritava ante a 
perspectiva do que estava por vir. A inimiga. Tanta coisa a enfrentar num ser humano. A infidelidade de Ian, a sua prpria insuficincia, a ameaa ao futuro deles, 
a lembrana da montanha quase inescalvel de tentar libert-lo sob fiana. Tudo isso condensado naquela mulher.
      Martin podia ver como ambos estavam tensos. Sentia pena deles e suspeitou acertadamente do que estava causando o nervosismo de Jessie: Margaret Burton.
      - Confie em mim, Jessie. Acho que uma audincia a portas fechadas ser melhor para todos os implicados. Daqui a alguns minutos devemos comear. Por que vocs 
dois no vo dar um passeio pelo corredor? No se afastem muito, e ou virei dar um sinal quando o juiz estiver pronto para comear.
      Ian concordou com um movimento tenso de cabea e Martin voltou para dentro. O brao de Ian parecia ter um peso de chumbo pendendo dele. Jessie.
      No tinham nada para dizer enquanto caminhavam pelo corredor, viravam no fundo, e voltavam pelo mesmo caminho. Jessica deixou o pensamento vagar para as lembranas 
de outros corredores de mrmore... a Prefeitura, onde ela e Ian tinham tirado a certido de casamento... a espera diante do gabinete do director, no ginsio... a 
casa funerria em Boston, quando Jake ....... e depois, de um a um, os pais.
      - Jessie?
      - H?
      Franzia a testa de modo estranho enquanto olhava para ele, como se tivesse dificuldades em voltar para o presente.
      - Tudo bem?
      Parecia preocupado; ela apertava o brao dele com fora demais e andava cada vez mais depressa enquanto caminhavam pelo corredor. Tivera que sacudir-lhe o 
brao para chamar-lhe a ateno.
      - Est Tudo bem. S estava pensando.
      - Bem, pare de pensar. Vai dar tudo certo. Relaxe.
      Ela comeou a dizer alguma coisa, e ele pode ver pela expresso dos seus olhos que no ia ser agradvel. Estava nervosa demais para ser cautelosa ou bondosa.
      - Eu... desculpe... este  um dia to esquisito. No lhe parece esquisito? Ou ser que  s para mim?
      Ela comeou a se perguntar se estaria ficando maluca.
      - No, no me parece esquisito. Uma merda, mas no esquisito. - Tentou sorrir, mas ela no estava olhando para ele. Tinha o olhar perdido na distncia, sonhador 
de novo. Estava comeando a deix-lo assustado. - Escute aqui, caramba, se no se controlar j, j, vou mand-la para casa.
      - Para qu? Para que eu no a veja?
      - Droga,  isso que a est preocupando? V-la?  s isso. Merda. Minha sorte est em jogo e voc est preocupada em v-la. Estou cagando para ela. E se revogarem 
a minha fiana?
      - No revogaro.
      - E como  que voc sabe?
      - Eu... eu... , Ian, no sei. Eles no podem,  s. Por que revogariam?
      Nem sequer pensara nisso. Agora era mais uma coisa com que ao preocupar.
      - Por que no revogariam?
      - Bem, quem sabe se eu tivesse seduzido o Inspector Houghton, ou Barry York, o nosso bem-amado fiador, talvez no o fizessem. Mas como no o .fiz, pode ser 
que revoguem a fiana.
      O tom de voz dela era amargo e assustado.
      - V para casa, Jessica.
      - V  merda.
      E ento Ian parou de falar e olhou para alm dela. O tempo pareceu parar enquanto Jessica se virava para olhar, tambm. Era Margaret Burton.
      Usava o mesmo chapu. Mas com um costume bege comportado Estava at mesmo usando luvas brancas. As roupas eram baratas, mas arrumadinhas e discretas. Parecia 
muito enfadonha. Como o esteretipo da professora primria ou da bibliotecria, algum terrivelmente sria e assexuada. O cabelo estava repuxado num coque na nuca 
e mal era visvel sob o chapu. As razes negras no eram visveis. No usava maquilhagem e os sapatos eram baixos e deselegantes. Era bvio que uma mulher como 
essa s faria amor sob a mira de um revlver.
      Ian no disse nada, mas olhou por um longo momento, depois virou o rosto. Jessica fitava-a, com uma expresso de dio no rosto que ele nunca vira antes. Estava 
grudada no cho.
      - Jess... vamos, meu bem. Por favor.
      Pegou-a pelo cotovelo e tentou descer o corredor com ela, mas ela no se mexia. Margaret Burton desapareceu no tribunal sem ter deixado transparecer que o 
vira. E mesmo assim Jessica no se mexia. O Inspector Houghton entrou rapidamente atrs da Srta. Burton, e Martin Schwartz apareceu e fez sinal para Ian, enquanto 
Jessie simplesmente ficava parada, olhando fixo.
      - Escute, Jessie, sente-se naquele banco por alguns minutos. Volto logo que eu puder.
      Ela estava em pssimo estado, e ele j tinha o bastante com que se preocupar.
      - Ian? - Virou-se e olhou para ele com uma expresso ferida nos olhos, e ele sentiu as entranhas transformarem-se em areia. - No estou entendendo mais nada.
      Nem havia lgrimas nos olhos dela. Apenas dor.
      - Nem eu. Mas tenho que entrar, agora. Voc ficar bem aqui, ou quer ir para casa?
      No tinha certeza de que confiava em deix-la sozinha. A expresso nos seus olhos estava ficando familiar demais.
      - Estarei aqui.
      No fora isso que lhe perguntara, mas no tinha tempo para discutir. Desapareceu no tribunal e Jessie sentou-se sozinha no banco de mrmore frio. Ficou vendo 
pessoas indo e vindo. Gente de aparncia comum. Homens com pastas de executivo. Mulheres segurando com fora lenos de papel. Criancinhas maltrapilhas com sapatos 
de saltos completamente gastos e calas curtas demais para as perninhas magricelas. Meirinhos, advogados, juizes, vitimas, rus, testemunhas.... gente. Iam e vinham 
enquanto Jessie ficava sentada pensando em Margaret Burton. Quem era ela? Por que fizera aquilo? Parecia to orgulhosa, to dona da verdade enquanto entrava no tribunal. 
O tribunal...
      Subitamente, seus olhos foram atrados para a porta. Era de madeira escura e muito encerada, com maanetas de bronze e duas janelinhas de vidro, como olhos, 
olhando para fora... olhando para fora... olhando para dentro... dentro... tinha que estar l, do Iado de dentro... para v-la... para ouvir... para descobrir por 
que... precisava entrar.
      Um pequeno cartaz pendia meio torto de uma das maanetas - FECHADO - e um meirinho de uniforme cinzento estava parado a um canto, ligeiramente afastado, olhando 
com desinteresse para quem passava. Jessica empertigou-se toda, alisou a saia, e subitamente se sentiu muito calma. Afixou um pequeno sorriso no rosto. Havia o mais 
leve dos tremores no canto do seu olho direito, as. convulses do uma borboleta, mas quem iria notar? Parecia multo auto-suficiente, e deu um leve sorriso para o 
meirinho enquanto se dirigia para a porta e segurava a maaneta.
      - Desculpe, minha senhora. O tribunal est fechado.
      - Sim, eu sei. - Parecia quase satisfeita com a noticia, como amola fosse a responsvel e estivesse contento por ver suas ordens compridas. - Estou acompanhando 
o caso.
      - Advogada?
      Ele comeou a sair da frente. O tremor no olho dela ameaava querer arrancar-lhe a plpebra.
      Ela moveu a cabea, suavemente.
      - Sim.
      Ah, Jesus. No. E se ele pedisse as suas credenciais? Ou entrasse e o fosse falar com o juiz? Ao invs disso, abriu a porta para ala com um sorriso, o Jessie 
entrou serenamente na sala. A cena da fora tipicamente ao estilo de Jessica. Ningum jamais a questionava Mas, o agora? E se o juiz interrompesse o andamento do 
processo? E se mandasse bot-la para fora? E se...
      O juiz era pequeno e nada impressonante, do culos e cabelos louro-acinzentados. Ergueu os olhos momentaneamente, sem se alterar com a chegada dela, e alou 
uma sobrancelha na direco do Martin Schwartz. Depois de um olhar penetrante para Jessica, Schwartz balanou a cabea, com relutncia, depois lanou um rpido olhar 
 promotora-assistente, que deu de ombros. Tudo bem, fora aceita.
      O Inspector Houghton estava sentado perto do assento do juiz, fazendo algum tipo de declarao. A sala era em lambris, com cadeiras cobertas de couro na primeira 
fila, e cadeiras de espaldar teto nas demais. Era pouco maior do que o escritrio de Martin Schwartz, mas havia uma aura de tenso tremenda no ar. Ian e Martin sentavam-se 
juntos a uma mesa, ligeiramente  esquerda. E a curta distncia deles sentavam-se a Srta. Burton e a promotor assistente. Jessie ficou muito contrariada ao verificar 
que era uma mulher. Jovem, com aparncia de durona, cabelo cheio de laqu e excesso de p-de-arroz nas faces carnudas demais. Usava um vestido verde matronal e um 
fio de prolas bem-comportado, e nos cantos da sua boca tinham ao formado os vincos duros da raiva. Transpirava uma indignao virtuosa pela sua cliente.
      A jovem advogada virou-se para olhar para Jessica, o esta calculou que ela tivesse mais ou menos a sua idade, 30 e poucos anos. As duas mulheres trocaram um 
olhar de gelo. Mas Jessica viu o desprezo no rosto da outra mulher e ento compreendeu o que isso ia ser. Uma guerra de classes. Ian, grande, malvado, de nvel superior, 
morador em Pacific Heights, estuprara a pobre secretariazinha, de classe baixa, abusada, incompreendida, e que ia ser defendida pela jovem advogada de classe mdia, 
limpa, durona, pura, devotada. Jesus. Era s o que lhes faltava. Subitamente, Jessica perguntou-se se tinha usado a roupa errada. Mas mesmo de cala e blusa Jessica 
tinha o tipo de classe que aquelas mulheres odiariam. Que coisa louca at ter que pensar no que estava usando.
      A Srta. Burton no tinha visto Jessica entrar, ou pelo menos no dera sinal disso. Nem o Ian. Ela sentou-se sem fazer barulho numa cadeira de espaldar recto 
atrs dele, e ento, de repente, se tivesse sido esbofeteado, ele ergueu a cabea e rodopiou na cadeira, um ar de choque no rosto quando a viu atrs de si. Com a 
sacudir a cabea, depois debruou-se na direco dela como quisesse dizer alguma coisa, mas os olhos de Jessie estavam inflexveis. Ela apertou ligeiramente o ombro 
dele, e Ian desviou olhar; era intil discutir. Mas, enquanto se virava, os seus ombros largos pareceram ao curvar.
      O Inspector Houghton levantou-se da cadeira de onde estava dirigindo ao juiz, agradeceu ao tribunal, e voltou para uma cadeira do outro lado de Margaret Burton. 
E agora? O corao de Jessie batia com fora. De repente no teve mais tanta certeza de queria estar ali. O que iria ouvir? Ser que aguentaria? E se desabasse? 
Ficasse maluca... comeasse a gritar...?
      - Srta. Burton, aproximo-se, por favor.
      Enquanto Margaret Burton saa lentamente da sua cadeira, o corao de Jessie parecia desatinado de vontade de libertar-se seu corpo. Suas tmporas latejavam 
e ela se perguntou se ia de enquanto ficava olhando para as mos trmulas. A Srta. Burton fez o juramento e Jessica ergueu os olhos, e todo o seu corpo tremia, agora. 
Por que ela? Era to sem graa, to feia, to... vulgar. Mas, no, ela no era realmente feia. Havia algo nela, uma graa no modo como cruzava as mos sobre os joelhos, 
o vestgio de beleza num rosto que agora estava duro demais para ser atraente. Algo... talvez. Jessie se perguntava como Ian se sentiria, sentado bem diante dela. 
Parecia estar a mil quilmetros de distncia. Margaret Burton parecia muito, muito mais perto. Jessica sentia como me pudesse ver cada poro, cada cabelo, as narinas 
levemente dilatadas, a trama do costume bege sem graa. Teve vontade louca de correr at ela, toc-la, quem sabe esbofete-la, sacudi-la para que dissesse a verdade. 
Conte-lhes o que aconteceu, porra! A verdade! Jessica perdeu o flego e tossiu, tentando desanuviar a cabea.
      - Srta. Burton, queira explicar o que aconteceu no dia em questo, desde o momento que a senhora viu o Sr. Clarke pela primeira vez. Conte-nos simplesmente, 
com suas prprias palavras. Isso no  um julgamento.  meramente uma audincia preliminar para determinar se o assunto merece uma ateno maior do tribunal.
      O juiz falava como ao estivesse lendo um rtulo de suco de laranja - palavras que j falara mil vezes antes, e que nem escutava mais. Mas era o convite que 
Margaret Burton estava esperando. Pigarreou com uma pequena expresso de importncia e o mais leve dos  sorrisos. O Inspector Houghton franziu a testa, olhando para 
ela, e a promotora-assistente parecia estar de olho no juiz.
      - Srta. Burton?
      O juiz olhava para o vazio, enquanto falava, e todos esperaram.
      - Sim, senhor. Meritssimo.
      Jessica achava que a "vtima" no parecia suficientemente perturbada. Vitoriosa, talvez, mas no perturbada. No violada. Satisfeita? Mas isso era uma loucura. 
Por que deveria estar satisfeita? Mas Jessie no conseguia afastar essa impresso enquanto fitava a mulher que alegava que o seu marido a estuprara. E ento comeou 
o recital.
      - Almocei no Enrico o depois comecei a subir a Broadway. - Tinha uma voz inexpressiva e desagradvel. Um pouco estridente  mais. Um pouco alta demais. Uma 
voz excelente para reclamar o chatear. E estava alta demais para estar doendo. Doendo por dentro. Jessica se perguntou ao o juiz estaria escutando mais do que as 
simples palavras. No estava com cara disso. - Eu estava andando pois Broadway - continuou ela - e ele me ofereceu uma carona.
      - Ele a ameaou, ou apenas ofereceu uma carona?
      Ela sacudiu a cabea, quase com pesar.
      - No, ele no ameaou. No de verdade.
      - O que quer dizer com "no de verdade"?
      - Bem, acho que ele poderia ter ficado zangado se eu recusasse a carona, mas estava fazendo calor e no havia um s nibus  vista e. ... - Ergueu os olhos 
para o juiz, e o rosto dele estava inexpressivo. - Bem, eu disse a ele onde trabalhava.
      Parou por um momento, baixou os olhos para as mos, e soltou um suspiro. Jessie teve vontade do torcer-lhe o pescoo. Aquele suspirozinho pattico. Enterrou 
a mo no ombro de Ian, sem sentir, e ele deu um salto o virou-se para olh-la com ar preocupado. Ela forou um tnue sorriso e ele deu-lhe uma palmadinha na mo 
antes de voltar a olhar para Margaret Burton.
      - Continue - instou o juiz. Ela parecia ter perdido o fio da meada.
      - Desculpe, Meritssimo. Ele.. ele no me levou para o escritrio. e... bem, sei que foi uma loucura aceitar a carona. Mas, era um dia to bonito e ele parecia 
um homem simptico. Pensei... nunca imaginei...
      Inesperadamente, uma pequena lgrima escorreu de um olho, depois de outro; o aperto de Jessie no ombro de Ian ficou quase insuportvel. Ele pegou a mo dela 
e segurou-a suavemente, at que ela a retirou, nervosa. 
      - Por favor continue, Srta.... Srta. Burton.
      Verificou o nome nos papis sobre a mesa, tomou um gole d'gua e levantou os olhos. Jessie lembrou-se de que essa audincia no passava da rotina diria, para 
ele; parecia totalmente isolado do drama que absorvia o resto deles.
      - Eu... ele me levou... a um hotel.
      - A senhora foi com ele?
      Mas no havia julgamento na voz dele; era apenas uma pergunta.
      - Pensei que ele estava me levando ao meu escritrio.
      De repente, ela soava estridente e zangada. As lgrimas tinham desaparecido.
      - E quando viu que ele no a tinha levado ao seu escritrio, por que no saltou, ento?
      - Eu... no sei. Pensei que seria... ele s queria tomar um drinque, foi o que disse, e no era desagradvel, s bobo. Pensei que era inofensivo e que seria 
mais fcil ir levando... quero dizer tomar o drinque... e ento...
      - Havia um bar no hotel quando entraram? - Ela sacudiu cabea. - Um encarregado da recepo? Algum os viu entrar? Podia ter pedido ajuda? No creio que o 
Sr. Clarke lhe estivesse apontando uma arma, ou qualquer coisa no gnero, no ? - Ela enrubesceu e sacudiu a cabea, relutante. - Bem, algum os viu?
      - No. - A palavra era quase inaudvel. - No havia ningum ali. Parecia... uma espcie de apart-hotel.
      - Lembra-se onde ficava?
      Ela sacudiu a cabea de novo e Jessica sentiu Ian mexer-se inquieto  sua frente, o quando ela olhou viu raiva no seu rosto. Finalmente. Parecia vivo de novo, 
ao invs de enterrado sob a dor e a descrena.
      - Pode dizer-nos a localizao do hotel, Srta. Burton?
      Novamente, a negativa com a cabea.
      - No. Eu... eu estava to perturbada que... no notei. Mas ele... ele... - Subitamente o rosto dela se transformou de novo. Os olhos se iluminaram e quase 
brilharam com tal dio e fria que por um instante Jessie quase acreditou nela, e viu Ian ficar subitamente imvel. - Ele pegou a minha vida e a jogou fora! Ele 
a arruinou! Ele... - Soluou por um momento, depois inspirou fundo enquanto o brilho deixava os seus olhos. - Quando entramos, ele simplesmente me agarrou, e me 
arrastou para um elevador, e at um quarto e...
      O silncio dela dizia tudo, enquanto pendia a cabea, derrotada.
      - Lembra-se do nmero do quarto?
      - No.
      Manteve os olhos baixos.
      - Reconheceria o quarto de novo?
      - No. Acho que no.
      No? Por que no? Jessie no podia imaginar algum no se lembrar do quarto onde fora estuprada. Ficaria gravado na mente pra sempre.
      - Reconheceria o hotel?
      - No tenho certeza. Mas creio que no.
      Ainda no erguera os olhos, e Jessie duvidou mais ainda da sua histria... e ento se deu conta do que estava acontecendo: se estava duvidando da histria 
era porque tinha havido uma hora em que acreditara nela. Naquela nica exploso de lgrimas e fria a mulher os convencera a todos. Ou chegara bem perto disso. At 
mesmo a Jessica. Quase. Virou-se para olhar para o Ian e viu que ele a observava, os olhos molhados de lgrimas. Ele tambm sabia que estava acontecendo. Jessica 
pegou a mo dele de novo, desta feita suavemente e com vigor. Tinha vontade de beij-lo, abra-lo, dizer-lhe que tudo ficaria bem, mas agora no tinha tanta certeza. 
S tinha certeza de uma coisa.. do quanto odiava Margaret Burton. 
      Martin Schwartz tambm no estava com uma cara muito satisfeita. Se a tal Burton alegava no se lembrar de onde ficava o hotel, perdiam o ltimo vestgio de 
esperana de encontrar uma testemunha que os pudesse ter visto l. Ian tambm no conseguia localizar o hotel. Estava bbado o bastante para a sua memria ficar 
embaada, e o endereo de que julgava lembrar-se era errado; era o de um depsito. Havia muitos pequenos hotis residenciais de segunda na rea o Martin fizera Ian 
entrar em dzias do sagues antes da audincia preliminar. Nada lhe parecia familiar. Portanto ia continuar sendo um caso da palavra dele contra a dela, sem ningum 
para corroborar nenhum dos lados. Schwartz estava gostando cada vez menos do aspecto do caso. Ela era uma testemunha tremendamente antiptica. Errtica, emotiva, 
num momento dura como pedra, no seguinte tocante o chorosa. O juiz iria mand-los a julgamento, sem dvida alguma, nem que fosse para evitar que ele prprio tivesse 
que cuidar daquilo.
      - Pois bem, Srta. Burton - falou o juiz, brincando com um lpis e fitando a parede oposta - o que aconteceu naquele quarto de que no se lembra?
      O tom do voz dele era seco e desinteressado.
      - O que aconteceu?
      - O que o Sr. Clarke fez depois de t-la arrastado para aquele quarto? A senhora disse que ele a arrastou? - Ela meneou a cabea. - E no estava usando uma 
arma?
      Ela sacudiu a cabea o finalmente levantou os olhos para a plateia.
      - No. Apenas... apenas as mos. Esbofeteou-me vrias vezes e disse que me mataria se no fizesse o que ele queria.
      - E o que era?
      - Eu... ele... ele me forou a... ter... coito oral com ele... a... bem, a... fazer aquilo nele.
      Puxa, como voc faz parecer isso doloroso... Jessica teve vontade de esbofete-la de novo.
      - E a senhora o fez?
      - Fiz.
      - E ento? Ele... o Sr. Clarke teve um orgasmo? - Ela balanou a cabea. - Por favor, responda s perguntas.
      - Sim.
      - E ento?
      - E ento ele praticou sodomia comigo.
      Falou numa voz seca, montona, e Jessie pode sentir Ian crispar-se. Ela prpria sentia-se cada voz mais constrangida. Tinha contado com drama, no com essa 
recitao lenta o arrastada. Deus, como isso era humilhante. Como era soco o feio e horrvel. As palavras, os actos, os pensamentos, todos to velhos e tristes.
      - Ele gozou de novo?
      - Eu... no sei.
      Ela teve o bom gosto de enrubescer.
      - E a senhora?
      Ela arregalou os olhos, o Houghton e a jovem promotora observaram-na tensamente.
      - Eu? Ma como poderia? Ele... eu... ele me estuprou.
      - Algumas mulheres apreciam isso, Srta. Burton, mesmo a contragosto. E a senhora? - repetiu o juiz.
      - Claro que no!
      - Quer dizer que no sentiu gozo.
      Jessica estava comeando a apreciar o embarao da outra mulher.
      - No,  claro que no! No!
      Estava quase berrando, parecendo acalorada, zangada e nervosa.
      - Pois bem. E depois?
      O juiz parecia terrivelmente entediado e nada impressonado indignao da Srta. Burton.
      - Depois ele me estuprou de novo.
      - Como?
      - Ele... simplesmente me estuprou. Sabe... da maneira de costume, desta vez.
      Jessica quase teve vontade de rir. Um estupro "da maneira de costume"!
      - Ele a machucou?
      - Sim, claro que sim.
      - Muito?
      Mas ela estava olhando para baixo de novo, distante e pensativa e triste. Era nesses momentos que se deveria sentir pena dela. E por um instante Jessica se 
perguntou sobre as prprias reaces. Sob qualquer outra circunstncia, a histria que estava ouvindo a teria emocionado. Talvez at muito. Mas agora... agora, como 
podia filiar que a emocionasse? No acreditava naquela mulher. Mas, e se o juiz acreditasse? No tinha havido resposta  ltima pergunta dele.
      - Srta. Burton, perguntei se o Sr. Clarke a machucou muito?
      - Sim. Muito. Eu... ele... no se importou comigo. Simplesmente... simplesmente... - As lgrimas escorriam silenciosas pelo seu rosto e era como se ela estivesse 
falando de outra pessoa, no do Ian, um estranho completo que a estuprara. Por que se importaria Ou ela, se a estivesse estuprando? - No se importou que eu ficasse 
grvida, nem... nem nada. Simplesmente... simplesmente foi embora. - E agora as lgrimas viravam raiva de novo. - Conheo esse tipo, eles brincam com moas pobres 
como eu! Moas sem dinheiro, sem famlia chique, e ento eles... fazem o que ele fez.. vo embora... - A sua voz voltou a ser um sussurro, enquanto ela fitava cegamente 
o prprio colo. - Ele foi embora, e voltou para ela.
      - Quem? - O juiz parecia confuso, e a Srta. Burton ergueu os olhos de novo, com um ar ligeiramente atordoado no rosto. - Para quem ele voltou?
      - Para a mulher.
      Ela falou claramente, mas sem olhar para Jessica.
      - Srta. Burton, j conhecia o Sr. Clarke de algum lugar, antes disso? J esteve romanticamente envolvida com ele, antes?
      Com que ento o juiz tambm o percebera... uma leve sugesto de que Ian no era um estranho, afinal de contas.
      - No, nunca.
      - Ento, como soube da mulher dele?
      - Ele parecia casado. de alguma maneira, ele me contou.
      - Sei. E ele simplesmente a deixou no hotel, depois? - Ela fez que sim com a cabea, novamente. - O que fez, ento? Chamou a polcia? Foi a um mdico? Chamou 
um txi?
      - No. Andei, durante algum tempo. Sentia-me confusa. E depois fui para casa e me lavei. Sentia-me pssima.
      Agora dava-se para acreditar nela, de novo.
      - Foi a um mdico?
      - Depois que chamei a polcia.
      - E quando fez isso? No foi imediatamente, foi?
      - No.
      - Por que no?
      - Estava com medo. Tinha que pensar no assunto.
      - E tem certeza da sua histria, agora, Srta. Burton? Esta  toda a verdade? A histria que contou originariamente  polcia era um pouco diferente desta, 
no era?
      - No sei o que contei a eles, ento. Estava confusa. Mas esta agora  a verdade.
      - Est sob juramento agora, Srta. Burton, portanto espero que esta seja a verdade.
      -  - disse ela, balanando a cabea, o rosto sem expresso os olhos sem vida.
      - No h nada que queira modificar?
      - No.
      - E tem certeza que isso no foi um engano, uma paquera que deu errado?
      E ento subitamente o dio chamejou nos olhos dela de novo, e ela os apertou com fora, fechando-os.
      - Ele arruinou a minha vida.
      Sibilou as palavras na sala silenciosa.
      - Pois bem, Srta. Burton. Obrigado. Sr. Schwartz, alguma pergunta?
      - Algumas apenas, Meritssimo. E serei rpido. Srta. Burton, algo parecido j lhe aconteceu antes?
      - Como assim?
      - Quero dizer, j foi estuprada alguma vez, mesmo de brincadeira, como se fosse um jogo, por um amante, um namorado, um marido?
      - Claro que no.
      Ela parecia encolerizada.
      - J foi casada, alguma vez?
      - No.
      - Noiva?
      Novamente no houve hesitao.
      - No.
      - Nenhum noivado rompido?
      - No.
      - Algum amor srio que no deu certo?
      - Nenhum.
      - Est namorando agora?
      - No.
      - Obrigado, Srta. Burton. E quanto a interldios romnticos? J saiu com um estranho que paquerou na rua, antes?
      - No.
      - Ento a senhora concorda que paquerou o Sr. Clarke?
      - No! Eu... ele me ofereceu uma carona, e...
      - E a senhora aceitou, embora no o conhecesse. Acha que  sensato, numa cidade como San Francisco?
      A sua voz era educadamente preocupada, e Margaret Burton parecia zangada e confusa.
      - No, eu...  que... no, nunca sa com nenhum paquera de rua antes. E achei que... ele parecia ser legal.
      - O que quer dizer com legal, Srta. Burton? Ele estava bbado, no estava?
      - Um pouco alegre, talvez, mas no de porre. E ele parecia, um cara simptico.
      - Quer dizer rico? Ou elegante? Ou o qu? Como um diplomado por Harvard?
      - No sei. Parecia um cara legal.
      - E bonito? Acha que ele  bonito?
      - No sei.
      Estava olhando para o colo.
      - Pensou que ele talvez fosse se envolver com a senhora? Apaixonar-se?  uma suposio justa. A senhora  uma mulher bonita, por que no? Um dia quente de 
vero, um sujeito bonito, mulher solitria... quantos anos tem, Srta. Burton?
      - Trinta e um.
      Mas ela se atrapalhara.
      - A senhora disse  polcia que tinha 30. No ser na verdade 38? No  possvel que...
      - Objeco!
      A promotora estava de p, a cara furiosa, e o juiz concordou
      - Aceita a objeco. Sr. Schwartz, no estamos num julgamento, e o senhor pode bem guardar as suas tcticas de presso par mais tarde. Srta. Burton, no precisa 
responder a isso. J acabou Sr. Schwartz?
      - Quase, Meritssimo. Srta. Burton, o que estava usando no dia do seu encontro com o Sr. Clarke?
      - O que eu estava usando? - Parecia nervosa e confusa. El a estava bombardeando com perguntas difceis. - Eu... no sei.. eu...
      - Era algo parecido com o que est usando agora? Um costume? Ou algo mais leve, mais revelador? Algo provocante, quem sabe?
      A promotora estava de cara fechada de novo, e Jessica estava comeando a curtir a situao. Gostava do estilo de Martin. At mesmo Ian parecia entretido, quase 
satisfeito.
      - Eu... no sei. Acho que devia estar usando um vestido de vero.
      - De que tipo? Decotado?
      - No, no uso roupas desse tipo.
      - Tem certeza, Srta. Burton? O Sr. Clarke disse que esta usando um vestido rosa muito curto e decotado, com um chapu.. estava usando este mesmo chapu?  
um chapu muito bonito.
      Subitamente ela se viu dividida entre o elogio e a insinuao.
      - No uso rosa.
      - Mas o chapu  rosa, no ?
      -  mais de uma cor neutra, mais um bege.
      Mas havia urna tonalidade rosa no chapu. Era bvio a todos os olhos.
      - Sei. E quanto ao vestido? Tambm tinha uma tonalidade bege?
      - No sei.
      - Est bem. Vai sempre ao Enrico?
      - No, s estive l umas duas vezes. Mas sempre passo por l.
      - J tinha visto o Sr. Clarke l antes?
      - No. No me lembro de t-lo visto.
      Ela estava recobrando a pose. Essas perguntas eram fceis.
      - Por que disse a ele que era garonete topless na Broadway?
      - Nunca lhe disse isso.
      Agora estava com raiva de novo, e Martin balanou a cabea, com ar quase preocupado.
      - Est certo, obrigado, Srta. Burton. Obrigado, Meritssimo.
      O juiz olhou com um ar indagador para a promotora assistente, que sacudiu a cabea. No tinha nada a acrescentar. Ele fez sinal para Margaret Burton descer, 
depois falou as palavras que Jessica temia.
      - Sr. Clarke por favor, aproxime-se.
      Ian e Margaret Burton passaram a centmetros um do outro, as fisionomias sem expresso. Apenas alguns momentos atrs, ela dissera que ele tinha arruinado a 
sua vida, agora, no entanto, olhava para ele como se no o enxergasse. Jessica sentia-se mais confusa do que nunca com aquela mulher.
      O juramento foi feito, o juiz olhou por cima dos culos para Ian.
      - Sr. Clarke, quer nos dar a sua verso do que aconteceu?
      O juiz parecia excessivamente entediado, enquanto Ian contava os acontecimentos daquele dia. O almoo, os drinques, a carona, o modo provocante como ela se 
vestia, a sua histria do que era garonete topless, a viagem at Market Street para um endereo que da lhe dera, mas de que no se recordava mais. E, finalmente, 
o convite dela para irem at o seu quarto, onde tinham tomado um drinque o feito amor.
      - De quem era o quarto?
      - No sei. Imaginei que fosse dela. Mas estava meio vazio. sei. Eu tinha bebido muito na hora do almoo, no estava pensando com muita clareza.
      - Mas com clareza suficiente para subir com a Srta. Burton?
      Ian enrubesceu. Sentia-se como um colegial travesso chamado gabinete do director... Ian, voc levantou a saia da Maggie? Ora, ora! Mas no era nada disso. 
O que estava em jogo era alto demais ser considerado uma brincadeira de criana.
      - Minha mulher estava fora, j havia trs semanas.
      O corao de Jessica batia com fora do novo. Ento, era para culpa dela? Era isso o que insinuava? Era o que pensava, o que ela sentisse? Ela era a responsvel 
pelos sentimentos do insuficincia dele?
      - E o que aconteceu depois que tudo acabou?
      - Fui-me embora.
      - Sem mais nem menos? Pretendia ver a Srta. Burton do novo? 
      Ian fez que no com a cabea.
      - No. No pretendia v-la de novo. J me sentia culpado o diabo pelo que tinha acontecido.
      Martin franziu a testa ante a resposta, o Jessie se crispou. O tambm percebera a palavra.
      - Culpado?
      - Quero dizer, por causa da minha mulher. No costumo fazer esse tipo do coisa.
      - Que tipo de coisa, Sr. Clarke? Estupro?
      - No, pelo amor de Deus, no a estuprei! - Berrara a sul negativa e gotculas de suor brilhavam-lhe na testa. - Quero dizer eu me sentia culpado por estar 
traindo a minha mulher.
      - Mas o senhor forou a Srta. Burton a subir para o quarto de hotel?
      - Eu, no. Ela me levou l para cima. Era o quarto dela, no meu. Ela me convidou a subir.
      - Para qu?
      - Para tomar um drinque. E provavelmente para exactamente o que teve.
      - Ento, por que supe que ela alega que a estuprou?
      - No sei.
      Ian parecia confuso o exausto, e o juiz sacudiu a cabea e correu os olhos pela sala.
      - Senhoras o senhores, nem eu. O propsito dessa audincia  determinar se houve algum mal-entendido, se o problema pode ser resolvido simplesmente aqui e 
agora, determinar se realmente ocorreu um estupro, e se o caso merece ateno judicial posterior.  minha funo decidir se arquivo a aco ou a envio para uma instncia 
superior para ser julgada. Para tomar a deciso de arquivar o caso, tenho que estar absolutamente certo de que claramente ai houve um estupro.
      "No caso de me sentir incapaz de decidir, do assunto no estar claro, ento no tenho opo excepto envi-lo para um tribunal superior, e possivelmente um 
jri, para a deciso. E me parece que este caso que se nos apresenta no  simples. As histrias das duas partes so amplamente divergentes. A Srta. Burton diz estupro, 
o Sr. Clarke diz que no. No h provas nem num sentido, nem no outro. Portanto, temo que este caso ter que passar a uma instncia superior, presumivelmente com 
um julgamento por jri. Simplesmente no podemos arquivar o assunto. Srias alegaes foram feitas. Proponho que o assunto seja encaminhado  Corte Superior, e que 
o Sr. Clarke seja citado na Corte Superior daqui a duas semanas no tribunal do Juiz Simon Warberg. A sesso est encerrada.
      Sem mais delongas, levantou-se e saiu da sala. Jessica e Ian se levantaram e se entreolharam, confusos, enquanto Martin remexia em alguns papis, por um momento. 
Margaret Burton foi retirada da saia pelo Inspector Houghton.
      - E agora? - Jessica perguntou a Ian, num sussurro.
      - Voc ouviu o homem, Jess... vamos a julgamento.
      - .
      Olhou por um ltimo momento para as costas em retirada da tal Burton, um dio renovado a encher-lhe a alma por essa mulher que estava inexplicavelmente destruindo-lhe 
as vidas. Ela no sabia agora mais do que h trs horas. Por qu?
      - Bem, Martin? - Jessica agora virava-se para Martin. Ele estava com ar muito srio. - O que voc acha?
      - Vamos discutir no meu escritrio, mas estou farejando uma coisa que no me agrada. No posso ter certeza, mas tive um caso assim uma vez, h muitos anos. 
Um caso maluco com uma queixosa maluca. Tinha a ver com vingana. No contra o cara que ela disse que tinha estuprado, mas conta algum que a tinha estuprado quando 
era adolescente. Esperara 22 anos para tirar vingana contra um homem inocente. No sei lhes dizer por que, no passa de pressentimento, mas este caso me faz lembrar 
o outro.
      Falara num murmrio quase inaudvel. Jessica debruou-se para ele para escutar, e ficou intrigada pela sua idia. Tambm tivera uma estranha impresso a respeito 
da tal Burton. Ian ainda estava abalado demais para reagir a qualquer coisa. Ento, fitou Jessie com irritao estampada nos olhos.
      - Disse-lhe que esperasse l fora.
      - No pude.
      - . Tive um pressentimento que voc acabaria aqui dentro. Divertido, no foi?
      Parecia amargo e cansado. Eram as nicas pessoas no tribunal, olhou ao seu redor como se estivesse acordando de um sonho ruim. Tinha sido uma sesso exaustiva, 
e at mesmo Jessica sentia como se tivesse envelhecido cinco anos durante a manh.
      - Quando ser o julgamento? - perguntou a Martin. No sabia direito o que dizer a Ian; havia tanto a dizer; coisas demais.
      - Daqui a seis semanas. Ouviu o juiz dizer que a citao da Corte Superior  daqui a duas. O julgamento ser quatro semanas depois dela. E vamos ter que trabalhar 
muito depressa. - Martin estava com um ar do intensa sobriedade, e Jessica estava louca para perguntar-lhe como se sara o outro cliente, aquele que fora acusado 
de estupro pela mulher que queria vingana, mas tinha medo de saber. Ian tambm no fizera a pergunta, e Martin no oferecera a informao. - Quero o Green no caso 
dia e noite, e vocs dois disponveis para reunies sempre que eu os chamar.
      A sua voz era severa.
      - Estaremos disponveis. - Jessie falou primeiro, tentando no transparecer lgrimas na voz. - Vamos ganhar, no vamos,
      Ainda sussurrava, mas no sabia ao certo por qu. No era mais necessrio.
      - Acho que vai ser um caso difcil,  a palavra dela contra a sua, Ian. Mas, sim, devemos ganhar.
      Mas no soava confiante o bastante, aos ouvidos de Jessie, e o peso integral da situao pousou do novo sobre o seu corao. Como tudo acontecera? Onde comeara? 
Ser que fora mesmo apenas porque ela ficara em Nova York tempo demais? Fora apenas uma questo do necessidade sexual? Fora azar? Seria a tal Burton uma espcie 
de luntica que andava atrs de qualquer um, ou o Ian fora realmente escolhido? De quem era a culpa? E quando aquilo tudo terminaria?
      - Eles vo revogar a fiana do Ian?
      Aquele tinha sido o seu terror constante. E do Ian.
      - Podem revogar, mas no vo. No h motivo para isso, enquanto ele continuar a aparecer no tribunal, e o juiz no tocou no assunto. Mas nenhum dos dois pode 
fazer qualquer viagem agora. Nem viagens do negcios, nem pequenos sumios, nem visitas  famlia no Leste. Fiquem por aqui mesmo; vou precisar do vocs. Certo?
      Balanaram a cabea, com ar solene, e enquanto Martin os acompanhava lentamente para fora do tribunal, Jessie pensou no que ele dissera. Famlia? Que famlia? 
Os pais de Ian eram to velhos e fraquinhos que seriam as ltimas pessoas a quem procurariam. Ela e Ian j tinham concordado com isso. Os pais dele eram to certinhos 
e meigos, e velhos demais para entender o que se passava. Era o seu nico filho, e isso sem dvida os mataria. Alm disso, por que contar-lhes? Tudo ia dar certo. 
Tinha que dar.
      Ian e Jessie apertaram a mo de Martin e ele os deixou de lado de fora da sala. Fora uma manh interminvel.
      - Temos um minuto para dar uma parada no banheiro?
      Jessica olhava nervosamente para Ian. Sentia-se estranha e pouco  vontade com ele, como se algum acabasse de lhes contar que ele estava com cncer. No tinha 
certeza se devia chorar, encoraj-lo, ou simplesmente sair correndo e se esconder. No tinha nem mesmo certeza do que estava sentindo.
      - Claro. Acho que fica no corredor. Eu tambm estou precisando ir. - No conseguiam conversar com naturalidade. Ia ser difcil achar o caminho de volta. Mas, 
enquanto desciam o corredor ele a reteve subitamente e virou-se para olhar para ela, segurando-a pelo brao. - Jessie, no sei o que dizer. No fiz aquilo, mas estou 
quase me perguntando se realmente tem importncia. No aguento ver o que isso est fazendo a voc. Eu fui um imbecil completo por duas horas, e voc  quem est 
pagando o preo.
      Ela deu um sorriso cansado, como resposta.
      - E quanto a voc? Por acaso est curtindo isso? Meu bem, estamos metidos nisso, agora, e temos que continuar andando at poder sair.  isso a. E, por amor 
do Deus, no v desistir.
      Estava olhando para. ele com uma ternura que ele no vira o dia todo. Abraou-o enquanto ficavam parados no longo corredor de mrmore e ele a tomou nos braos 
sem dizer palavra. Precisava dela desesperadamente, e ela sabia disso.
      - Vamos l, meu gato, tenho que mijar. - Ela falou com voz rouca sensual, e Ian sorriu para ela enquanto desciam o corredor, do mos dadas. Havia algo muito 
especial entre eles. Sempre houvera e sempre haveria... se pudessem sobreviver ao que lhes estava acontecendo agora. - Volto num segundo.
      - Deu-lhe uma beijoca no pescoo, apertou-lhe a mo e desapareceu no toalete das senhoras.
      L dentro, entrou num dos reservados e trancou a porta. Havia mulheres dos dois lados do reservado. Um par de sapatos de plataforma vermelhos e calas azul-marinho 
 esquerda, tornozelos esguios o sapatos pretos simples de entrada baixa  direita. Jessica. endireitou as meias, alisou a saia e destrancou a porta no mesmo momento 
que os sapatos pretos saam da porta  direita. Lanou um olhar despreocupado naquela direco enquanto se dirigia para a pia, e a ficou imobilizada, grudada ao 
cho, fitando o rosto de Margaret Burton.... fitando-o de cima para baixo, na verdade, devido  diferena de altura... o chapu rosa-plido apenas obscurecendo levemente 
a sua viso do rosto da inimiga.
      Margaret Burton ficou muito quieta, fitando-a tambm, e Jessica sentiu as suas entranhas ficarem frias. Ela estava bem ali  sua frente... ao alcance das suas 
mos... agarre-a... bata nela... mate-a... mas no conseguia se mexer. Ouviu-se apenas o som de um inspirao rpida enquanto a Burton voltava a si do choque e saa 
correndo para a porta, o chapu voando suavemente o caindo aos ps de Jessie. Levara apenas alguns segundos, mas pareciam horas, dias, anos... e ela sumiu, enquanto 
Jessie ficava ali parada, impotente, as lgrimas comeando a escorrer pelo seu rosto. Abaixou-se muito lentamente e pegou o chapu, antes de caminhar vagarosamente 
at a porta. Podia ouvir algum batendo nervosa e desesperadamente. Era Ian. Tinha visto Margaret Burton sair voando porta afora quando saa do banheiro dos homens, 
do outro lado do corredor. E, subitamente, ficou apavorado. O que acontecera? O que Jessica tinha feito?
      Ela apareceu silenciosamente, o chapu na mo, as lgrimas no rosto.
      - O que aconteceu? - Jessica apenas sacudiu a cabea, agarrada ao chapu. - Ela fez alguma coisa? - Sacudiu a cabea de novo. - E voc? - Outro no silencioso. 
Ah, meu bem. - Tornou-a nos braos o tirou-lhe o chapu da mo, jogando-o um banco prximo. - Vamos dar o fora daqui e ir para casa.
      Na verdade, ele ia tir-la da cidade. Para o inferno com o Martin dissera, eles precisavam sair dali. Carmel, quem sabe. quer lugar. Perguntava-se por quanto 
tempo mais Jessica agiu a presso. Por quanto tempo ele aguentaria. O chapu no banco parecia olhar para ele acusadoramente enquanto ele tomava a mulher nos braos, 
e ele estremeceu. Era o chapu que ela tinha usado naquele dia no Enrico. Aquele dia... o dia pelo qual iria pagar durante anos, de um modo ou de outro. Manteve 
um brao ao redor dos ombros de Jessica e conduziu-a devagar para o elevador. Tinha vontade de derramar a alma dentro da dela, mas nem mesmo estava certo se tinha 
o bastante para si mesmo, que diria para outra pessoa. Queria que aquele horror estivesse terminado, mas apenas comeando.
      Quando o elevador chegou, ela entrou nele, silenciosamente. Os seus olhos estavam grudados na porta, e Ian teve vontade sacudi-la. Estava vendo que ela fugia 
de novo; j tinha visto essa mscara antes.
      O elevador cuspiu-os para o caos do saguo. Estava cheio policiais e inspectores, advogados particulares e promotores assistentes e gente esperando na fila 
para obter passes para a cadeia. Ian e Jessica fundiram-se nesse mar de gente. E aqui e ali via-se um rosto comum, despreocupado, algum que vinha pagar uma multa 
ou preencher um formulrio para registro de carro. Mas eram to poucos que se misturavam ao resto, e foi por esse motivo nem Jessica nem Ian viram Astrid, que vinha 
buscar um novo adesivo para substituir o que tinha cado das suas placas quando carro fora lavado. Eles estavam a curta distncia, e nem a viram. Mas ela os viu, 
e ficou horrorizada com a expresso no rosto deles. Passaram a menos de dois metros dela, e ela os deixou ir. Era a mesma expresso que ela ostentara quando os mdicos 
lhe haviam dito da gravidade do caso de Tom.

      
Captulo 13
      
      
      Na manh seguinte, Ian se decidiu. Jessica precisava ir para fora. Ambos precisam. E enquanto ela fazia o caf, ele se deu at ao trabalho de consultar Martin, 
por telefone. Martin concordou, e anunciou a Jessie como um fait accompli (facto consumado).
      - Ns vamos fazer o qu? - perguntou incrdula, descala do robe, parada na cozinha.
      - Vamos para Carmel daqui a meia hora. - Desta feita ele sorriu, quando falou. - Arrume as suas coisas, meu amor.
      - Voc est maluco. Martin falou...
      - ... para mandar-lhe um carto-postal.
      Ian sorriu vitoriosamente enquanto Jessica dava uma risadinha abafada.
      - E quando foi que falou isso? Ainda agorinha.
      - Voc ligou para ele?
      Ainda parecia dubitativa, mas divertida.
      - Acabo de desligar. Portanto, bem-amada - aproximou-se dela devagar, com um tnue sorriso - ponha logo esse belo rabinho para andar antes que a gente perca 
o dia.
      - Voc  biruta. - Beijou-a, e ela sorriu para ele de olhos fechados. - Mas um amor de biruta.
      Chegaram em Carmel em duas horas, com Ian ao volante do Morgan. O ar estava mais fresco nessa manh do que em multas semanas, e o dia esteve brilhante e ensolarado, 
durante toda a viagem. Arriaram a capota do Morgan e chegaram despenteados e mais felizes. Era quase como se o vento constante na auto-estrada houvesse varrido a 
preocupao das suas mentes. A viagem no tinha sido uma idia to m, afinal de contas, e depois dos primeiros 80 quilmetros Jessie parou de imaginar que o Inspector 
Houghton os estava seguindo. Ela vivia constantemente atormentada por ele, mas quem sabe agora isso ia parar. Era s que ele parecia omnipotente embora, mas depois 
podia voltar, com um mandado de busca, revlver, um amigo, uma expresso nos olhos... um crispar de boca... ele a aterrorizava, e no ousava contar a Ian o quanto. 
Nunca tocava no nome dele. Tambm estava preocupada com o custo da viagem, mas Ian insistira que tinha dinheiro o suficiente na sua conta para cobrir as despesas. 
Ele lhe ordenara que cuidasse da sua vida, e avisara que desta vez iam fazer tudo economicamente, nada de acomodaes de luxo. Sentia-se culpada, duvidando das suas 
afirmaes, mas agora estava obcecada com as finanas deles, e a futura despesa imensa do julgamento. E Ian era to estranho quando se tratava de dinheiro, talvez 
por que nunca tivesse tido nenhum. Costumava comprar-lhe presentes fabulosos e criar momentos magnficos quando estavam nitidamente sem fundos. Pegava o restinho 
do que tinha e jogava pela janela, em alto estilo. Antigamente, essa caracterstica a divertia. No momento, no divertia mais.
      Mas sentia-se agradecida pela viagem a Carmel. Sabia o quanto estava precisando dela. Os seus nervos estavam  beira de um colapso. E sabia que os de Ian tambm 
estavam, no importa o quanto ele tentasse disfarar.
      Astrid lhes falara de um hotelzinho onde se hospedara na primavera anterior, e que Insistia que era muito em conta. Assim, deixaram de lado as delcias de 
luxo do familiar Del Monte pela atmosfera aconchegante de xadrez e pinho do L'Auberge. Era dirigido por um casal francs de meia-idade, e entre os seus prazeres 
constava um "Caf Cemplt" na cama, pela manha. O Caf Complt consistia em croissants e brioches feitos em casa com caf au lait fumegante.
      Andaram at a praia e vasculharam as lojas e no sbado fizeram um piquenique na beira de um rochedo que dava para o mar.
      - Mais vinho, amor?
      Ian fez que sim e afastou uma longa mecha de cabelos louro dos olhos dela. Estavam deitados lado a lado, e ela fitava o cu enquanto ele se apoiava num cotovelo 
e olhava para ela. Alisou-lhe o rosto com os dedos e beijou-a suavemente nos lbios, nos olhos, na ponta do nariz.
      - Se fizer isso, jamais vou me levantar e pegar o seu vinho, meu amor. - Ele sorriu de novo e ela lhe jogou um beijo. - Sabe de uma coisa, Ian?
      - O qu?
      - Voc me faz muito feliz. - O rosto dele se anuviou enquanto ela falava, e ela segurou-lhe o queixo e forou-o a olhar para ela. - Falo a srio. Faz, mesmo.
      - Como pode dizer isso agora?
      - Porque agora no  diferente de outra hora qualquer, Ian Voc faz coisas lindas comigo. Me d o que eu preciso, e precise de muito. s vezes se paga um preo 
por isso. E est certo, agora est dureza, mas logo vai acabar. No pode continuar para sempre. Levando tudo em considerao, acho que temos um bocado de sorte.
      Ela se sentou e olhou-o de frente, e ele finalmente desviou os olhos.
      - Sorte, hein? Acho que  uma maneira de se encarar a coisa.
      Parecia amargo, e ela tomou-lhe a mo.
      - No se sente mais com sorte?
      - Eu me sinto. Mas, e voc, Jessie, de verdade? Seja sincera.
      Olhou de novo para ela com uma expresso desconhecida nos olhos, uma espcie de franqueza que a assustava: como se estivesse questionando tudo. Ela. Ele prprio. 
Eles. A vida. Tudo. 
      - Sim, sinto-me com sorte.
      A voz dela era um sussurro ao vento fresco do dia ensolarado outubro.
      - Jessica, meu amor, fui infiel a voc. Fiz amor com outra mulher. Uma vagabunda neurtica, mas outra mulher. H quase seis anos que voc me sustenta. No 
sou um escritor bem-sucedido. E estou prestes a ser julgado por estupro, posso ir para a priso, e mesmo que no v, esta vai ser a coisa mais feia pela qual j 
tive que passar. E voc se sente com sorte? Como consegue essa proeza?
      Ela olhou para as mos por longo tempo, depois ergueu os para o rosto dele.
      - Ian, no me importo se voc fez amor com outra mulher. No gosto, mas no me importo. No muda nada. No para mim. No v voc deixar que mude qualquer coisa. 
No suponho que a sido a primeira vez, mas no quero saber. No  este o ponto o que interessa , e da? Com que ento voc fez amor com outra e dai? Com que ento 
voc tocou uma punheta, e da? No me importo. Isso faz algum sentido para voc? No me importo. Importo-me com voc, connosco, com nosso casamento, com a sua carreira. 
E eu no o "sustento". A Lady J sustenta a ns dois. Temos sorte em t-la, e um dia desses voc vai vender um livro, um filme e outro livro e uma pilha de trabalhos 
brilhantes e ganhar uma fortuna. Portanto, qual  o problema?
      - Jessica, voc  maluca.
      Ele sorria para ela, mas seus olhos ainda estavam srios. 
      - No, no sou. E falo a srio. Voc me faz feliz. Voc me luminosa, faz com que me importe comigo, faz com que saiba sou amada, est sempre ali para mim. 
Sabe quem sou e o que sou e por que sou, melhor at mesmo do que eu. Ian, isso  to raro. Olho para as outras pessoas e elas no parecem ter o que temos.
      Os olhos dela agora pareciam arder, estavam da cor do jade.
      - No sei o que dizer, Jessie... eu a amo. E preciso de voc, tambm. No apenas para me sustentar enquanto escrevo. Preciso... ah, que diabo sorriu, mais 
para si mesmo do que para ela - preciso de voc sentada de bunda de fora e ar solene s duas da manh, me dizendo por que o meu quarto capitulo no est dando certo. 
Preciso do jeito com que voc entra pela porta adentro com aquele ar de "Ah, puxa!" no rosto... do jeito com que sabe, do jeito com que... me respeita, mesmo quando 
eu no me respeito.
      - Ah, Ian.
      Deslizou para os braos dele de novo e fechou os olhos enquanto ele a segurava.
      - Preciso muito de voc, meu bem. Mas... alguma coisa vai ter que mudar.
      Os olhos dela se abriram devagar. Ele acabara de dizer uma coisa importante. Ela o sabia pela mudana no jeito com que ele a segurava, mais do que pelas palavras.
      - O que quer dizer?
      - Ainda no sei. Mas alguma coisa tem que mudar, depois do sobrevivermos a esse holocausto que vamos ter que enfrentar nos prximos dois meses.
      - Como assim, porra? Mudar o qu?
      A sua voz ficou inesperadamente estridente, e ela se afastou um pouco dele para poder ler em seus olhos.
      - V com calma, Jessie.  s que acho que est na hora de uma reviso. No sei, quem sabe est na hora de arquivar as minhas idias fantsticas sobre uma carreira 
de escritor. Ou alguma coisa. No podemos  continuar exactamente assim. De certa forma, no d certo.
      - Por que no?
      - Por que me sinto inibido. Voc paga as contas, ou a maioria delas, e eu j no posso viver desse jeito. Sabe o que  a gente no ter renda? Sentir-se culpado 
cada vez que mete a mo na "caixinha", na nossa "conte conjunta", para comprar um par do camisetas? Tem alguma idia de como me sinto vendo voc pagar a conta por 
esse desastre que est acontecendo? Vendo-a pagar pelo meu pretenso "estupro"? Jesus, Jessie, isso me sufoca. Est me instando. Por que afinal acha que tenho estado 
impotente? Porque estou to encantado comigo pelo jeito com que ando dirigindo a minha vida?
      - Voc no pode levar isso a srio. Est sob uma tenso incrvel actualmente.
      Ela queria deixar o assunto de lado, mas ele no estava disposto a isso.
      - Tem razo. Estou sob forte tenso. Mas parte da tenso  porque no acertamos as coisas como devem ser acertadas. J pensou no que aconteceria se voc no 
tivesse a Lady J, ou se seus s no lhe tivessem deixado dinheiro?
      - Eu estaria trabalhando para outra pessoa, voc estaria trabalhando em publicidade, e detestando. Parece divertido?
      - No. Mas, e se voc no trabalhasse, e eu estivesse trabalhando em outra coisa?
      - No que, por exemplo?
      O rosto de Jessie pareceu petrificar-se, ao dizer essas palavras. 
      - No sei. Essa parte ainda no resolvi.
      - Ian, voc est maluco. Nunca o vi trabalhar tanto num livro como tem trabalhado nesse, nunca o ouvi ter tanta certeza a respeito de qualquer coisa que tenha 
escrito. E agora quer desistir?
      - No disse isso. Ainda no. Mas talvez. O que estou dizendo o que aconteceria connosco, com o nosso casamento, se voc no nos sustentasse, Jessie, mas, sim 
eu? E se guardssemos o seu dinheiro apenas como investimento?
      - E o que eu faria o dia todo? Croch? Jogar bridge? 
      - No. Eu estava pensando em outra coisa Quem sabe para mais tarde.
      Havia algo suave e distante nos olhos dele, enquanto falava. 
      - Que outra coisa?
      - Bem... que tal se finalmente tivssemos filhos... depois que toda essa confuso tiver acabado,  claro. H muito tempo que no falamos nisso. No desde antes... 
- Ela sabia o que ele queria dizer com "antes". Antes das coisas terem mudado. Antes pais dela terem morrido. Antes dela ter herdado o dinheiro deles... antes. Esta 
nica palavra dizia tudo. Ambos o sabiam. - Jessie, meu bem... quero tomar conta de voc. Alm disso, voc
      - Por qu?
      - Como assim, por qu?
      Ele ficou momentaneamente confuso.
      - Por que devemos remexer em tudo agora? Por que voc deve de repente ficar com a carga toda? Eu adoro trabalhar; para mim no  carga.  divertimento.
      - As crianas tambm no podem ser divertidas? 
      - Eu no disse isso.
      O rosto dela estava retesado como um tambor.
      - Mas?
      - Oh, por Deus, Ian, por que temos que comear com isso agora?
      H anos que no se tocava nesse assunto.
      - Eu no falei que era agora. Estvamos apenas conjecturando.
      - Isso  ridculo.  como fazer brincadeirinhas.
      Virou-se, e de repente sentiu a mo de Ian no seu brao. Com fora.
      - No estou fazendo brincadeirinhas. Falo a srio, Jessie. Virei uma porra de um gigol, nesses ltimos seis anos. Sou um fracasso como escritor e agora trepei 
com uma vagabunda barata o estou sendo falsamente acusado de estupro. Estou tentando equacionar o que significa alguma coisa na minha vida, e o que no significa, 
e o que precisa ser mudado. E talvez parte do que precisa ser mudado seja ns dois. No  talvez. Sei que precisa. Agora, vai escutar, e falar comigo, ou no? - 
Ela ficou calada, olhando para ele. Mas sabia que no tinha escolha. Soltou o brao dela e serviu mais duas taas de vinho. - Desculpe. Mas isso  importante para 
mim, Jess.
      - Est bem. Vou tentar. - Ela pegou a taa de vinho e soltos um profundo suspiro enquanto erguia os olhos para o cu. - Tudo isso porque eu lhe disse que voc 
me faz feliz? era essa... devia ter ficado de boca fechada!
      Sorriu para ele, que a beijou de novo.
      - Eu sei. Sou um filho da me. Mas Jessie... eu quero que d certo com a gente. Quero que seja melhor. No quero continuar a trepar com outras mulheres, ou 
a me odiar ou... Isso importa. Importa de verdade. E ainda bem que a fao feliz, voc tambm me faz feliz. Muito feliz. Mas ainda pode ser melhor do que isso, sei 
que pode. Tenho que me sentir como seu marido, como um homem, sentir que carrego o fardo, ou pelo menos a maior parte dele, nem que isso signifique vender a casa 
e morar num outro lugar em que eu possa pagar o aluguel. Mas preciso fazer essas coisas para voc. Estou cansado de t-la "cuidando" de mim. E no estou querendo 
parecer ingrato, Jess, mas... simplesmente preciso, porra.
      - Tudo bem. Mas por qu? Por que agora? Por causa daquela mulher idiota? Margaret Burton? Por causa dela voc tem que parar do escrever e fazer a gente ir 
morar em algum barraco onde voc possa pagar o aluguel?
      Ela agora estava ficando ferina, e ele no estava gostando. O comentrio acertara em cheio.
      - No, meu bem. Margaret Burton  apenas um sintoma, como as 100 ou 200 trepadas antes dela.  assim que voc quer discutir, Jessie? Com grosseria ou civilizadamente? 
pode escolher. Estou disposto a seguir a sua deixa.
      Ela engoliu o resto do vinho de uma s vez o deu de ombros.
      - No estou entendendo onde quer chegar.
      - Vai ver que a est o ponto. Como quando eu falo em termos um filho. Voc tambm no entende onde quero chegar nesse caso, no ? isso no significa alguma 
coisa para voc, Jessie?
      Ela sacudiu a cabea com ar solene, olhando para baixo, evitando-lhe os olhos. Ele continuou:
      - No compreendo isso. Por qu? Olhe para mim, porra. Isso  importante para mim. Para ns dois.
      Mas, quando ela ergueu os olhos, ele ficou surpreso.
      - Isso me assusta.
      - Um beb? - Jamais o admitira antes para ele. Geralmente ficava irritada e encerrava o assunto rapidamente. Aquilo o fazia sentir ternura por ela. Assustada? 
- Fica assustada fisicamente?
      Pegou a mo dela com carinho e a segurou.
      - No. Ele... eu teria que compartilhar voc, Ian, e... no posso. - Os seus olhos estavam cheios de lgrimas e o queixo tremia quando olhou para ele. - No 
posso mesmo compartilhar voc, Ian. No posso, nunca. Voc  tudo que tenho. Voc ....
      - Ah, meu bem... - Tomou-a nos braos e embalou-a suavemente, as lgrimas aflorando-lhe aos olhos, tambm. - Que coisa maluca de se pensar. Um beb no  desse 
jeito. Jamais seria. Ns somos especiais. Um beb seria algo a mais, no menos.
      - , mas seria seu. Famlia de verdade.
      E ento ele compreendeu. Ele, tinha os pais,  claro, mas estavam to distantes, to velhos. Quase nunca os via. Mas um beb eira to presente, to real.
      - Voc  a minha famlia de verdade, boba. Sempre ser a minha famlia de verdade.
      Quantas vezes tinha lhe dito isso, depois, da morte dos pais dela? Mil vezes? Dez mil? Era estranho voltar a pensar naqueles dias, Jessica era to ferozmente 
independente e autoconfiante, quando se casara com ela. Mas amava os pais e adorava o irmo; escut-la falando deles era como ouvir reminiscncias de amigos muito 
queridos que tinham se divertido muitssimo juntos. E ficar junto com eles era uma experincia extraordinria... quatro pessoas tremendamente bem-apessoadas, com 
inteligncia viva, riso fcil e disse incomensurvel. Tinham sido fora de srie. E quando morreram, parte dela foi junto. No uma parte evidente. Ainda tinha muito 
esprito, muita vida, muita classe, mas subitamente, na sua alma, era rf. Amava Ian antes, mas no precisava dele da mesma forma. Depois se tornara uma criana 
amedrontada numa zona de perra, abalada, assustada, vagueando dos escombros de uma recordao para a outra. Perdida e solitria. A tentativa de suicdio viera depois 
de Jake. E deixara-a diferente. Dependente. Fora Ian quem a conduzira para a segurana depois disso. Foi ento que comeou a referir-se a ele como "famlia de verdade". 
A intimidade deles antes era uma malha de trama solta e brilhante, mas de repente deixou de ser solta, e com o correr dos anos ficara apertada alm da conta. E agora 
no sobrava espao no seu corao nem para uma criana. H muito tempo que ele sabia disso, mas pensara que o pnico terminaria por ceder. No cedera, agora estava 
certo disso. As necessidades dela ainda eram muito intensas, e provavelmente sempre seriam. Era uma coisa amarga para ele aceitar.
      - , Deus, Ian, eu o amo tanto e tenho tanto medo... tenho um medo fodido.
      Ele a sentiu nos braos de novo, voltou a concentrar-se nela, fugindo dos prprios pensamentos. Ela inspirou fundo e abraou-o com fora enquanto ele alisava 
devagar o seu cabelo, pensando no que agora compreendia e tinha que aceitar. Tinha. Nada jamais iria mudar isso. Sim, algumas coisas mudariam, e ele ia se propor 
a fazer as mudanas, mas ela jamais conseguiria ficar plantada nos dois ps de novo, no inteiramente, no o bastante para os dois tentarem ter um filho.
      - Eu tambm estou com medo, Jess. Mas vai dar tudo certo.
      - Como pode dar certo se voc vai mudar tudo depois de passarmos por isso? Quer que eu venda a loja, tenha um beb, e voc vai parar de escrever e arranjar 
um emprego e fazer a gente mudar de casa e... ah, Ian, parece horrvel!
      Soluou nos braos dele de novo e ele riu baixinho enquanto a abraava. Quem sabe ela era tudo o que ele precisava. Quem sabe at no era normal para um homem 
desejar um filho tanto quanto ele desejava. Quem sabe era s para satisfazer o seu ego. Afastou essas idias da cabea.
      - Puxa vida, e eu falei que ia mudar tudo isso? Tem razo, parece uma barra. Talvez devamos apenas escolher duas coisas, como eu ter um beb e voc arranjar 
um emprego, e... Desculpe, meu bem, no pretendia jogar em cima de voc dez mil coisas a uma. S sei que alguma coisa est precisando de conserto.
      - Mas, tudo isso?
      - No, provavelmente no tudo isso. E a no ser que voc concorde comigo. Caso contrrio, no daria certo. Ambos temos que querer.
      - Mas voc faz parecer como se a nossa vida jamais fosse ser a mesma de novo.
      - Talvez no seja, Jessie. Talvez no deva ser. Alguma vez pensou nisso?
      - No.
      - E nem vai pensar, no ? Olhe s para voc, toda encolhida feito uma squaw ndia, tentando no escutar nada do que estou lhe dizendo, com uma formiga subindo 
pelo brao...
      Esperou. Levou meio segundo. Ela se ps de p com um salto, gritando:
      - Uma o qu?
      - Ora... ora... como pude me esquecer?  mesmo, voc tem medo de formigas.
      Passou a mo de leve na manga dela enquanto se punha de p, ao seu lado, e ela o socava no peito.
      - Puta que o pariu, Ian Clarke! Estamos tendo uma conversa sria, e como voc pode fazer isso comigo! No havia nenhuma formiga, havia? Havia?
      - E eu iria mentir para voc?
      - Eu o odeio!
      Ainda estava tremendo com uma mistura confusa de emoes, terror e fria e medo por causa da formiga, e as emoes muito mais reais de momentos antes. Ele 
inventara a formiga para aliviar a tenso. Ian tinha jeito para isso.
      - Como assim, me odeia? Voc disse que eu a fazia feliz.
      Era a prpria imagem da inocncia, enquanto a abraava.
      - No me toque! - Mas estava frouxa nos seus braos, e tentando com esforo disfarar um sorriso. - Sabe... - a voz dela estava macia de novo - s vezes me 
pergunto se voc me ama de verdade.
      - s vezes todo mundo se pergunta essas coisas, Jess. No Se pode ter as garantias firmes que voc deseja, meu bem. Eu a amo tanto quanto os seus pais a amaram, 
tanto quanto o Jake amou, tanto quanto... qualquer um. Mas no sou eles. Sou eu, seu marido, um homem, assim como voc  a minha mulher, no a minha me. E talvez 
um dia voc enjoe de mim e desaparea ao pr-do-sol com outro sujeito. As mes no fazem isso com os filhos, mas as mulheres s vezes fazem. Tenho que aceitar isso.
      - Est tentando me dizer alguma coisa?
      Ficou subitamente rgida nos braos dele.
      - No, boba, apenas que a amo. E que apenas posso ser e fazer at um certo ponto. Acho que estou tentando dizer-lhe para no ser to insegura e no se preocupar 
tanto. s vezes acho que esse  o motivo pelo qual voc aguenta tanta merda da minha parte, e paga as contas e todo o resto, porque assim voc sabe que me tem. Mas 
vou lhe contar um segredo... assim voc no me tem. Na verdade, voc me tem, mas por todos os outros motivos.
      - Como, por exemplo?
      Ela estava sorrindo de novo.
      - Ah... como o jeito lindo que tem de costurar.
      - Costurar? Eu no sei costurar.
      Olhou para ele de modo estranho, depois comeou a rir.
      - No sabe?
      - Neca.
      - Eu ensino.
      - Voc  adorvel.
      - Por falar nisso, madame, a senhora tambm . O que me lembra de uma coisa. Enfie a mo no meu bolso.
      As sobrancelhas dela se arquearam, com interesse, e sorriu maliciosamente para ele.
      - Uma surpresa para mim?
      - No, a minha conta da lavanderia.
      - Nojento.
      Mas ela enfiava a mo com cuidado no bolso do palet dele enquanto falavam, os olhos brilhando de entusiasmo. Foi fcil achar a caixinha quadrada. Tirou-a 
com um amplo sorriso e agarrou-a com fora.
      - No vai abrir?
      - Esta  a melhor parte.
      Deu nova risadinha, e ele sorriu para ela.
      - Juro que no  o diamante Hope.
      - No?
      - Ora, qual !...
      E ento ela subitamente abriu a caixa. E ele ficou observando.
      - Ah... a... , Ian! Seu biruta! - Deu uma risada ruidosa e olhou de novo para a caixa. - Em nome de Deus, onde o conseguiu?
      - Eu o vi, e soube que tinha que ser seu.
      Ela riu de novo, e comeou a colocar a jia. Era um cordozinho fino de ouro com um pingente de ouro em forma de um feijo-lima. A coisa que ela mais detestava 
no mundo quando era criana.
      - Santo Deus, nunca pensei que chegaria o dia em que usaria uma droga dessas. E de ouro, ainda por cima.
      Riu de novo, beijou-o, e baixou o queixo para olhar para o pequeno berloque de ouro na corrente.
      - Na verdade, est muito elegante. Se voc no soubesse o que era, jamais adivinharia. Eu podia escolher entre um feijo comum, um feijo-lima e um outro tipo 
de feijo. So todos feitos pelo mesmo artista chique, deixe que lhe diga.
      - E voc o viu numa vitrina?
      - . E pensei que se voc tem f como um gro de mostarda, pode mover montanhas, e coisa e tal. Portanto, porra, se voc tem f como um feijo-lima provavelmente 
pode mover metade do mundo.
      - Qual metade?
      - Qualquer uma, dona boa. Venha, vamos voltar para o hotel.
      - Feijo-lima... meu bem, voc  maluco. Posso lhe perguntar qual a poro da sua fortuna que este feijo-lima sensacional lhe custou?
      Notara que era ouro 18 quilates e que a caixa era de uma loja muito extravagante.
      - De modo algum. Como pode perguntar uma coisa dessas?
      - Curiosidade.
      - Bem, no seja curiosa. E faa-me um favor. No o coma.
      Ela riu de novo e mordeu-lhe o pescoo enquanto ele estendia a mo para pegar o resto do vinho.
      - Meu bem, nisso voc pode apostar. Nunca na minha vida vou comer feijo-lima. Nem mesmo de ouro.
      E ento os dois desataram na risada, porque isso fora exactamente o que ela lhe dissera da primeira vez em que ele preparara um jantar para ela na casa dele, 
oito anos antes.
      Preparara carne de porco assada, pur de batatas e feijo-lima. Ela devorara a carne e as batatas, mas ele a descobrira enfiando rapidamente o feijo-lima 
dentro da bolsa quando chegara da cozinha trazendo o copo d'gua que ela pedira. Erguera os olhos para ele, espalmara as mos, desatara a rir e dissera:
      "- Ian, nunca na minha vida vou comer feijo-lima. Nem que seja de ouro puro."
      E este era exactamente de ouro puro. Durante uma pequena fraco de segundo, o estmago dela se revirou, ao pensar na despesa. Mas assim era o Ian. Iam entrar 
pelo cano em alto estilo. Com piqueniques e paixo e ouro.
      
      
      O resto do fim de semana foi passado com esprito de frias. Jessica exibia o seu feijo-lima de ouro em todas as oportunidades possveis, e eles implicavam 
um com o outro, e se abraavam e beijavam. L'Auberge fez a vida amorosa deles retornar ao que sempre fora. Jantaram  luz de velas no quarto... um banquete de galinha 
frita para viagem de um restaurante prximo, devorado com uma pequena garrafa de champanha que haviam comprado ao lerem para o hotel. Riam como crianas e brincavam 
como um casal em lua-de-mel, e as ameaas da manh foram esquecidas. Tudo foi esquecido, excepto Ian e Jessie. Eram as nicas pessoas que contavam.
      A nica tristeza, e era oculta, era a esperana de Ian de ter um filho, agora posta de lado. Insana e desesperadamente tinha vontade de gerar um filho agora, 
antes do julgamento, antes... e se... quem sabia o que estava por vir? Dali a um ano Ian poderia estar na priso, ou morto. No era uma maneira alegre de encarar 
as coisas, mas as realidades estavam comeando a dar-lhe medo. E as possibilidades ainda eram mais apavorantes quando ele se permitia pensar nelas. Um beb seria 
a grama nova nascendo em meio s cinzas. Mas agora que entendia o pnico que Jessie ainda sentia, o assunto a encerrado. Os livros dele eram os seus filhos. Simplesmente 
teria que se esforar muito mais no novo livro.
      No domingo, Jessie comprou para Ian um chapu de Sherlock Holmes e um cachimbo do espiga do milho. Racharam um banana split de almoo, depois alugaram uma 
bicicleta para dois e andaram por porto do hotel, rindo da sua falta do preciso Jessica desabou quando se viu de cara com um morro.
      - Como assim, "no"? Vamos Jessie, fora!
      - Fora, porra nenhuma. Faa voc. Eu vou andando.
      - Nojenta.
      - Olhe para aquele morro. O que acha que sou? Tarzan?
      - Puta que o pariu, olho para as suas pernas. So compridas o bastante para subirem aquele morro correndo e me carregando, que dir andando de bicicleta.
      - Cavalheiro, o senhor  um monstro.
      - Ei... olhe para aquela aranha na sua perna.
      - Eu... o qu?... Aaahhh... Ian! Onde? - Mas ele estava rindo dela, e quando ergueu os olhos, compreendeu. - Ian Clarke, se fizer isso comigo mais uma vez, 
Eu... - Ela gaguejava e ele ria com mais fora do que nunca. - Eu... - Ela lhe deu um baita soco no ombro, derrubando-o da bicicleta e fazendo-o cair na grama alta 
junto da trilha. Mas ele estendeu a mo e agarrou-a enquanto ria dele, e puxou-a para junto de si. - Ian, aqui no! Provavelmente h cobras aqui! Ian! Que merda! 
Pare com isso!
      - Nada de cobras. Juro.
      Enfiava a mo na blusa dela com uma expresso lasciva que a fez achar graa.
      - Ian... estou falando a srio... No! Ian... 
      Esqueceu das cobras quase imediatamente.
      
      
Captulo 14
      
      
      - Bem, que tal acharam o meu esconderijo favorito Carmel?
      Com um sorriso, Astrid enfiou a cabea pela portado escritrio de Jessica.
      - Adoramos. V entrando. Que tal um pouco de caf?
      O sorriso de Jessie dizia tudo. Os dois dias em Carmel tinham sido uma ilha de paz num mar turbulento.
      - Vou deixar o caf para outra hora, obrigada. Vou para a cidade falar com os advogados do Tom. Talvez eu passe por aqui de novo na volta para casa.
      Jessica mostrou-lhe o feijo-lima de ouro, contou-lhe resumidamente o fim de semana, e jogou um beijo para Astrid quando ela e foi. Durante o resto do dia, 
a Lady J foi uma loucura completa.
      Havia entregas, novos clientes, fregueses antigos que queriam uma roupa nova, mas que precisavam dos ajustes "imediatamente", facturas que se perderam e dois 
carregamentos de que Jessie precisava desesperadamente nem sequer apareceram. E Katsuko no podia ajudar, porque estava atolada nos detalhes para o desfile de modas. 
Ento, Zina fazia malabarismos com os fregueses enquanto Jessie tentava resolver os problemas. E as contas. As duas semanas seguidas foram semelhantes.
      Harvey Green apareceu duas vezes na boutique para discutir coisas de pouca monta com Jessie, tais como os hbitos de Ian e dela prpria, mas ela teve pouco 
para lhe contar. O mesmo com o Ian. Viviam uma vida simples e nada tinham a ocultar. As duas moas na boutique ainda no sabiam o que estava acontecendo, e as semanas 
desde os sumios frenticos e errticos de Jessie da loja tinham sido turbulentas demais para perguntas. Imaginaram que o problema, fosse qual fosse, tivesse se 
resolvido. E Astrid cuidava de no se intrometer.
      Ian estava perdido no seu novo livro, e as duas aparies subsequentes no tribunal correram muito bem. Como Martin previra, a fiana no foi revogada. Nem 
sequer se tocou no assunto. Jessica fez companhia a Ian nas duas vezes em que foi ao tribunal, mas nada houve para ver. Ele se dirigia para a frente da sala com 
Martin, resmungavam por alguns momentos diante do juiz e depois iam todos embora. A esta altura aquilo j era uma parte comum da rotina das duas vidas; tinham outras 
coisas em que pensar. Jessie estava preocupada com parte da linha de outono que no tinha vendido, outro carregamento que no aparecera, e o dinheiro que escorria 
feito gua da sua conta bancria. Ian estava preocupado com o captulo nove, e incoerente sobre qualquer outro assunto. Era isso de que tratava a vida real deles, 
no de aparies mecnicas diante de um juiz entediado.
      Um ms mais tarde, Harvey Green apresentou a primeira parte da sua conta: 1.800 dlares. A conta foi mandada para a boutique, como ela pedira, e Jessica soltou 
uma exclamao abafada quando a abriu. Sentiu-se quase mal. Mil e oitocentos dlares. Por nada. ele no descobrira coisa nenhuma, excepto o nome de um homem com 
quem Margaret Burton tinha ido jantar duas vezes, e com quem nunca dormira. Peggy Burton parecia estar limpa. Os seus colegas do trabalho achavam que era uma mulher 
decente, no muito socivel, mas digna de confiana, e agradvel de se lidar. Vrios mencionaram que ela ocasionalmente ficava distante e sorumbtica. No tinha 
casos de amor trridos no passado, nenhum problema com txicos, nenhum vcio de beber digno de nota. Jamais voltara para qualquer hotel em Market Street desde que 
Green comeara a vigi-la, nem recebera qualquer homem no seu apartamento desde o comeo da vigilncia. Ia para casa sozinha todas as noites depois do trabalho; 
fora a trs cinemas num ms, novamente sozinha; e uma tentativa de paquer-la num nibus falhara totalmente. Um assistente de Green lanara-lhe olhares durante vrias 
quadras, tendo recebido um olhar encorajador como resposta, dissera ele, mas depois recebera um firme "No, obrigada, meu chapa" quando a convidara para ir tomar 
um drinque. Falou que ela at parecia puta com ele por t-la convidado. Na pior das hipteses, estava confusa... Na melhor, s perdia em pureza para a Virgem Maria, 
e o caso de Ian ia ficar muito sem substncia, no tribunal. Tinham que encontrar algo. Mas no encontraram. E agora Harvey Green queria 1.800 dlares. E eles nem 
podiam dispens-lo. Martin dissera que a tal Burton teria que ser vigiada at a hora do julgamento, possivelmente at durante esto, embora tanto ele quanto Green 
admitissem que a polcia provavelmente lhe tinha dito que se comportasse. A Promotoria no queria que o seu caso entrasse pelo cano por causa de uma trepada ocasional 
que a Srta. Margaret Burton pudesse dar algumas semanas antes do julgamento.
      Green nem conseguira levantar alguma sujeira no seu passado. Ela fora casada uma vez, aos 18 anos, e o casamento fora anulado alguns meses depois. Mas ele 
no sabia por que, ou com quem se tinha casado. Nada. E no havia registro dele, e fora provavelmente por esse motivo que ela no admitira o casamento na audincia 
liminar. (O que ele apurara, soubera por uma mulher com quem Burton trabalhava.) Jessie estava pagando era por um atestado de ficha limpa daquela mulher.
      Jessie ficou sentada  escrivaninha, fitando a conta de Green, e abriu o resto da sua correspondncia. Uma demonstrao de conta de Martin pelos 5.000 que 
ainda deviam, e nove demonstraes de contas de Nova York pelas suas compras para a linha de primavera. A conta pelo check-up de Ian h dois meses, ainda por pagar, 
de 242 dlares, e o seu prprio raio X de trax, de 40, assim como uma conta de 74 dlares de uma loja de discos onde se esbaldara antes de ir para Nova York. Enquanto 
se sentava ali, perguntava-se o que a fizera pensar que 74 dlares em discos no era uma barbaridade. Ainda se lembrava de dizer isso ao Ian, na poca. ... no 
duma barbaridade se de repente voc no se depara com 10.000 dlares em contas de advogados e ....... e a florista... e a lavanderia... e a farmcia... sentiu o 
estmago contrair-se enquanto tentava no somar as quantias. Estendeu a mo para o telefone, olhou para o carto no caderninho de endereos e telefonou.
      Ligou para o banco antes de se dirigir ao encontro marcado, e teve sorte, mais ou menos. Baseado no comportamento anterior da sua conta, o banco estava disposto 
a deixar o emprstimo sem a cobertura da garantia. Podia vender o carro. Secretamente, torcia para que eles no fossem deixar. Mas, agora, no tinha escolha. Vendeu 
o Morgan s duas da tarde. Por 5.200 dlares. O sujeito dou-lhe "uma colher de ch". Depositou o cheque no seu banco pites dele fechar, e mandou um cheque seu para 
Martin Schwartz pelos 5.000 dlares. Ele estava pago. Aquilo j estava resolvido. Agora podia respirar. H semanas que vinha tendo pesadelos com uma coisa lhe acontecendo 
e ningum podendo ajudar o Ian com as contas... fantasias horrveis de Ian suplicando o dinheiro para Katsuko, e sendo recusado porque ela queria o dinheiro para 
comprar quimonos para a loja, enquanto Barry York ameaava arrastar Ian de volta  cadeia. Agora, estavam salvos. Os honorrios do advogado estavam pagos. Se alguma 
coisa lhe acontecesse. Ian estava amparado.
      A seguir, tomou emprestado 1.800 dlares da conta comercial de Lady J para pagar os honorrios de Green. Estava de volta  sua mesa s trs e meia... com uma 
dor de cabea de rachar. Astrid apareceu s quatro e meia.
      - No est com uma cara muito boa, Lady J. Alguma coisa errada?
      Astrid era a nica que a chamava assim, e ela deu um sorriso cansado.
      - Voc acreditaria que tudo est errado?
      - No. Mas... h alguma coisa especial que queira me contar?
      Astrid sorvia o caf que Zina lhe servira, e Jessie suspirou e balanou a cabea. 
      - No h muito que contar. A no ser que voc tenha umas 600 horas sobrando para escutar, e eu no tenho tantas para lhe contar, de qualquer maneira. Que tal 
foi o seu dia?
      - Melhor do que o sou. Mas no me arrisquei. Levantei s 11 horas e passei a tarde no cabeleireiro.
      Jesus. Como poderia lhe contar? Como  que a Astrid poderia entender?
      - Vai ver que foi a que errei. Eu mesma lavei o cabelo ontem  noite.
      Deu um sorriso torto para a amiga, mas Astrid no sorriu. Estava preocupada. H semanas que Jessie parecia cansada e perturbada, e no havia nada que pudesse 
dizer.
      - Por que no encerra as suas actividades e vai para casa para junto do seu lindo maridinho? Que diabo, Jessica, se ele fosse meu nem por um decreto ou ficava 
aqui.
      - Sabe de uma coisa? Acho que tem razo - Foi o primeiro sorriso de verdade que Jessica deu o dia todo. - Est indo para casa? Quer me dar uma carona?
      - Cad o seu beb?
      - O Morgan? - Tentou desconversar. No queria mentir. mas... Astrid fez que sim, o Jessie sentiu uma dor no corao. - Eu... est na oficina.
      - Tudo bem. Eu lhe deu uma carona.
      
      
      Ian viu Astrid deix-la em casa da janela do estudo, e uma cara intrigada. De qualquer maneira, estava na hora de dar uma paradinha... estivera trabalhando 
corrido desde as sete da manh. Abriu a porta para Jessie antes que ela pegasse a sua chave.
      - Cad o carro? Deixou-o na boutique?
      - ... eu... - Ergueu os olhos para ele e quase pode a cor sumir do rosto. Tinha que contar-lhe. - Ian, eu... eu o vendi.
      Crispou-se ante a expresso no rosto dele. Tudo parou.
      - Voc o qu?
      Era pior do que ela temia.
      - Eu o vendi. Querido, foi preciso. Todo o resto est comprometido. E precisvamos de quase 7.000 dlares nas prximas duas semanas para os honorrios de Martin 
e a primeira metade da comi do Green, e Green vai nos cobrar o restante daqui a duas semanas. No havia mais nada que eu pudesse fazer.
      Estendeu a mo para toc-lo e ele a afastou.
      - Podia ao menos ter falado comigo! Me perguntado, dito alguma coisa... pelo amor de Deus, Jessica, no me consulta mais sobre nada? Eu lhe dei aquele carro 
de presente. Significava alguma coisa para mim!
      Cruzo a sala em largas e agarrou o usque. Derramou um pouco num copo, enquanto ela olhava.
      - Acha que no significava para mim? - A voz dela tremia, no ouvia, e ela ficou vendo enquanto engolia o meio copo de usque puro. - Querido, sinto.. no 
tinha outra...
      Ficou calada, com lgrimas nos olhos. Lembrava-se to bem do dia em que ele o trouxera para ela. Agora...
      Ele terminou de engolir a bebida e vestiu o palet.
      - Aonde vai?
      - Sair.
      O rosto dele parecia de mrmore cinzento.
      - Ian, por favor, no faa nenhuma loucura.
      Estava assustada com a expresso nos olhos dele, mas ele apenas ficou ali parado, e sacudiu a cabea.
      - No preciso fazer nenhuma loucura. J fiz.
      A porta bateu s suas costas, um momento mais tarde.
      
      
      Ele voltou  meia-noite, silencioso e submisso, e Jessica no lhe perguntou onde estivera. Tinha medo de perguntar: quem sabe o inspector Houghton iria fazer-lhes 
outra visita. Mas odiou-se por ter pensado assim quando viu Ian tirar os sapatos. Dois morrinhos do areia saram de dentro deles, e ela olhou para o seu rosto. Parecia 
melhor. Sempre haviam feito isso juntos... ido  praia de noite conversar, ou para pensar, ou apenas para caminhar juntos, tranquilamente. Ele a levara para l quando 
Jake morrera. Para a praia deles. Sempre juntos. Agora ela estava com medo at mesmo de estender a mo e toc-lo, mas queria, precisava faz-lo. Ele olhou para ela 
em silncio, entrou no banheiro e fechou a porta. Jessie apagou a luz e enxugou duas lgrimas do rosto. Sentiu o pingente do feijo-lima na garganta e tentou forar 
um sorriso, mas conseguiu. J no conseguiam mais rir do um feijo-lima, agora, no conseguiam mais rir de nada, e quem sabe... um dia ela tambm poderia vender 
o berloque de ouro. Odiou-se enquanto jazia escuro.
      Ouviu a porta do banheiro se abrir, e depois as passadas suaves de Ian, e depois a cama vergar na outra ponta. Ficou sentado ali pelo que parecia um longo 
tempo, fumando um cigarro. Encostou-se na cabeceira da cama e esticou as longas pernas. Conhecia todos os movimentos dele sem olhar, e ficou muito quieta, querendo 
que ele pensasse que estava dormindo. No sabia o que lhe dizer.
      - Tenho uma coisa para voc, Jess.
      A voz dele era spera e baixa na quietude do quarto.
      - Como um soco na boca?
      Ele riu e colocou a mo no quadril de Jessie quando ela m deitou de lado, dando-lhe as costas.
      - No, boboca. Vire-se.
      Ela sacudiu a cabea feito criana, depois espiou por cima do ombro.
      - No est zangado comigo, Ian?
      - No, estou zangado comigo. No havia mais nada que voc pudesse fazer. Sei disso.  s que me odeio por ter metido ns dois nessa enrascada, o preferia ter 
vendido um monte de outras coisas, menos o Morgan.
      Ela balanou a cabea, ainda sem saber o que dizer.
      - Sinto muito.
      - Eu tambm. - Debruou-se e beijou-a de leve na bocas depois colocou algo leve e arenoso na mo dela. - Tome. Achei-a no escuro.
      Era um perfeito dlar de areia, uma concha branca-leitosa com uma marca de fssil pequenina bem no centro.
      - Ah, querido, que linda.
      Sorriu para ele, segurando-a na palma da mo aberta.
      - Eu te amo.
      E ento, com um sorriso lento e meigo, tomou-a nos braos deixou que os seus lbios seguissem uma trilha deliciosa at as suas coxas.
      
      
      As duas semanas seguintes voaram loucamente. Horas na loja, almoos demorados em casa, discusses violentas sobre quem no estava molhando as plantas, o depois 
fazer as pazes e fazer amor, e insnia, e dormir demais, e esquecer de comer, e depois comer demais, o indigestes constantes e terror quanto s contas, segui pela 
compra de uma carteira Gucci carssima para o Ian ou saia de camura de outra loja para Jessie, quando podia t-la conseguido a preo de custo na sua prpria, e 
bobaginhas e bagulhos, tudo a crdito,  claro, como se o dia do ajuste de contas jamais fosse chegar. Uma loucura completa. Nada daquilo fazia sentido. Jessie se 
sentia h semanas como se estivesse ricocheteando das paredes, e que jamais ficaria parada de novo. Ian tinha a impresso de que estava se afogando.
      Foi na vspera do julgamento que tudo finalmente parou. Jessie tomara providncias na loja para tirar uma semana de folga, duas, fosse necessrio. Saiu da 
boutique cedo e foi dar uma longa caminhada antes de ir para casa para o Ian. Encontrou-o sentado numa cadeira, pensativo, olhando a paisagem. Era a primeira vez 
que no o via trabalhando furiosamente no novo romance. Era s o que parecia fazer agora, quando no estava gastando dinheiro, ou possuindo o corpo dela, silenciosa 
e urgentemente. Conversavam menos do que nunca, agora. At mesmo as refeies eram desastres mudos. ou frenticas e desesperadas... nunca normais.
      Mas, naquela noite, acenderam a lareira e ficaram conversando at tarde. Sentia como se no o visse h meses. Finalmente estava conversando com o Ian de novo, 
o homem a quem amava, seu marido, seu amante, seu amigo. Havia sentido falta da sua amizade, mais do que tudo, nessas semanas solitrias o interminveis. Tinha sido 
a primeira vez em que no tinham conseguido de verdade tocar um ao outro e ajudar. Agora, partilharam um jantar tranquilo, matados no cho diante da lareira. A paz 
que sentiam fazia o julgamento parecer menos apavorante. E a realidade da coisa tinha se diludo nas semanas desde que Ian fora libertado da priso. A priso tinha 
sido a realidade. Entregar o anel de esmeraldas da me tinha sido a realidade. Mas, o que era o julgamento? Uma mera formalidade. Uma troca verbal entre dois actores 
pagos, o deles e o do Estado, com a assistncia de um rbitro de vestes negras, e ao fundo, num canto qualquer, uma mulher que ningum conhecia chamada  Margaret 
Burton. Uma semana, talvez duas semanas, e depois tudo acabaria. Essa era a nica realidade.
      Ela se deitou de costas no tapete diante da lareira e sorriu para com ar de sono, enquanto se inclinava para beij-la. Foi um beijo longo e profundo que trouxe 
de volta a ternura que haviam do e fez o corpo dela suplicar para corresponder, e dentro de alguns minutos estavam fazendo amor esfaimadamente. Foi uma as raras 
noites em que corpos e almas se misturavam e pegavam o ardiam durante horas. Falaram pouco, mas fizeram amor s vezes. Estava quase alvorecendo quando Ian depositou 
Jessica, sonolenta, na cama deles.
      - Eu a amo, Jessie. V dormir, agora. Amanh vai ser um comprido.
      Sussurrou as palavras e ela sorriu para ele enquanto pegava no sono. Um longo dia? Ah... era verdade... o desfile de modas... ou ser que iam voltar do novo 
para a praia?... No conseguia se lembrar... um piquenique? O que era?
      - Eu tambm o amo...
      A voz dela foi sumindo enquanto adormecia ao seu lado, abra-a ele como uma criancinha. Alisou o brao dela suavemente enquanto ficava deitado ao seu lado, 
fumando um cigarro, e depois olhou para o seu rosto, mas no estava sorrindo. Nem estava com sono. Amava Jessie mais do que nunca, mas havia coisas demais na sua 
cabea.
      Passou o resto da noite numa viglia solitria. Observando a mulher, pensando os seus pensamentos, ouvindo-a respirar o murmurar, imaginando o que viria a 
seguir.
      Na manh seguinte, iria a julgamento por estupro.
      
      
Captulo 15
      
      
      O tribunal na Prefeitura era bem diferente da pequena sala onde fora realizada a audincia preliminar. Esse parecia um tribunal de cinema. Dourados, lambris 
de madeira, longas fileiras de assentos, a cadeira do juiz instalada numa plataforma, e a bandeira americana bem  vista de todos. A sala estava cheia de gente, 
e uma mulher chamava nomes, de um em um. Parou quando chegou aos 12. Estavam escolhendo os jurados.
      Ian sentava-se com Martin na frente da sala, na mesa destinada A defesa. A pouca distncia deles sentava-se um promotor-assistente diferente, com o Inspector 
Houghton a seu lado. Margaret Burton no estava  vista.
      Os doze jurados tomaram assento e o juiz explicou a natureza , julgamento. Algumas das mulheres pareceram surpresas e lanaram olhares para Ian, e um dos homens 
meneou a cabea. Martin tonou notas rpidas e observou atentamente os jurados em perspectiva. Ele tinha o direito de excluir dez pessoas do jri, e o promotor-assistente 
podia fazer o mesmo. Os rostos pareciam incuos, como aqueles das pessoas que a gente v num nibus.
      Martin contara a Ian e Jessie de manh cedo a natureza do jri que desejava. Nada de "solteironas" que ficariam chocadas com acusao de estupro, ou que poderiam 
se identificar com a vtima. No entanto, talvez fosse bom se apegarem a umas donas-de-casa de mdia que poderiam condenar a Burton por deixar que Ian paquerasse 
na rua. Os jovens poderiam ter simpatia pelo Ian, e ao o tempo podiam se ressentir da aparncia do casal, confortvel demais para a sua idade. Estavam andando numa 
corda bamba.
      Jessie fitou os 12 homens e mulheres da sua cadeira na primeira perscrutando os seus rostos e o do juiz. Mas logo que Martin levantou para interrogar o primeiro 
jurado em perspectiva, o juiz deu um recesso para o almoo.
      Foi um processo lento; s no final do segundo dia  que o tinha sido escolhido. Os jurados tinham sido interrogados pelos dois advogados quanto aos seus sentimentos 
sobre o estupro, seus empregos e companheiros, seus hbitos e o nmero de filhos que tinham. Martin explicara que pais de mulheres da idade da Srta. Burton tambm 
no seriam uma boa escolha; sentir-se-iam muito protectores em relao  vtima. Precisava-se considerar muitas coisas e alguma base inevitavelmente ficaria a descoberto. 
Mesmo agora havia duas pessoas no jri que no contavam com a aprovao integral de Martin, mas ele j se utilizara de todas as suas chances, e agora tinham que 
torcer pelo melhor. Martin usara um estilo de brincadeira tranquila para tratar com os jurados, e de vez em quando algum rira de uma resposta tola ou de uma piada.
      Finalmente, o jri fora escolhido. Cinco homens, trs aposentados e dois jovens, e sete mulheres, cinco de meia-idade e confortavelmente casadas, duas jovens 
solteiras. Isso fora um golpe do sorte. Esperavam que contrabalanasse dois dos aposentados de que Martin no gostara. Mas, de um modo geral, ele estava razoavelmente 
satisfeito, e Ian e Jessie imaginavam que tinha razo.
      Enquanto todos se retiravam do tribunal no final do segundo dia, Jessie sentia como se pudesse recitar a histria das vidas dos jurados durante o sono, enumerar 
as suas profisses e a dos seus companheiros. Teria reconhecido seus rostos numa multido de milhares, e se recordaria deles pelo resto da vida, mesmo que jamais 
os visse de novo depois daquele dia.
      Receberam o primeiro choque no terceiro dia. O promotor-assistente tranquilo que substitura a irritante promotora da audincia preliminar no apareceu no 
tribunal. Relatou-se  corte que tivera apendicite aguda durante a noite e que fora operado de apendicite supurada de manh cedo. Estava descansando confortavelmente 
no Hospital Mt. Zion, o que Jessica achou ser de pouco consolo. As notcias foram trazidas ao juiz por um dos colegas do homem doente, que estava cuidando de um 
caso no tribunal adjacente. Mas o Meritssimo podia ficar descansado porque uma substituta fora escolhida e chegaria a qualquer momento. Os coraes de Jessie e 
Ian cara lhes aos ps. A mulher da audincia preliminar voltaria ao caso. Parecera-lhes uma boa sorte incomensurvel quando ela no aparecera na abertura do julgamento, 
e agora...
      Martin inclinou-se para sussurrar qualquer coisa no ouvido Ian enquanto o juiz anunciava um pequeno recesso para espera a chegada da nova promotora-assistente. 
Todos ficaram de p, o saiu da sala, e muita gente comeou a se dirigir para os corredores Ainda era cedo, e at mesmo uma xcara de caf de uma das mquinas do 
corredor saberia bem. Era algo para fazer. Jessica podia sentir a depresso pesando-lhe sobre os ombros enquanto segura a pequena xcara de papel de caf fumegante 
e de aparncia malvola. S conseguia pensar naquela maldita promotora e em como a sua presena podia causar danos ao caso deles. Lanou um olhar a Ian, mas ele 
estava calado. E Martin tinha sumido.
      Ele lhes havia dito para no discutirem o caso no corredor durante os recessos ou o almoo, e de repente ficou difcil encontrar banalidades com as quais romper 
o silncio. E assim eles ficaram lados, mantendo-se bem juntos, com o ar de refugiados que esperavam um trem chegar, mas sem entender direito o que lhes estava acontecendo.
      - Mais caf?
      - H?
      Os pensamentos dela estavam no limbo.
      - Caf. Quer mais caf? - tentou Ian de novo. Mas ela apenas sacudiu a cabea com uma vaga tentativa de esboar um sorriso. - No se preocupe tanto, Jess. 
Vai dar tudo certo.
      - Eu sei.
      Palavras. S palavras. Sem sentido. Nada mais tinha sentido. Tudo era confuso, impossvel de compreender. O que estavam fazendo? Por que estavam parecendo 
convidados desajeitados num enterro? Jessica esmagou um cigarro no piso de mrmore e olhou o tecto. Era adornado e bonito, e ela o odiava. Era enfeitado demais. 
Fazia-a lembrar-se de onde estava. Na Prefeitura. O julgamento. Acendeu outro cigano.
      - Acabou de apagar um, Jess.
      A voz dele era baixa e triste. Tambm sabia o que estava acontecendo.
      - H?
      Olhou para ele com olhos apertados por entre a chama do isqueiro.
      - Nada. Vamos voltar?
      - Claro. Por que no?
      Tentou dar um sorriso brejeiro enquanto jogava a xcara de varia num grande cinzeiro de metal cheio de areia.
      Voltaram para o tribunal lado a lado, mas sem se tocar. Ian dirigiu-se devagar para a mesa que os isolava, a ele e a Martin, dos E Jessica o acompanhava com 
os olhos, observando-o, observando Martin rabiscar rapidamente anotaes num comprido bloco amarelo. O advogado perfeito, a imagem reflectida numa poa de sol espalhada 
bravamente sobre o piso de mrmore trabalhado. Fitou a luz por um minuto, sem pensar em nada, desejando apenas estar em lugar qualquer, e depois olhou distradamente 
para a mesa reservada  promotora-assistente. 
      L sentava-se ela. Matilda Howard-Spencer, alta, magra; tudo nela parecia cortante. Tinha uma cabea estreita com cabelos louros e curtos cortados  navalha, 
e mos longas e magras e geis que pareciam prontas a apontar dedos acusadores. Usava um sbrio costume cinza e camisa de seda cinza-plida, e seus olhos quase combinavam 
com o costume. Eram de um cinza-azulado, e duros e frios. Pernas longas e magricelas e a nica jia que usava era urna aliana de ouro fina. Era casada com o Juiz 
Spencer, cujo nome incorporara ao seu, e era o terror do escritrio do promotor. Os seus melhores casos eram os estupros. Nem Ian nem Jessie sabiam nada disso, mas 
Martin sabia, e sentira vontade de chorar quando a vira entrar no tribunal. Ela tinha a delicadeza e o encanto de uma machadinha acertando na mosca nos colhes. 
J a enfrentara num outro caso antes, e no vencera. Ningum vencia. O seu cliente cometera suicdio nove dias depois de iniciado o julgamento. Teria feito isso 
de qualquer maneira, provavelmente, mas mesmo assim... Matilda, querida Matilda. E tudo o que Ian e Jessie sabiam eram o que viam e o que sentiam.
      Ian viu uma mulher que o deixou nervoso enquanto parecia estar de tocaia dentro de uma jaula ao redor da sua mesa. Jessie viu uma mulher entalhada em gelo, 
e pressentiu algo que a encheu de medo. Agora no era um jogo. Era uma guerra completa. O simples modo como a mulher olhava para o Ian lhe dizia isso. Ela olhou 
feio para ele uma vez, e depois atravs dele diversas vezes, como se no fosse uma pessoa a quem se devesse prestar ateno, e consideravelmente menos do que um 
homem. Falou com Houghton num fluxo rpido de palavras, e ele balanou a cabea vrias vezes, depois levantou-se e afastou-se. Estava bem claro quem estava no comando. 
Jessica amaldioou o homem com apendicite. Essa mulher era um azar de que no estavam precisando.
      - Levantem-se todos...
      O juiz estava do volta ao seu lugar, e a tenso enchia os ares. Demonstrou um prazer bvio ao ver a nova adio  cena, o cumprimentou-a respeitosamente. Fantstico.
      Matilda Howard-Spencer fez alguns comentrios rpidos e amistosos para o jri, e todos pareceram reagir bem a eles. Podia inspirar confiana, assim como modo. 
A sua voz e o seu jeito transpiravam autoridade e no correspondiam  sua idade: no devia ter mais do que 42 ou 43 anos. Era algum com quem se podia contar, algum 
que cuidaria dos negcios, cuidaria do voc, cuidaria para que tudo funcionasse. Essa era uma mulher que podia lutar uma guerra, liderar um exrcito, e ainda dar 
um jeito do providenciar para que as crianas estudassem latim e lgebra. Mas ela no tinha filhos. Estava casada h menos de dois anos. A lei era seu amante. O 
marido era o nico amigo dela, e era um homem de 60 e pouco anos.
      A luta comeou com uma das testemunhas menos interessantes. O mdico que examinara a Burton subiu ao banco das testemunhas e no disse nada que prejudicasse 
Ian, nada que ajudasse Margaret Burton. Declarou apenas que a tinha examinado, que tinha havido relaes sexuais, mas que nada mais podia ser determinado alm disso. 
A despeito da insistncia de Matilda Howard-Spencer, ele se manteve fiel  sua afirmativa de que no havia provas de que tivesse sido empregada a fora. As objeces 
de Martin  insistncia excessiva dela foram logo abafadas, mas o testemunho era muito sem graa para fazer qualquer diferena. Tudo pareceu muito tedioso  Jessica, 
e depois de uma hora ela concentrou a sua ateno na listra de nylon vermelha do meio da bandeira. Era alguma coisa para fitar enquanto tentava flutuar para longe 
de onde estava... aquelas palavras soando interminavelmente... "crime infame contra a sodomia... estupro... coito... recto... vagina... esperma... era corno um guia 
infantil para a fantasia. Todas aquelas palavras terrveis que a gente procurava no dicionrio aos 14 anos, e que nos deixava excitados. Agora, ela tinha a chance 
de experimentar cada uma delas. Vagina. A promotora parecia gostar desta. E estupro. Dizia-a com um "E" maisculo.
      O dia finalmente terminou e eles foram para casa to silenciosamente quanto o haviam feito durante a semana. Era exaustivo apenas ficar ali, mantendo as aparncias 
para aqueles observadores do jri, ou para qualquer um que pudesse estai prestando ateno. Se voc franzisse a testa, o jri poderia pensar que estava com raiva 
- raiva do Ian - ou nervosa. Nervosa? No, querida, claro que no! Se sorrisse, significava que no estava levando a srio o processo. Se usasse a roupa errada, 
parecia rica. Algo muito alegre, e parecia irreverente. Sensual num tribunal? Num julgamento de estupro? Nem pensar. Vagina? Onde? No, claro que no tenho. No 
era mais nem assustador, apenas exaustivo. E aquela maldita mulher era implacvel, espremendo at a ltima gota cada palavra pensamento das testemunhas. E Martin 
era to cavalheiro, droga. Mas, agora, o que importava? Se eles conseguissem se manter acordados e aparecessem no tribunal sempre, logo tudo acabaria. Logo... mas 
parecia que tinha apenas comeado. Ainda havia vidas inteiras para continuar. Mal trocaram palavra durante o jantar, naquela noite, e Jessica estava ferrada no sono 
de roupo de banho antes que o Ian tivesse sado do chuveiro. Ainda bem; ele estava cansado demais para dizer qualquer coisa. E o que havia para dizer?
      Ela se espreguiou sonolenta no carro na manh seguinte, e sorriu cansadamente para a luz matinal contra os prdios.
      - Do que est sorrindo, Jess?
      - Uma idia maluca. Estava pensando que est parecendo quando saamos juntos para o trabalho em Nova York.
      Parecia pensativa, mas ele no sorriu.
      - No exactamente.
      - No. Temos tempo de parar para um cafezinho rpido?
      No tinham tido tempo de tomar caf em casa, e j estava tarde.
      -  melhor nos contentarmos com o caf da mquina l mesmo, Jess. No quero chegar atrasado. Podem considerar isso desrespeito, e revogar a minha fiana.
      Jesus. E tudo por causa de uma xcara de caf.
      - Tudo bem, amor.
      Tocou suavemente no ombro dele e acendeu um novo cigarro. O nico lugar em que no fumava agora era no tribunal.
      Enfiou a mo pelo brao dele enquanto subiam os degraus da Prefeitura, e tudo parecia alegre e brilhante e novo. Era esse tipo de manh, no importa os horrores 
que estavam acontecendo na vida deles. Quase parecia que Deus no estava sabendo. Continuava com o sol e os dias bonitos.
      Chegaram ao corredor diante do tribunal trs minutos antes da hora, e Jessica saiu correndo para a mquina de caf.
      - Quer um pouco?
      Comeou a dizer que no, mas depois fez que sim com a cabea. A azia dele no podia ficar muito pior do que j estava e que importncia isso tinha? Tirou a 
xcara da mo dela; tremia tanto que ela quase derramou o caf.
      - Meu bem, vai levar um ano para a gente ficar em forma de novo, depois disso.
      - Est se referindo aos meus adorveis tremores?
      Ele sorriu para ela, tambm.
      - J viu os meus?
      Estendeu a mo e ambos riram.
      - Riscos da profisso, acho eu.
      - De estuprador?
      Ela tentara parecer irreverente, mas ele no.
      - Qual , Ian, corta essa.
      Aquilo encerrou a breve conversa entre eles, e Jessica notou um movimento inusitado perto de uma porta sem nada escrito. Gente que ia e vinha. Quatro homens, 
uma mulher, o som de vozes, como se algum de importncia estivesse chegando.
      A movimentao chamou a ateno de Jessie, mas foi Ian quem ficou com cara estranha, a cabea inclinada para o lado, escutando atentamente. Queria perguntar-lhe 
o que estava acontecendo, mas no tinha certeza se devia. Ele parecia estar totalmente absorvido pelos sons e pelas vozes. E ento ouviu-se uma porta batendo rapidamente, 
e uma mulher usando um vestido simples de l branca dobrou a esquina. Jessica soltou uma exclamao abafada. Era Margaret Burton.
      A boca de Ian se abriu e fechou, mas nenhum deles se mexeu. Jessica ficou paralisada, sentindo-se abalada e fria, os olhos fitando penetrantemente Margaret 
Burton, que dera uma parada rpida, um ligeiro passo atrs, e depois se detivera com uma expresso de espanto no rosto, enquanto os trs ficavam parados ali. Parecia 
que o prdio inteiro tinha ficado em silncio, e eles eram as trs nicas pessoas que restavam no mundo. Nada se mexia... excepto o rosto de Margaret Burton. Lenta, 
muito lentamente, como uma mscara de cera se derretendo ao sol, o rosto dela se moldou num sorriso incrvel. Era um rctus de vitria, apenas para os olhos de Ian. 
Jessica observava-a, horrorizada, e ento, como se o seu corpo se movesse de moto prprio, lanou-se atabalhoadamente  frente e brandiu para a Burton a bolsa agarrada 
firmemente na mo.
      - Por qu? Por que, merda, por qu?
      Era um gemido lancinante de dor vindo do corao de Jessica. A mulher recuou um passo, parecendo espantada, como que acordando de um sonho, enquanto no mesmo 
momento Ian se lanava para a frente para agarrar Jessie. Algo terrvel podia ter acontecido. Ela estava com assassinato estampado nos olhos. E aquele grito de "Por 
qu?" ecoou repetidas vezes pelos corredores enquanto Margaret Burton fugia, os saltos dos sapatos batendo ruidosamente no corredor de mrmore enquanto Jessie soluava 
nos braos de Ian.
      Um bando de homens apareceu correndo rapidamente, depois se afastou ao ver apenas Ian e Jessie parados ali. No havia briga para separar, nada alm de marido 
e mulher discutindo, e a mulher numa boa choradeira. Mas Martin tambm ouvira os gritos, e por algum motivo, quando j ia entrar na sala, algo lhe dissera que seguisse 
os sons. E ento, vendo Margaret Burton entrar apressada por uma porta perto da sala do tribunal, soube que algo tinha acontecido. Encontrou Jessie tremendo sentada 
num banco, enquanto Ian tentava acalm-la.
      - Ela est bem? - Ian fez um ar sombrio, em resposta, e ficou calado. - O que aconteceu?
      - Nada. Ela... ns... acabamos de ter um encontro inesperado com a ilustre Srta. Burton.
      - Ela fez alguma coisa a Jessie?
      Martin rezava para que tivesse feito. Seria a melhor coisa que podia acontecer ao caso deles.
      - Ela sorriu.
      Jessie parou de soluar o tempo suficiente para explicar.
      - Sorriu? - indagou Martin, intrigado.
      - Foi. Como algum que tivesse acabado de matar outra pessoa e estivesse contente.
      - Vamos, Jess...
      Ian tentava acalm-la, mas sabia que ela estava certa. Fora exactamente assim que Margaret Burton parecera, mas eles eram os nicos que tinham visto.
      - Sabe muitssimo bem que era assim que ela estava parecendo.
      Tentou explicar para Martin, mas ele no fez nenhum comentrio.
      - Voc est bem, agora?
      Ela balanou a cabea, lentamente, e inspirou fundo.
      - Estou bem.
      - ptimo. Porque temos que entrar no tribunal. No queremos chegar atrasados.
      Jessica levantou-se, tropegamente, com os dois homens fitando-a com ar preocupado. Inspirou fundo de novo e fechou os olhos. Que manh pavorosa.
      - Jessie...
      - No. Deixe-me em paz e ficarei bem.
      Sabia o que Ian ia dizer. Queria que ela fosse para casa.
      Enquanto entravam no tribunal, notou algumas cabeas se virando e se perguntou quem tinha ouvido os gritos dela quando a Burton fugira pelo corredor. Tomou-se 
rapidamente claro quem ouvira. Mal haviam dado alguns passos para dentro da sala quando o Inspector Houghton se postou beligerantemente  frente deles, com uma expresso 
zangada no rosto, dirigida para Jessie.
      - Se fizer isso de novo, mando prend-la e revogarem a fiana de e to depressa que os dois vo ficar tontos.
      Ian parecia agoniado, e Jessica soltou uma exclamao abafada quando Marfins se meteu diante deles.
      - Fizer exactamente o que, Inspector?
      - Ameaar a Srta. Burton.
      - Jessica, voc ameaou a Srta. Burton?
      Martin olhava para ela como um pai olharia, perguntando  sua filhinha de cinco anos se tinha derramado o perfume da mame na privada.
      - No. Eu... eu gritei...
      - O que foi que gritou?
      - No sei.
      Ela falou "Por qu?". Foi s o que falou - completou Ian.
      - Isso no me parece uma ameaa, Inspector. E ao senhor? Para falar a verdade, ouvi a Sra. Clarke gritando essa palavra pelo corredor, e foi isso que me atraiu 
at o local.
      - Considero isso uma ameaa.
      Eu o considero um babaca. Jessie estava morrendo de vontade do diz-lo.
      - Na minha terra, Inspector, "por qu"  uma pergunta, no uma ameaa. A no ser que o facto de fazermos tal pergunta os ameace.
      E ento, sem mais uma palavra, Houghton girou nos calcanhares e voltou para a cadeira ao lado de Matilda Howard-Spencer. Mas no estava com uma cara muito 
boa, nem tampouco o Ian. Jessie podia senti-lo tremendo ao seu lado.
      - Vou matar aquele filho da puta antes disso terminar.
      Mas a expresso assumida por Martin deteve a ambos. Era aterradora.
      - No, porra, vocs vo ficar sentados aqui parecendo o Sr. e a Sra. Amrica nem que isso os mate. E imediatamente. Fui claro? Para ambos? Jessica, isso quer 
dizer voc, tambm. Sorriso, um belo sorriso. Qual ! Melhor do que isso. E segure o brao dela, Ian. Pombas, s o que nos falta agora  o jri pensar que h problemas. 
No h. Ainda. No se esqueam disso.
      E, com isso, dirigiu-se para a mesa na frente da sala com um ar de gravidade, mas no de preocupao. Sorriu para a promotora, e abrangeu a sala com um ar 
benevolente. Jessie e Ian no se saram to bem quanto ele, embora tentassem. E ainda tinham que suportar assistir o testemunho da Burton. Mas, estranhamente, depois 
daquele sorriso demonaco, ouvi-la falar no foi to ruim quanto temiam.
      Ela contou a histria agora to familiar enquanto se sentava comportadamente no banco das testemunhas. O vestido branco parecia terrivelmente puro, tremendamente 
refinado. Sentava-se to recatadamente que as pernas pareciam ter sido soldadas uma na outra pouco antes de entrar na sala, e Jessica notou que o seu cabelo agora 
estava tingido mais de castanho do que de vermelho. Se estava usando maquilhagem, era imperceptvel, e se tinha busto, tinha feito coisas notveis para faze-lo desaparecer. 
No parecia ter um corpo que chamasse ateno alguma.
      - Srta. Burton, quer nos contar o que aconteceu?
      A promotora-assistente estava usando um vestido negro extremamente sbrio, um contraste perfeito com o branco da testemunha. Era como uma cena tirada de um 
filme de segunda.
      A recitao que se seguiu parecia mesmo muito familiar. No final da histria da sua cliente, a promotora perguntou:
      - Alguma coisa parecida j lhe aconteceu antes?
      A testemunha deixou pender a cabea e mal conseguiu sussurrar:
      - No.
      Era um som suave, como o de uma folha caindo ao cho. e Jessie sentiu que as suas unhas se enterravam na palma das mos. Era a primeira vez na vida que odiava 
tanto uma pessoa. E sentada ali, fitando-a, tendo que escut-la, teve vontade do matar aquela mulher.
      - Como se sentiu depois que ele a deixou ali naquele hotel de segunda?
      Ah, Jesus.
      - Com vontade do me matar. Pensei nisso durante algum tempo. Foi por isso que demorei tanto a chamar a policia.
      Que actuao! Quase pedia uma ovao de p e um coro de bravos. Mas estava longe de ser divertido. Jessie sabia que Margaret Burton estava ganhando as simpatias 
do jri com o seu jeitinho recatado.
      O que Martin podia fazer agora? Se a fizesse em pedaos, o jri o odiaria. Reinquiri-la seria como andar de patins por um campo minado.
      Depois de mais de uma hora de testemunho, Matilda Howard-Spencer tinha terminado o seu interrogatrio, e chegou a hora de Martin comear. Jessica sentiu o 
estmago subir e depois cair rapidamente. Tinha vontade de segurar o Ian. No estava mais aguentando. Mas tinha que aguentar. E ficou imaginando o que ele estava 
sentindo, enquanto se sentava isolado do mundo. O acusado.
      O estuprador. Jessica estremeceu.
      - Srta. Burton, por que a senhora sorriu para o Sr. Clarke hoje de manh, do lado de fora desta sala?
      A primeira pergunta de Martin chocou a todos no tribunal, at mesmo a Jessie. O jri parecia atnito, enquanto Houghton fumegava e sussurrava algo para a promotora.
      - Sorrir?... Eu... ora... eu no... no sorri para ele
      Enrubescera e estava com ar absolutamente furioso, que no tinha nada a ver com a virgem de um momento antes.
      - Ento o que foi que fez?
      - Eu... nada, porra... eu... quero dizer.... ah, no sei o que fiz... - A virgem apareceu de novo, e ainda por cima indefesa. - Foi s que fiquei to chocada 
ao v-lo ali, e a mulher dele me chamou de um nome. Ela...
      - Foi? Do que ela a chamou? - Martin parecia imensamente divertido, e Jessie se perguntou se realmente estaria. Era difcil saber, com ele. Estava aprendendo 
isso mais a cada dia que passava.
      - Vamos, Srta. Burton, no seja tmida. Conte-nos do que ela a chamou. Mas no se esquea de que est sob juramento.
      Sorriu para ela e assumiu uma atitude de expectativa.
      - No me lembro do que ela me chamou.
      - No? Ora, se foi um encontro to traumtico, a senhora no se lembraria do que ela a chamou?
      - Objeco, Meritssimo!
      Matilda Howard-Spencer estava de p, com cara irritada. Muito.
      - Aceita.
      - Est bem. Mas s uma coisinha... no  verdade que a senhora olhou de soslaio para o Sr. Clarke, quase como se...
      - Objeco!
      A voz da promotora poderia ter quebrado concreto, enquanto Martin sorria angelicamente. Conseguira o seu objectivo.
      - Aceita.
      - Desculpe, Meritssimo. - Mas foi um bom comeo. E o resto da histria continuou monotonamente, depois disso. Como ela fora degradada, abusada, usada, humilhada, 
violada. As palavras estavam se tomando quase risveis. - O que a senhora esperava exactamente do Sr. Clarke?
      - O que quer dizer?
      A testemunha parecia altiva, mas confusa.
      - Bem, a senhora pensou que ia pedi-la em casamento naquele quarto de hotel, ou tirar um anel de noivado do bolso, ou... bem, o que esperava?
      - No sei. Eu... ele... pensei que ele s queria tomar uru drinque. J estava mesmo meio bbado.
      - Achou-o atraente?
      - Claro que no.
      - Ento por que quis tomar um drinque com ele?
      - Porque... ah, no sei. Porque achei que era um cavalheiro.
      Parecia encantada com a sua resposta,  como se ela dissesse tudo.
      - Ah! Ento foi isso, hein? Um cavalheiro. Ser que um cavalheiro a levaria a um hotel na Market Street?
      - No.
      - O Sr. Clarke a levou para um hotel na Market Street... ou a senhora o levou?
      Ela enrubesceu furiosamente, depois escondeu o rosto nas mos, murmurando algo que ningum escutou, at que o juiz mandou que ela falasse mais alto.
      - No o levei a parte alguma.
      - Mas foi com ele. Mesmo no o achando atraente. Estava com uma vontade especial de tomar aquele drinque com ele?
      - No.
      - Ento o que queria fazer?
      Uau. A pergunta quase fez Jessie sorrir. Linda.
      - Queria... queria... fazer amizade.
      - Amizade?
      Martin parecia ainda mais divertido. Ela estava fazendo papel de idiota.
      - No, amizade no. Ah, no sei. Queria voltar ao trabalho.
      - Ento por que concordaria em ir tomar um drinque com ele?
      - No sei.
      - Estava com teso?
      - Objeco!
      - Reformule a sua pergunta, Sr. Schwartz.
      - H quanto tempo no tinha relaes sexuais, Srta. Burton?
      - Tenho que responder a isso, Meritssimo?
      Ela olhou com ar splica para o juiz, que fez que sim com a cabea.
      - Tem, sim.
      - No sei.
      - Mais ou menos - insistia Martin.
      - No sei.
      A voz dela estava sumindo.
      - Aproximadamente. Muito tempo? No muito? Um ms... dois meses... uma semana? Alguns dias?
      - No.
      - No? Como assim, no?
      Martin estava comeando a parecer irritado.
      - Quero dizer, no, no alguns dias.
      - Ento quanto tempo? Responda  pergunta.
      - Algum tempo. - O juiz olhou feio para ela, e Martin comeou a chegar mais para perto. - Est bem, muito tempo - falou, finalmente. - Talvez um ano.
      - Talvez mais?
      - Talvez.
      - Foi com algum especial, da ltima vez?
      - Eu... no me lembro... eu... foi!
      Quase berrou a ltima palavra.
      - Algum que a magoou de alguma forma, Srta. Burton? Algum que no a amou como deveria, algum que...
      A voz dele era to suave que teria ninado um beba, e ento a promotora-assistente se ps de p e quebrou o encanto.
      - Objeco!
      Martin levou mais duas horas para terminar a reinquirio, e Jessica sentia como se fosse derreter e formar uma pequena mancha invisvel quando ela terminou. 
No conseguia sequer imaginar como Margaret Burton estaria se sentindo, enquanto era retirada, chorando, do banco das testemunhas. Foi assistida pelo Inspector Houghton 
enquanto Matilda Howard-Spencer rearrumava os seus papis. Jessica teve a impresso de que a austera promotora estava interessada no caso, no na vtima.
      O juiz anunciou um recesso e dispensou-os at segunda-feira. Por um momento ficaram todos parados no tribunal, entorpecidos; estava apenas na hora do almoo, 
mas Jessie tinha vontade de cair na cama e dormir durante um ano. Nunca se sentira to cansada na vida. Desgastada. E Ian parecia cinco anos mais velho do que pela 
manh.
      Quando deixaram o tribunal, com Martin a segui-los, Margaret Burton no estava  vista. Sara pela sala do juiz, e Martin imaginou que seria retirada por alguma 
outra sada mais discreta, para evitar novo encontro como o daquela manh. Tinha um pressentimento de que Houghton tambm no tinha muita confiana na mulher, e 
que no queria mais encrencas desnecessrias.
      Quando saram para o sol, Jessie se sentiu como se no o visse h anos. Sexta-feira. Era sexta-feira. O fim de uma semana interminvel, e agora dois dias inteiros 
s para eles. Dois dias e meio. E s o que ela queria era ir para casa e esquecer aquele local rococ do inferno onde as vidas deles pareciam estar chegando ao fim 
nas mos de uma louca. Era como uma pea grega... e o jri podia ser o coro.
      - No que est pensando?
      Ian ainda estava preocupado com ela, depois da exploso da manh. Agora mais do que nunca. O testemunho fora deprimente.
      - No sei. No estou certa de que ainda possa pensar. Estava s divagando.
      - Bem, vamos indo para casa, est bem?
      Conduziu-a suavemente at o carro, abriu a porta para ela, e Jessie se sentiu com 200 anos de idade enquanto deslizava para o banco do Volvo. Mas era familiar, 
era uma coisa deles. Precisava disso agora mais do que qualquer outra coisa. Tinha vontade de varrer da alma aquela manh inteira.
      - O que est achando, amor?
      Olhou para Ian por entre uma nuvem de fumaa de cigarro. enquanto ele guiava devagar para casa.
      - Como assim?
      Tentou fugir da pergunta.
      - Quero dizer, como acha que est indo o caso? O Martin falou alguma coisa?
      - No muito. Ele  muito reservado. - Ela meneou a cabea, do novo. No tinha dito muita coisa ao sarem, excepto que queria vi-los no seu escritrio no sbado. 
- Mas acho que tudo vai indo bem.
      Claro que sim. Tinha que ir.
      -  o que me parece, tambm.
      Pois sim! Cristo, parecia horrvel. Mas tinha que parecer. No .
      - Gostei do jeito do Martin.
      - Eu tambm.
      Ambos ainda achavam que iam vencer, mas agora estavam comeando a se dar conta do preo que teriam que pagar. No em termos de dinheiro, ou carros, mas de 
carne, entranhas, e alma.
      
      
Captulo 16
      
      
      No sbado de manh, Ian foi at o escritrio de Martin para discutir o seu testemunho, j que iria depor na semana seguinte. Jessica ficou em casa, com enxaqueca. 
Como um favor, Martin veio v-la em casa  noite, para discutir o seu prprio testemunho.
      E no domingo  tarde Astrid telefonou, quando estavam sentados feito dois zumbis, vendo filmes antigos na televiso.
      - Al, crianas. Que tal comer um espaguete na minha casa hoje  noite?
      Pela primeira vez, Jessie foi brusca com a amiga.
      - Desculpe, Astrid, mas no podemos.
      - Ora, vocs dois. Ocupados, ocupados, ocupados. Tenho tentado falar com voc a semana toda, mas voc no apareceu na loja.
      Merda.
      - Pois . Tive algum trabalho para fazer por aqui e estou ajudando o Ian a... fazer a correco final do seu livro.
      - Parece divertido.
      - . Mais ou menos. - Mas a sua voz no dava substncia  mentira. - Ligo para voc na semana que vem. Mas obrigada pelo convite.
      Mandaram-se beijos e desligaram e Jessica admirou-se do facto do ningum estar sabendo o que estava acontecendo. Parecia incrvel que os jornais no o tivessem 
noticiado, mas ela finalmente ao deis conta de que o que lhes estava acontecendo no era absolutamente extraordinrio. Havia uma dzia de casos como esse diariamente. 
Era novidade para eles, mas no para a imprensa. E havia casos bem mais suculentos do que o deles para se explorar... ex. coto,  claro, pelo ngulo de Pacific Heights 
e da boutique exclusiva de Jessie. Se isso sasse nos jornais, destruiria o seu negcio. Mas no parecia haver perigo disso. Nenhum membro da imprensa tinha aparecido, 
at ento, e no se demonstrara nenhum interesse por eles. Era algo para se agradecer. E ela estava grata. E Martin pro. metera que, se algum reprter desgarrado 
"pintasse" no tribunal, ele ligaria para o jornal e pediria que fossem discretos. Tinha certo do que cooperariam com ele. J o tinham feito antes.
      Jessie sentia-se mal por ter dado uma cortada em Astrid. H algum tempo que no a viam, e no viam os outros amigos h dois meses. Teria sido difcil enfrentar 
qualquer um. Estava ficando difcil at enfrentar a Astrid. E teria sido impossvel encarar as moas da loja nessa semana. Jessie no tinha a menor inteno de chegar 
perto do local. Estava com medo de que lessem demais no rosto dela. Pelos mesmos motivos, Ian estava se mantendo longe de todos que conhecia, desde que fora preso. 
E contentava-se em se aprofundar no livro. Os personagens que inventara lhe faziam companhia.
      E nesse meio tempo, as contas continuavam a crescer. Zina veio trazer a correspondncia de Jessie todos os dias durante o julgamento, e na maior parte eram 
contas, inclusive a segunda de Harvey Green, de mais 900 dlares. E, mais uma vez, por nada. Fora dinheiro "para o caso de" - para o caso de Margaret Burton ter 
feito alguma coisa que no devia, para o caso de surgir alguma coisa, para o caso de... mas nada surgira. Ele conseguira no desencabar absolutamente coisa alguma. 
At domingo  noite, logo depois que Jessie conversara com Astrid.
      O telefone tocou, e era Martin. Ele e Green queriam vir imediatamente  casa deles. Ela acordou Ian, e eles estavam esperando, tensos, quando os dois homens 
chegaram. Estavam morrendo de vontade de saber o que o Green descobrira.
      O que ele tinha era um retracto. Do marido de Margaret Burton do casamento rapidamente anulado de quase 20 anos antes. O retracto poderia ser do Ian. O homem 
da foto era alto, louro, de olhos azuis, com um rosto risinho. Estava parado ao lado de um MG; era de um ano muito anterior ao Morgan, mas mesmo assim ainda havia 
muita semelhana entre os carros, como entre os homens. Se a gente apertasse os olhos um pouquinho, pareciam Ian e o Morgan. O cabelo do homem era mais curto do 
que o de Ian, seu rosto era um pouco mais comprido, o carro era preto, ao invs de vermelho... os detalhes diferiam, mas no muito. Era um choque simplesmente olhar 
a foto. Contava toda a histria. Agora eles sabiam por qu. E a primeira desconfiana de Martin estivera certa. Devia ter sido vingana.
      Os quatro ficaram sentados na sala de visitas em completo silncio. Green conseguira a foto com uma prima da Srta. Burton, uma pista de ltima hora que decidira 
seguir, por palpite. E um palpite danado de bom, afinal de contas.
      Schwartz soltou um suspiro que parecia ser de alvio e se recostou na cadeira.
      - Bem, agora sabemos. A prima testemunhar?
      Mas Green sacudiu a cabea.
      - Diz que invocar a Quinta Emenda, recusando-se a testemunhar, ou mentir. No quer se envolver. Falou que a Burton a mataria. Sabe, essa mulher, quero dizer, 
a prima, quase parece ter medo da tal Burton. Disse que ela  a pessoa mais vingativa que conhece. Voc vai intim-la?
      - No se ela vai invocar a Quinta. Ela lhe contou por que a Burton anulou o casamento?
      Martin mordiscava pensativo um lpis, ao fazer as perguntas, enquanto Jessica e Ian escutavam atentamente. Ian ainda segurava a foto, que o deixava excessivamente 
nervoso. A semelhana era espantosa.
      - Peggy Burton no anulou o casamento. Foi o marido.
      Martin ergueu rapidamente as sobrancelhas.
      - ?
      - A prima acha que Margaret estava grvida... s um palpite - continuou Green. - Ela acabara de terminar o curso secundrio e estava trabalhando no escritrio 
do pai do sujeito, uma firma de advocacia. Nada menos do que Hillman e Knowles. - Ian ergueu os olhos e Martin assobiou. - Ela se casou com o filho de Knowles. Um 
rapazinho chamado Jed Knowles. Estava estudando direito, na poca, e passou o vero trabalhando no escritrio do pai.  o rapaz da foto. - Green fez um gesto vago 
na direco da foto que ainda estava na mo de Ian. - Bem, de qualquer forma, eles se casaram s pressas, mas muito discretamente, no fim do vero. E o pai exigiu 
veementemente que nada fosse tornado pblico, nenhum comunicado do casamento, nada. Os pais da jovem Burton moravam no Meio-Oeste, portanto ela no tinha famlia 
alguma por aqui, excepto a prima, que nem tem certeza se eles moraram juntos. Simplesmente se casaram, e a prxima coisa de que se lembra  de Margaret passando 
duas semanas num hospital. Acha que ela deve ter tido um aborto espontneo complicado, qualquer coisa no gnero. Knowles requereu anulao do casamento logo n seguida, 
e Margaret ficou sem marido, sem emprego e provavelmente sem o beb. Ela teve uma espcie de esgotamento nervoso, e passou trs meses num asilo catlico. Fui verificar 
o tal asilo, mas foi derrubado h 12 anos, e as irms da ordem esto agora distribudas por Kansas, Montreal, Boston e Dublin. No  muito provvel que encontremos 
registros da internao, e mesmo que encontrssemos, seriam secretos.
      - E quanto ao jovem Knowles? O que descobriu sobre elo?
      - Bem... - Green no parecia satisfeito. - Ele se casou com uma debutante com grande estardalhao, no Dia de Aco do Graas daquele mesmo ano. Festas, chs-de-panela, 
comunicados em todos os jornais. Os recortes do Chronicle dizem que eles j estavam noivos h um ano, e foi obviamente por esse motivo que O Papai Knowles no quis 
nenhuma publicidade quando o filhotinho se casou com a jovem Burton.
      - Conversou com o Knowles?
      Green balanou a cabea, tristonhamente.
      - Ele e a esposa morreram num desastre de bimotor 17 meses mais tarde. O pai morreu de ataque cardaco este vero e a me est viajando pela Europa, ningum 
sabe direito onde.
      - Fantstico. - Martin fechou a cara e recomeou a morder o lpis. - Algum irmo ou irm? Amigos que podem saber o que aconteceu? Algum?
      -  um beco sem sada, Martin. Nenhum irmo ou irm. E quem iria se lembrar, entre os seus amigos? Jed Knowles est morto h 18 anos.  um bocado de tempo.
      -  tempo demais para se guardar uma raiva. Merda. Temos o caso todo resolvido e no temos porra nenhuma. Nada.
      - Como assim, nada? - Era a primeira vez que Ian abria a boca, desde que vira a foto. Estivera escutando atentamente o dilogo dos dois homens. - Parece-me 
que temos tudo.
      - . - Martin esfregou os olhos devagar com uma das mos, o depois os abriu de novo. - E nada que possamos usar nos tribunais.  tudo adivinhao.  s o que 
. O que temos aqui  indubitavelmente a verdade, e explicao integral de por que Margaret Burton o acusou de estupro. Voc se parece exactamente com o filho de 
um ricao que a engravidou, casou com ela, provavelmente fez com que ela abortasse, e depois a abandonou e casou com a sua namorada da alta sociedade, algumas semanas 
mais tarde. A Srta. Burton encontrou o belo prncipe e depois ele cagou nela. De volta  Cinderela. E h 20 anos que ela tenta se vingar dele. O que provavelmente 
 o motivo pelo qual no tentou extorquir dinheiro de vocs. No quer dinheiro. Quer vingana. Provavelmente ganhou algum dinheiro com a coisa, da primeira vez. 
O dinheiro  fcil demais, para certas pessoas.
      Jessica revirou os olhos, ante o comentrio, e Ian fez-lhe sinal para ficar quieta.
      - A verdade  que ela prefere v-lo ir para a cadeia do que arrancar-lhe alguns dlares. Na sua cabea, voc no passa de um Outro Jed Knowles, e vai pagar 
o pato por ele. Voc se parece com ele de modo assustador, o seu carro parece com o dele, voc provavelmente at fala como ele, pelo que sabemos. E ela provavelmente 
o notou no Enrico h meses. Voc  fregus habitual. Ela bem pode ter planejado a coisa toda do comeo ao fim. Mas o problema  que no podemos provar isso num tribunal. 
- Voltou-se para Green. - Tem certeza de que a prima no vir testemunhar de bom grado?
      - Absoluta.
      Green foi incisivo e enftico. Martin sacudiu a cabea.
      - Maravilha. E  por isso, Ian que no podemos provar coisa alguma no tribunal. Porque uma testemunha hostil que invoque a Quinta Emenda o arruinar mais depressa 
do que se no a chamaremos para depor. E alm disso, mesmo que ela quisesse depor, no poderamos provar nada disso. S o que podemos provar  que Burton se casou 
com Knowles, e que logo a seguir este conseguiu anular o casamento. O resto  pura conjectura, adivinhao. palpito. Isso nato tem validade nos tribunais. Ian, no 
sem provas slida A promortoria iria arrasar com toda a teoria em dez minutos. Voc e eu agora sabemos o que provavelmente aconteceu, mas jamais o poderamos provar 
ao jri, no sem algum para testemunhar que a Burton estava grvida quando Knowles casou com da, que ia um aborto, que teve um esgotamento nervoso, e que algum 
a ouviu jurar que se vingaria. E como vamos provar tudo isso, mesmo que a prima queira depor? O que ternos aqui, infelizmente,  a verdade. sem meios de ser provada.
      Jessica sentia as lgrimas ardendo nos olhos enquanto escutava e Ian estava mais plido do que ela jamais o vira. Estava que cinzento.
      - Ento, o que faremos agora?
      - Fazemos uma tentativa, e rezamos. Vou interrogar a Burton de novo, e ver o quanto ela vai admitir. E o quanto vo deixe que ns insinuemos. Mas no vai ser 
muito, Ian. No conte com nada.
      Green foi embora alguns minutos mais tarde, com um aperto de mo discreto para Martin e um aceno de cabea.
      - Lamento.
      Martin assentiu, e partiu alguns momentos mais tarde.
      O julgamento continuou na segunda-feira, e Martin voltou a chamar Margaret Burton para depor. Ela fora casada com J Knowles? Sina. Por quanto tempo? Dois 
meses e meio. Dez semi. nas? Sim. Dez semanas. Era verdade que tivera que se casar em ele porque estava grvida? De modo algum. Teve um esgotamento nervoso., objeco!... 
negada!... teve um esgotamento nervoso depois que o casamento foi anulado? No. Nunca. O ru no tinha uma semelhana impressonante com o Sr. Knowles? No. No 
que ela tivesse notado. O Sr. Knowles no se casara de novo que imediatamente aps... objeco! Aceita, com uma advertncia ao jri para no levar em conta a linha 
anterior de interrogatrio. O juiz advertiu a Martin quanto a estar fazendo perguntas irrelevantes e atormentando a testemunha, e Jessica notou que Margaret Burton 
estava calada e plida, mas totalmente controlada. Quase que demais. Pegou-se rezando para que a mulher perdesse o controle, e desintegrasse no banco de testemunhas 
e berrasse e se esganiasse e se destrusse admitindo que queria destruir o Ian porque ele se parecia com Jed Knowles. Mas Margaret Burton no fez nenhuma dessas 
coisas. Foi dispensada do banco de testemunhas. E Jessica jamais a viu de novo.
      
      
      No final daquela tarde Martin pediu a Ian que arranjasse dois amigos para dar testemunho do seu carcter e moral. Assim como o testemunho de Jessica, seria 
considerado parcial, mas testemunhas de carcter no faziam mal a ningum. Ian concordou em pedir a duas pessoas, mas havia uma expresso de desespero nos seus olhos 
que matava Jessica s de ver. Como se Margaret Burton j tivesse vencido. Ela simplesmente se mandara. Largara a sua bomba e se fora, deixando-os com uma foto como 
explicao.
      Ian detestava ter que explicar a algum o que estava acontecendo, e nos ltimos anos no tinha estado to ligado aos seus amigos quanto no passado. Escrever 
parecia devorar cada vez mais do seu tempo, sua energia, sua devoo. Queria terminar outro livro, vend-lo, fazer sucesso antes de voltar a frequentar os bares 
com os velhos companheiros; precisava fazer alguma coisa, ser alguma coisa, construir alguma coisa primeiro. Estava cansado de explicar sobre rejeies e agentes 
e textos reescritos. Assim, parou de explicar. Parou de v-los. E o resto do tempo, passava com Jessie. Ela tinha um jeito de fazer-se exclusiva. No gostava de 
partilhar o tempo que sobrava do estdio.
      Naquela noite, ele ligou para um escritor que conhecia e um colega de faculdade, um corretor que tambm se mudara para o Oeste. Ficaram atnitos com as acusaes, 
e logo se dispuseram a ajudar. Nenhum deles morria de amores por Jessie, mas sentiam-se mal por ambos. O escritor achava que Jessie queria demais do Ian, que era 
"grudenta" demais e no lhe deixava espao para escrever. O amigo de faculdade sempre achara Jessie muito voluntariosa. Ela no era o seu tipo de mulher.
      Mas os dois homens foram testemunhas simpticas e agradveis. O escritor, usando tweeds, atestou que recentemente ganhara um prmio e publicara trs histrias 
no The New Yorker e um romance. Era respeitvel, como o podia ser um escritor. E falou bem, no banco. O amigo da faculdade causou uma impresso igualmente agradvel, 
num estilo diferente. Slido, classe mdia superior, pai do famlia respeitvel, "conhecia o Ian h anos", hip-hip-hurrah. Ambos fizeram o que era possvel, o que 
no era grande coisa.
      Na tera  tarde o juiz os dispensou a todos cedo, e Ian e Jessie foram para casa relaxar.
      - Como est se sentindo, meu bem? No posso dizer que andamos com boa cara, ultimamente. - Ele deu um sorriso pesaroso e abriu a geladeira. - Quer uma cerveja?
      - Quero uma caixa. - Chutou fora os sapatos e se esticou. - Diacho, estou cheia dessa merda. Continua e continua e continua... e eu me sinto como se no me 
sentasse e conversasse com voc h um ano. - Tirou a cerveja das mos dele e foi deitar-se no sof.
      - Alm do que, as minhas roupas comportadas esto acabando.
      Estava usando um costume feio de tweed marrom que possua desde os tempos de faculdade, no Leste.
      - Eles que se fodam. Aparea usando um biquini, amanh. A esta altura, o jri merece alguma coisa para olhar.
      - Sabe, pensei que o julgamento seria bem mais dramtico.  gozado que no seja.
      - O caso no  assim to dramtico. A palavra dela contra a minha quanto a quem fodeu quem e por que, onde e como. A esta altura, nem me sinto mais constrangido 
com voc presente, escutando os testemunhos.
      Agora que Margaret Burton no estava mais no tribunal.
      - A mim tambm no incomoda muito, excepto que tenho vontade de rir quando algum se refere a "um crime infame contra a natureza". Parece to exagerado.
      Riram descontraidamente pela primeira vez em muito tempo. Enquanto relaxavam no encanto familiar da sua sala, o julgamento parecia uma piada de mau gosto. 
A piada de mau gosto de outra pessoa.
      - Quer ir ao cinema, Jessie?
      - Sabe de uma coisa? Adoraria. - A tenso estava comeando a se escoar. Tinham resolvido que eram os vencedores, mesmo seis provas slidas de que Margaret 
Burton era uma biruta buscando vingana contra um homem que estava morto h quase 20 anos. E da? Ian era inocente. No final, era simplesmente isso. - Quer levar 
a Astrid com a gente, querido?
      - Claro. Por que no? - Sorriu e debruou-se para beij-la.
      - Mas s a chame daqui a uma meia hora.
      Jessie retribuiu o sorriso e correu o dedo devagar pelo brao dele.
      
      
      Astrid ficou encantada com o convite, e os trs foram ver um filme que os fez chorar de tanto rir. Era justo o que Ian e Jessie estavam precisando.
      - Estava comeando a pensar que jamais veria vocs dois de novo. Faz semanas! O que andaram fazendo? Ainda trabalhando no livro?
      Eles balanaram a cabea, em unssono, mudaram de assunto e foram tomar um caf.
      Foi uma noite agradvel que fez bem a todos. E Astrid sentia-se melhor, agora que os vira. Ian parecia abatido, Jessica parecia cansada, mas pareciam felizes 
de novo. Quem sabe o problema que os estava incomodando tinha sido resolvido.
      Astrid contou que estivera na boutique quase que diariamente, e que o desfile de modas fora um estouro. Katsuko fizera um belo trabalho. Astrid chegara a comprar 
quatro ou cinco coisas do desfile, o que Jessie achou uma bobagem.
      - Que ridculo. No compre mais quando eu no estiver presente. Eu lhe darei um desconto quando estiver. Pelo menor preo de atacado. E algumas coisas posso 
at lhe vender pelo preo de custo.
      - Que besteira, Jessica. Por que iria vender as coisas mais baratas para mim? Pelo menos pode partilhar da riqueza!
      Abriu bem os braos, exibindo as jias, e os trs acharam graa.
      Levaram-na para casa do Volvo, o quando ela perguntou sobre o Morgan, Jessica alegou que o motor dava muita mo-de-obra. Os trs concordaram que era uma pena.
      - Que noite fabulosa! - Jessica entrou na cama com um sorriso, o Ian bocejou, balanando a cabea, feliz. - Que bom que samos.
      - Tambm acho.
      Ela lhe massageou as costas e ficaram falando  toa; era o tipo de conversa que sempre partilhavam no final da noite. Comentrios despreocupados sobre o filme, 
pensamentos sobre Astrid, Jessie notou um pequeno machucado na perna dele, perguntou-lhe como acontecera, ele lhe disse que jamais cortasse o cabelo. Papo de fim 
de noite. Como se nada de incomum jamais lhes tivesse acontecido. Chegaram at a dormir direitinho, o que era notvel, j que Ian iria depor no dia seguinte.
      
      
Captulo 17
      
      
      O testemunho de Ian sob interrogatrio directo durou duas horas. O jri parecia um pouco mais interessado do que nos ltimos dias, mas no muito. E foi apenas 
durante a meia hora final que pareceu realmente acordar. Era a vez de Matilda Howard-Spencer interroga-lo. Ela parecia andar compassivamente  frente de Ian, como 
a estivesse pensando em outra coisa, enquanto todos os olhares no tribunal se concentravam nela, especialmente os de Ias. E finalmente parou, bem na frente dele, 
cruzou os braos e inclinou a cabea para o lado.
      - O senhor  do Leste?
      A pergunta surpreendeu-o, assim como o olhar amistoso no seu rosto.
      - Sim. De Nova York.
      - Onde estudou?
      - Em Yale.
      - Boa universidade. - Ela sorriu para ele, que retribuiu o sorriso. - Tentei entrar na faculdade de Direito deles, mas infelizmente no consegui. - Ela fora 
para Stanford, ao invs de Yale, mas Ian no podia saber, e subitamente ficou confuso, indeciso entre dizer "que pena", ficar calado ou sorrir. - Fez algum trabalho 
de ps-graduao?
      No o chamava de Ian, nem de Sr. Clarke. Falava com ele como se o conhecesse, ou tivesse vontade sincera de faz-lo. Uma parceira de jantar interessada, numa 
soire agradvel.
      - Sim, tirei o meu mestrado.
      - Onde?
      Inclinou a cabea de novo com uma expresso de interesso. Esta no era absolutamente a linha de interrogatrio para a qual Martin o havia preparado. Era muito 
mais fcil lidar com esta.
      - Em Colmbia. Faculdade de Jornalismo.
      - E depois?
      - Fui trabalhar em publicidade.
      - Com quem? - Ele deu o nome de uma grande firma em Nova York. - Bem, todos certamente sabemos quem so. - Sor riu de novo para ele e olhou pensativa pela 
janela. - Saiu com algum em especial, quando estava na faculdade?
      Ah, a vinha a bomba, mas ela ainda soava suavemente indagadora.
      - Algumas pessoas.
      - Por exemplo?
      - Umas garotas,  s.
      - De colgios vizinhos? Quem? Pode dar-nos alguns nomes?
      Que coisa ridcula. Ian no podia entender o motivo para aquilo. 
      - Viveca Harreford. Maddie Whelan. Fifi Estabrook.
      Ela no as conhecia. Por que perguntar? 
      - Estabrook? De Estabrook e Lloyd? So os maiores corretores de ttulos da Wall Street, no ?
      Ela parecia realmente satisfeita por ele, como se ele tivesse feito uma coisa maravilhosa.
      - No sei.
      O comentrio dela deixara-o constrangido. Claro que eles eram os Estabrook de Estabrook e Lloyd, mas esse no tora o motivo poio qual safra com Fifi, era essa.
      - E me parece que Maddie Whelan tambm soa familiar. Algo me diz que era algum importante. Deixe ver, Whelan... ah, sei, a loja do departamentos em Fnix, 
no ?
      Ian estava at mesmo enrubescendo, mas Matilda Howard-Spencer ainda sorria angelicamente, parecendo estar curtindo as amenidades sociais.
      - No me lembro.
      - Claro que lembra. Mais algum?
      - No que eu me lembre. - Esta era uma linha de interrogatrio ridcula e ele no entendia aonde estava levando, excepto a faz-lo passar por idiota. Era mesmo 
to simples assim?
      - Est certo. Quando conheceu a sua mulher?
      - H uns oito anos. Em Nova York.
      - E ela tem um bocado do dinheiro, no  mesmo?
      O tom de voz da promotora era quase encabulado, como ao tivesse feito uma pergunta indiscreta.
      - Objeco!
      Martin estava lvido; sabia exactamente aonde isso estava levando, quer Ian soubesse ou no. Mas agora Ian estava comeando a perceber; fora levado directo 
a uma armadilha.
      - Aceita. Reformule a pergunta.
      - Desculpe, Meritssimo. Pois bem, ento: ao que me consta a sua mulher tem uma boutique muitssimo bem-sucedida aqui em So Francisco. Possua uma tambm 
em Nova York?
      - No. Quando a conheci, era a coordenadora de modas e estilista na agencia de publicidade onde eu trabalhava.
      - Fazia isso para se divertir?
      Agora a voz dela era meio spera.
      - No. Pelo dinheiro.
      Ian estava ficando Irritado.
      - Mas ela no precisava trabalhar, no  mesmo?
      - Nunca perguntei.
      - E agora no precisa trabalhar, no ?
      - Eu...
      Olhou para Martin, em busca de ajuda, mas no a encontrei.
      - Responda  pergunta. Ela precisa trabalhar, agora, ou a sua renda  suficiente para sustent-la,  ao senhor, num estilo de vida bem luxuoso?
      - No luxuoso, no.
      Santo Deus. Jessie e Martin crisparam-se simultaneamente. Que resposta. Mas as perguntas eram atiradas em cima dele como bolas de uma mquina, e no havia 
como desviar-se delas.
      - Mas a renda dela  suficiente para sustentar os dois?
      - .
      Ele agora estava muito plido. E com multa raiva.
      - O senhor trabalha?
      - Sim.
      Mas ele respondeu baixo demais, e ela sorriu.
      - Desculpe, no ouvi a sua resposta. Trabalha?
      - Sim!
      - Num emprego?
      - No. Em casa. Mas  trabalho. Sou escritor.
      Pobre, pobre Ian. Jessie tinha vontade de correr para ele abra-lo. Por que tinha que passar por tudo aquilo? Aquela cadela.
      - Vende muito o que escreve?
      - O bastante.
      - Bastante para que? Para viver disso?
      - No no momento.
      No havia como se esconder dela.
      - Isso o deixa com raiva?
      A pergunta era quase uma carcia. A mulher era uma
      - No, no me deixa com raiva.  s um dos factos da por enquanto. Jessica compreende.
      - Mas o senhor a engana. Ela compreende isso?
      - Objeco!
      - Negada!
      - Ela compreende isso?
      - No a engano.
      - Ora, ora. O senhor mesmo admitiu que foi para a cama de bom grado com a Srta. Burton. Isso uma ocorrncia normal na sua vida?
      - No.
      - Essa foi a primeira vez?
      Os olhos dele estavam grudados nos joelhos.
      - No consigo me lembrar.
      - O senhor est sob juramento; responda  pergunta.
      A voz dela deslizava como uma cobra ameaando o bote.
      - No.
      - O qu?
      - No. Essa no foi a primeira vez. 
      - Engana a sua mulher com frequncia?
      - No.
      - Com que frequncia?
      - No sei.
      - E que tipo de mulheres usa... do seu prprio tipo, ou de outros tipos, mulheres "inferiores", mulheres de classe baixa, prostitutas, moas pobres, seja l 
o que for?
      - Objeco!
      - Negada!
      - No "uso" ningum.
      - Sei. Enganaria a sua mulher com Fifi Estabrook, ou ela  uma moa direita?
      - H anos que no a vejo. Dez, 11 anos. No era casado quando saa com ela.
      - Quero dizer, enganaria a sua mulher com algum como ela, ou apenas dorme com mulheres "vulgares", mulheres que provavelmente no encontrar no seu prprio 
crculo social? Poderia ser embaraoso, afinal de contas. Pode ser bem mais simples manter e suas aventuras o mais longe de casa possvel.
      - Sim.
      Ah, Deus. No, Ian... no... Martin fitava a parede, procurando no deixar nada transparecer na fisionomia, e Jessie pressentira que o desastre estava prximo.
      - Sei. Ento dorme com mulheres vulgares para manter a coisa o mais longe possvel de casa? Considerou a Srta. Burton uma mulher "vulgar"?
      - No.
      Mas considerara, e o seu "no" fora fraco.
      - Mas ela no era do seu meio social, era?
      - No sei.
      - Era?
      As palavras agora fechavam-se sobre ele.
      - No.
      - Pensou que ela chamaria a policia?
      - No. - E depois, como uma reflexo tardia, ergueu os olhos, apavorado, o acrescentou: - No tinha motivos para isso.
      Mas era tarde demais. O mal tinha sido feito.
      Dispensou Ian do banco, acrescentando que poderia quem cham-lo de novo, mais tarde. Porm praticamente j o tinha matado.
      Ian deixou o banco quietamente e sentou-se pesadamente ao lado de Martin. E cinco minutos mais tarde o juiz anunciou um recesso para o almoo.
      Saram lentamente do tribunal, com Ian sacudindo a cabea o com ar sombrio, at o trio chegar na rua. 
      - Meti mesmo os ps pelas mos.
      Jessie nunca o vira com aparncia pior.
      - No pode fazer nada. assim que ela trabalha. A mulher  letal. - Martin soltou um suspiro o deu-lhes um sorriso fraco e frio. - Mas o jri tambm enxerga 
isso. E o jri tambm no  todo purinho feito a neve. - No havia por que fazer Ian  se sentir pior, mas Martin estava preocupado. O que o incomodava mais de tudo 
era o conflito de classes, no as escapadelas do Iam.
      - Vou chamar Jessica para depor hoje  tarde. Pelo monos, assim, acaba tudo logo.
      - , ela pode massacrar a ns dois no mesmo dia.
      Ian perecia cansado e derrotado, e Jessica parecia tensa.
      - No seja burro.
      - Acha que  preo para ela?
      Ian parecia sarcstico e amargo.
      - Por que no?
      - Digo-lhe por que no. Porque se resolver enfrent-la, perder. - Martin meteu-se rapidamente na conversa. - Ter ser a mulherzinha mais meiga, doce e calma 
do mundo. Se chegar botando banca, ela quebra voc em dois no banco de testemunhas Repassamos tudo nesse fim do semana. Sabe o que tem que fazer. - Jessica balanou 
a cabea solenemente e Ian soltou um suspiro. Martin tambm repassara tudo com ele, mas aquela maldita mulher no fizera nenhuma das perguntas certas. E sabe l 
Deus o perguntaria a Jessie. - Certo?
      - Certo.
      Jessica sorriu suavemente e eles largaram Martin perto da prefeitura. Ele precisava voltar ao seu escritrio, o eles tinham resolvido ir para casa e se descontrair. 
Jessica queria um tempinho para tomar conta do Ian. Ele precisava disso, depois do que passara manh, e aquilo evitaria que ela pensasse no que teria que dizer  
tarde.
      Quando chegaram em casa, fez com que ele se deitasse no sof, tirou-lhe os sapatos, afrouxou-lhe a gravata e correu a mo macia pelos seus cabelos. Ele ficou 
ali por alguns minutos, deitado, apenas olhando para ela.
      - Jess...
      Ele nem sabia o que dizer, mas ela entendeu.
      - Nada disso. Fique a deitado e relaxe. Vou fazer o almoo.
      Desta feita, ele no discutiu; estava cansado demais para fazer outra coisa que no fosse ficar largado ali.
      Quando ela voltou com uma vasilha coberta de sopa fumegante e um prato cheio de sanduches, ele estava dormindo. Tinha o ar exausto da tragdia. O ar plido 
e amarrotado que se tinha quando morria  algum, quando havia uma criana terrivelmente doente, um negcio fora  falncia. Aquelas pocas em que os horrios so 
rompidos, e a pessoa se v de repente em casa, com roupas que raramente usa, com ar terrivelmente cansado e temeroso. Ela ficou olhando-o por um momento e sentiu 
uma onda de pena por ele invadi-la. Por que se sentia to protectora em relao a Ian? Por que sentia como se ele no pudesse aguentar a barra, mas ela pudesse? 
Por que no estava zangada? Por que no estava com aquela cara, agora? Estivera assim, quando ele estava na cadeia, agora ele estava aqui, podia toc-lo e abra-lo 
e tomar conta dele. O resto no era real. Era terrvel, mas no ia durar. Ia doer, e ia abal-lo e humilh-lo e fazer todo o tipo de coisas desagradveis, mas no 
ia mat-lo. E no ia lev-lo embora. Enquanto se sentava sossegadamente ao lado dele, e punha a sua mo no colo, sabia que nada jamais o levava para longe dela. 
Nem Margaret Burton, nem promotora, nem tribunal, nem mesmo uma cadeia Margaret Burton iria sumir, Matilde Howard-Spencer passaria a cuidar de outro caso, assim 
como Martin e o juiz, e tudo acabaria. Era apenas uma questo de se manterem  tona at que o temporal passasse. E ela precisava do Ian desesperadamente demais para 
deixar que qualquer coisa, at mesmo os seus prprios sentimentos, pudesse em risco o que tinham. No ia se deixar ficar zangada. No se podia permitir esse luxo.
      Sentiu um curto lampejo de amargura enquanto olhava para a baa l fora, e pensava no pai. Ele no teria feito urna coisa dessas, e no teria deixado a me 
passar por tudo isso, tambm. Teria protegido a mulher mais do que Ian a estava protegendo. Mas isso era o pai dela. E esse era o Ian. As comparaes agora no serviam 
para nada. Tinha o Ian. Era isso ai. Exigia um bocado dele, portanto tinha que dar muito tambm. Estava disposta. E agora era a vez dela dar.
      Olhando para ele, enquanto dormia ali em cima da sua saia cinza, parecia-se com um garotinho muito cansado. Tirou o cabelo dele do cima da tosta, o respirou 
fundo, pensando naquela tarde. Agora era a vez dela. E no Ia perder. Resolvera isso depois daquela manh desastrosa, O caso ia ser ganho. E fim de papo. Era uma 
loucura que j tivesse ido to longo. Mas no ia muito mais adianto. Jessie j estava farta.
      Ian acordou pouco antes das duas e ergueu os olhos, surpreso.
      - Peguei no sono?
      - No. Bati na sua cabea com o sapato o voc desmaiou.
      Ele sorriu para ela e bocejou na saia dela.
      - Voc tem um cheiro delicioso. Sabia que cada pea de roupa que voc tem cheira ao seu perfume?
      - Quer um pouco de sopa?
      Estava sorrindo do elogio. Ele os metera numa encrenca das diabos, mas uma coisa era certa: o quanto ela o amava. No apenas precisava dele, mas o amava. Como 
podia ficar zangada? Como teria coragem de pedir-lhe o brao esquerdo quando o destino j lhe tirara o direito? J tinham sofrido o bastante. Agora estava na hora 
de acabar.
      - Est com uma cara resoluta, O que andou aprontando?
      - No andei aprontando nada. Quer a sopa?
      Olhou-o sedutoramente enquanto segurava uma xcara de Limoges numa das mos o a melhor concha de sopa da sua me na outra.
      - Puxa, mas que elegncia. - Sentou-se, beijou-a e olhou para a bandeja. - Sabe de uma coisa, Jessica, voc  a mulher mais notvel que conheo. E a melhor.
      Ela teve vontade de Implicar com ele e perguntar se era melhor do que Fifi Estabrook, mas no teve coragem. Desconfiava que as feridas da manh ainda estavam 
em carne viva.
      - Para o senhor, milord, nada seno o melhor.
      Serviu a sopa de aspargos com cuidado na xcara e acrescentou dois pequenos sanduches de rosbife ao prato. Havia tambm uma salada fresca.
      - Voc  a nica mulher que conheo que sabe fazer um almoo de sanduche parecer um jantar formal.
      -  s que o amo.
      Envolveu o pescoo dele com os braos e mordiscou-lhe e orelha, depois ficou de p.
      - No vai comer?
      - J comi. - Estava mentindo, mas no conseguiria comer nada antes de subir ao banco das testemunhas, em menos de uma hora. Olhou para o relgio e dirigiu-se 
para o quarto. - Vou dar um jeito na cara. Temos que sair daqui a dez minutos.
      Ele acenou feliz, em meio ao almoo, e ela desapareceu dentro do quarto.
      - Pronta? - Ele entrou no quarto, cinco minutos mais tarde, ajeitando a gravata e olhando para o cabelo despenteado no espelho - Santo Deus, estou com cara 
de quem dormiu o dia todo.
      - Para falar a verdade, querido, est mesmo.
      E estava satisfeita. A curta hora de sono lhe fizera bem. O tempo que passaram em casa tinha feito bem aos dois. Jessie se sentia mais forte do que no se 
sentia h semanas. Margaret Burton no ia toc-los. Como poderia? Jessie decidira ignor-la, tirar-lhe os seus poderes. E era como se Ian sentisse o renascimento 
da sua mulher.
      - Sabe de uma coisa? Sinto-me melhor. Eu estava mesmo um lixo, depois de hoje de manh. - E odiava pensar no que Jessie teria que enfrentar  tarde, mas ela 
parecia pronta para isso. - Trocou de roupa?
      - Achei que esta era mais apropriada. - Era um vestido maravilhosamente refinado, do tipo que usaria para um ch. Era de seda cinzenta, com mangas fartas e 
femininas, e um cinto do mesmo tecido. Toda a linha do vestido era suave e elegante, e sem ser rebuscado gritava "classe". - J que vo nos cobrar por sermos to 
classe superior,  melhor que nos apresentemos decentes. Estou to cheia daquelas drogas de saias de tweed, que vou queimar todas elas nos degraus de entrada, no 
dia em que isso acabar.
      - Voc est um estouro.
      - Bem vestida demais?
      - Perfeita.
      - ptimo.
      Calou sapatos pretos de pelica de entrada baixa, colocou brincos de prolas, pegou a bolsa, e dirigiu-se para o armrio para pegar o casaco preto. Ian achava 
mesmo que ela estava um estouro. Tinha tanto orgulho dela. No apenas pela sua aparncia, mas pelo jeito como estava enfrentando tudo aquilo.
      Martin, contudo, no ficou igualmente satisfeito quando eles entraram no tribunal. Notou o casaco preto de Jessica, e o vislumbre de seda cinzenta. Era exactamente 
o que ele no queria. Tudo nela parecia caro. Era como se ela tivesse resolvido provar tudo aquilo que Matilda Howard-Spencer sugerira. Credo! Onde eles estavam 
com a cabea? Garotos malucos, no se davam conta do que estava acontecendo. Pareciam extremamente autoconfiantes enquanto se sentavam, como se j tivesse se acertado 
tudo o no houvesse mais com que se preocupar. No era uma boa hora para darem demonstrao de fora, no importa o quo subtil fosse. E, no enfio, talvez fosse 
bom que eles se sentissem um pouco mais confiantes. Ambos pareciam to derrotados pela manh. 
      Esse novo ar do confiana realava o ele que os unia. Sempre se tinha conscincia disso, dos dois como um par, no como Ian ou Jessie, mas ambos. Era assustador 
pensar no que aconteceria a ambos se algum tentasse partir esse ele. Se eles perdessem.
      Jessica parecia admiravelmente calma enquanto se dirigia para o banco de testemunhas. O vestido cinza acompanhava graciosamente os seus movimentos, as mangas 
fartas suavizando a sua estatura impressonante. Ela fez o juramento e olhou para Ian por um mnimo instante, antes de voltar a sua ateno para Martin.
      As perguntas dele construram uma imagem de um casal dedicado e de uma mulher que respeitava demais o marido para duvidar que no estivesse dizendo a verdade. 
Ficou satisfeito com o jeito calmo e digno de Jessica, e quando entregou a testemunha  promotora teve que abafar um sorriso. Gostaria de ver essas duas mulheres 
enrolarem as mangas e se perseguirem pela sala. Elas eram preo uma para a outra. Pelo menos,  o que esperava.
      Com Jessica, Matilda Howard-Spencer no ia perder tempo.
      - Diga-nos, Sra. Clarke, tinha cincia de que seu marido a enganava, antes disso?
      - Indirectamente.
      - Como assim?
      A promotora parecia intrigada.
      - Quero dizer que imaginava haver uma possibilidade, mas que no era nada srio.
      - Sei. Apenas um divertimentozinho sem conscincias?
      Ela estava do volta  trilha do novo, mas Jessica previra o ataque.
      - No. Nada disso. Ian no trata nada com irreverncia.  um homem sensvel. Mas eu viajo muito. E o que tem que acontecer, acontece.
      - Acontece com a senhora tambm?
      Agora os olhos da advogada brilhavam de novo. Te peguei!
      - No, no acontece.
      - A senhora est sob juramento, Sra. Clarke.
      - Sei disso. A resposta  no.
      Ela pareceu surpresa.
      - Mas no se importa que o seu marido tenha as suas viraes?
      - No necessariamente. Depende das circunstncias.
      Jessica era uma dama da cabea aos ps, e Ian estava incrivelmente orgulhoso dela.
      - E quanto a estas circunstncias em particular, Sra. Clark, como se sente?
      - Confiante.
      - Confiante? - A Interrogadora de Jessica pareceu espantada, o Martin ficou nervoso. - Como pode estar confiante, e a respeito do que?
      - Estou confiante de que a verdade sobre este assunto vir  luz, que meu marido ser absolvido.
      Martin observava o jri. Gostava dela. Mas tinha que gostar do Ian, tambm. E, mais do que isso, o jri tinha que acreditar moio.
      - Admiro o seu optimismo. Est pagando as contas por tudo isto?
      - No, no verdadeiramente. - Ian quase fez uma careta. Ela estava mentindo, sob juramento. - Meu marido fez um ptimo investimento quando vendeu o seu ltimo 
livro. Colocou-o a meus cuidados, e ns resolvemos venda-lo para custear as despesas do julgamento. Portanto, no posso dizer que eu esteja pagando as contas.
      Bravo! O Morgan! E ela estava dizendo a verdade! Teve vontade de pular e abra-la.
      - A senhora diria que tem um bom casamento?
      - Sim.
      - Muito bom?
      - Extremamente bom.
      Jessica sorriu.
      - Mas o seu marido dorme com outras mulheres?
      - Presumivelmente.
      - Ele lhe contou sobre Margaret Burton?
      - No.
      - Contou-lhe sobre qualquer das suas mulheres?
      - No. E no creio que tivessem sido muitas.
      - A senhora o encoraja a dar as suas voltinhas?
      - No.
      - Mas, contanto que fossem umas "marias-ningum", a senhora do se importava,  isso?
      - Objeco!
      - Aceita. Est influenciando a testemunha.
      - Desculpe, Meritssimo. - Voltou-se mais uma vez para Jessie. - O seu marido alguma vez foi violento com a senhora?
      - No.
      - Nunca?
      - No.
      - Ele bebe muito?
      - No.
      - Tem problemas com a sua virilidade, porque a senhora paga contas?
      Que pergunta!
      - No.
      - A senhora o ama muito?
      - Sim.
      - Protege-o?
      - Como assim?
      - Quero dizer, evita-lhe os aborrecimentos?
      - Claro, faria tudo o que tivesse que fazer para evitar-lhe aborrecimentos. Sou a mulher dele.
      O rosto de Matilda Howard-Spencer se cristalizou num sorriso do satisfao.
      - Inclusive mentir nos tribunais para proteg-lo?
      - No!
      - A testemunha esta dispensada.
      A promotora-assistente girou nos calcanhares e voltou para a sua cadeira enquanto Jessica ficava no banco de testemunhas, de boca aberta. A maldita mulher 
conseguira seu propsito do novo.
      
      
Captulo 18
      
      
      Todos estavam de volta aos seus lugares na manh seguinte para o. sumrio dos dois advogados ao jri. Ian e Jessica ficaram satisfeitos com os comentrios 
de Martin e o seu estilo de se dirigir aos jurados, o acharam que criara uma onda real de simpatia pela defesa. Tudo estava sob controlo. E ento Matilda Howard-Spencer 
se levantou. A promotora-assistente mostrou-se demonaca. Pintou um quadro de uma mulher brutalmente abusada, destruda, perturbada, corao partido - Peggy Burton, 
trabalhadora e de hbitos sadios. Tambm enfatizou por todos os meios que homens como Ian Clarke no deviam ter o direito de brincar onde lhes desse na tolha, usar 
quem desejassem, estuprar quem escolhessem, para depois jogar as mulheres de lado o voltar para casa para as mulheres que o. sustentavam, e que fariam "qualquer 
coisa para protege-los", com a prpria Jessie havia dito. Martin objectou, e a objeco foi acoita. Mais tarde, ele explicou que era raro ter que fazer objeco 
a uma exposio final, mas que essa mulher cuspia fogo  simples meno do nome de Ian. E Jessie ainda estava fumegando quando houve o recesso para o almoo.
      - Vocs ouviram o que aquela miservel falou?
      A voz dela era alta e estridente e Martin e Ian tentaram abrand-la rapidamente com um olhar.
      - Fale baixo, Jess - suplicou Ian. No resolveria nada antagonizar algum agora, multo menos o jri, que ia passando por eles a caminho do almoo. Tinha visto 
dois dos jurados olharem para Jess, quando ela comeou a falar.
      - Estou me lixando. Aquela mulher...
      - Cale a boca. - E ento ele a envolveu com o brao e dou-lhe um aperto. - Falastrona. Mas eu a amo mesmo assim.
      Ela deu um suspiro alto e depois sorriu.
      - Merda, aquilo me deixou fula da vida.
      - A mim tambm. Agora, vamos esquecer essa bosta por algum tempo o comer alguma coisa. Combinado? Sem falar sobre o caso?
      - Est legal.
      Mas ela concordou de m vontade, enquanto desciam o corredor.
      - Nada de "est legal", quero uma promessa solene. Recuso-me a ter o meu almoo estragado por causa disso. Faa do conta que estamos no jri e no podemos 
conversar sobre o assunto.
      - Voc acha mesmo que eles cumprem isso?
      Ele deu de ombros, com indiferena, e puxou uma mecha dos cabelos da mulher.
      - No me importa o que faam. S quero saber se voc me d sua promessa. Nada do falar sobre o caso. Certo?
      - Certo, prometo, seu chato.
      -  isso ai. Sou o tpico marido chato.
      Parecia muito nervoso enquanto desciam correndo as escada para a rua, o no entanto surpreendentemente bem-humorado.
      Foram almoar em casa e Jessie deu uma olhada na correspondncia enquanto Ian folheava o Pubilshers Weekly e passava a ler o jornal enquanto comia os sanduches 
que ela preparado.
      - Voc hoje est uma companhia espectacular.
      Ela estava mastigando um sanduche de peru e bateu no centro do jornal dele, com um amplo sorriso.
      - Hein?
      - Disse que a sua braguilha est aberta.
      - O que? - Olhou para baixo, e depois fez uma careta. - Ora, pela madrugada!
      - Pois ento falo comigo, que droga, estou me sentindo s.
      - Leio o jornal durante cinco minuto. e voc se sente s?
      - . Quer um pouco de vinho com o almoo?
      - No, eu passo. Tem Coca-Cola em casa?
      - Vou ver. - Ela foi ver o ele estava lendo o jornal de quando voltou com Coca-Cola em lata gelada. - Olhe aqui, seu...
      - Psiu...
      Ele fez um gesto impaciente na sua direco e continuou a Havia algo no seu rosto, na expresso dos seus olhos enquanto parecia chocado.
      - O que foi?
      Ele a ignorou, acabou o artigo, e finalmente ergueu em com ar de derrota.
      - Leia isto.
      Apontou para as quatro primeiras colunas na pgina corao de Jessie deu uma reviravolta ao ler a manchete:
      -  HORA DE ENDURECER. O artigo falava da reunio um comit de justia criminal realizado na vspera para discutir atuais punies dos estupradores. Falava-se 
no artigo de sentenas mais pesadas, nada de sursis, sugestes para tornar mais menos humilhante a denncia de um estupro. Fazia qualquer pessoa acusada do estupro 
parecer que devia ser enforcada sem mais delonga. Jessie largou o jornal e fitou Ian. Fora um azar que isso sasse no jornal no dia em que o jri ia se reunir para 
deliberar.
      - Ser que vai ter algum efeito, Ian? O juiz falou para eles no se influenciaram por...
      - Ora, que besteira, Jessica. Se eu lhe disser alguma coisa e outra pessoa lhe disser para fingir que no ouviu, afinal voc ter ouvido ou no? Vai se lembrar 
ou no? Eles so apenas humanos, ora essa. Claro que so influenciados pelo que ouvem. E voc tambm, e eu tambm, e o juiz tambm.
      Correu a mo pelos cabelos o afastando o prato do almoo. Jessica dobrou o jornal e jogou-o sobre a pia.
      - Est bem, ento pode ser que tenham lido o jornal hoje, ser que no, mas no podemos fazer coisa nenhuma a respeito. tio, por que no deixa isso para l, 
querido? Esquea. No podemos tentar fazer isso? Foi voc quem me fez prometer no discutir o caso, lembra-se?
      Sorriu meigamente para ele. Os olhos dele pareciam safiras, escuros e brilhantes o preocupados.
      - Sim, mas Jessie... pelo amor de... est certo. Voc tem razo. Desculpe.
      Mas foi uma refeio tensa, depois disso, e nenhum dos dois terminou os seus sanduches.
      Fizeram calados a viagem de carro at a Prefeitura, o Jessica escutou o eco dos seus saltos no piso de mrmore enquanto entravem. O corao dela parecia estar 
batendo com fora igual e acompanhando o eco, como um dobre de finados.
      O juiz falou ao jri durante menos de meia hora, e os jurados miram em fila indiana, calados, e foram trancados numa sala do outro lado do corredor enquanto 
um meirinho ficava de guarda do lado de fora.
      - E agora, cavalheiros?
      Martin e Ian tinham vindo juntar-se a Jessie na sua cadeira.
      - Agora esperamos. O juiz dar um recesso se eles no tiverem chegado a uma deciso at as cinco horas. Ento, eles voltaro amanh de manh.
      -  s isso? - perguntou Jessie, surpresa.
      - Sim,  s.
      Que estranho. Estava tudo acabado. Quase. Todo aquele falatrio e tdio misturados  tenso o drama repentino. E ento, acaba. As duas equipes fazem os seus 
debates, o juiz faz um pequeno discurso para o jri, este vai se trancar numa sala, conversa entre si, escolho um veredicto, todo mundo vai para casa e o julgamento 
gabou; Era uma coisa estranha. Como um jogo. Ou uma dana. Tudo terrivelmente organizado o ritualstico. Um rito tribal. A idia deu-lhe vontade de rir, mas Ian 
o Martin estavam com uma cara sria demais. Ela sorriu para o marido e o advogado olhou para ela com ar preocupado. Ela no estava mesmo entendendo. E ele no estava 
certo que o Ian tambm entendia. Talvez fosse o melhor.
      - O que voc acha, Martin?
      Ian virou-se para ele com a pergunta, mas Martin tinha a sensao de que ele estava perguntando mais pela Jessie do que por si prprio.
      - No sei. Viram o jornal de hoje de manh?
      O rosto de Ian ficou ainda mais srio.
      - Sim. Na hora do almoo. Aquilo no ajudou, no ? - O advogado sacudiu a cabea. - Bem, pelo menos fizemos o que podamos.
      - Poderamos ter feito ainda mais se o Green pudesse ter apresentado algo slido em relao  Burton e ao Jed Knowles. Eu sei que isso  que foi o ponto crucial 
da questo.
      Martin sacudiu a cabea com raiva, e Ian deu-lhe uma palmadinha no ombro.
      - Ela vai voltar para ouvir o veredicto?
      Jessie estava curiosa.
      - No. No vai voltar ao tribunal.
      - Sacana.
      Foi uma palavra dita em voz baixa, salda das suas entranhas.
      - Jessie!
      Ian apressou-se a silenci-la, mas ela no queria ser silenciada.
      - E no ? Ela arrasa com a nossa vida, nos deixa praticamente falidos, sem falar no que fez com os nossos nervos, o depois simplesmente some na direco do 
pr-do-sol. O que espera quem sinta por ela? Gratido?
      - No, mas no h motivo para...
      - Por que no? - Jessie estava comeando a falar alto de novo, e Ian sabia o quanto estava nervosa. - Martin, no pode process-la depois que ganharmos o caso?
      - Sim, suponho que sim, mas o que conseguiria com isso? Ela no tem nada.
      - Ento, vamos processar o Estado.
      No tinha pensado nisso antes.
      - Escutem, por que no vo os dois dar um passeio pelo corredor? - Lanou a Ian um olhar significativo e este balanou a cabea. - Deve custar ainda um pouco 
antes do jri voltar, provavelmente vai demorar. Mas fiquem por perto. No saiam prdio.
      Jessie concordou e se levantou, buscando a mo de Ian. Martin os deixou e voltou para a mesa. Era aterrador o modo como Jessica no aceitava a possibilidade 
de que podiam perder.
      - Gostaria que pudssemos ir tomar um drinque.
      Ela caminhou devagar at o corredor o se apoiou contra uma parede enquanto Ian acendia os seus cigarros. As pernas dela tremiam o se perguntou por quanto tempo 
poderia manter a pose de Madame Serenidade. Tinha vontade do cair ao cho o agarrar-se aos joelhos de Ian, em desespero. Tinha que dar certo. Tinha... tinha... sentia 
vontade de esmurrar a porta da sala do jri... de...
      - Logo vai acabar, Jess. Aguente as pontas.
      - .
      Forou um meio sorriso e deu o brao ao marido enquanto comeavam a descer o corredor. 
      Ficaram calados por muito tempo, e Jessie deixou a sua mente viajar por onde queria, divagando e dardejando, flutuando por entre pensamentos enquanto fumava 
e caminhava, o se agarrava ao Ian. Levou quase uma hora, mas finalmente o seu crebro parou de rodopiar, provavelmente do exausto. Sentia-se solitria, cansada 
e triste, mas no mais sentia como se estivesse funcionando na velocidade errada. Pelo menos era alguma coisa.
      Resolveu ligar para a boutique, s para ver como estavam indo e coisas. Era uma hora estranha para ligar, mas de repente teve vontade de se relacionar com 
algo familiar, de sabor que o mundo simplesmente no havia encolhido, ficado do tamanho de um corredor interminvel pelo qual ela e Ian estavam condenados a caminhar 
a vida inteira, num silencio apavorante. Sentia falta da agitao da boutique, das trivialidades, dos rostos.
      As moas lhe contaram o que estava se passando, e ela se sentiu melhor. Era como ir ao cinema com Astrid. Normalidade. Diminua as propores do que lhes estava 
acontecendo a um tamanho que da podia suportar por mais algum tempo.
      Por volta das quatro horas Ian tambm tinha relaxado, e eles estavam fazendo jogos de palavras. s quatro e meia comearam trocar piadas velhas.
      - O que foi que um muro falou para o outro?
      - E eu l sei?
      Ela j estava rindo.
      - Encontre-me na esquina.
      Ian riu, satisfeito com a sua piada. Eram como alunos do segundo ano que tinham sido mandados para o corredor.
      - Est certo, sabicho. Como  que voc pode saber se as calas caram?
      Ela veio logo com o troco, e ele comeou a rir, mas ento Martin a fazer sinal, insistentemente, do final do corredor. As piadas subitamente chegaram ao fim. 
Ian ps-se de p primeiro e olhou para o rosto de Jessica. Ela sentiu-se empalidecer, enquanto o terror a acometia. Sentia-se plida e oca, como se o seu corpo fosse 
se quebrar. Agora estava acontecendo. Nada mais do jogos para fingir que jamais Iria acontecer... tinha chegado. Ah, Deus.... no!
      - Jessie, nada de pnico! - Podia ver a expresso no rosto dela, e tomou-a rapidamente nos braos e segurou-a com quantas toras tinha. - Eu a amo. Isso  
tudo. Eu a amo. Basta saber disso, o que nada jamais mudar isso, e que voc est bem, est sempre bem. Entendeu? - Ela balanou a cabea, mas seu queixo tremia 
quando ele a olhou. - Voc est bem. E eu a amo.
      - Voc est bem, e voc se ama... quero dizer me...
      Soltou uma risada aguada e ele a abraou apertado, novamente
      - Voc est bem, boba. Mas eu no estou bem.
      - Voc no est bem?
      Agora estava melhor. Sempre estava, quando ele a abraava.
      - Ah, Jessie.. uma coisa eu lhe digo. Gostaria demais que as minhas calas nunca tivessem cado. - Os dois riram ento ele a afastou de si novamente. - Tudo 
vai dar certo. Agora, vam indo.
      - Eu o amo, querido. Gostaria que voc soubesse quanto e amo.
      As lgrimas a cegavam enquanto caminhava rapidamente ao lado dele, tentando dizer-lhe coisas demais em tempo de menos.
      - Voc est aqui. Isso me diz tudo. Agora, pare de ser to dramtica e tiro o rmel do rosto.
      Ela riu nervosamente de novo e correu as mos pelas faces. Quando parou, as palmas estavam cheias de riscas pretas.
      - Eu devo estar uma coisa.
      - Fantstica.
      E ento chegaram l. Na porta do tribunal.
      - Tudo bem?
      Olhou para ela longa e intensamente, parados um de frente para o outro. O meirinho os olhou, depois desviou os olhos.
      - Tudo bem.
      Ela balanou a cabea suavemente e sorriram um para o outro.
      Entraram na sala e o jri j estava sentado; o juiz estava de volta ao seu assento. Mandaram que o ru se levantasse e Jessica quase se levantou da cadeira 
junto com ele, o teve que forarem a no faz-lo. Ficava repetindo silenciosamente para si mesma: "Tudo bem... tudo bem... tudo bem..." Enterrou os dedos ao assento 
da cadeira e fechou os olhos, esperando. Ficaria tudo bom, s que era to terrvel a espera. Pensou que devia ser como ter uma bala arrancada do brao. No matava 
a gente, mas Deus como era horrvel de retirar.
      Pediu-se ao primeiro jurado que Jessie o veredicto, e Jessica prendeu a respirao, desejando estar ao lado do Ian. Era isso a.
      - Qual o veredicto do jri quanto  acusao de sodomia, um crime infame contra a natureza?
      Estavam comeando com a acusao de menor importncia, e partiriam da para cima... ela esperou.
      - Culpado, Meritssimo.
      Ela escancarou os olhos e viu Ian crispar-se, como se a ponta da um chicote houvesse atingido o seu rosto. Mas ele no se virou pira olhar para ela.
      - E quanto  acusao de coito oral  fora?
      - Culpado, Meritssimo.
      - E quanto  acusao de estupro  fora?
      - Culpado, Meritssimo.
      Jessica ficou sentada ali, estupefacta. Ian no se mexera.
      Martin olhou para ela, que sentiu as lgrimas comearem a escorrer pelo seu rosto enquanto o jri era dispensado e deixava a sala. Ian agora tinha se sentado, 
e ela se dirigiu para ele, que linha os olhos inexpressivos, quando Jessica olhou para o seu rosto. No pode pensar em nada para dizer-lhe, e viu duas lgrimas solitrias 
escorrendo pelo seu rosto em direco ao queixo.
      
      
Captulo 19
      
      
      - No fiz aquilo, Jessie. No ligo para o rosto, mas voc tom que sabor. No a estuprei.
      - Eu sei.
      Era pouco mais de um sussurro, e ela se agarrou  mo dele enquanto a promotora-assistente pedia vivamente que o ru ficam sob custdia, at ser dada a sentena.
      Tudo acabou em cinco minutos. Eles o levaram embora e Jessica ficou sozinha no tribunal, agarrada a Martin. Estava sozinha no mundo, agarrada a um homem que 
mal conhecia. Ian se fora. Ela se fora. Tudo se fora. Era como se algum tivesse pegado um tolo e estilhaado a vida dela. E ela no sabia dizer o que era espelho 
e o que era vidro, e o que era Ian e o que era Jessie.
      No podia se mexer, no podia falar, mal podia respirar, Martin a levou lenta e cuidadosamente para tora do tribunal. Essa mulher moa, grande, alta, de ar 
sadio, tinha se transformado subitamente num zumbi. Era como se Jessie no tivesse mais entranha e como se todo o seu ser estivesse se esvaziando. Mantinha os olhos 
grudados na porta pela qual tinham levado Ian, como se, se a fitasse com fora suficiente, pudesse fazer com que ele voltasse aquela porta. Martin no tinha idia 
de como lidar com ela. Jamais ficara sozinho com uma cliente em tal estado. Ficou pensando devia chamar a sua secretaria, ou a sua mulher. O tribunal a estava deserto, 
excepto pelo meirinho, que estava esperando trancar as portas. O juiz olhara pesaroso para ela ao se retirar, mas Jessie nem notara. Nem mesmo tinha visto Houghton 
sair, aps o Ian. Ainda bem. E tudo o que ouvia era o eco da palavra que ficava se repetindo na sua cabea vezes sem conta. Culpado.. culpado... culpado...
      - Jessie, eu a levo para casa.
      Conduziu-a suavemente pelo brao e ficou grato porque ela seguia. No tinha certeza completa de que ela sabia quem era ou para onde estavam indo, mas ficou 
feliz por ver que no lutava contra ele. E ento ela parou e olhou para ele com ar vago.
      - No, eu... vou esperar aqui pelo Ian. Eu quero... preciso do Ian. - Ficou parada ao lado do advogado do e chorou feito criana, o rosto enterrado nas mos, 
os ombros se sacudindo. Martin Schwartz fez com que sentasse numa no corredor, entregou-lhe um leno e deu-lhe palmadinhas no ombro. Ela segurava a carteira, o relgio 
e as chaves do carro na mo como tesouros que lhe tivessem legado. Ian tinha partido de bolsos vazios e olhos secos. Algemado. - O que... vo fazer... com ele agora? 
- Ela gaguejava por entre as lgrimas. - Ele... ele... pode vir para casa?
      Martin sabia que Jessica estava prestes a ficar histrica, e no podia nem de longe saber a verdade. Simplesmente deu-lhe nova palmadinha no ombro e ajudou-a 
a se pr de p.
      - Deixe-me lev-la para casa primeiro. E depois eu vou ver o Ian. 
      Pensou que aquilo a confortaria, mas apenas a deixou mais excitada de novo.
      - Eu tambm. Tambm quero ver o Ian.
      - Hoje, no, Jessica. Vamos para casa.
      Era o tom de voz certo para usar. Ela se levantou, tomou o brao dele e acompanhou-o para fora do prdio. Caminhar com ela era como caminhar com uma boneca 
do pano mecnica.
      - Martin?
      - Sim?
      Estavam agora ao ar livre, e ela inspirou fundo enquanto ele para ela.
      - Podemos ape-apelar?
      Ela agora estava mais calma. Parecia estar flutuando para dentro e para tora da racionalidade, mas sabia o que estava acontecendo.
      - Falaremos sobre isso.
      - Agora. Quero falar sobre isso agora.
      Parada nos degraus da Prefeitura, desesperada e histrica, s seis da tarde. Era difcil acreditar que esta mulher destroada fosse a confiante e sofisticada 
Jessica Clarke.
      - No, Jessica, agora no. Quero falar com Ian primeiro. E quero lev-la para casa. Ian vai ficar muito chateado se eu no a levar para casa. 
      Ah, Deus. E ela ia tornar cada centmetro do caminho uma dificuldade. O simples acto de lev-la at o carro estava demorando uma eternidade.
      - Quero ver o Ian. - Ficou parada no topo da escada como uma criana birrenta, irracional de novo. - Eu... preciso do Ian... 
      E as lgrimas comearam a escorrer do novo. Aquilo tornou mais fcil faz-la entrar no cano. At que ela se lembrou de que tinha que levar o Volvo para casa. 
Era do Ian.
      - Mandarei que o levem para voc amanh, Jessica. Basta me dar o papelucho da garagem. - Ela entregou e ele ligou motor do novo Mercedes cor de chocolate. 
Observava-a atentamente enquanto guiava o carro at a casa dela. Parecia assustadoramente vaga e descomposta, e Martin ficou pensando se deveria chamar o mdico 
para ela quando chegassem ao seu destino. Falou-lhe sobre isso, e ela objectou com veemncia. - E quanto a uma amiga? H algum que queira que eu chame? - Detestava 
a idia de deix-la sozinha, mas ela apenas balanou a cabea, calada, cai uma expresso estranha nos olhos. Estava pensando no jri... em Margaret ....... no Inspector 
Houghton... queria mat-los a todos.... tinham roubado o Ian... - Jessica? Jessica?
      Virou-se para olhar para ele, vagamente. Estavam diante da casa em Vallejo.
      - Ah. - Balanou de novo a cabea e abriu a porta com cuidado do seu lado. - Eu... vai ver o Ian agora?
      - Vou. H alguma coisa que queira que eu lhe diga?
      Ela balanou a cabea rapidamente o tentou falar normalmente.
      - S que... que...
      Mas no conseguia falar por causa das lgrimas.
      - Direi que o ama. - Ela concordou, agradecida, e olhou olhos dele com um ar do quem estava quase voltando ao n Aquela confuso histrica parecia estar sumindo. 
O que ele agora era choque, o dor. - Jessica, eu... lamente muitssimo.
      - Eu sei.
      Ento ela se virou, fechou a porta e caminhou devagar para sua casa. Movia-se como uma mulher muito velha, e o M comprido e marrom se afastou devagar. Parecia 
errado observ-la. Era mais generoso deix-la sofrer em particular. Mas ele jamais esqueceria do jeito dela, caminhando devagar pela estradinha de tijolos, a cabea 
baixa, os cabelos desfeito, com as coisas do nas mos. Era uma viso insuportvel.
      Ela ouviu o carro se afastar e olhou vagamente para os canteiros de flores enquanto se acercava da casa. Era esta a casa viera almoar com Ian pela manh? 
Era essa a casa onde mora Olhou para ela como se jamais a tivesse visto antes e parou se no pudesse mais andar. Ergueu um p devagarinho e subiu degrau baixo. Mas 
o outro p era pesado demais para erguer. podia faz-lo. No queria faz-lo. No podia entrar naquela No sem o Ian. No sozinha... ..... desse jeito...
      - Ah, Deus, no!
      Caiu de joelhos no primeiro degrau e soluou do cabea baixa mos cheias do que tinha estado nos bolsos de Ian. Uma voz chamou o seu nome e ela no se virou. 
No era o Ian. Para que se dar ao trabalho de responder... no era Ian... ele agora se Iam. Todos se formam. Sentia como se ele tivesse morrido no tribunal... ou 
talvez ela tivesse. No tinha muita certeza. A voz chamou o meu nome de novo, e ela sentiu como se estivesse afundando pelo tijolo. O contedo da sua bolsa jazia 
espalhado no degrau, a malha da sua saia tinha enganchado no tijolo, e o seu cabelo cobria o rosto como um vu de viva, claro.
      - Jessie? Jessica? - Ouviu os passos rpidos s suas costas, mas no conseguiu se virar. No tinha foras. Estava tudo acabado. - ..Jessie... querida, o que 
foi? - Era Astrid. Jessica se virou para olhar no rosto dela, e as lgrimas continuaram a escorrer. - O que aconteceu? Me conte! Tudo vai dar certo. Fique calma. 
- Alisou o cabelo de Jessie como se ela fosse uma criana, e enxugou as lgrimas do rosto, que teimavam em continuar vindo. -  o Ian Diga-me, querida,  o Ian?
      Jessie balanou a cabea afirmativamente com uma expresso  dor e perturbao no rosto e Astrid sentiu o corao .parar... ah, no, no o Ian... no como 
o Tom. No!
      - Foi condenado por estupro. - As palavras saram como se em da boca de outra pessoa, e Astrid parecia ter sido esbofeteada. - Ele est na cadeia.
      - Santo Deus, Jessica, no!
      Mas era verdade. Soube disso enquanto Jessica balanava a cabea e deixava que a amiga a conduzisse meigamente para dentro  e a pusesse na cama. As plulas 
que Astrid lhe deu fizeram com apagasse quase instantaneamente. Astrid ainda as trazia com algo... desde a morte de Tom.
      
      
      Eram trs e meia da madrugada quando Jessie acordou. A casa estava quieta. Podia ouvir o tique-taque do relgio. Estava escuro quarto, mas havia luzes na sala. 
Tentou escutar os rudos de Ian... a mquina de escrever, a cadeira rangendo no cho do estdio. Sentou-se na cama, sem ouvir nada, e a sua cabea rodou. Ento lembrou-se 
das plulas. E de Astrid. E de como tudo comeara. se na cama e estendeu a mo trmula para os cigarros. Ainda usando a sua suter e meias e combinao. A jaqueta 
e a saia dobradinhas sobre uma cadeira. No se lembrava de ter ido para a cama. S o que se lembrava era do som da voz. Astrid, arrulhando meigamente, dizendo coisas 
que ela no entendia enquanto pegava no sono. Mas tinha havido algum ali... agora no havia ningum. Estava sozinha.
      Ficou ali fumando na escurido do quarto, de olhos secos, levemente nauseada e ainda entorpecida com as plulas, e subitamente estendeu a mo para o telefone. 
Conseguiu o nmero com a telefonista de informaes, e telefonou.
      - Priso Municipal. Fala Langdorf.
      - Gostada de falar com Ian Clarke, por favor.
      - Ele trabalha aqui?
      O sargento da recepo parecia surpreso.
      - No. Foi preso ontem. Depois de um julgamento.
      Ela no disse qual a natureza da condenao. E ficou surpresa com a firmeza da prpria voz. No se sentia firme, mas sabia que, se pudesse se forar a parecer 
calma, eles poderiam dar-lhe o que desejava. S o que tinha a fazer era parecer terrivelmente calma e colocar um pouco de autoridade na voz e...
      - Ele deve estar na cadeia municipal, dona, no aqui. E no pode falar com ele, de qualquer maneira.
      - Entendo. Tem o nmero de l?
      Pensou em dizer-lhes que era uma emergncia, mas melhor no faz-lo. Tinha medo de mentir para eles. O sargento da recepo do presdio deu-lhe o nmero da 
cadeia municipal do Palcio da Justia e ela discou rapidamente. Mas no deu certo. Disseram-lhe que podia visitar o marido dali a dois dias, e que lhe era permitido 
atender telefonemas. A seguir, desligaram na dela.
      Ela deu de ombros, e acendeu uma lmpada. Estava frio quarto. Jessie vestiu um robe de banho por cima da suter e combinao e foi at a sala, apenas de meias. 
Ficou parada no da sala e olhou ao seu redor. A sala estava ligeiramente desarrumada, mas no demais, apenas o bastante para faz-la lembrar-se. impresses na maciez 
do sof, uma marca onde as costas da cabea dele tinham apertado uma almofada, o livro que estivera lendo ltimo fim de semana... os mocassins sob a cadeira... as... 
sentiu um soluo subir  garganta e ficar entalado ali, enquanto se virava e ia at a cozinha para tomar alguma coisa... ch... caf... uma Coca... alguma coisa... 
a sua boca estava seca o a cabea mas todo o resto estava to claro. Encontrou os pratos do a dentro da pia, e o jornal sobre o mrmore onde ela o jogara, o artigo 
sobre o estupro em destaque. Era como se ele acabasse estar no aposento, como se tivesse ido dar uma volta no quarteiro, como se... sentou-se  mesa da cozinha, 
baixou a cabea e chorou.
      O estdio era igualmente ruim. Pior. Escuro e vazio e parecia esperar a presena dele, mas ter levado um "bolo". Precisava dele para ter vida. Ian era a alma 
viva do aposento. E dela. A alma de Jessie. Precisava mais dele do que seu estdio. Surpreendeu-se passando do um p para o outro, como uma criana perturbada parada 
nos vos de entrada, alisando os livros dele, ou as suas camisas, segurando ao peito sues mocassins, e dando um salto quando via uma sombra estranha. Estava sozinha. 
Na casa, na noite, no mundo. Sem ningum para ajud-la, ou cuidar dela, ou ligar coisa nenhuma para ela, ou... abriu a boca para gritar, mas no saiu nenhum som. 
Simplesmente desabou devagarinho at o cho, com os mocassins nos braos, e esperou. Mas ningum veio. Estava sozinha.
      
      
Captulo 20
      
      
      Eram nove o meia da manh e ela estava sentada na tentando lutar contra uma onda de histeria quando a campainha porta tocou. Estava tudo bem. Tudo bem. Tudo 
ia ficar bem. ali no banho por mais algum tempo e depois tomaria uma de ch, comeria alguma coisa, se vestiria e iria para a boutique. quem sabe, passaria o dia 
na cama. Ou... mas estava tudo bem. Primeiro o banho quente, e depois... mas no podia ligar para Ian. No podia falar com ele. E precisava falar com ele. Inspirou 
fundo de novo e depois prestou ateno. Parecia a campainha porta, ou quem sabe era apenas a gua corrente enganando os. ouvido.. Mas no era. A campainha continuava 
tocando. Mas no precisava atender. S o que tinha a fazer era continuar rendo o ficar calma, o deixar a gua quente relax-la. Ian lhe ensinara a se manter calma 
daquele jeito e no ficar histrica quando... quando a me.... e Jack.... mas a campainha. Subitamente deu um salto e saiu da banheira, agarrou uma toalha e correu 
a porta. E se fosse o Ian? Ela estava com as chaves dele. E se... correu para a porta da frente, pingando gua pelo caminho, meio sorriso na boca, os olhos subitamente 
grandes e brilhantes, a toalha cobrindo inadequadamente o seu trax. Escancarou a sem se lembrar de perguntar quem estava l, e depois deu um para trs, espantada. 
Surpresa demais para fechar a porta do Simplesmente ficou parada ali, o corao batendo forte de medo.
      - Bom dia. Se fosse a senhora, no me habituaria a porta desse jeito.
      Ela baixou rapidamente os olhos e apertou a toalha contra o corpo. O visitante era o Inspector Houghton.
      - Eu... como vai. O que deseja?
      Esticou-se at o mximo da sua altura o ficou parada regiamente no vo da porta, a despeito da toalha.
      - Nada. Simplesmente quis ver como estava passando.
      Tinha nos olhos uma expresso de vitria irnica, a expresso que ela no vira na vspera. Deu-lhe vontade de arrancar fora os olhos dele.
      - Estou bem. - Seu filho da me nojento. - Alguma coisa
      - Tem caf feito, Sra. Clarke?
      Vindas da parte dele as formalidades eram quase abusivas.
      - No, Inspector Houghton, no tenho. E tenho que ir trabalhar daqui a pouco. Se tiver algum assunto a discutir comigo, sugiro que v comprar uma xcara de 
caf na Union Street e depois me procure no meu escritrio, daqui a uma hora.
      - Nervosinha, hein? Mas deve ter tido um choque bem feio, ontem.
      Ela fechou os olhos, lutando contra a onda de nusea que subiu  sua garganta. O homem era um sdico. Mas ela no podia desmaiar agora. No podia. Escutou 
a voz de Ian dizendo "Tudo bem?" com aquele seu jeitinho especial, e balanou a cabea imperceptivelmente o pensou "Tudo bem".
      -  foi um choque. O senhor curte isso, Inspector? Quero dizer ver outras pessoas infelizes.
      - No vejo a coisa desse modo.
      Pegou um mao de cigarros e ofereceu-lhe um. Ela sacudiu a cabea. Ele estava curtindo a coisa, sem dvida.
      - Suponho que no. A Srta. Burton deve ter ficado satisfeita.
      - Muito.
       Sorriu para ela em meio  fumaa do cigarro e ela teve de lutar contra si mesma para no esbofete-lo ou agredi-lo. Foi preciso mais controle para isso do 
que para no vomitar.
      - E o que acontece  senhora, agora?
      Ento era disso que se tratava.
      - Como assim?
      - Algum plano?
      - Sim, trabalhar. E ver o meu marido amanh. E ir jantar com amigos na semana que vem, e...
      Ele sorriu de novo, mas no parecia divertido.
      - Se ele for para a priso, isso poder destroar o seu casamento, Sra. Clarke.
      A voz dele era quase meiga.
      - Possivelmente. Quase tudo pode destroar um casamento, a gente permitir. Depende do quanto o seu casamento  bom, e do quanto voc est disposta a lutar 
para conserv-lo assim.
      - E o seu casamento  bom?
      - Excelente. E do fundo do corao, Inspector Houghton, eu lhe agradeo pela sua preocupao. Sem dvida que a mencionarei tanto ao meu marido quanto ao nosso 
advogado. Sei que o Sr. Clarke ficar profundamente emocionado. Sabe, Inspector, o senhor  um homem verdadeiramente sensvel... ou ser que tem uma queda para conselheiro 
matrimonial? - O olhar dele deitou chamas, mas era tarde demais. Tinha metido os ps pelas mos. Tinha vindo  casa dela, tocado a campainha o cometido os seus prprios 
erros naquela manh. - Sabe, por falar nisso, sou at capaz de ligar para o seu superior para lhe contar que homem maravilhosamente gentil o senhor . Imagino, preocupar-se 
com o estado do meu casamento.
      Ele enfiou o mao de cigarros de volta no bolso, e o seu sorriso j tinha sumido h muito.
      - Est certo, j entendi.
      - J? Puxa, mas como o senhor  vivo, Inspector.
      - Puta - resmungou, por entre os dentes cerrados.
      - Como disse?
      - Disse "puta", o pode dizer isso tambm ao meu superior. Mas se fosse voc, boneca, no me daria ao trabalho de ligar. J tem problemas de sobra, o no vai 
ver o seu velho por aqui durante muito tempo.  melhor ir me acostumando, irm. Voc e aquele seu vagabundozinho literrio estio acabado.. Portanto, quando se cansar 
de ficar sentada aqui no escuro, sozinha, trate de comear a procurar. Tem gente melhor por a do que aquele seu cara.
      - , no diga? E suponho que o senhor soja um bom exemplo?
      Agora tremia do fria, o a sua voz estava se levantando se igualar  dele.
      - Escolha quem quiser, mas vai sair por ai procurando. No lhe deu dois meses para estar l no Jerry's com o rosto do pessoal.
      - Saia daqui, Inspector. E se puser o p perto desta casa novo, com ou sem mandado do busca, ligarei para o juiz, o prefeito,  e o corpo do bombeiros. Ou talvez 
no ligue para ningum. Talvez apenas atire no senhor da minha janela.
      - Tem uma arma, ?
      Ergueu uma sobrancelha, Interessado.
      - Ainda no, mas vou ter. Aparentemente, estou precisando de uma.
      Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, o ela deu um atrs, graciosamente, e bateu-lhe com a porta na cara. Tacticamente, foi uma m jogada, mas fez com 
que se sentisse melhor. Por momento. Quando voltou para dentro do casa, vomitou na cozinha Levou duas horas para parar de tremor.
      
      
      Astrid chegou s 11. Trazia flores, o uma galinha assada para Jessie beliscar, e uma sacola cheia de frutas. E um pequeno frasco de plulas amarelas. Mas depois 
de 20 minutos tocando mais insistentemente a campainha, ainda no havia resposta. Astrid sabia que Jessie estava em casa porque tinha ligado para a boutique para 
certificar. Finalmente, comeou a ficar seriamente preocupada e bateu nas janelas da cozinha com os anis. Jessie espiou cuidadosamente por entre as cortinas e depois 
deu um salto de 15 centmetros quando viu Astrid. Estava pensando que era o Houghton de novo.
      - Santo Deus, menina, pensei que tinha acontecido alguma coisa. Por que no atendeu  porta? Est preocupada com a imprensa?
      - No, no h problema quanto a isso.  que... oh... no sei.. - E ento ficou com os olhos cheios de lgrimas de novo e estava parada ali parecendo uma criana 
grande demais e contando a Astrid sobre a visita de Houghton. - No d para aguentar. Ele ...... to malvado, e est to feliz com o que aconteceu. E  falou que 
o nosso... nosso casamento.
      Chorava demais para poder continuar, e Astrid fez com que se sentasse.
      - Por que no vem ficar comigo por algum tempo, Jessica? Podia ficar com o quarto de hspedes e se afastar daqui por alguns dias.
      - No! - Jessie se ps de p num salto o comeou a andar um lado para o outro da sala, tocando as cadeiras por onde passava, pegando um objecto e depois o 
largando do novo. Era uma srie de estranhos gestos sobressaltados, mas Astrid os reconhecia. Reagira do mesmo jeito quando o Tom morrera. - No. Obrigada, Astrid, 
mas quero ficar aqui. Com... com...
       Hesitou, sem saber direito o que queria dizer.
      - Com as coisas do Ian. Eu sei. Mas talvez no seja uma to boa. E vale o preo de ser atormentada por gente como aquele policial? E se aparecerem outros procedendo 
da mesma ma? Quer ter que enfrentar isso?
      - No abro a porta.
      - No pode viver desse jeito, Jessica. Ian no vai querer isso.
      - Vai, sim. Juro. Verdade.... eu... , Deus, Astrid, estou maluca, no posso... no sei o que fazer sem o Ian.
      - Mas voc no est sem o Ian. Voc o ver. Ainda no o que aconteceu, mas quem sabe vocs podem dar um jeito. aio se foi, Jessica. No est morto, pelo amor 
de Deus. Pare de agir como se estivesse.
      - Mas ele no est aqui. - A voz dela era lamente-se. - Preciso dele aqui. Vou ficar maluca sem ele, vou... vou,..
      - No, no vai. A no ser que queira ficar maluca, ou se ficar. Controle-se, Jessica, e sento-se. Agora. Vamos, sente-se. - Jessica tinha estado sentando e 
levantando das cadeiras como caixa de surpresas nos ltimos cinco minutos. A sua voz estava uma tonalidade alta e desesperada. - J tomou caf? - Jessica sacudiu 
a cabea e comeou a dizer que no queria nada, mas levantou a mo e sumiu dentro da cozinha. Apareceu cinco minutos mais tarde, com torrada, gelia, as frutas frescas 
que tinha trazido e uma xcara do ch fumegante. - Ser que prefere mesmo o caf?
      Jessie sacudiu a cabea e fechou os olhos momentaneamente.
      - Simplesmente no consigo acreditar que isso est acontecendo, Astrid.
      - No penso no assunto ainda. No consegue fazer sentido de nada, portanto no tente. Quando vai poder ver o Ian?
      Os olhos de Jessie se abriram e ela soltou um suspiro, ante pergunta.
      - Amanh.
      - Est bem. Ento s o que tem a fazer  tentar ficar cala at amanh. pode fazer isso, no pode?
      Jessica fez que sim com a cabea, mas no tinha muita certeza. Aquilo significava um dia, e uma noite, e uma manh. E a noite seria o pior. Cheia do fantasmas 
e vozes e ecos e terrores. Tinha 24 horas para sobreviver at ver o Ian.
      Mas havia uma coisa que ela queria fazer. Agora. Antes do Ian. Era falar com Martin sobre um recurso. Ele estava no seu escritrio quando ela ligou, o parecia 
muito brando.
      - Voc est bem, Jessica?
      - Tudo bem. Como vai o Ian?
      A voz dela fraquejou nas palavras, e na outra extremidade Martin franziu a testa. Estava se lembrando de como ela estava na vspera, quando a deixara em casa.
      - Est se aguentando. Mas ficou tremendamente chocado.
      - Posso imaginar. - Disse-o suavemente, com um sorriso absorto. Chocado. Ambos estavam. - Martin, liguei porque quero lhe perguntar uma coisa agora, imediatamente, 
antes de ver o Ian amanh.
      - O qu?
      - Quero saber o que se pode fazer quanto a um recurso, como fazemos, se voc o pede, tudo isso.
      E como diabo vamos pag-lo? Essa era outra coisa.
      - Bem, podemos falar sobre isso depois de darem a sentena,. Jessica. Se ele obtiver sursis, no h necessidade de pedir recurso, excepto para limpar a ficha 
do Ian do delito. Ele pode querer ias isso. Mas acho que devem esperar at ser dada a sentena para tomar uma deciso. H um tempo limitado para se entrar com um 
recurso, mas ainda tero tempo de sobra depois da sentena.
      - Quando vai ser dada a sentena?
      - De amanh a quatro semanas.
      - Mas por que esperar at depois dela? 
      - Porque, Jessie, vocs no sabem o que vai acontecer. Se eles o mandarem para casa sob sursis, Ian pode no ter vontade de gastar o ltimo tosto dele, ou 
o seu, num recurso. No  como se ele estivesse numa posio delicada, profissonalmente, em que o prejudicaria ter uma coisa dessas na sua ficha. Est certo, pode 
prejudic-lo - reconsiderou - mas no demais, na profisso dele. E se ele estiver livre, o que lhe importa?
      - Como assim, se ele estiver livre?
      Jessica estava se sentindo confusa de novo.
      - Pois bem, a alternativa  que, se no lhe derem sursis, o mandaro para a priso. Nesse caso, ento  melhor entrar com um recurso. Mas s o que o recurso 
vai conseguir para vocs, Jessie,  um novo julgamento. Tero que passar por toda essa provao de movo. No h uma migalha de prova que no tenhamos apresentado. 
Nada mudaria. Portanto, vocs teriam que passar por tudo de novo, talvez sem proveito algum. Acho que, no momento, o que temos que fazer  pressonar para o sursis. 
E podemos pensar num recurso depois de vermos o que acontece ao ser dada a sentena. Est certo?
      Jessica concordou, relutante, e desligou. O que ele queria dizer com "se" libertassem o Ian? O que era o "se"?
      
      
Captulo 21
      
      
      - Tudo bem?
      - Tudo bem. - Ela sorriu e instintivamente levou a mo ao feijo-lima de ouro na garganta, e brincou com ele por um momento enquanto olhava para Ian. Sobrevivera 
s 24 horas, e Houghton no tinha voltado. - Eu o amo, Ian.
      - Querida, eu a amo tambm. Voc est mesmo bem?
      Parecia to preocupado com ela.
      - Estou bem. E voc?
      Os olhos dele contavam a sua histria. Desta feita estava na cadeia municipal, usando o macaco nojento que lhe tinham dado. Tinham enfiado as roupas dele 
numa sacola de compras e devolvido-as para Martin. Ele as mandara para Jessie na noite anterior, juntamente com o Volvo. Depois disso, ela tomara as duas plulas 
que Astrid tinha deixado com ela.
      - Martin falou que podem conceder-lhe sursis.
      Mas ambos se lembravam do artigo que tinham lido no dia do julgamento. Era favorvel  abolio do sursis nos casos de estupro. O pblico no estava com disposio 
indulgente, no momento.
      - Vamos ver, Jessie, mas no conte com isso. Vamos tentar. - Ele sorriu e Jessie lutou contra as lgrimas. O que aconteceria se ele no conseguisse o sursis? 
Ainda nem comeara a enfrentar isso. Mais tarde. Outro "mais tarde" como o julgamento, e o veredicto. - Tem se comportado bem? Nada de pnico, nada de chiliques?
      Ele a conhecia bem demais.
      - Tenho estado ptima. E Astrid est tomando conta de mim como de uma criana.
      No lhe contou sobre o Houghton. Ou sobre a noite de semiloucura que tivera que preencher com plulas s para sobreviver. Tinha se arrastado por aquela noite 
como se fosse um campo minado.
      - Ela est aqui com voc? Olhou ao redor, mas no a viu.
      - Est, mas esperou l embaixo. Estava com medo que voc fosse se sentir constrangido. E imaginou que iramos querer conversar.
      - Diga-lhe que a amo. E estou feliz por voc no estar aqui sozinha. Jessie, tenho estado doente de preocupao por sua causa. Prometa-me que no vai fazer 
nenhuma loucura. Por favor. Prometa.
      Seus olhos suplicavam.
      - Prometo. Juro, querido, estou bem.
      Mas no estava com cara de quem estava bem. Ambos estavam com uma cara pssima. Devastados, chocados, exaustos, e no caso do Ian uma barba de dois dias no 
ajudava em nada.
      Durante meia hora trocaram as banalidades sem nexo de pessoas ainda em estado de choque. Jessie se manteve ocupada tentando no chorar, e conseguiu no faz-lo 
at se reunir a Astrid l embaixo. Eram lgrimas de raiva e dor.
      - Eles o botaram l em cima numa maldita jaula, como um animal!
      E aquela maldita mulher estava provavelmente no seu escritrio, fazendo o seu trabalho, vivendo a sua vida. Tinha conseguido sua vingana e agora podia ficar 
feliz. Enquanto Ian apodrecia cadeia, o Jessie enlouquecia, sozinha,  noite.
      Astrid levou-a para casa, preparou-lhe o jantar e esperou at ela estivesse semi-adormecida. Foi uma noite mais fcil para principalmente porque estava exausta 
demais para se torturar pensando, para ficar vagando. Simplesmente dormiu. E Astrid estava de volta na manh seguinte, bem cedo, com morangos frescos, um exemplar 
do The New York Time: e um Women's Wear Daily novo em folha, como se aquilo ainda tivesse importncia.
      - Moa, o que eu faria sem voc?
      - Dormiria at mais tarde, provavelmente. Mas eu estava acordada, portanto achei que devia vir at c.
      Jessie sacudiu a cabea e abraou a amiga enquanto ela servia xcaras de ch. Ia ser uma parada e tanto, e Astrid era um presente dos deuses. Ainda faltavam 
27 dias para ser dada a sentena. E s Deus sabia o que aconteceria depois.
      Jessie tambm precisava pensar na loja, mas no se sentia ainda pronta para isso. Foi levando, com telefonemas cada vez mais raros e uma grande dose de f 
em Katsuko. Astrid levou-a consigo para a sua hora no cabeleireiro, mais para ficar de olho nela do que coisa qualquer. Jessie podia ver Ian apenas duas vezes por 
semana, e havia uma falta de objectivo assustador na sua vida, nesse meio tempo. Comeava a dizer coisas e depois as esquecia, tirava objectos da bolsa e depois 
esquecia o motivo pelo qual os pegara; escutava Astrid falar e olhava atravs dela como se no a pudesse ver ou ouvir. No fazia muito sentido. Parecia do jeito 
que se sentia, como uma criana perdida longe de casa agarrando-se dose desperadamente a uma nova me. Astrid. Mas sem Ian nada fazia sentido. Muito menos viver. 
E sem contacto, era difcil lembrar a si mesma que ele ainda existia. Astrid estava apenas tentando mant-la  tona at a prxima vez em que pudesse v-lo.
      Tinha sado um pequeno artigo na ltima pgina do jornal no dia seguinte ao veredicto. Mas ningum tinha telefonado, apenas os dois amigos que tinham testemunhado 
em favor de Ian no tribunal Estavam chocados com a notcia. Astrid atendeu os telefonemas e Jessica escreveu uma cartinha para cada um deles. No queria falar com 
ningum agora.
      Na segunda-feira voltou ao trabalho e Zina e Katsuko estavam muito discretas. Kat tinha visto o artigo, mas no o mencionara ao telefone. Quisera esperar at 
poder dizer qualquer coisa para Jessie em pessoa. E soubera pela voz dela ao telefone que Jessie no queria que elas soubessem. Foi um momento doloroso quando ela 
Astrid entraram na loja. Leu prontamente nos seus rostos que sabiam, e Zina ficou logo com lgrimas nos olhos. Jessie abraou duas.
      Agora as duas moas sabiam por que Houghton tinha vindo   loja, por que Jessie estava to desesperada, por que o Morgan tina sido vendido. Finalmente compreendiam.
      - Jessie, podemos fazer alguma coisa?
      Katsuko falava em nome das duas.
      - S uma coisa. No falem sobre isso de agora em diante. No h nada mais que eu possa dizer. Falar no ajuda.
      - Como est o Ian?
      - Sobrevivendo.  o melhor que se pode dizer.
      - Tem alguma idia do que vai acontecer?
      Ela sacudiu a cabea e sentou-se quietamente na sua cadeira de sempre.
      - Neca. Nenhuma idia. Isso responde s perguntas de todas?
      Olhou para o rosto das duas mulheres, e j se sentia cansada. 
      - Precisa de alguma ajuda em casa, Jessie? - Zina finalmente se manifestara. - Deve estar muito sozinha. E no moro longe.
      - Obrigada, querida. Se precisar, eu falo. - Deu um apertozinho na moa enquanto se dirigia para o escritrio, com Astrid grudada nos calcanhares. A ltima 
coisa que queria era passar noites com Zina cheia de comiserao. Seria pior do que os terrores de ficar sozinha. Virou-se  porta do escritrio com uma expresso 
sria no rosto. - S uma coisa. No vou estar muito por aqui prximas semanas. Tenho coisas a fazer para o Ian. Gente que procurar sobre a sentena, e um monte de 
coisas com que me preocupar. Virei para c sempre que puder, mas vocs duas podem ir contando em levar o barco para mim. Como tm feito. T legal? - Katsuko bateu 
continncia e Jessie sorriu. - Duas birutas.  bom estar de volta.
      - E se eu der uma mozinha?
      Astrid olhava para ela com interesse, enquanto se sentava.
      - Para dizer a verdade, preciso mais de voc em todo canto, excepto a loja. Kat tem isso aqui sob controle. O problema verdadeiro sou eu. Manhs, comeos de 
noite, fins de noite... sabe como .
      Astrid sabia. Tinha visto o seu rosto s oito e meia da manh, tinha ouvido a sua voz s duas da madrugada. Contavam perfeitamente a histria do que eram as 
suas noites. O terror de que o dia no chegasse mais. Que Ian jamais voltasse para casa. Que o mundo a engolisse e no a cuspisse mais para fora. Que Houghton arrombasse 
a sua porta e a estuprasse. Temores reais e temores irreais, demnios da sua prpria criao e homens que no eram dignos desse nome... todos emaranhados na sua 
mente.
      - Tem idia de quando vai estar livre do trabalho? Virei busc-la. Podemos jantar hoje na minha casa, se se sente disposta.
      - Voc  boa demais para mim.
      E era espantoso, levando-se em conta o pouco tempo que se conheciam. Mas Astrid sabia como era. Tinha um profundo respeito por aquilo pelo que Jessie estava 
passando.
      
      
      A maioria dos esforos de Jessie se concentrava na sentena do Ian. Duas vezes foi ver o funcionrio encarregado dos casos de sursis, e que fora destacado 
para o caso do Ian, e no deixava Martin em paz, dia e noite. O que estava fazendo? O que pretendia lazer? J falara com o funcionrio destacado para o caso do Ian? 
Quais eram as impresses do sujeito? Ser que Martin devia falar com os superiores dele? Ela foi at mesmo falar com o juiz, certo dia, na hora do almoo. Ele foi 
compreensivo, mas no queria ser pressonado quanto  sentena. Jessie teve a impresso distinta que, tivesse sido um pouco menos refinada, o juiz teria sido um 
pouco os simptico na sua recepo. Mesmo assim, no foi exageradamente gentil. Tambm colectou cartas de diversos amigos discretos, atestando o bom carcter de 
Ian. Conseguiu at mesmo uma carta do agente dele, esperando demonstrar que Ian tinha que estar livre para completar o seu livro, e que a ida para a priso destruiria 
a sua carreira.
      O Dia de Aco de Graas veio e se foi, como outro dia qualquer. Ou pelo menos Jessica tentou se assegurar de que fosse assim. Tratou-o como qualquer outro 
dia em que no estivesse trabalhando. No se permitiu pensar em Dias de Aco de Graas do passado. Recusou-se a deixar que fosse festivo, de qualquer maneira. Aquilo 
seria demais para ela. Passou o dia com Astrid, e Ian passou-o na cadeia. No era permitido visitas na cadeia municipal, naquele dia. Ele comeu sanduches de galinha 
com gosto azedo e leu uma carta de Jessie. Ela comeu fils com Astrid, que fez tudo para ignorar o feriado, nesse ano, chegando a sacrificar um fim de semana prolongado 
na estncia da me. Mas o sacrifcio valeu a pena. Estava preocupada com Jessie, que agora sempre parecia estar atordoada, parando e se sobressaltando, com os nervos 
 flor da pele, num extremo ou no outro: entorpecida e cheia de plulas ou agitadssima por causa do excesso de caf.
      E trabalhava dia e noite. Resolvendo o que fazer em prol da sentena, e subitamente derramando a sua energia na Lady J, como no o fazia h anos. Recomeou 
a trabalhar aos sbados. Em casa fazia qualquer coisa, tudo - limpou o poro, ajeitou a garagem, arrumou todos os seus armrios, botou o estdio em ordem - qualquer 
coisa, tentando no pensar. E quem sabe, quem sabe, se ela fizesse tudo com perfeio, quem sabe no fim do ms ele viria para casa. Quem sabe eles lhe dariam o sursis, 
quem sabe... ela se movia como um p-de-vento, mas tinha que faz-lo; o martelar da sua mente a estava ensurdecendo. E havia o medo constante. No escapava dele, 
nunca. Um terror puro, cru, interminvel. Para alm das propores humanas. Mas ela no era mais humana. Mal comia, pouco dormia. No se permitia sentir. No ousava 
ser humana. Os seres humanos se despedaavam. E isso era o que ela mais temia. Despedaar-se. E depois ser incapaz de reunir os pedaos. Ian sabia disso, mas no 
podia impedir, agora. No podia toc-la, abra-la, senti-la, faz-la sentir. No podia fazer nada excepto olhar para ela atravs de um vidro e falar com ela pelo 
telefone da cadeia enquanto ela mexia nervosa no fio e ficava abrindo e fechando os brincos, distradamente.
      E ele continuava com uma aparncia cada vez pior - sem se barbear, sem se lavar, mal alimentado, e com olheiras escuras que pareciam cada vez mais escuras 
sempre que ela o via.
      - Voc no dorme aqui?
      A voz dela agora era diferente, mais alta, mais estridente, mais assustada. Ele tinha pena dela, mas no podia ajud-la agora. Ambos sabiam disso, e ele se 
perguntava quanto tempo ela ia levar, para odi-lo por isso. Por ter-lhe falhado. Ele vivia apavorado que chegasse o dia em que no pudesse mais manter o bicho-papo 
longe dela, e ento ela se viraria contra ele. Jessie esperava muito. Porque precisava de tanto.
      - Durmo de vez em quando. - Tentou sorrir. Tentou no pensar. - E quanto a voc? Parece que estou vendo muita maquilhagem debaixo dos seus olhos, amor. Estou 
certo?
      - E quando est errado?
      Ela sorriu de volta e deu de ombros, mexendo nos brincos de novo. Tinha perdido cinco quilos e meio, mas estava dormindo um pouco melhor. S que no parecia. 
Mas as novas plulas vermelhas estavam ajudando. Eram melhores do que as amarelas, ou mesmo azuizinhas, que Astrid permitira que tomasse depois delas. Eram mesmo 
tipo, s que mais fortes. J as vermelhas eram outra histria. No discutiu o assunto com o Ian. Ele iria...criar caso. E ela era cuidadosa. Mas as plulas eram 
a melhor parte do seu dia. Os dois momentos luminosos com o Ian eram as nicas partes suportveis da semana, e entre um e outro ela tinha que passar os dias. As 
plulas faziam isso por ela. E Astrid as distribua de uma em uma, recusando-se a deixar o vidro com ela.
      Ian teria ficado desesperado se soubesse.. Ela lhe prometera soIemente depois da morte de Jack.... nada mais de plulas. Ele tinha passado a noite toda ao 
lado dela enquanto faziam a lavagem estomacal, e depois ela prometera. Pensava nisso, s vezes, quando lava as plulas. Mas tinha que tom-las. Tinha, mesmo. Ou 
morria, de qualquer forma. De um jeito ou de outro. Preocupava-se coisas como saltar da janela, mesmo sem querer. Com demoniozinhos agarrando-a e forando-a a fazer 
coisas que no queria. No podia mais conversar com os fregueses na loja. Ficava na parte fundos porque tinha medo do que diria. No estava mais no controle. De 
nada. Jessica no estava mais no seu banco de motorista. Ningum estava.
      
      
      As quatro semanas entre o veredicto e a sentena arrastaram-se como um pesadelo permanente, mas o dia da sentena finalmente chegou. O pedido de sursis foi 
ouvido pelo juiz, e desta feita Jessie estava ao lado de Ian, enquanto esperavam. Agora era menos assustador, contudo, e ela ficava tocando a mo dele no seu rosto. 
Era a primeira vez num ms que o tocava. No cheirava bem, e tinha as unhas compridas. Tinham lhe dado um barbeador elctrico na cadeia, e ele arrebentara o seu 
rosto. Mas era Ian. Era, finalmente, um toque familiar num mundo que se tornara completamente estranho para ela. Agora podia ficar ao lado dele. Ser dele. Quase 
se esqueceu da seriedade da sentenciao. Mas as formalidades do tribunal a trouxeram de volta. O meirinho, o estengrafo, a bandeira. Era a mesma sala, o mesmo 
juiz. E era tudo muito real, agora.
      No foi concedido o sursis a Ian. O juiz achava que as acusaes eram srias demais. E Martin explicou mais tarde que, com o clima poltico como estava, o 
juiz no poderia mesmo ter feito outra coisa. Ian recebeu uma sentena de quatro anos de priso no presdio estadual, e teria que cumprir pelo menos um quarto da 
sentena mnima: um ano.
      O meirinho o levou embora, e desta feita Jessie no chorou.
      
      
Captulo 22
      
      
      Trs dias mais tarde, Ian foi transferido da cadeia municipal para o presdio estadual. Ele foi, como todos os prisioneiros homens do norte da Califrnia, 
para as Instalaes Mdicas da Califrnia em Vacaville para "avaliao".
      Jessica foi at l dois dias depois, com Astrid, no Jaguar preto, e com duas plulas amarelas no bucho. Astrid falou que essas eram as ltimas que lhe daria, 
mas sempre dizia isso. Astrid tinha pena dela.
      Excepto pela torre com a metralhadora espiando por cima do porto principal e o detector de metais que as revistou em busca de armas, a priso em Vacaville 
parecia incua. Do lado de dentro, urna loja de presentes vendia artigos feios feitos na priso, e a mesa de recepo bem podia ser a entrada de um hospital. Tudo 
era vidro e cromado e linleo. Mas, do lado de fora, parecia uma garagem moderna. Para pessoas.
      Elas pediram para ver o Ian, preencheram vrios formulrios e foram convidadas a sentar na sala de espera ou passear pelo saguo. Dez minutos mais tarde um 
guarda apareceu para destrancar porta que dava para um ptio interno. Instruiu-as para que atravessem o ptio e entrassem por outra porta, que encontrariam destrancada.
      Os presidirios no ptio usavam jeans, camisetas e uma variedade de calados, desde botas at tnis, e Astrid alou uma sobrancelha para Jessie. No parecia 
uma priso. Todos estavam despreocupadamente mexendo em mquinas automticas para a venda de refrigerantes, ou conversando com namoradas. Parecia urna escola secundria 
na hora do recreio, com a excepo ocasional de um rosto sbrio ou de uma me com olhos cheios d'gua .
      O que viu deu alguma esperana a Jessie. Poderia visitar Ian no ptio, poderia toc-lo de novo, rir, ficarem de mos dadas. Era uma loucura estar regredindo 
at isso depois de sete anos de casados, mas seria uma melhoria da situao de cachorrinho-na-vitrina das visitas na cadeia municipal.
      Infelizmente, no havia melhoria. Ainda faltavam meses para Ian poder receber visitas no ptio, se  que ele ia ficar naquele presdio mesmo, afinal do contas. 
Sempre havia Folsom ou San Quentin para causar-lhes preocupao. Qualquer coisa era possvel. E por enquanto tinham que se contentar de novo com mais visitas atravs 
do uma vidraa, como falar pelo telefone. Jessica sentia mpetos de jogar o fone pela vidraa, destroando-a, enquanto tentava sorrir para ele. Ansiava pelo toque 
do sou rosto, o contacto dos seus braos, o cheiro do seu cabelo. E ao invs disso s o que tinha nas mos era um telefone do plstico azul. Ao lado dela havia um 
cor-de-rosa, mais adiante um amarelo. Algum com senso de humor instalara telefones estilo princesa em tons pastis por toda a sala de visitas. Como um berrio, 
com a janela de vidro. E os presos podiam conversar com os queridos bebes pelo telefone. O que ela precisava era do marido, no algum para bater papo ao telefone.
      Mas ele parecia melhor... mais magro, mas limpo, pelo menos. At mesmo fizera a barba, na esperana de uma visita. Comearam a contar algumas das suas piadas 
antigas, e Astrid partilhava o telefone com Jessica, de vez em quando. Era tudo to estranho, sentados ali, batendo papo com uma parede de vidro a separar as duas 
mulheres e Ian. A tenso era evidente nos olhos dele, e o humor das suas brincadeiras tinha sempre uma ponta do amargura..
      - Mas que harm. Para um estuprador.
      Riu nervosamente da prpria piada de mau gosto.
      - Quem sabe vo pensar que voc  um cafeto.
      A risada deles era espera. cortante.
      A realidade era que ele estava ali. Pelo menos por um ano Jessie se perguntava quanto tempo ela aguentaria. Mas talvez fosse preciso. Talvez os dois no precisassem 
aguentaria. Queria com ele a respeito do recurso.
      - Falou com o Martin sobre isso?
      - Falei. E no vai haver nenhum recurso.
      Ele respondeu-lhe solenemente, mas com certeza na voz.
      - O qu?
      A voz de Jessie ficou subitamente estridente.
      - Voc me ouviu. Sei o que estou fazendo. Nada mudaria de uma segunda vez. Martin pensa do mesmo jeito. Por mais cinco ou dez mil dlares, nos endividaramos 
ainda mais, e quando chegasse a hora do segundo julgamento, no teramos nada de diferente para dizer. As suspeitas que temos sobre o marido dela so inadmissveis 
com as provas frgeis de que dispomos. S o que temos  uma foto antiga, e um bocado de idias extravagantes. Ningum quer testemunhar. No temos nada em que nos 
agarrar, excepto uma esperana cega. Fizemos isso uma vez, mas no tnhamos escolha. No vamos passar por aquilo de novo. Um novo julgamento teria exactamente o 
mesmo resultado, e s faria aquela gente ficar com raiva. Martin acha que para mim  melhor passar por isto aqui, ser um bom sujeito, e eles provavelmente me daro 
logo a liberdade condicional. De qualquer forma, j tomei a minha deciso, o estou certo.
      - Quem diz que voc est certo, droga, e por que ningum me consultou?
      - Porque estamos Mando da minha pena aqui, no da sua. A deciso  minha.
      - Mas afecta a minha vida, tambm.
      Os olhos dela ficaram cheios de lgrimas. Queria um recurso, nova chance, alguma coisa, qualquer coisa. No podia aceitar ficar esperando at que ele obtivesse 
livramento condicional. Falava-se me modificar as leis da Califrnia para se ter uma sentena determinada, mas quem tinha tempo de esperar por isso? E mesmo ento, 
Martin dissera certa vez que Ian poderia ter que cumprir dois anos de pena. Dois anos? Jesus. Como sobreviveria? Mal podia falar enquanto segurava o telefone.
      - Jessie, confie em mim. Tem que ser assim. No h razo para o recurso.
      - Podamos vender alguma coisa. A casa. Qualquer coisa.
      - E poderamos perder de novo. E da? Vamos cerrar os dentes e acabar com isso. Por favor, Jessie, por favor, por favor, tente. No posso fazer nada por voc 
no momento, excepto am-la. Voc tem que ser forte. E no vai ser por muito tempo. Provavelmente no  ser mais do que um ano.
      Tentava parecer animado, pelo bem dela.
      - E se for mais de um ano? 
      - Vamos nos preocupar com isso na hora. - Como resposta, as lgrimas escorreram pelo rosto dela. Como podiam ter decidido isso sem consult-la? E por que no 
estavam dispostos a tentar de novo? Talvez pudessem vencer... talvez... ergueu os olhos e deparou com Ian trocando um olhar com Astrid o balanando a cabea. - Meu 
bem, voc precisa reagir.
      - Para que?
      - Por mim.
      - Estou bem.
       Sacudiu a cabea e olhou para ela.
      - Quem me dera estivesse.
      Graas a Deus ela tinha Astrid.
      Continuaram a conversar por algum tempo, sobre os outros homens que estavam l, sobre alguns testes que ele tivera que fazer, sobre as suas esperanas de ser 
mantido ali, ao invs de ser enviado para outra priso. Vacaville pelo menos parecia civilizada, e ele esperava poder trabalhar no seu livro depois de estar ali 
por algum tempo, e ter se acalmado. Jessie disse a si mesma que se sentiu melhor por ver que ele ainda estava interessado no livro. Pelo menos ainda estava vivo 
mental e espiritualmente. Mas descobriu no lhe importava, na verdade. E quanto a ela? Depois da exploso por causa do recurso, sentiu-se ainda mais s. Tentou bombear 
um pouco de vida para o seu sorriso, mas doa tanto no ser capaz de estender as mos para ele, ou ficar nos seus braos.
      Ele observou o rosto dela por um longo momento, e desejou apenas poder toc-la. At mesmo ele no encontrava mais palavras, e caam em perodos de silncio.
      - Como vai indo a loja?
      - Tudo bem. ptimo, na verdade. Os negcios esto a vapor.
      Mas era mentira. Os negcios estavam longe de ir a todo vapor. Nunca estiveram piores, em todos os anos, desde que abrira a Lady J. Mas o que poderia dizer-lhe, 
o que havia para sei dito sem verbalizar recriminaes angustiantes, e acusaes, e gritos de ultraje e desespero? O que sobrava? Sempre havia a verdade que os negcios 
estavam na pior e que ele devia estar em casa trabalhando para ajudar a pagar as contas... a verdade que ele no devia na priso... a verdade que ele estava com 
uma cara terrvel e que o seu corte de cabelo fazia com que parecesse velho e cansado... a verdade que ela at mesmo se preocupava, agora, que ele fosse tomar homossexual 
na cadeia - ou pior, que algum o matasse... a verdade que ela no sabia mais como pagar as contas e tinha medo de no sobreviver s noites ....... a verdade que 
ela vontade de morrer... a verdade que ele nunca deveria ter trepado com Margaret Burton... a verdade que ele era um filho da puta e que ela estava comeando a odi-lo 
porque ele no estava mais  l... ele se fora. Mas ela no podia lhe dizer a verdade. Havia verdade demais, agora, e sabia que aquilo o mataria.
      Ele estava falando de novo; ela precisava erguer os olhos e prestar ateno.
      - Jess, quero que faa uma coisa para mim quando for para casa hoje. Tire xerox do livro, ponha a cpia no banco e mande de o original. Estou conseguindo permisso 
especial para trabalhar nele, e quando o manuscrito chegar aqui eu j estarei com a papelada pronta deste lado. Mas no se esquea. Tente mand-lo mim ainda hoje.
      O vero estava de novo nos olhos dele enquanto falava, mas Astrid ficou intrigada com a expresso da fisionomia de Jessica. Ela estava atnita. Ele acabara 
de ser condenado  priso e estava se preocupando com o seu livro?
      A visita foi encerrada depois de pouco mais de uma hora. Houve um monte de adeuses atropelados ao telefone, despedidas animadas de Astrid, uns ltimos abraos 
verbais de Ian, e um momento de pnico que Jessie pensou ia cerrar-lhe a garganta. No podia nem mesmo dar-lhe um beijo de despedida. Mas, e se precisasse abra-lo? 
Ser que eles no entendiam que tudo que possua no mundo era o Ian? E se...
      Ficou vendo enquanto ele se afastava devagar, relutando em ir embora, mas ostentando um grande sorriso juvenil, enquanto ela tambm tentava sorrir. Mas ela 
agora estava funcionando com o tanque vazio, e secretamente estava satisfeita porque a visita terminara. Custava-lhe mais cada vez que o via, agora. Era mais duro 
aqui do que fora na cadeia municipal. Tinha vontade de quebrar o vidro com um murro, de gritar, de... qualquer coisa, mas deu-lhe um ltimo sorriso, e acompanhou 
Astrid de volta ao carro, atordoamento.
      - Tem mais alguma daquelas pilulazinhas mgicas, fada madrinha?
      - No, no tenho. No as trouxe.
      Astrid no disse mais nada, mas tocou-lhe o brao meigamente e deu-lhe um abrao antes de destrancar o carro. No havia mais nada que pudesse dizer. E ela 
deixou a Jessie a dignidade de no enxergar as suas lgrimas enquanto rodavam em silncio para casa, rdio tocando baixinho entre elas.
      
      
      - Quer que eu a deixe em casa, para voc poder relaxar um pouco?
      Sorriu enquanto davam uma parada na Broadway onde a auto-estrada as devolvia para o trfego da cidade. Duas quadras depois passaram pelo Enrico.
      - Neca. E foi a que tudo comeou.
      - O qu?
      Astrid no tinha notado, e se virou para ver Jessica fitando as mesas amontoadas na calada sob os aquecedores. Agora fazia frio, mas umas poucas almas corajosas 
ainda se sentavam do lado de fora.
      - No Enrico. Foi ai que ele a conheceu. O que ser que ela estar fazendo agora?
      Havia um ar atormentado no rosto de Jessica, e ela falou quase sonhadoramente.
      - Jessie, no pense nisso.
      - Por que no?
      - Porque no h motivo para isso, agora. Acabou. Agora voc tem que olhar para adiante, para outra extremidade. Voc tem que continuar atravessando o tnel, 
e antes que perceba...
      - Ora, merda! Voc faz parecer como se fosse um conto do fadas, puxa vida! Como  que voc acha que a gente se sente olhando para o marido atravs de uma janela 
de vidro, sem poder toc-lo, ou... , Deus. Desculpe. No aguento, Astrid. No aceito, no quero isso acontecendo com a minha vida, no quero ficar sozinha.. Preciso 
dele.
      Acabou a frase baixinho, com a garganta grossa de lgrimas.
      - E ainda o tem. De todas as maneiras que importam. Est bem, ele est atrs de um vidro, mas no vai ficar l para sempre. O que voc acha que senti quando 
olhei para Tom naquela caixa fedorenta? Ele jamais iria falar comigo de novo, me abraar de novo, precisar de mim de novo, me amar novamente. Jamais, Jessie Jamais. 
Com voc e o Ian  apenas um intervalo. A nica coisa que voc no tem  a presena dele em casa todas as noites. Tem todo o resto.
      Mas era isso o que ela precisava. A presena dele. Que "resto havia? No conseguia se lembrar mais. Havia um "resto"? Tinha havido, alguma, vez?
      - E tem que parar de tomar essas plulas, Jessie.
      O tom de voz de Astrid trouxe-a ao presente de novo. A estavam a poucos quarteires da casa dela.
      - Por qu? No fazem nenhum mal. S... s ajudam, nada mais.
      - Daqui a pouco no vo ajudar. S a deprimiro mais, ao que voc j no entrou nessa. E se no tomar cuidado vai ficar dependente delas que vai ter um problema 
de verdade. Eu fiquei, e foi uma coisa para me livrar do vcio. Passei semanas na estncia da mame tentando me libertar sozinha. Faa a si mesma um favor... desista 
delas agora.
      Jessie ignorou a sugesto e tirou um pente da bolsa.
      - . Talvez eu v directo para a loja.
      - Por que no passa pelo menos cinco minutos em casa se descontrair um pouco? Que tal lhe parece?
      Nojento. doloroso.
      - Est bem. Se voc vier tomar um caf comigo. - No queria ficar sozinha ali. - Tenho que pegar o livro do Ian e tirar o xerox que ele pediu. Quer recomear 
a trabalhar.
      Astrid notou o tom de voz tenso. Ser que estava com cime? Parecia quase impossvel. Mas, hoje em dia, qualquer coisa era possvel com Jessie.
      - Pelo menos vo permitir que ele trabalhe no livro.
      - Aparentemente.
      Jessie deu de ombros, enquanto Astrid dobrava na entrada para automveis.
      - Vai lhe fazer bem.
      Jessica deu de ombros de novo e saltou.
      Havia um ar de leve desordem no corredor da frente, de jaquetas e casacos experimentados e postos de lado antes da sua visita a Ian pela manh. Astrid notou 
os casacos de Ian empurrados para um dos cantos do armrio, e a baguna predominantemente feminina aqui e ali, agora. Ele estava fora h apenas cinco semanas, no 
entanto estava comeando a parecer uma casa de mulher. Perguntou-se se Jessie teria notado a mudana.
      - Caf ou ch?
      - Caf, obrigada. - Astrid sorriu e se acomodou numa cadeira para espiar a paisagem. - Precisa de ajuda? - Jessica sacudiu a cabea e Astrid tentou relaxar. 
Era difcil estar com Jessica, agora. Era bvio que havia tanta dor, e to pouco que se pudesse fazer para ajudar. Excepto estar presente. - O que vai fazer no Natal?
      Jessica apareceu com duas xcaras floridas e deu uma risada
      - Quem sabe? Talvez este ano eu me enforque, ao invs de pendurar as meias.
      - Jessica, no tem graa.
      - E alguma coisa tem?
      Astrid soltou um suspiro profundo e largou a xcara que Jessie lhe dera.
      - Jessie, voc tem que parar de sentir pena de si mesma. De alguma forma, em algum lugar voc tem que encontrar algo a que se apegar. Pelo seu prprio bem, 
no apenas pelo dele. A loja, um grupo de amigos, eu, uma igreja, seja l o que for que precise, mas tem que se agarrar a alguma coisa. No pode viver desse jeito. 
No apenas o seu casamento no sobreviver, mas, o que  muito pior, voc no sobreviver. - Era isso que estava dando medo a Ian; Astrid sabia. Uma ou duas vezes 
ele olhara para ela, e Astrid compreendera. - Isso no  para sempre, sabe. Voc ter de volta o que tinha antes. No acabou.
      - No? E como voc sabe? Eu no sei nem mesmo isso. Nem mesmo sei, a esta altura, que diabo a gente tinha, ou se vale a pena quere-lo de volta. - Estava chocada 
com as prprias palavras, mas agora no podia se deter. Juntou com fora as mos trmulas. - O que tnhamos? Eu sustentando o Ian e ele me odiando por isso, tanto 
que tinha que sair e foder um bando de outras mulheres para se sentir como um homem. Lindo retracto de um casamento, no , Astrid? Exactamente aquilo com que sonha 
toda garotinha.
      -  assim que voc est se sentindo, agora? - Astrid notou a mgoa no rosto de Jessica, e ficou condoda. - Pelo que tenho visto, o seu casamento  muito mais 
do que isso.
      Tinham parecido to jovens o felizes quando os conhecera, agora se dava conta de que havia um bocado de coisas que sabia. Tinha que haver. Olhou Jessica nos 
olhos e sofreu por ela. Jessica tinha que descobrir um bocado de coisas, nos meses quem seguiriam.
      - No sei, Astrid. Sinto como se tivesse feito tudo errado antes, e quero fazer certo agora. Mas  tarde demais. Ele se foi. E no me importa o que voc diga, 
sinto dentro de mim que no vai mais voltar. Invento jogos comigo mesma, fico esperando o som dos seus passos, ando pelo seu estdio... e depois ns vamos v-lo, 
como um macaco enjaulado. Astrid, ele  meu marido, e eles o trancaram como a um animal!
      As lgrimas e a confuso inundaram-lhe os olhos.
      -  isso o que realmente a est incomodando, Jessie?
      Pareceu irada ante a pergunta.
      - Claro que ! O que voc acha?
      - Acho que isso a incomoda, mas penso que outras coisas incomodam tanto quanto isso. Acho que voc est com medo que tudo v se modificar. Que ele v se modificar. 
Ele est querendo o seu livro, agora, e isso a assusta.
      - No me assusta, me irrita.
      Pelo menos isso era sincero. Ela o admitia.
      - Por que a irrita?
      - Porque fico aqui sozinha, enlouquecendo, lidando com realidade, e o que ele faz? Rabisca o seu livro, como se nada acontecido. E... ah... no sei, Astrid, 
 to complicado. No compreendo mais nada. Est tudo me deixando maluca, no Simplesmente no aguento.
      - Voc pode aguentar, e o Ian tambm. J passou pela pior parte. O julgamento deve ter sido um inferno.
      Jessie concordou, solenemente.
      - , mas isso  pior. Isso dura para sempre.
      - Claro que no. Jessie, voc pode aguentar muito mais que imagina. E o Ian tambm.
      Enquanto pronunciava as palavras, torcia para estar certa.
      - Como pode ter tanta certeza? Lembro-se de como ele hoje, Astrid. Por quanto tempo acha que pode suportar tudo aquilo? Ele  mimado, mimado s pampas, e acostumado 
a uma vida confortvel com gente civilizada. Agora est l dentro. Ns no exactamente como , mas o que voc acha que vai acontecer e algum puxar uma faca para 
ele, ou um cretino qualquer quiser amor com ele? E da? Acha mesmo que ele vai saber segurar a barra, Astrid? - A voz dela estava ficando histrica. - E sabe qual 
 a verdadeira piada de toda essa confuso? Que ele est l por minha causa. No por causa de Margaret Burton. Por minha causa. Por minha causa. Porque eu o castrei 
to completamente que ele precisava dela para provar alguma coisa. A culpa foi minha. Foi como se eu mesma tivesse posto as algemas nele.
      A tragdia era que Astrid sabia que ela acreditava naquilo. Dirigiu-se para ela e tentou abra-la enquanto Jessica soluava.
      - Jessica, no... no, meu bem. Voc sabe...
      - Eu sei.  verdade! Eu sei. E ele sabe E at mesmo aquela sacana daquela mulher sabia. Devia ver como ela olhou para mim, ao tribunal. Sabe l Deus o que 
ele lhe contou. Mas olhei para ela com dio, e ela olhou para mim ..... pena. Que merda, Astrid, por favor me d algumas daquelas plulas.
      Ergueu os olhos para Astrid, com o rosto desfeito, mas a amiga balanou a cabea.
      - No posso.
      - Por que no? Estou precisando delas.
      - Voc est  precisando pensar, agora. Com clareza. No num estado de entorpecimento. O que voc acabou de me dizer  uma Ioucura completa, e um bocado do 
que est pensando tambm  provavelmente uma loucura.  melhor que voc ajeite as coisas na sua cabea agora, e fim de papo. As plulas no vo ajudar.
      - Elas vo me fazer superar isso.
      Estava suplicando, agora.
      - No, no vo. Voc perdeu todo o senso de perspectiva quanto ao que aconteceu, e elas apenas tomaro as coisas piores. E posso lhe dizer uma coisa, com certeza. 
Se voc no corrigir o seu modo de pensar agora, ele vai apenas piorar, e voc no ter um casamento quando o Ian for libertado. Acabar por odi-lo, talvez at 
tanto quanto est se odiando no momento, se  que isso  possvel. Voc deve a si mesma pensar com seriedade, Jessica.
      - Ento, voc vai providenciar para que eu o faa, certo?
      Agora a voz de Jessica estava amarga.
      - No, no posso fazer isso. No posso for-la a pensar. Mas tambm no vou lhe dar mais nada para turvar os seus pensamentos. No posso fazer isso, simplesmente 
no posso, Jessica.
      Jessica sentiu um impulso quase irresistvel de se erguer e bater a, e ento soube que devia estar enlouquecendo. Querer bater em Astrid era uma coisa muito 
louca. Mas tambm muito real. Ela queria aquelas malditas plulas.
      - Voc ter que enfrentar isso mais cedo ou mais tarde, de qualquer forma.
      E ento, subitamente, as lgrimas afloraram aos olhos de Jessie do novo.
      - Mas, e se eu ficar maluca? Quero dizer, maluca de verdade?
      - E por que ficaria?
      - Porque no consigo controlar a situao. Simplesmente no consigo.
      Astrid sentiu-se incapaz e ficou imaginando como a me a tinha aguentado quando estivera em situao semelhante, depois da morte de Tom. Aquilo lhe deu uma 
idia.
      - Jessie, por que no vem comigo para a fazenda no Natal? Mame iria adorar, e faria bem a voc.
      Jessica sacudiu a cabea mesmo antes de Astrid ter acabado a frase.
      - No posso.
      - Por que no?
      - Tenho que passar o Natal com o Ian.
      Parecia lamentar a idia.
      - Voc no "tem que".
      - Est bem, eu quero.
      Natal sem o Ian? Nem pensar.
      - Mesmo com o painel de vidro entre vocs? - Jessica fez que sim com a cabea. - Por que, pelo amor de Deus? Como penitncia para absolv-la da culpa que anda 
empilhando sobre a sua cabea? Jessica, no seja ridcula, O Ian provavelmente adoraria saber que voc est fazendo uma coisa agradvel, como ir para a fazenda. 
- Jessica no respondeu, e depois de uma pausa, Astrid falou o que realmente estava pensando. - Ou prefere tortur-lo deixando que veja o quanto voc sofre no Natal?
      Os olhos de Jessica se arregalaram de novo ao ouvir isso.
      - Meu Deus, voc faz com que parea que estou tentando soc-lo.
      - Talvez esteja. Acho que voc simplesmente no consegue decidir no momento quem odeia mais... ele ou voc mesma. E acho que vocs dois j foram castigados 
de sobra, Ian nas mos do Estado, voc nas suas prprias. No pode comear agora a ser boa para si mesma, Jessica? E ento, quem sabe, ser capaz de ser boa para 
ele.
      Havia mais verdade nas palavras de Astrid do que Jessie estava preparada para enfrentar.
      - Voc pode cuidar de si, Jessie. E Ian cuidar de voc, mesmo a distncia. Seus amigos a ajudaro. Porm, principalmente, voc precisa enxergar que  muito 
mais capaz do que imagina.
      - Como  que sabe?
      - Eu sei. Voc est com medo, e tem direito de estar. Mas se apenas se acalmasse um pouco, e se auto-avaliasse, com bondade, ficaria com muito menos medo. 
Mas ter que parar do correr para fazer isso.
      - E parar de tomar as plulas?
      Astrid fez que sim com a cabea, e Jessie continuou calada. Ainda no estava pronta para fazer isso. Sabia mesmo antes de tentar.
      Mas tentou. Astrid foi embora sem lhe deixar plula alguma, e Jessica foi at o banco com o manuscrito de Ian, com mos e joelhos trmulos, mas sem tomar mais 
plulas. De l foi ao correio, e de l para a loja. No aguentou ficar na Lady J nem uma hora, e depois voltou para casa para ficar andando de um lado para o outro. 
Passou a noite encolhida numa poltrona da sala, nauseada, tremendo, olhos arregalados, usando uma suter do Ian. Ainda cheirava  sua gua-de-colnia, e ela podia 
senti-lo consigo. Podia senti-lo a observ-la enquanto se sentava diante da lareira. Ficava vendo rostos no fogo... do Ian, da me, do Jake, do pai. Chegaram tarde 
da noite. E ento pensou ter ouvido sons estranhos na garagem. Teve vontade de gritar, mas no pode. Queria tomar as plulas, mas no tinha nenhuma. Passou a noite 
toda sem ir para a cama, e s sete da manh ligou para o mdico. Este deu-lhe tudo o que queria.
      
      
Captulo 23
      
      
      No Natal, Astrid passou trs semanas na fazenda com a me. Jessica estava atolada na boutique. Estava agora caindo numa rotina com as visitas ao Ian. Ia de 
carro at l duas manhs por semana, e aos domingos. Estava rodando 520 quilmetros por semana no carro dele, e o Volvo no ia aguentar o desgaste por muito tempo. 
Ela quase se perguntava se ela e o carro morreriam juntos, simplesmente emborcariam no acostamento e morreriam. No caso do Volvo, seria de velhice; no de Jessie, 
de tenso e exausto. Isso e plulas em excesso. Mas ela agora funcionava bem com elas. A maioria das pessoas ainda no percebia. E Ian ainda no a encostara na 
parede sobre elas. Imaginou que ele simplesmente no quisesse ver o que estava acontecendo. Por ela, tudo bem.
      No pde mandar-lhe um presente de Natal, nesse ano. Permitiam-lhe receber apenas dinheiro, portanto ela lhe enviou um cheque. E esqueceu de comprar presentes 
de Natal para as duas moas da loja. S no que pensava era botar gasolina no carro, sobreviver s visitas com o Ian do lado oposto da janela de vidro, e mandai repetir 
as suas receitas. Nada mais parecia importar. E a pouca energia que lhe sobrava ela gastava fazendo contas. Estava fazendo algum progresso com elas, e acordava de 
manh calculando como cobriria tal conta, se tomasse emprestado daqui, se no pagam ali at... estava torcendo para que os lucros de Natal a tirassem do vermelho. 
Mas a Lady J estava tendo seus prprios problemas. Algo estava fora de esquadro, e ela no conseguia se forar a e importar tanto quanto antes. Lady J agora era 
apenas um veculo no mais uma alegria. Era um meio de pagar as contas, e um lugar aonde ir durante o dia. Podia se esconder naquele escritoriozinho no fundo da 
loja e fazer malabarismo com as contas. Agora, raramente saia para atender aos fregueses. Depois de alguns minutos, a onda familiar de pnico crescia dentro dela, 
chegava-lhe  garanta, e tinha que pedir licena... uma plula amarela... uma azul... um rpido gole de usque... alguma coisa... qualquer coisa para matar o pnico. 
Era mais fcil apenas ficar sentada l atrs e deixar as moas cuidarem dos fregueses. De qualquer forma, estava ocupada demais. Com as contas. E tentando no pensar. 
Era um esforo muito grande no pensar, especialmente no final da noite, ou logo de manhzinha. Subitamente, pela primeira vez em anos, lembrou-se perfeitamente 
da voz da me, da risada do pai. Tinha se esquecido deles por tanto tempo, e agora estavam de volta. Diziam coisas... um sobre o outro... sobre ela... o Ian... e 
tinham razo. Queriam que ela pensasse. Jake chegou a dizer alguma coisa, certa vez. Mas ela no queria pensar. Ainda no estava na hora. No tinha que pensar... 
no queria... no podia... eles no podiam for-la...
      
      
      O Natal no caiu num dia de visitas, portanto no pode pass-lo com o Ian, afinal de contas. Passou-o sozinha, com trs plulas vermelhas e duas amarelas. 
S acordou s quatro horas da tarde seguinte, e ento pode voltar para a loja. Queria remarcar alguns artigos para uma liquidao. Tinham perdido dinheiro no Natal, 
e era preciso compensar. Uma liquidao bem gorda daria conta do recado. Ela mandaria cartezinhos para os seus melhores fregueses. Isso os traria em bandos... esperava 
ela.
      Trabalhou nos livros de contabilidade durante todo o Ano Novo, e finalmente lembrou-se de dar cheques para Zina e Kat, ao invs dos presentes de Natal que 
esquecera. Jessie ganhara trs presentes, e um poema do Ian. Astrid lhe dera uma pulseira de ouro simples e linda, o Zina e Kat lhe deram coisas pequenas e carinhosas. 
Uma miscelnea feita em casa num lindo pote francs, de Zina, e um pequeno desenho a bico de pena numa moldura de prata, de Katsuko. E ela lera o poema de Ian repetidas 
vezes na vspera de Natal. O papel logo ficou enrugado, e jazendo na sua mesinha-de-cabeceira.
      Levara-o para o escritrio, e agora o carregava na bolsa, tirando-o para l-lo durante o dia. Sabia-o de cor no dia seguinte ao mu recebimento.
      Katsuko e Zina se perguntavam o que ela ficava fazendo o dia todo no escritrio, agora. Aparecia para tomar caf, ou para procurar qualquer coisa no estoque, 
mas raramente falava com elas, e nunca mais fizera brincadeiras. Os dias de fofocas gostosas e camaradagem que tinham compartilhado agora pertenciam ao passado. 
Era como se Jessie tivesse desaparecido quando Ian desapareceu. Aparecia  porta do pequeno escritrio no final do dia, s vezes com um lpis enfiado no cabelo, 
um ar distrado, uma pequena pilha de contas na mo, e s vezes com olhos injectados e inchados. Agora falava bruscamente com as pessoas com mais facilidade, e perdia 
a pacincia com mais frequncia por coisa de pouca importncia. E sempre presente estava aquele ar morto nos olhos. Aquele ar que revelava que passava as noites 
acordada. A expresso que dizia que estava com mais medo do que queria que elas soubessem. E a turvao dos olhos inconfundvel, das plulas.
      Apenas os dias em que visitava o Ian eram um pouco diferentes. Ento ela estava viva. Algo brilhava por trs do muro qu construra entre si mesma e o resto 
do mundo. Algo diferente acontecia ento nos seu. olhos, mas ela no partilhava com ningum. Nem mesmo com Astrid, que estava passando cada vez mais tempo na loja, 
e aprendendo a conhecer Zina e Katsuko. Num certo sentido, Astrid substitura Jessie. Tinha o jeito descontrado que lesou tivera antes. Curtia a loja, as pessoas, 
as roupas, as garotas. Tinha tempo para conversar e rir. Tinha novas idias. Adorava o lugar, e isso era evidente. As moas tinham se afeioado a ela. Astrid at 
aparecia na loja nos dias em que Jessie estava com o Ian.
      - Sabem, as vezes acho que fico sentada aqui  para sabor quando ela est de volta. Fico preocupada at com ela dirigindo.
      - Ns tambm - disso Katsuko, sacudindo a cabea.
      - Ela me falou outro dia que faz a viagem no "piloto automtico". - As palavras de Zina no serviam do conforto. - Dia que s vezes nem se lembra de onde est 
e do que est fazendo at ver o sinal.
      - Fantstico.
      Astrid tomou um gole de caf o sacudiu a cabea.
      - Horrvel, no ? Fico me perguntando quanto tempo ela vai aguentar. No pode continuar se arrastando desse jeito. Tem que ir a algum lugar, ver gente, sorrir 
ocasionalmente, dormir. - E ficai sbria. Katsuko no falou, mas todas pensaram a mesma coisa. - Ela nem sequer parece mais a mesma mulher. Como ser que ele est 
se saindo?
      - Um pouco melhor do que ela, na verdade. Mas no o veja h algum tempo. Acho que ele tem menos medo.
      - Ento  esse o problema com ela? - Zina parecia atmica. - Pensei que era simplesmente exausto.
      - Isso, tambm. Mas  medo.
      Astrid parecia hesitante em discutir o assunto.
      - E presses. A Lady J tem dado dores de cabea a ela, ultimamente.
      - ? Parece bastante movimentada.
      Katsuko sacudiu a cabea, relutando em dizer mais alguma coisa. Tinha recebido telefonemas de pessoas a quem Jessie estava devendo. 
      Pela primeira vez a loja estava em dificuldades, e no havia dinheiro ao qual recorrer. Jessie sangrara cada ltimo centavo do dinheiro de reserva para o Ian. 
Portanto, agora a Lady J tambm estava pagando o preo do Ian.
      Foi ento que Jessie entrou na loja, e a conversa cessou. Parecia abatida o magra, mas havia algo mais animado nos seus olhos, aquele qu indefinido que Ian 
devolvia  sua alma. Vida.
      - Bem, senhoras, como a vida tratou a todas no dia de hoje? Estava gastando o seu dinheiro aqui de novo, Astrid?
      Jessie sentou-se e tomou um gole do caf frio de algum. Mal deu para se notar que enfiara na boca uma pequena plula amarela, ao mesmo tempo. Mas Astrid notou.
      - Neca. No estou gastando um nquel, hoje. S dei uma paradinha para tomar um caf e ter companhia. Como vai o Ian?
      - Bem, acho eu. Cheio de novidades soba, o livro. Que tal o qualquer movimento, hoje?
      No parecia querer falar sobre Ian. Raramente falava agora do qualquer coisa importante para ela. At mesmo com Astrid.
      - Meio parado, hoje.
      Katsuko contou-lhe o que se passara na loja, enquanto Zina observava o ligeiro tremor da mo do Jessie.
      - Formidvel. Um negcio morto e um carro morto. O Volvo deu o seu ltimo suspiro.
      Parecia despreocupada, como me realmente no lhe importasse e tivesse 12 outros carros em casa.
      - Quando vinha para casa?
      - Naturalmente. Peguei carona com dos garotos em Berkeley. Numa camioneta Studebaker 1952. Era rosa com debruns verdes e eles a chamavam de Melancia. E rodava 
feito uma.
      Tentou falar com pouco caso, enquanto as trs mulheres a observavam.
      - E onde est o carro?
      - Num posto de gasolina em Berkeley. O dono me ofereceu 75 dlares por ele, e concordou em no cobrar o reboque.
      - Voc o vendeu?
      At mesmo Katsuko parecia atnita.
      - Neca. No posso.  do Ian. Mas acho que vou vender. O carro j era. - E eu tambm. Ela no falou isso, mas todas. captaram na sua voz. - Entra fcil, sai 
fcil. Vou comprar alguma coisa barata para as minhas viagens para ver o Ian.
      Mas, com qu? De onde sairia o dinheiro?
      - Eu levo voc.
      A voz de Astrid era suave e estranhamente calma. Jessica ergueu os olhos para ela e concordou. No havia por que protestar. Precisava do ajuda e sabia disso, 
e no apenas com as viagens de carro.
      Dali em diante, Astrid levava Jessica para ver Ian trs vezes por semana. Poupava a Jessie o trabalho de esperar para tomar as duas plulas amarelas quando 
chegasse l. Desse modo, podia tomar duas pela manh e outras duas depois de v-lo. Por vezes at inclua uma verde e preta. Qualquer bocadinho ajudava.
      E Astrid no conseguia mais conversar com ela. Nem fazia sentido tentar. S o que podia fazer era dar apoio e ficar por perto para quando o tecto finalmente 
desabasse. Se desabasse, quando desabasse, onde e como. Jessica se dirigia para um muro de pedra com o mximo de velocidade possvel. Nada menos do que isso iria 
det-la. E Ian tambm no podia alcan-la. Astrid enxergava isso claramente, agora. Ele no podia enfrentar o que estava acontecendo com Jessie, porque no podia 
ajudar. E se no podia ajudar, no queria ver. E cada vez que Jessie chegava parecendo mais torturada, mais exausta, mais frgil, mais arraigada na dor e enfeitada 
de bravata, aquilo apenas machucava o Ian mais. Ele sentia maior culpa, maior dvida, maior dor pessoal. Os seus olhos agora raramente se encontravam. Simplesmente 
falavam. Ele do livro, ela da Butique. Nunca do passado ou do futuro ou das realidades do presente. Nunca falavam dos seus sentimentos, mas apenas exclamavam "Eu 
te amo" a intervalos regulares, como pontuao. Era uma coisa horrvel de se ver, e Astrid odiava essas visitas. Tinha vontade de dar uma sacudidela nos dois, de 
falar, de deter o que estava vendo. Ao invs disso, eles apenas continuavam a morrer quietamente dos lados opostos da parede de vidro, nos seus infernos particulares, 
Ian com a culpa dele, Jessica com a dela, e cada um deles com a sua cegueira sobre si mesmo e o outro. Enquanto Astrid olhava, muda e horrorizada.
      Se ao menos pudessem se abraar, poderiam ter sido reais. Mas no podiam, e no eram. Astrid sabia disso enquanto os observava. Podia v-lo nos olhos de Jessie, 
agora. Havia dor constante, mas tambm havia a expresso de uma criana que no compreende. O seu marido se fora, mas o que era um marido e aonde fora? As plulas 
tinham permitido que ela submergisse num mar de impreciso, e raramente voltava  tona. Estava muito perto de se afogar, e Astrid no tinha certeza absoluta de que 
Ian j no tivesse se afogado. Astrid gostaria de no ter que comparecer s visitas. Mas, agora, estavam todos trancafiados nos seus papis: marido, mulher e amiga.
      
      
      O ms de janeiro passou sangrando para fevereiro e depois claudicou para maro. A boutique fez uma liquidao de duas semanas que teve pouqussimo movimento. 
Todos estavam ocupados ou viajando ou se sentindo pobres. O restinho da linha de inverno deles no tinha vendido nada bem; a economia estava fraca, e os luxos estavam 
indo para o brejo com ela. A Lady J no era uma butique que atendesse s necessidades comuns. Servia a uma clientela selecta dos internacionalmente chiques. E os 
maridos das suas clientes estavam mandando que elas cortassem essa despesa. O mercado estava ruim. Eles j no achavam mais graa numa "sueterzinha" ou numa saia 
"boba" que lhes custava ao todo perto de 200 dlares.
      - Meu Deus, o que vamos fazer com toda essa droga?
      Jessica andava de um lado para o outro, abrindo um mao novo de ciganos. Tinha visto o Ian de manh. Mais uma vez, atravs do vidro. Sempre atravs do vidro. 
Tinha vises de finalmente poder toc-lo de novo quando estivessem os dois com 97 anos de idade. Nem sonhava mais com a vinda dele para casa. Apenas com poder toc-lo.
      - Vamos ter um problema de verdade, Jessie, quando a linha de primavera chegar.
       Katsuko olhou ao seu redor, pensativa. -
      - , os filhos da me. Devia ter chegado na semana passada, est atrasada.
      Entrou na sala de estoque para ver o que havia ali. Agora estava sempre irritada. A dor se mostrava de modo diferente. Agora, der-se no era o suficiente; 
estava sendo preciso mais para ar as suas vozes interiores.
      - Sabe, estive pensando.
      Katsuko a seguira at a sala de estoque o a observava.
      - E doeu? - Jessie ergueu os olhos, deu um sorriso constrangido, depois deu de ombros. - Desculpe. No que esteve pensando.
      Agora parecia a antiga Jessie. Mas isso era raro.
      - Sobre a linha do prximo outono. Voc vai a Nova York por esses dias?
      De qu? Cabo de vassoura?
      - Ainda no sei.
      - O que vamos usar como linha de inverno se no for?
      Katsuko estava preocupada. Quase no havia dinheiro para uma linha, o ainda havia contas a pagar espalhadas por toda a mesa Jessie.
      - No sei, Kat. Vou ver.
      Entrou no seu escritrio e bateu a porta, a boca numa linha Zina e Kat trocaram um olhar. Zina atendeu o telefone, tocou. Era para Jessie, de uma loja de discos. 
Tocou avisando Jessie, e esperou que ela pegasse no aparelho. A luz no telefone Zina atender s se apagou dali a alguns momentos.
      E no seu escritrio, as mos de Jessie tremiam enquanto brincava com um lpis sobre a mesa. Tinha sido outro daqueles telefonemas. Eles estavam certos de que 
fora um esquecimento, sem dvida ela no se lembrara de mandar um cheque para a quantia que vencera... pelo menos esses tinham sido educados. Do consultrio do mdico 
tinham ligado ontem, ameaando process-la. Por causa de 50 dlares? Um mdico iria process-la por causa de 50 dlares... E um dentista por causa de 98... o ainda 
havia a conta da loja de bebidas pelo vinho de Ian, de 145... e devia 26 ao tintureiro e 33  farmcia e a conta do telefone era 41... e I. Magnin... e o velho clube 
de tnis de Ian... e plantas novas para a loja e conta do electricista quando as luzes pifaram pelo Natal... e uma conta de bombeiro da casa... e assim por diante, 
interminavelmente, e o Volvo no existia mais, e a Lady J estava entrando pelo cano, e Ian estava na priso e tudo s ficava pior, ao invs de melhorar. Havia quase 
uma satisfao na coisa, como num jogo de "vamos ver at onde as coisas podem ficar ruins". E enquanto isso Astrid comprava suteres dela a preo de custo, e pulseiras 
de ouro "divertidas" no Shreve's, e ia ao cabeleireiro de trs em trs dias, a 25 dlares por vez. E agora tinha que pensar na linha de outono. Trezentos dlares 
de passagem de avio, e mais a conta do hotel, sem falar no custo do que teria que comprar. Aquilo a afundaria mais em dvidas, mas no tinha escolha. Sem uma linha 
de outono, era melhor fechar as portas da Lady J no Dia do Trabalho. Mas a coisa estava chegando a tal ponto que ela estava ficando com medo de entrar no banco para 
descontar um cheque. Estava sempre certa de que seria detida na salda e levada at o gerente. Durante quanto eles aguentariam os cheques a descoberto, os problemas, 
toda merda? E ela, por quanto tempo aguentaria?
      Enquanto estava tentando calcular o custo da viagem a York, o intercomunicador tocou avisando que havia uma ligao ela. Pegou o telefone distrada, sem perguntar 
a Zina quem era.
      - Oi, boneca, que tal jogar um pouco de tnis?
      A voz era jovial, e j parecia de algum suado.
      - Quem ?
      Desconfiou de uma ligao obscena, e j ia desligar quando homem do outro lado tomou um grande gole de alguma presumivelmente cerveja.
      - Barry. E como tem passado?
      - Barry o qu?
      Recuava do telefone como se fosse uma cobra. No conhecia essa pessoa.
      - Barry York. Sabe, da Yorktowne Bonding.
      - O qu?
      Sentou-se erecta, como se algum a tivesse esbofeteado.
      - Falei...
      - Sei o que falou. E est me ligando para jogarmos tnis?
      - . Voc no joga?
      Parecia surpreso, como um garotinho que foi severamente desapontado.
      - Sr. York, estou entendendo direito? Quer jogar tnis comigo?
      - . E da?
      Deu um arroto discreto ao telefone.
      - Est bbado?
      - Claro que no. Voc est?
      - No, no estou. E no compreendo por que ligou para mim.
      A voz dela vinha directa do Circulo rctico, via interurbano.
      - Bem, voc  uma mulher bonitona, eu ia jogar tnis, achei que talvez quisesse jogar. Mas, tudo bem. Se no curto o tnis, podemos ir jantar em algum lugar.
      - Est maluco? Em nome de Deus, o que o faz pensar que tenho alguma vontade de jogar tnis, brincar de amarelinha, jantar, ou fazer qualquer outra coisa com 
o senhor?
      - Ora, vejam s a zangadinha. Qual , boneca. Para que ficar to nervosa?
      - Acontece que sou uma mulher casada.
      Estava aos berros, e Zina e Kate podiam ouvir o seu tom d voz atravs da porta. Perguntavam-se quem teria telefonado. Kat ergueu uma sobrancelha, e Zina foi 
atender uma freguesa. L dentro, a conversa continuava.
      - , acontece que voc  uma mulher casada. E acontece que o seu homem est com a bunda grudada numa cela de cadeia. O que  uma pena, mas deixa voc aqui 
fora com o resto de ns, seres humanos, que gostamos de jogar tnis, brincar de amarelinha. jantar e trepar.
      Agora sentia-se genuinamente nauseada. Estava se lembrando dos cabelos negros e grossos dele, do seu cheiro, e do anel feio com a pedra cor-de-rosa. Era incrvel. 
Aquele homem, aquele porco repulsivo, aquele estranho completo estava ligando para ela e falando em trepar. Ficou ali sentada, plida e trmula, com as lgrimas 
ardendo por trs das plpebras, novamente. Era engraado. Sabia que, de alguma forma, isso era engraado. Mas no lhe dava vontade de rir. Dava-lhe vontade de chorar, 
de ir para casa, de... Isso fora o que Ian lhe deixara. Os Barry Yorks da vida, e gente ligando sobre cheques que ela tinha se "esquecido" de mandar, e que continuada 
a esquecer durante pelo menos seis ou sete ou nove ou dez semanas, e quem sabe anos. A tal ponto que sentia medo at de entrar no florista e comprar um buque de 
margaridas, porque provavelmente tambm lhe devia dinheiro. Devia dinheiro a todo mundo. E agora aquele animal ao telefone queria dar uma trepada.
      - Eu... Sr..... eu estou...
      Lutou para expulsar as lgrimas da voz, e engoliu com fora.
      - Qual , querida, as mulheres casadas em Pacific Heights no ficam com teso, ou voc j tem um namorado?
      Jessica ficou olhando para o telefone, o queixo tremendo, a mo tremendo, as lgrimas escorrendo pelo rosto, e fazendo beicinho como se fosse uma criana cuja 
boneca preferida tivesse sido feita em pedaos. Finalmente, percebera tudo. Fora isso o que acontecera  sua vida. Sacudiu a cabea devagar e desligou suavemente 
o telefone.
      
      
Captulo 24
      
      
      - At logo mais, senhoras.
      Ela pegou a bolsa e comeou a sair da loja. Estavam no incio e abril, numa bela manh quente de sexta-feira. A primavera parecia estar em toda parte.
      - Aonde voc vai, Jessie?
      Zina e Kat ergueram os olhos, surpresas.
      - Ver o Ian. Tenho outras coisas pala fazer amanh, assim achei melhor ir hoje.
      - D lembranas nossas.
      Sorriu para as duas moas e saiu da loja quietamente. Andava muito quieta de novo, ultimamente. Estranhamente quieta. A irritabilidade parecia estar passando, 
desde o telefonema de Barry York, h trs semanas. No contara ao Ian. Mas a degradao transparecia no seu rosto.
      York, Houghton, gente reclamando de contas a pagar, realmente no tinha importncia. Era tudo culpa dela. Fizera aquilo consigo mesma. A grande Jessica Clarke. 
A toda-poderosa, onisciente, grande-pagadora Sra. Jessica Clarke e seu maravilhoso marido, Sr. Jessica Clarke. Enxergava tudo, agora. As noites sem dormir estavam 
comeando a dar resultados. No podia mais fugir isso. Estava comeando a pensar, a lembrar, a compreender. Estava tudo como se fosse velhas fitas tocadas na escurido 
da noite. No tinha mais nada para fazer, excepto lembrar... incidentes, momentos, trivialidades, vozes. No mais a voz da me. Ou a o Jake. Mas a sua prpria, e 
a de Ian.
      - Fbulas, querido? Elas vendem?
      Como se aquilo fosse a nica coisa que importasse. Ele dera atropeladamente uma meia dzia de motivos, explicaes - como se as devesse a ela - e as fbulas 
tinham sido lindas. Mas isso no importava, ela as tinha matado no nascedouro. Com uma frase. "Elas vendem?" Quem ligava que vendessem? Fora provavelmente por este 
motivo que ele lhe comprara o Morgan com o adiantamento do seu editor. Era o meio mais alto que ele podia imaginar para responder.
      E outras vezes.
      - A pera, benzinho? Por que a pera?  to caro.
      - Mas ns gostamos. Voc no gosta, Jessie? Pensei que gostava.
      - Gosto, mas... ora, que diabo. Tiro do dinheiro das despesas da casa.
      - Ah,  isso? - Fizera-se uma longa pausa. - J comprei os ingressos, Jess. Com o "meu" dinheiro.
      Mas, afinal de contas, ele resolvera no ir. Resolvera trabalhar, no ltimo minuto. No fora a uma pera da temporada.
      Momentos minsculos, frases diminutas que rasgavam os coraes como golpes de machadinha, deixando cicatrizes numa vida, num casamento, num homem. Por qu? 
Quando precisava tanto dele? Ou ser que era isso? Que ela precisava dele o sabia que n o precisava dela da mesma forma?
      - Mas ele tambm precisava de mim.
      A sua voz soava alto no isolamento do carro. No podia permitir que Astrid lhe servisse de chofer trs vezes por semana, tanto agora alugava um carrinho para 
ir v-lo. Outra despesa mal podia pagar. Mas, enquanto ia guiando, ficava se questionando. Por que as farpas? Os pequenos cutuces, ao longo dos anos? Para cortar-lhe 
as asas para que no pudesse voar e ir embora? se ele tivesse ido embora, ela no teria sobrevivido. E a grande piada era que ele tinha voado o ido embora. Por uma 
tarde, e talvez mil tardes antes daquela, mas por uma tarde que lhes custara tudo. Ele precisara de uma mulher que no falasse certas coisas que o no humilhasse. 
Algum que no precisasse dele, no o amasse, o magoasse.
      Era uma loucura, na verdade. Fosse l o que tivesse feito, ela o fizera por medo de perd-lo. E agora, olhe s onde se encontravam. Estava to entretida nos 
seus pensamentos que quase perdeu a entrada para o presdio, e ainda estava pensativa enquanto esperava que ele aparecesse  janela.
      Mesmo depois da chegada do Ian, parecia estar mais concentrada no passado do que no presente. E ele tambm parecia perdido nos seus pensamentos. Ergueu os 
olhos para ele e tentou sorrir. Estava com uma dor de cabea de rachar, e cansada. Ficava vendo o seu reflexo na vidraa que os separava. Aquilo fazia com que sentisse 
que estava falando consigo mesma.
      - No est muito tagarela hoje, Sr. Clarke. Algum problema?
      - No, s estava pensando no livro, acho. Estou chegando ao ponto em que  difcil me relacionar com qualquer outra coisa. Estou completamente envolvido com 
ele.
      Notou um brilho estranho nos olhos dela quando terminou a frase, e comeou a falar-lhe do livro. Ela deixou que falasse por alguns minutos, depois interrompeu.
      - Sabe de uma coisa? Voc  um espanto. Venho at aqui para saber como voc est e dizer-lhe o que est acontecendo na minha vida. E voc me fala do livro.
      - E o que h de errado nisso? - Parecia intrigado, fitando-a do outro lado do vidro. - Voc me fala da Lady J.
      - Isso  diferente, Ian. Isso  real, pelo amor de Deus.
      Estava com voz estridente, e aquilo o irritou.
      - Bem, o livro  real para mim.
      - To real que no pode nem tirar urna hora do seu precioso tempo para conversar comigo? Caramba, voc est sentado ai feito um zumbi durante a ltima hora, 
falando do maldito livro. E cada vez que comeo a falar de mim, voc vai desaparecendo aos poucos.
      - Isso no  verdade, lesa. - Parecia nervoso, e pegou um cigarro. - O livro vai indo bem de verdade, e eu queria contar-lhe a respeito. Acho que nunca tive 
uma fase to boa para escrever,  s isso. - Soube que tinha dito a coisa errada no momento em que as palavras saram da sua boca. A expresso do rosto dela era 
incrvel. - Jessie, mas que diabo h de errado com voc? Est parecendo que algum acaba de enfiar um ferro quente no seu traseiro. 
      - , ou quem sabe esbofeteou a minha cara. Meu Deus, voc fica sentado a e me diz que est escrevendo brilhantemente, que anca "teve uma fase to boa para 
escrever", como se estivesse a tirando uma porra de umas frias. Sabe o que est acontecendo na minha vida?
      Inspirou fundo e ele sentiu como se estivessem derramando veneno em cima dele, atravs do telefone. Ela perdera o controle, e no estava disposta a parar, 
agora.
      - Quer saber mesmo o que est acontecendo comigo enquanto voc est tendo "uma fase to boa para escrever"? Bem, querido, vou lhe contar. Lady J est indo 
 falncia, tem gente ligando noite dia para mim mandando que eu pague as nossas contas, e ameaado me processar. O seu carro caiu de podre, meus nervos j eram, 
tenho pesadelos com o Inspector Houghton todas as noites, e o fiador telefonou me convidando para sair com ele, h trs semanas. Achou que eu estava precisando de 
uma trepada. E pode ser que o filho da puta tenha razo, mas no com ele. H no sei quantos meses nem toco na sua mo, e estou ficando louca de pedra. A minha vida 
podre est indo para o brejo, e voc est numa fase boa para escrever. E sabe o que mais  fantstico, querido? - O veneno pingava no ouvido dele, o as outras pessoas 
na sala observavam, enquanto ele ficava sentado ali, incrdulo. Ela no estava guardando segredos de ningum. - O que  absolutamente maravilhoso, Ian, meu querido, 
 que vim guiando at aqui hoje culpando-me pela dcima milsima vez por tudo que fiz de errado no nosso casamento, pelas presses que exerci sobre voc, pelas coisas 
nojentas que falei. Ser que voc se d conta que, a esta altura, representei de novo cada merda de cena do nosso casamento, tudo o que fiz de errado para voc ter 
vontade de ir para a cama com uma bosta como aquela Margaret Burton? Venho me culpando desde que aconteceu. At mesmo me culpei por sustentar a sua carreira de escritor, 
achando que tinha roubado a sua virilidade. E enquanto esta me crucificando, sabe o que voc est fazendo? Tendo a melhor fase de escritor da sua vida. Bem, sabe 
de uma coisa? Voc me d nojo. Enquanto fica sentado aqui nesta colnia para escritores glorificada que chamam de priso, a minha vida inteira est aos pedaos, 
e voc no est fazendo coisa nenhuma a respeito, meu bem. Nada. E vou lhe dizer mais uma coisa, estou cheia at dizer chega desse vidro nojento, de ter que me retorcer 
toda enxergar voc, e no um reflexo de mim mesma. Estou cheia de ficar de mos suadas e orelhas suadas e crebro suado, s de com voc neste maldito telefone... 
estou cheia at aqui de todo essa maldita situao!
      Berrava to alto que toda a sala agora estava prestando ateno, mas nenhum dos dois notou. Aquilo vinha se acumulando meses.
      - E suponho que voc acha que curto isso aqui?
      - , acho que curte sim. Uma colnia para escritores gigols, 
      -  isso a, benzinho.  isso o que aqui . E s o que aqui  escrever. Nunca penso na minha mulher, ou em como vim parar aqui, ou por que, e naquela maldita 
mulher, ou no julgamento. Nunca tenho que me desviar  fora de algum cara com querendo me comer.
      "Escute, moa, se acha que esta  a minha idia de como viver, pode enfi-la no rabo. Mas vou lhe dizer mais uma coisa. Se acha que o nosso casamento  a minha 
Idia de como viver, enfi-la no mesmo lugar. Pensei que tnhamos um casamento. Pensei que tnhamos alguma coisa. Bem adivinhe uma coisa, Sra. Clarke. No tnhamos 
droga nenhuma. Nada. Nem filhos, nem sinceridade, e duas carreiras de merda. Duas pessoas de merda, na minha opinio actual. E voc passou a maior parte dos ltimos 
seis  anos tentando no crescer e bancando a aleijada, depois que perdeu os seus pais. No apenas isso mas me fazendo sentir culpado, sabe l Deus por que motivo, 
para eu ficar por perto segurando a sua mo. E fui burro o bastante para engolir tudo isso porque era burro o bastante para am-la e queria ter a minha carreira 
de escritor, tambm. Bem, o resultado foi nojento, minha generosa senhora. E pode ficar com ele. Acontece que preciso de uma mulher, no do um banqueiro ou de uma 
criana neurtica. Talvez seja por isso que eu esteja feliz agora, acredite se quiser, embora este lugar seja uma bosta. Estou escrevendo, e voc no est me sustentando. 
Que tal lhe parece, boneca? Voc no est pagando as contas o eu lhe no lhe devo coisa alguma excepto o facto de que voc segurou a minha mo durante cada centmetro 
do julgamento, e que foi maravilhosa. Mas vou lhe pagar todas as contas dessa poca, algum dia. E se agora a sua idia  me fazer sofrer o mnimo possvel, me fazer 
sentir o mais culpado possvel pelo quo fodida voc est, o quanto as contas esto altas, e como o meu carro caiu aos pedaos rapidamente, ento dano-se. No posso 
fazer nada sobre coisa alguma, aqui dentro. S o que posso fazer  ligar para voc, ficar grato porque vem me ver, e terminar a porra do meu livro. E se voc no 
curte vir me ver, faa-me um grande favor e no venha mais. Posso muito bem viver sem isso.
      Jessica sentiu o aperto do pnico to familiar no peito enquanto olhava para o rosto dele. Mas desta vez era pior. Nunca tinham dito coisas como essa um para 
o outro. E agora ela no podia parar. Ainda podia sentir a bile espumando na sua alma.
      - Por que no quer que eu venha v-lo, querido? Encontrou outro amor a dentro? Ser que  isso, anjo? Ser que o grande macho arranjou outro macho para 
amar? - Ian se ps de p e olhou para ela como se fosse bater nela, atravs da janela de vidro, a fascinao da multido agora silenciosa, de ambos os lados vidraa. 
-  isso, querido? Virou gay?
      - Voc me d nojo.
      - Ah,  verdade, esqueci. Voc no gosta de "crimes infames contra a natureza". Ou gosta? - Parecia intoleravelmente meiga enquanto erguia as sobrancelhas, 
e seu corao batia violenta-te dentro do peito. - Quem sabe estuprou aquela mulher, no final das contas.
      - Dona, se eu no estivesse aqui, enfiaria a mo na sua cara. 
      Agigantava-se acima dela, com o vu de vidro a separ-los, os ainda nas mos, e vagarosamente Jessica ergue-se para enfrent-lo. Sabia que o momento tinha 
chegado e no podia acreditar. Ainda no conseguia parar.
      - Enfiar a mo na minha cara? - Agora as vozes deles estavam suaves. Ele falara com o tom de voz calculado de um homem que est quase acabado, e ela falava 
com o sussurro prateado do uma vbora prestes a dar o ltimo bote. - Enfiar a mo na minha cara? - Repetiu as palavras de novo, com um sorriso. - Mas, por que agora, 
querido? Nunca teve colho para isso antes. No , amor?
      Ele respondeu em menos do que um sussurro, e o corao dela quase parou quando viu a expresso dos seus olhos.
      - No, Jess, no tive. Mas agora no tenho nada a perder. J perdi. E isso torna tudo mais fcil.
      Deu um sorriso leve o estranho que a deixou gelada, olhou para ela pensativo por um breve momento, largou o fone e se afastou No olhou para trs nem uma vez, 
e Jessica sentiu que ficava de boca aberta de espanto. O que ele acabara de dizer? Queria que ele voltasse para poder perguntar-lhe de novo para que... o que ele 
queria dizer com "isso torna tudo mais fcil"? O que... o filho da puta... ele a estava abandonado, no tinha o direito de fazer isso, no podia, ele... e o que 
ela tinha dito? O que tinha feito? Afundou-se na cadeira como se estivesse em estado de choque, e vagarosamente o rudo de vozes  sua volta retornou ao normal. 
H muito que Ian desaparecera pela porta, no estava mais visvel. Ela estivera errada. Ele tinha colho. E tinha feito aquilo que ela mais temia. Ele a tinha abandonado.
      
      
      O pra-choque dianteiro do carro alugado roou as sebes frente da sua casa, quando dobrou na entrada para automveis. Baixou a cabea sobre o volante e sentiu 
perder o flego. Havia um soluo entalado ali, em algum canto, mas estava preso, no a conseguia sair. O peso da sua cabea fez disparar a buzina, e o som parecia 
estar estourando a tampa da sua cabea. Estava gostoso. No tirava a cabea de cima do volante. Ficou ali at que homens que passavam entraram rapidamente na entrada 
para e a p. Bateram na janela e ela virou a cabea lentamente para lado, olhou para eles e riu, uma risada alta e histrica. Os homens se entreolharam indagadoramente, 
abriram a porta do carro e colocaram o corpo do Jessie no banco, direitinho, com suavidade. Ela olhou para um e outro, riu histericamente de novo e ento a risada 
transformou-se num soluo, que se arrancou da sua garganta e se tornou um lamente longo, triste, solitrio. Sacudia a cabea lentamente e dizia uma nica palavra 
repetidas vezes, por entre os soluos:
      - Ian.
      - Moa, est bbada?
      O mais velho dos dois homens parecia agitado e pouco  vontade. Pensara que ela estava ferida, ou doente, com a cabea em cima do volante, daquele jeito, e 
fazendo tal zorra com a buzina. Mas ela estava era bbada, ou maluca, ou drogada. No contara com isso. O homem mais moo olhou para ela, deu do ombros o abriu um 
sorriso.
      Jessie sacudia a cabea lentamente de um lado para o outro, e dizia a nica palavra em que conseguia se concentrar:
      - Ian.
      - Irm, est drogada? - Ela no respondeu e o homem mais moo deu de ombros de novo e riu. - Devo ser coisa da boa.
      - Ian.
      - Quem  Ian? Seu namorado?
      Outra sacudidela cega da cabea.
      Os dois homens se entreolharam de novo e fecharam a porta do carro. Pelo menos a buzina no estava soando mais, e ela s ia ficar sbria dali a horas. Foram 
se afastando, o mais moo divertido, o mais velho nem tanto.
      -  Tem certeza de que est drogada? Para mim me pareceu meio confusa. Quero dizer, doente-confusa. Meio maluca.
      - Piradona isso sim.
      O mais moo riu, bateu na barriga e abraou o amigo justo do Astrid ia passando de carro e percebeu que saam da casa Jessica, rindo e parecendo satisfeitos. 
Parou o carro e franziu a testa enquanto um arrepio de modo lhe corria pela espinha. No pareciam ser da polcia, mas... notaram que ela os observava e o mais moo 
acenou, enquanto o mais velho sorria. Astrid no entendia o que estava acontecendo, mas eles entraram num sed vermelho e pareciam no ter pressa. No havia nada 
de furtivo ou do nos seus movimentos, e ento Astrid reparou em Jessie no seu carro alugado. Tudo estava bem. Astrid buzinou. Mas Jessie se virou. Buzinou de novo, 
e mais uma vez, e os dois homens desataram a rir, ruidosamente.
      - No, voc tambm, irm! A mulher naquele carro est to pirada que tivemos que arranc-la de cima do volante s para fazer com que largasse a buzina.
      Fizeram um gesto vago na direco da entrada para carros da casa de Jessie, deram partida no seu carro e se arrancaram da vaga enquanto Astrid saltava do veculo 
e subia correndo a entrada para carros.
      Jessie ainda estava sentada l, chorando e soluando e mantendo a sua nica palavra na boca: "Ian". Astrid no estava to certa que estivesse drogada. Um pouco 
talvez, mas no tanto quanto parecia. Em estado de choque, talvez. Alguma coisa se rompera.
      - Jessica? - Envolveu-a com o brao e falou suavemente enquanto Jessie se largava ligeiramente para a frente. - Oi Jessie, sou eu, Astrid. - Jessica olhou 
para ela e balanou a cabea. Os dois homens j tinham ido embora. Todos tinham ido embora. At mesmo o Ian.
      - Ian - falou, com mais clareza, agora.
      - O que h com o Ian?
      - Ian.
      Astrid enxugou o seu rosto suavemente com um leno.
      - Fale-me do Ian. - O corao de Astrid batia forte e ela estava tentando manter a mente desanuviada e observar os olhos de Jessica. No achava que fosse uma 
dose excessiva de plulas. O mais provvel era uma dose excessiva de problemas. Jessie finalmente chegara ao seu limite.
      - E quanto ao Ian, amor? Me conte. Ele estava doente, hoje? - Jessica sacudiu a cabea. Pelo menos ele no estava ferido. Astrid pensara nisso a princpio, 
com as histrias de horrores nas prises publicadas nos jornais correndo instantaneamente pela sua cabea. Mas Jessica fizera sinal de que no. - Algum problema?
      Jessica inspirou fundo e fez que sim com a cabea. Inspirou fundo de novo e se recostou um pouco no banco.
      - Ns... tivemos... uma briga.
      As palavras mal eram inteligveis, mas Astrid assentiu com a cabea.
      - Por causa de qu?
      Jessica deu de ombros, parecendo confusa de novo.
      - Ian.
      - Por causa do que vocs brigaram?
      - Eu... no... sei.
      - Lembra-se?
      Jessica deu de ombros de novo, e fechou os olhos.
      - Por causa de tudo... acho. Ambos... dissemos... coisas terrveis. Acabou.
      - O que acabou?
      Mas achava que sabia.
      - Acabou. Acabou mesmo.
      - O que acabou mesmo, Jessie?
      A voz dela era to meiga, e as lgrimas escorriam pelo de Jessica com fora redobrada.
      - O nosso casamento... acabou... mesmo. - Sacudiu a cabea, mudamente, depois fechou os olhos de novo. - Ian. .
      - No acabou tudo, Jessie. Vamos, fique calma. Vocs provavelmente tinham muita coisa para botar para fora. Enfrentaram problemas muito desgastantes, ultimamente. 
Muitos choques. Tinha que vir para fora.
      - No, acabou. Eu... fui to horrvel com ele. Sempre... fui horrvel com ele. Eu...
      Mas ento no pode falar mais.
      - Por que no entramos e voc se deita um pouquinho? - Jessica sacudiu a cabea e no se mexeu, o Astrid lutou para chamar a sua ateno. - Jessie, me escute 
por um minuto. Quero lev-la a um lugar. - Os olhos da moa se arregalaram de terror.
      - Um lugar muito agradvel, voc vai gostar. Iremos juntas. 
      - Um hospital?
      Astrid sorriu pela primeira vez em cinco minutos.
      - No, boba. A fazenda da minha me. Acho que lhe faria bem, e...
      Jessica sacudiu a cabea, teimosamente.
      - No... eu...
      - O qu? Por que no?
      - Ian.
      - Bobagem. Vou lev-la at l, e voc vai ter um belo descanso. Acho que voc j aguentou o que pode, por enquanto. No acha? - Jessica sacudiu a cabea, calada, 
de olhos fechados de novo. - Jessie, tomou muitas plulas hoje? - Ela comeou a sacudir a cabea, depois parou e deu do ombros. - Quantas? Conte-me.
      - No sei... no tenho certeza.
      - Me d uma idia aproximada. Duas? Quatro? Seis? Dez?
      Rezou para que no fossem tantas.
      - Oito... no sei... sete... nove...
      Jesus.
      - Esto na sua bolsa? - Jessica fez que sim. E Astrid pegou suavemente a bolsa de cima do banco. - Vou tir-las, Jessie, est bem?
      Jessica sorriu, ento, pela primeira vez, e inspirou fundo. Quase parecia a velha Jessie de novo.
      - Tenho... opo?
      As duas mulheres riram uma tonta, a outra nervosamente, e Jessica deixou que a amiga a ajudasse a entrar. Estava menos drogada do que esgotada. Deixou-se deslizar 
lentamente para uma cadeira na sala de visitas e nem se mexeu enquanto escutava os rudos de Astrid movendo-se activamente no quarto e no banheiro. Ia ser to bom 
se afastar de tudo aquilo, at mesmo da viso de Ian por trs da janela de vidro. Soube ento que jamais o veria ali de novo. Resolveria o resto depois, mas isso 
ela j sabia. Soltou um profundo suspiro e pegou no sono na cadeira at que Astrid a acordou o a levou at o Jaguar.
      As suas malas tinham sido arrumadas, a casa estava trancada, o Jessie sentia-se como se fosse uma criancinha de novo, bem-cuidada e muito amada.
      - E quanto ao carro? - perguntou.
      - O que voc alugou? - Ainda estava parado, todo torto, na entrada. Jessica fez que sim. - Mandarei algum vir busc-lo mais tarde. No se preocupe. - Jessica 
no se preocupava. Era parte da felicidade de se ter dinheiro. Ter "algum que viesse busc-lo mais tarde". Rostos e mos annimos para fazer esse tipo do servio. 
- E telefonei para as moas na loja e falei que voc ia viajar comigo. Pode ligar para elas amanh e dar-lhes instrues.
      - Quem vai... quem ..... sabe, gerir a loja?
      Tudo ainda estava misturado na cabea de Jessica, e Astrid sorriu e deu uma palmadinha suave na sua face.
      - Eu vou. E mal posso esperar. Que barato, frias para voc e um emprego para mim.
      Jessica sorriu, e pareceu mais normal de novo.
      - E a linha do outono?
      Astrid ergueu uma sobrancelha, surpresa, enquanto dava partida no carro.
      - Voc deve estar melhorando. Mandarei Katsuko, com a sua permisso. Cuidarei da parte financeira, e voc me pagar depois.
      Jessica sacudiu a cabea e voltou a olhar para a amiga. A ligeira soneca a deixara mais sbria.
      - No posso pagar-lhe depois, Astrid. A Lady J est lutando apenas para sobreviver. Este  um dos motivos pelos quais ningum ainda foi para Nova York.
      - A Lady J aceitaria um emprstimo meu?
      Jessica sorriu.
      - No sei, mas a me dela talvez. Posso pensar no assunto?
      - Claro. Depois que Katsuko voltar. Tenho novidades para voc. No lhe  permitido tomar decises durante as prximas duas semanas. Nenhuma. Nem mesmo o que 
vai comer no caf da manh. Faz parte das regras bsicas dessas suas frias. Adiantarei o dinheiro para a linha de outono, e acertaremos tudo mais tarde. Estou precisando 
de um meio de desvalorizao fiscal, de qualquer maneira.
      - Eu... mas...
      - Cale a boca.
      - Sabe de uma coisa? - Jessie olhou para ela com um pequeno sorriso e olhos cansados e inchados. - Vou aceitar. Preciso da linha de Outono ou a loja vai fechar, 
de qualquer forma. Que diabo, Katsuko ficou feliz em ir?
      - O que voc acha? - As duas mulheres sorriram de novo e Astrid parou o carro diante da prpria casa. - Voc consegue subir as escadas? - Jessica fez que sim, 
e seguiu Astrid lentamente para dentro de casa. - Preciso s de umas coisinhas, vou apenas passar a noite l. Quero estar trabalhando amanh.
      Resplandecia com as palavras. E 15 minutos mais tarde estavam de volta no carro, dirigindo-se para a auto-estrada. Jessie ainda sentia como se uma bomba tivesse 
atingido a sua vida, agora tudo estava se movendo depressa demais.
      As palavras trocadas com Ian voltaram  sua mente enquanto rodavam em silncio. Tinha fechado os olhos e Astrid pensava que estava dormindo. Mas estava bem 
desperta. Desperta demais. E mais do que estivera em muito tempo. Precisava de outra plula, e Astrid jogara todas no vaso e dera a descarga, na casa. Todas elas. 
As vermelhas, as azuis, as amarelas, as pretas e verdes. No sobrara nada. Excepto o seu prprio corao, batendo com as palavras do Ian... e o seu rosto... e... 
por que tinham feito aquilo um com o outro? Por que o veneno, o dio, a raiva? No fazia sentido para ela. Nada fazia. Quem sabe sempre se tinham dado. Quem sabe 
at o bons tempos tinham sido uma mentira. Era to difcil destrinar tudo isso, agora. E era tarde demais, de qualquer forma. Procurara as respostas era como procurar 
o dedal de prata da sua av nos destroos da sua casa, depois que ela fora incendiada. Juntos, ela e Ian tinham tocado fogo no seu casamento, e dos lados opostos 
de uma vidraa tinham-no visto queimar, atiando as chamas, recusando-se a partir at que a ltima viga tivesse desaparecido.

      
Captulo 25
      
      
      Astrid tocou-lhe o ombro de novo e ela acordou, assustada e confusa quanto a onde estava, O efeito das plulas agora tinha passado de verdade e ela se sentia 
irritada.
      - Calma, Jessie, voc est na fazenda.  quase meia-noite tudo est bem.
      Jessica se espreguiou e olhou ao seu redor. Estava escura mas as estrelas brilhavam l em cima. O ar tinha um cheiro freio e ela podia ouvir o relincho de 
cavalos a distncia. E bem  sua direita ficava uma grande casa de pedra com persianas amarelas-vivas. A casa estava bem iluminada e havia uma porta aberta,
      Astrid tinha entrado por um momento para falar com a me antes de acordar Jessie. A me no ficou chocada, ou sequer surpresa. J tinha enfrentado crises antes, 
com Astrid, com amigos, com a famlia, anos atrs. as coisas aconteciam s pessoas, elas ficavam abaladas por algum tempo, mas a maioria sobrevivia, algumas no, 
mas a maioria sim, E a fazenda era um bom lugar para se recuperar.
      - Vamos, dorminhoca, minha me est com chocolate quente e sanduches  nossa espera, o no sei quanto a voc, mas eu estou morta de fome.
      Astrid estava parada junto ao carro aberto, e Jessica penteou o cabelo com um sorriso pesaroso.
      - Ela tem plulas?
      - No. - Astrid olhou perscrutadoramente para Jessie. - Est ruim?
      Jessica fez que sim, depois deu de ombros.
      - Mas no vou morrer. Chocolate quente, hein? Como se compara ao Seconal?
      Astrid fez uma careta para ela, e depois tirou a mala dela mala do carro.
      - Passei pela mesma coisa depois da morte do Tom. Cheguei aqui e a minha me jogou tudo fora. Todas as plulas. E eu reagi com muito menos bom humor do que 
voc, hoje  tarde.
      - Eu estava drogada demais para reagir. Voc teve sorte. E deixe que eu carrego isso. - Estendeu a mo para a mala o Astrid deixou que ficasse com ela. - O 
Ian sempre diz que uma amazona como eu...
      E ento ela parou o a sua voz foi sumindo. Astrid observou-lhe a cabea baixa enquanto ela caminhava quietamente at a casa. Estava contente por t-la trazido, 
e apenas lamentava no t-lo feito antes. Perguntava-se qual o grau do seriedade da briga com Ian. Algo lhe dizia que era para valer, mas era impossvel sabor ao 
certo.
      Os sapatos delas faziam barulho no caminho do cascalho que levava  casa, e o cheiro do grama fresca e de flores estava por toda perto. Jessie notou que o 
lugar parecia alegro, mesmo no escuro. Flores multicoloridas cercavam todo o prdio de pedra, o reuniam em grande profuso junto  porta. Sorriu enquanto passava 
por elas e subia o nico degrau.
      - Cuidado com a cabea! - avisou Astrid quando Jessie bateu com ela na porta, e as duas mulheres chegaram lado a lado no hall de entrada. L havia um pequeno 
piano, pintado de vermelho-vivo, um espelho comprido, vrias escarradeiras de bronze, e uma parede de chapus exticos e coloridos. Logo alm do hall ficavam pisos 
de pinho e tapetes feitos  mo, sofs confortveis e uma cadeira de balano junto ao fogo. Havia quadros a leo aconchegantes e uma longa parede de livros. Era 
uma estranha combinao de moderno bom, vitoriano encantador, simplesmente confortvel e agradavelmente antigo, mas funcionava. Plantas e uma antiga vitrola pintada 
de vermelho, como o piano, alguns livros em primeira edio, o um belssimo sof moderno forrado de cor clara. Cortinas de ronda pendiam das janelas, o num canto 
ficava um grande fogo de azulejos. A sala parecia feliz o clida, com um surpreendente elemento chique.
      - Boa noite. - Jessica virou-se ao som da voz e viu uma mulher minscula de p  porta da cozinha. tinha os mesmos cabelos louro-acinzentados da filha, e olhos 
muito azuis que brilhavam e riam. As simples palavras "boa noite" pareciam diverti-la. lentamente para Jessica e estendeu a mo. - Que ptimo t-la aqui, minha querida. 
Imagino que Astrid j lhe avisou que sou uma velha rabugenta e que a fazenda  uma chatura. Mas estou encantada que tenha vindo.
      A luz nos seus olhos danava feito chama.
      - No a avisei de nada disso, mame. Teci os maiores elogios ao lugar, portanto  melhor voc se comportar bem.
      - Santo Deus, que horror. Agora vou ter que guardar todos os meus livros pornogrficos e cancelar a vinda dos rapazes, ? Que tristeza.
      Aportou as mos juntas, como se estivesse grandemente perturbada, e depois explodiu numa risada juvenil. Fez um gesto confortvel na direco do sof e as 
duas mulheres foram se sentar junto com ela ao p do fogo. O chocolate quente prometido estava esperando numa baixela de porcelana de Limoges, com padro da flores 
delicadas.
      - Que bonito, mame.  novo?
      Astrid serviu-se de uma xcara de chocolate quente e olhou para a porcelana.
      - No, querida,  muito velho ... 1880, creio eu.
      As duas mulheres trocaram um olhar divertido. Dava-se facilmente para ver que no eram apenas me e filha, mas tambm amigas. Jessica sentiu uma pontada de 
inveja enquanto olhava para elas, mas tambm o brilho do calor reflectido.
      - Quero dizer,  novo para voc?
      Astrid tomou um gole de chocolate quente.
      - Ah, foi isso que quis dizer! , para falar a verdade,  sim.
      - Danadinha, e voc sabia que eu ia notar e usou-o hoje para se mostrar.
      Mas parecia satisfeita com o elogio implcito, e a me achou raa
      - Tem toda razo! Bonito, no ?
      - Muito.
      O olhos das duas mulheres danavam felizes, e Jessica observando a cena. Ficou surpresa com a aparncia jovem da de Astrid. E com a elegncia que a acompanhara 
a despeito da passagem dos anos e da vida no rancho. Usava calas de gabardine cinza muito bem talhadas e uma bela blusa de seda que Jessie sabia devia ter vindo 
de Paris. Era em tons de azul que a favoreciam, realando a cor dos seus olhos. Usava-a com prolas e vrios anis de ouro grandes e elegantes, um deles com um brilhante 
razoavelmente grande. Ela parecia mais de Nova York Connecticut do que uma fazendeira. Jessie quase nu alto lembrando-se da imagem que Astrid pintara da me h meses, 
em trajes de vaqueiro. No era nada disso que Jessica estava vendo.
      - Chegou na hora certa, Jessica. A zona rural  to frtil e linda nessa poca do ano. Macia e verde e quase peluda. Comprei a fazenda nessa poca do ano, 
e foi provavelmente por esse motivo que entreguei os pontos. A terra  to sedutora na primavera.
      Jessica riu.
      - Eu no planejei exactamente que fosse assim, Sra. Williams. - Mas meu marido foi para a priso e eu fiquei viciada em comprimidos para dormir o tranquilizantes 
e sabe, me esforcei muito para ter um esgotamento nervoso e tivemos essa briga horrvel hoje do manh e... riu de novo e sacudiu a cabea. - No planejei mesmo. 
E a senhora foi muito gentil em me receber assim sem aviso prvio.
      - No  problema. - Ela sorriu, mas seus olhos no perdiam nada. Notou que Jessica no estava comendo nada, e apenas sorvia o chocolate quente. J estava fumando 
o segundo cigarro, nos poucos momentos desde a chegada das duas mulheres. Desconfiava de que Jessica tinha adquirido o mesmo problema que Astrid tivera depois da 
morte de Tom. Plulas. - Sinta-se como estivesse em casa, minha querida, e fique o tempo que quiser.
      - Posso ficar para sempre.
      - Claro que no. Vai ficar chateada numa semana.
      Os olhos da senhora idosa brilharam maliciosos de novo, e Astrid riu.
      - Voc no fica chateada aqui, mame.
      - Ah, fico, sim, mas ento vou para Paris ou Nova York Los Angeles, ou vou visit-la naquele sou mausolu pavoroso...
      - Mame!
      -  um mausolu, o voc sabe disso. Um mausolu muito bonito, mas apesar disso... sabe o que penso. Disse-lhe no ano passado que achava que devia vend-lo 
e comprar uma casa nova. Uma coisa menor e mais nova e mais alegre. Nem eu sou velha o bastante para morar l. Disse isso ao Tom quando ele estava e no sei por 
que no posso dizer a voc, agora.
      - A Jessica tem o tipo de casa que voc iria adorar.
      - ? Uma choa de grama no Taiti, sem dvida.
      As trs mulheres riram e Jessica fez uma tentativa de comer um sanduche. O estmago dela estava dando cambalhotas, mas esperava que, se comesse alguma coisa, 
as mos parassem de tremer. Suspeitava que dois dias bastante difceis a esperavam, mas menos a companhia seria boa. J estava apaixonada pela me sem papas na lngua 
de Astrid.
      - Ela mora naquela maravilhosa casa azul e branca a uma quadra da minha. Aquela cheia de flores na frente. 
      - Lembro-me dela, mais ou menos. Bonita, mas um pouco a, no ?
      Muito - disse Jessica, por entre mordidas. O sanduche era de requeijo e presunto com agrio fresco e fatias finssimas de tomate.
      - Eu mesma no suporto mais a cidade. Excepto por uma visita. Mas, depois de algum tempo, fico feliz de voltar para casa. As sinfonias me entediam, as pessoas 
se vestem com exagero, o. restaurantes so medocres, o trfego  assustador. Aqui, eu ando a cavalo de manh, caminho no bosque, e a vida parece uma aventura a 
cada dia. Estou velha demais para a cidade. Voc anda a cavalo?
      O jeito dela era to vivaz que era difcil acreditar que tinha mais de 55 anos. Jessica sabia que, na realidade, tinha 72. Sorriu  pergunta.
      - H anos que no monto, mas gostaria.
      - Ento, pode. Faa o que quiser, quando quiser. Fao o caf s sete, mas voc no precisa se levantar. O almoo  uma proposta free-lance, e o jantar  s 
oito. No gosto dos horrios da roa.  embaraoso jantar s cinco ou seis horas. E s sinto fome mais tarde, mesmo. E a propsito, a minha filha me apresentou como 
Sra. Williams, mas meu nome  Bethanie. Eu o prefiro.
      Ela era uma pimentinha, mas os olhos azuis eram meigos, e a boca parecia sempre prestes a rir.
      -  um belo nome.
      - Serve. E agora, senhoras, dou-lhes boa-noite. Quero cavalgar amanh cedinho.
      Deu um sorriso caloroso para a hspede, beijou a filha no topo da cabea e subiu animada as escadas que levavam ao quando, tendo assegurado a Jessie que Astrid 
a deixaria escolher o seu quarto. Havia trs para escolher, e estavam prontos para receber hspedes. Astrid explicou que as pessoas vinham visitar Bethanie frequncia. 
Era rara a semana em que ningum ficava na fazenda. Amigos da Europa a incluam nos seus itinerrios elabora outros amigos vinham de Nova York at a Costa Oeste, 
depois alugavam carros para vir v-la, e ela tinha alguns amigos em Los Angeles. E Astrid,  claro.
      - Astrid, isso  simplesmente fabuloso. - Jessica ainda estava um pouco atordoada com aquilo tudo. A casa, a me, a hospitalidade, a sinceridade de tudo, o 
carinho apimentado da anfitri. - E a sua me  notvel.
      Astrid sorriu, satisfeita.
      - Acho que o Tom se casou comigo s para no perder contacto com ela. Ele a adorava, e ela a ele.
      Astrid sorriu de novo, satisfeita com a expresso do rosto Jessie.
      - D para se ver por que ele a adorava. Ian ia ficar completamente apaixonado por ela.
      O tom de voz dela mudou enquanto falava, e pareceu divagar. S dali a um momento a sua ateno retomou a Astrid.
      - Acho que vai lhe fazer bem ficar aqui, Jessie.
      Jessica concordou lentamente.
      - Parece bobagem, mas j me sinto melhor. Um pouco trmula - estendeu a mo para mostrar os dedos trmulos, e abriu um sorriso encabulado - mas melhor, mesmo 
assim.  um alvio to grande no ter que passar outra noite sozinha naquela casa. Sabe,  uma loucura. Sou uma mulher adulta. No sei por que me afecta tanto, mas 
 horrvel, Astrid. Quase chego a torcer para que o maldito lugar se incendeie enquanto eu estiver tora.
      - No diga isso.
      - Falo a srio. Acabei por detestar aquela casa. Fui to feliz l, e agora acho que a odeio o dobro do que fui feliz. E o estdio...  como um lembrete de 
todas as minhas piores falhas.
      - Voc acha honestamente que fracassou, Jessica?
      Jessica balanou a cabea lenta mas firmemente.
      - Sozinha?
      - Quase.
      - Espero que voc venha a se dar conta do absurdo disso.
      - Sabe o que di mais? O facto de que eu pensava que tnhamos um casamento fantstico, O melhor. E agora... tudo parece to diferente. Ele engolia os seus 
ressentimentos. Eu fazia as coisas  minha moda. Ele me chifrava e no me contava; eu adivinhava, mas no queria saber. Est tudo to confuso. Vou precisar de tempo 
para esclarecer tudo.
      - Pode ficar aqui o tempo que quiser. Mame nunca vai se cansar de voc.
      - Pode ser que no, mas no gostaria de abusar da hospitalidade. Acho que, se ficar uma semana, terei no apenas como serei eternamente grata.
      Astrid apenas sorriu enquanto tomava o seu chocolate quente. As pessoas costumavam dizer que iam ficar alguns dias ou uma semana, e cinco semanas mais tarde 
ainda estavam l. Bethanie no se importava, contanto que no a atrapalhassem. Ela tinha seus os programas, seus amigos, sua jardinagem, seus livros, seus projectos. 
Gostava de seguir o seu caminho, e deixar os outros fizessem o mesmo, o que era parte do seu charme e grande sucesso como anfitri. Era excessivamente independente 
e tinha um respeito muito grande pelo isolamento das pessoas, inclusive o seu. Astrid mostrou a Jessica os quartos que podia escolher, e ela se decidiu por um quarto 
cor-de-rosa pequeno o aconchegante com um edredon antiquado na cama e panelas do cobre penduradas sobre a lareira. Tinha um tecto alto e inclinado, alto o bastante 
para ela no bater com a cabea quando sasse da cama. Havia uma linda janela panormica com assento no vo interno, e uma cadeira de balano ao p da lareira. Jessie 
soltou um profundo suspiro o sentou na cama.
      - Sabe, Astrid, pode ser que eu nunca v para casa.
      Isso foi dito entre um sorriso e um bocejo.
      - Boa noite, gatinha. Trate de dormir. Vejo voc na hora caf.
      Jessica balanou a cabea e bocejou de novo. Deu um aceno enquanto Astrid fechava a porta, depois disso um ltimo e sonolento obrigado.
      Teria que escrever ao Ian pela manh, para dizer-lhe onde estava. Para lhe dizer alguma coisa. Mas ia se preocupar com isso amanh. No momento, estava um mundo 
e meio afastada de os seus problemas. A boutique, Ian, contas, aquela insuportvel nela em Vacaville. Nada daquilo era mais real. Agora estava casa. Era assim que 
se sentia, e sorriu  idia enquanto acendia fogo e punha uma acha na lareira, antes do enfiar a camisola. De minutos mais tarde, estava dormindo. Pela primeira 
vez em quatro meses, sem comprimidos.
      
      
      Bateram  porta do quarto de Jessie minutos aps ela ter fechado os olhos. Mas, quando os abriu, a luz do sol entrava por entre as cortinas de organdi branco, 
e um gato malhado e gordo bocejava sonolento numa nesga de sol na sua cama. O relgio dez e quinze.
      - Jessie? Est acordada?
      Astrid enfiou a cabea pela porta. Estava carregando uma Imensa bandeja do vime branco cheia de guloseimas.
      - Ah, no! Caf na cama! Astrid, voc vai me estragar sempre!
      As duas mulheres riram e Jessie sentou-se na cama, o cabelo louro caindo pelos ombros num tumulto de cachos soltos. Parecia uma garotinha, o surpreendentemente 
descansada, agora.
      - Est com uma cara tremendamente saudvel esta madame.
      - E morta de forno. Dormi feito uma pedra. Uau! - Deparou com waffles, bacon, dois ovos fritos e uma caneca do caf, tudo servido em porcelana delicadamente 
florida. Havia um vaso no canto da bandeja, com uma nica rosa amarela. - Sinto como se fosse o meu aniversrio, ou qualquer coisa assim.
      - Eu tambm! Mal posso esperar para chegar na loja! - Astrid soltou uma risadinha e sentou na cadeira de balano enquanto Jessie atacava o desjejum. - Devia 
ter deixado voc dormir mais um pouquinho, mas queria voltar para a cidade. E mame decidiu que voc precisava de caf na cama no primeiro dia.
      - Estou encabulada. Mas no encabulada demais para comer tudo isso. - Soltou uma risadinha abafada e mergulhou no waffles. - Estou morrendo de fome.
      - E devia estar. No jantou, ontem.
      - O que a sua me est fazendo, agora de manh?
      - Sabe l Deus. Saiu para andar a cavalo s Oito, voltou para trocar de roupa e saiu de carro h alguns minutos. Ela segue o seu caminho, e no d chance para 
a gente fazer perguntas.
      Jessica sorriu e se recostou na cama, com a boca cheia de waffles.
      - Sabe, eu devia estar me sentindo culpada, como o diabo, sentada aqui com o Ian onde est, mas, pela primeira vez em cinco meses, no me sinto assim. S me 
sinto bem. Fabulosa, a propsito. - E aliviada. Era um alivio to grande no ter que fazer nada. No ter que estar na loja, ou indo visitar Ian, ou abrindo contas, 
ou atendendo telefonemas. Estava em outro mundo, agora. Estava livre. - Sinto-me to legal, Astrid.
      Sorriu, espreguiou-se e bocejou, com um esplndido caf da manh no bucho e o sol iluminando-lhe a cama.
      - Ento, aproveite. Precisava de alguma coisa desse tipo. Quis traz-la aqui pelo Natal, lembra-se?
      Jessica assentiu, pesarosa, lembrando-se do que tinha feito, em vez de vir. Tinha apagado o Natal com um punhado de plulas.
      - Se eu tivesse sabido.
      Ela acariciou o gato malhado e ele lhe lambeu os dedos, enquanto Astrid ficava sentada na cadeira de balano, balanando-se suavemente e observando a amiga. 
Uma boa noite de sono, e j estava com  outra cara. Mas ainda tinha muito a resolver. No invejava a Jessica a tarefa que a esperava.
      - Por que no fica aqui por uns dois dias, Astrid?
      Astrid soltou um brado e sacudiu a cabea.
      - E perder toda a diverso de dirigir a boutique? Est maluca. No poderia me segurar aqui nem que me amarrasse a um poste. H anos que no sei o que  me 
divertir assim!
      - Astrid, voc  pinel, mas eu a amo. Se no fosse por voc, no poderia estar sentada aqui feito uma dondoca. Portanto, v divertir-se com a Lady J.  toda 
sua! - E ento, Jessie ficou melanclica. - Quase me d vontade do no ter que voltar.
      - Quer me vender a Lady J?
      Alguma coisa na voz de Astrid fez Jessica erguer os olhos.
      - Est falando a srio?
      - Muito. Quem sabe at mesmo uma sociedade, se voc no quiser vender integralmente. Mas tenho pensado muito nisso. S no sabia como abordar o assunto com 
voc.
      - Como o fez agora. Mas eu nunca tinha pensado nisso. Podia ser uma idia. Deixe-me cozinh-la em banho-maria. E veja o quanto se diverte enquanto estou ausente. 
Talvez odeie o lugar at o final da semana.
      Mas Astrid podia notar pelo som da voz dela que Jessica no tinha a menor inteno de desistir da Lady J. Ainda havia aquele orgulho de posse na sua voz. A 
Lady J era dela, no importa o quanto estivesse cheia dela no momento.
      - A propsito, falava a srio quando disse que ia mandar Katsuko para Nova York?
      Jessie ainda estava atordoada com tudo que tinha acontecido em apenas 24 horas.
      - Sim. Disse a ela que fizesse planos para viajar amanh. Assim, voc pode lhe dar as instrues que desejar. Podemos acertar a parte financeira mais tarde. 
Muito mais tarde. Portanto, no acrescento isso  sua pilha de preocupaes. E quanto  linha de outono? Idias, ordens, pedidos, advertncias, ou l o que for?
      - Nenhum. Confio nela implicitamente. Tem melhor senso para compras do que eu, e est no mercado varejista h tempo suficiente para sabor o que est fazendo. 
Depois da temporada que tivemos, no tenho certeza de ter condies de fazer as compras para a loja, de qualquer forma.
      - Todo mundo pode ter uma temporada ruim.
      - . Em todos o sentidos.
      Jessie sorriu e Astrid olhou para a amiga com carinho no olhar.
      - Bem,  melhor eu ir levantando a bunda da cadeira. Tenho uma longa viagem  minha frente. Algum recado para o pessoal?
      - Sim, um. - Jessica sorriu, depois jogou a cabea para trs e riu. - Adeus.
      - Palhaa. Aproveite bom aqui. Este lugar j me consertou, uma vez.
      - E voc me parece muito bom. - Jessie saltou lentamente da cama, espreguiou-se do novo e deu um ltimo abrao em Astrid. - Faa uma boa viagem e d lembranas 
minhas s garotas.
      Ficou vendo enquanto ela me afastava, o acenou da janela quarto. Jessie agora estava sozinha em casa, exceptuando o gato, desfilava lentamente pelo assento 
do vo da janela. Havia rudos rurais vindos do lado de fora, o um silncio delicioso  sua volta, na casa arejada e ensolarada. Ela desceu descala o longo corredor 
do andar superior, espiando para dentro dos quartos, abrindo livros, fazendo piruetas aqui e ali, olhando para os quadros, correndo atrs do gato, e depois desceu 
para fazer a mesma coisa. Estava livre! Livro! Pela primeira vez em sete anos, dez anos, 50 anos, sempre, estava livre. De fardos, responsabilidades e terrores. 
Na vspera tinha chegado ao fundo do poo. O ltimo esteio do seu alicerce deteriorado tinha desabado, ruidosamente... e ela no cara junto com ele. Astrid a sustentara, 
e a levara embora.
      Mas a melhor parte de tudo era que ela no tinha tido um colapso. Lembrar-se-ia o resto da vida daquele momento em que dois estranhos a tinham retirado de 
cima do volante, quando ela estava apertando a buzina. Tinha resolvido se deixar enlouquecer, ento, deslizar simplesmente para um lago de esquecimento, para jamais 
retornar  terra dos feios e moribundos o maus, a terra dos "vivos". Mas no enlouquecera. Sofrera. Mais do que jamais sofrera na vida. Mas no enlouquecera. E c 
estava ela, andando descala por uma encantadora casa na roa, de camisola, com a barriga forrada por um imenso caf da manh, e um sorriso no rosto.
      E a coisa mais espantosa era que no precisava do Ian. Sem ele, o tecto no tinha desabado. Era uma nova idia para Jessie, e no sabia direito o que fazer 
com ela. Aquilo mudava tudo.
      
      
Captulo 26
      
      
      Foi no fim da tarde do seu primeiro dia na estncia que Jessica resolveu sentar-se e escrever ao Ian. Queria que ele soubesse onde estava. Ainda sentia que 
tinha que dar explicaes. Mas era difcil explicar-lhe por que estava ali. Tendo mantido uma fachada por tanto tempo, era difcil contar-lhe exactamente em que 
condies se encontrava, por trs dela. Tinha estourado na vspera, mas agora precisava sentar-se e contar-lhe serenamente. Isso transformava todo "tudo bem" que 
sempre lhe dissera numa mentira. E a maioria deles tinha mesmo sido mentira. No estivera disposta e admitir para si mesma quo longe estava de sentir-se bem, e 
agora tinha que fazer as duas coisas... admiti-lo para si mesma e para ele. No tinha mais acusaes a jogar em cima dele, mas tambm no tinha explicaes que quisesse 
dar.
      As palavras no vinham com facilidade. O que se podia dizer? Eu o amo, querido, mas tambm o odeio... sempre tive medo do perd-lo, mas agora j no tenho 
tanta certeza... se mande... sorriu  idia, mas depois tentou ficar sria. Por onde comear? E havia perguntas. Tantas perguntas. De repente teve vontade de quantas 
outras mulheres houvera. E por qu. Porque era inadequada, ou porque ele era esfomeado, ou porque ele precisava provar coisa, ou... por qu? Os pais dela nunca se 
tinham feito perguntas, mas estavam errados, ou pelo menos errados para ela. Tinha o exemplo deles, mas agora queria respostas, ou achava que queria. Mas reconhecia 
a possibilidade de que as respostas que fossem as suas prprias. Ser que amava o Ian? Ou apenas precisava dele? Precisava dele, ou apenas de algum? E como se anos 
de perguntas em meia pgina de carta... voc me respeita? Por qu? Como pode? No tinha certeza se amava ou respeitava Ian e a prpria Jessica a esta altura.
      Queria sair pela tangente e simplesmente contar-lhe sobre estncia e a Sra. Williams, mas aquilo parecia desonesto. E a levou duas horas para escrever a carta. 
Foi uma carta de uma pgina. Disse-lhe que o dia de ontem lhe mostrara que precisava de descanso. Astrid dera uma sugesto maravilhosa, a fazenda da me dela.
      
  precisamente o tipo de lugar onde posso finalmente relaxar, voltar a mim, respirar de novo, ser eu mesma. Eu mesma sendo, hoje em dia, uma estranha combinao 
de quem eu costumava ser, algum que fui forada violentamente a ser durante os ltimos seis meses, e em quem estou virando. Tudo isso me assusta mais do que um 
pouco. Mas at mesmo isso est mudando um tanto, Ian. Estou cansada de viver sempre com tanto medo. Meus constantes temores devem ter sido uma grande carga para 
voc, todo esse tempo. Mas estou crescendo, agora. Talvez ficando "adulta"; no sei ainda. Fique firme no livro, voc tem razo, e lamento muito por causa de ontem. 
Vou me arrepender toda a vida de que tenhamos suportado isso com tanta dignidade e autocontrole. Talvez se tivssemos berrado, guinchado, chutado, gritado, e arrancado 
os cabelos na sala do tribunal... talvez ambos estivssemos em melhores condies do que agora. Tinha que vir tudo para fora, mais cedo ou mais tarde. Estou trabalhando 
nisso, agora. Certo? Bem, querido, eu o amo. J.
      
      Hesitou longo tempo com a carta nas mos, depois dobrou-a com cuidado e colocou-a num envelope. Havia muita coisa que no dissera. Mas ainda no sentia vontade 
de dizer. E escreveu cuidadosamente o nome dele no envelope. Mas no o seu prprio. Ficou .imaginando se ele pensaria que a falta do endereo do remetente era um 
esquecimento. No era..
      Jessica juntou-se  me de Astrid na sala de visitas para um drinque aps o jantar.
      - No tem idia do quanto voc deixou a Astrid feliz, querida. Ela precisa ter alguma coisa para fazer. Ultimamente s o que tem feito  gastar dinheiro. Isso 
no  saudvel. A aquisio constante de bens materiais sem significado, s para passar o tempo. Ela no curte isso, age assim apenas para preencher o vazio. Mas 
a sua boutique vai preencher o vazio de uma forma bem melhor.
      - Eu a conheci atravs da boutique, a propsito. Ela foi entrando, certo dia, e ns gostamos uma da outra. E ela tem sido to boa para mim. Espero que ela 
realmente goste da loja esta semana. Estou aliviada por estar longe dali.
      - Astrid mencionou que voc tem enfrentado uma fase difcil, ultimamente. - Jessica concordou, brandamente. - No final das contas, voc vai crescer com tudo 
isso. Mas como a vida pode ser desagradvel enquanto a gente vai crescendo! - Riu enquanto tomava o seu Campari, e Jessie sorriu. - Sempre tive uma antipatia solene 
por situaes forjadoras do carcter. Mas, afinal, elas tm o seu valor, imagino.
      - No estou certa se deveria dizer que a minha situao tem valor. Suspeito que vai ser o fim do meu casamento.
      Havia um ar de tristeza avassaladora nos olhos de Jessica, mas ela estava quase certa de que agora sabia o que queria. Simplesmente no o tinha querido admitir 
para si mesma, at ento.
      -  isso o que quer agora, filha? Liberdade do seu casamento?
      Estava sentada sossegadamente ao p do fogo, observando atentamente o rosto de Jessica.
      - No, no a minha liberdade, verdadeiramente. Nunca tive problemas com a minha "liberdade". Adoro ser casada. Mas acho que chegamos a uma fase em que estamos 
simplesmente nos destruindo mutuamente, e vai apenas piorar. Olhando para trs, agora, me pergunto se sempre no nos destrumos mutuamente. Mas agora  diferente. 
Estou enxergando. E no h desculpa para deixar a coisa continuar, depois que a gente enxerga.
      - Suponho que ter que tomar providncias, ento. O que o seu marido pensa disso?
      Jessie fez uma pausa momentnea.
      - No sei. Ele... ele est na cadeia, actualmente. - No podia pensar em outra pessoa a quem pudesse contar, e no sabia que Astrid j tinha contado para a 
me, s via que Bethanie parecia aceitar a notcia com naturalidade. - E tivemos que nos ver sob condies to tensas que tem sido difcil conversar. Tem sido difcil 
at pensar. A gente se sente obrigada a ser to forte e corajosa e nobre que no ousa admitir nem para si mesma, que dir para o outro, que simplesmente j est 
cheia.
      - Voc est "cheia"? - Sorriu meigamente, mas Jessie no retribuiu o sorriso, enquanto balanava a cabea. - Deve ser muito duro para voc, Jessica. Levando-se 
em conta a culpa quem sente ao deixar algum que est numa situao difcil.
      - Acho que  por isso que no me permiti pensar. No alm de um certo ponto. Porque no ousava tra-lo, nem em pensamento. E porque queria pensar em mim mesma 
como nobre e sofredora. E porque eu estava... com medo, tambm. Tinha medo que, se me soltasse, nunca mais acharia o caminho de volta.
      - O gozado  que sempre achamos. Somos todos muito mais dures do que pensamos.
      - Acho que estou comeando a compreender, agora. Levou um tempo terrivelmente longo. Mas ontem tudo se desfez. Ian e eu tivemos uma briga para valer em que 
ambos partimos para a jugular um do outro com tudo o que dizamos, e eu simplesmente me larguei depois. Quase tentei o destino a me destruir. E... - Espalmou as 
mos para cima com um dar de ombros filosfico. - C estou eu. Ainda inteirinha.
      - Isso a surpreende?
      A velha senhora estava divertida.
      - Muito.
      - Nunca passou por crises antes?
      - J. Meus pais morreram. E meu irmo fui morto no Vietname. Mas... eu tinha o Ian. Ian amortecia todos os golpes. Ian desempenhava dez mil papis e representava 
milhes de pessoas diferentes para mim.
      - Isso  muita coisa para se pedir de algum.
      - No  muito.  demais. O que provavelmente  o porqu dele estar na priso.
      - Sei. Voc se culpa? 
      - De certa forma.
      - Jessica, por que no deixa Ian ter o direito de cometer os prprios erros? O que fez com que fosse para a priso, no importa o quanto se relacione com voc... 
ser que ele no tem o direito de assumir esse erro, seja l qual foi?
      - Foi estupro.
      - Sei. E voc cometeu o estupro por ele.
      Jessica riu nervosamente.
      - No, claro que no. Eu...
      - Voc o qu?
      - Bem, eu o fiz infeliz. Pressonei-o muito, pagava as contas roubei-lhe a virilidade...
      - Fez tudo isso com ele? - A mulher mais velha sorriu, e Jessica sorriu tambm. - No acha que ele poderia ter dito no? 
      Jessica pensou um pouco, depois fez que sim com a cabea.
      - Mas quem sabe no conseguia dizer no. Quem sabe sentia medo.
      - Ah, mas ento a responsabilidade no  sua, no  mesmo? Por que precisa se culpar tanto? Gosta disso?
      A mulher mais jovem sacudiu a cabea e desviou o olhar.
      - No. E o absurdo da coisa  que ele no comentou o estupro. Sei disso. Mas a chave de tudo  o porqu dele estar numa posio que sequer lhe permitisse ser 
acusado de estupro. E eu no o me absolver.
      - Pode absolver a mulher, seja ela quem for?
      - Claro, eu... - E ento Jessica ergueu os olhos, atnita. perdoado Margaret Burton. Em alguma virada do caminho, ela a perdoara. A guerra com Margaret Burton 
tinha acabado. Era um peso a menos no eu corao. - No tinha pensado nisso antes, no ultimamente.
      - Sei. A propsito, estou curiosa por saber como voc lhe roubou a virilidade.
      - Eu o sustentava.
      - Ele no trabalhava?
      No havia julgamento na voz de Bethanie, apenas uma pergunta
      - Trabalhava, e muito. Ele  escritor.
      - Editado?
      - Diversas vezes. Um romance, um livro de fbulas, vrios artigos, poemas
      - Ele  bom?
      - Muito... s que no teve muito xito financeiro. Ainda. Mas vai ter.
      O orgulho na sua voz a surpreendeu, mas no a Bethanie.
      - Ento, que horrvel da sua parte encoraj-lo. Que coisa chocante para se fazer.
      Bethanie sorriu enquanto sorvia o seu Campari.
      - No, eu...  s que acho que ele me odeia por t-lo sustentado.
      - E provavelmente odeia. Mas tambm provavelmente a ama por isso. Como voc sabe, toda moeda tem dois lados, Jessica. Estou certa que ele tambm sabe disso. 
Mas ainda no entendi direito por que voc est querendo sair fora do casamento.
      - No falei isso. S disse que achei que o nosso casamento ia acabar.
      - Por si mesmo? Sem ningum para dar uma mozinha? Minha querida, que extraordinrio!
      As duas mulheres riram e depois Bethanie esperou. Era hbil no manejo das suas perguntas. Astrid sabia disso, e no avisara Jessica de propsito. Bethanie 
fazia uma pessoa pensar.
      Jessica ergueu os olhos depois de uma longa pausa e buscou o mago dos olhos de Bethanie. Olhou bem dentro deles.
      - Acho que o casamento j acabou. Por si mesmo. Ningum o matou. Simplesmente deixamos que morresse. Nenhum de ns foi corajoso o bastante para mat-lo, ou 
salv-lo. Apenas o usamos para nossos prprios fins e depois deixamos que expirasse. Como um carto de biblioteca de uma cidade em que a gente no mora mais .
      - Era uma boa biblioteca?
      - Excelente. Na poca.
      - Ento no jogue o carto fora. Voc pode querer voltar, e pode mandar renovar o carto.
      - No creio que tivesse vontade.
      - Ele a faz infeliz, ento?
      - Pior. Eu o destruiria.
      - Ora, pelo amor de Deus, menina. Que coisa incrivelmente cacete da sua parte.... est sendo nobre. Pare de pensar nele e pense em si mesma. Estou certa de 
que  o que ele est fazendo. Pelo menos espero que sim.
      - Mas, e se eu no sou e nunca fui boa para ele e... se odeio a vida que levo agora, esperando por ele? - Agora estavam chegando  raiz da coisa. - E se eu 
estiver com medo de apenas t-lo usado e nem mesmo tenho certeza se ainda o amo? Talvez eu apenas precise de algum, e no especificamente do Ian. 
      - Ento est precisando pensar em algumas coisas. Tem sado com outros homens, desde a priso dele?
      - No, claro que no.
      - Por que no? - Jessica pareceu chocada, e Bethanie riu.
      - No me olhe desse jeito, minha querida. Eu posso ser muito velha, mas ainda no estou morta. Digo a Astrid a mesma coisa. No sei o que h de errado com 
a sua gerao. Deviam ser todos to liberados, e no terrivelmente certinhos. Pode ser apenas que voc precise ser amada. No precisa se vender numa esquina, mas 
pode encontrar um amigo agradvel.
      - No creio que conseguisse fazer isso, e ficar com o Ian.
      - Ento talvez devesse deix-lo por algum tempo, e ver o que quer. Talvez ele seja parte do seu passado. A coisa principal  no desperdiar o presente. Nunca 
desperdicei, e  por isso que sou uma velha feliz.
      - E no  "velha".
      Bethanie fez uma careta, ante o elogio.
      - Lisonjas no vo adiantar de nada! Pareo extremamente velha aos meus olhos, quando me olho no espelho, mas pelo menos me diverti pelo caminho. E no estou 
dizendo que fui libertina. No fui. Estou simplesmente dizendo que no me tranquei num armrio e depois me vi odiando algum por algo que eu mesma optei por fazer 
comigo mesma.  isso o que voc est fazendo agora. Est castigando o seu marido por algo que ele no pode evitar, e me parece que ele est sendo suficientemente 
punido, e injustamente, alm disso. O que voc precisa pensar, e com grande seriedade,  se consegue ou no aceitar o que aconteceu. Se puder, ento talvez tudo 
se ajeite. Mas se vai tentar obter restituio dele pelo resto das suas vidas, ento  melhor mesmo desistir agora. Pode fazer uma pessoa se sentir culpada apenas 
por um certo tempo. Um homem no aguenta muito disso, e a reaco dele ser bem desagradvel.
      - J foi.
      Jessica estava pensando na discusso de Vacaville, enquanto olhava sonhadora para o fogo.
      - Nenhum homem aguenta isso por muito tempo. E nenhuma mulher tambm. Quem quer se sentir culpado eternamente? A gente comete erros, pede desculpas, paga um 
preo e fim de papo. No pode pedir a ele para pagar e pagar e pagar de novo. Ele vai terminar odiando voc por isso, Jessica. E quem sabe voc no o esteja fazendo 
sofrer apenas pelo presente. Quem sabe est usando isso como oportunidade para cobrar uma dvida antiga. Posso estar errada, mas todos fazemos isso, s vezes.
      Jessica concordou, sobriamente. Era exactamente o que andava fazendo. Fazendo-o pagar pelo passado, pelas fraquezas dele, o as dela prpria. Pelas suas inseguranas 
e incertezas. Estava pensando no assunto quando a voz de Bethanie intrometeu-se suavemente nos seus pensamentos, de novo.
      - Talvez voc deva me mandar ir cuidar da minha vida.
      Jessica sorriu e acomodou-se na cadeira de novo.
      - No, acho que voc provavelmente est certa. No tenho olhado para isso com muita perspectiva. E o que voc disse faz um bocado de sentido. Mais do que me 
d vontade de admitir, mas mesmo assim...
      - Voc  uma boa ouvinte, menina.
      As duas mulheres sorriram uma para a outra do novo e a mais velha se ps de p e se espreguiou delicadamente, os anis de brilhante reluzindo  luz do fogo. 
Usava calas pretas e uma suter de cashmere azul da cor dos olhos, e enquanto Jessica a observava no pode deixar de pensar novamente que ela devia ter sido uma 
beleza quando jovem. Ainda era notavelmente bonita de um jeito maduro, com um leve vu de feminilidade a suavizar qualquer coisa que fizesse ou dissesse. Na verdade 
era mais linda do que a filha. Mais suave, mais clida, mais bonita... ou quem sabe fosse apenas que estava mais viva.
      - Sabe, se me d licena, Jessica, acho que vou para a cama. Quero ir andar a cavalo amanh cedo, e no vou lhe pedir que me faa companhia. Levanto-me em 
horas nada civilizadas.
      O riso danava nos seus olhos enquanto se inclinava para beijai a testa de Jessica, e esta rapidamente ergueu os braos para abra-la.
      - Sra. Williams, eu a adoro. E  a primeira pessoa que faz sentido para mim, h muito tempo.
      - Nesse caso, querida, faa-me a honra do no me chamar do "Sra. Williams", que eu abomino. Ser que no pode me chamar de "Bethanie", ou "Tia Beth", se preferir? 
Os filhos das minhas amigas ainda me chamam assim, e alguns dos amigos de Astrid.
      - Tia Beth Que lindo.
      E subitamente Jessica sentiu como se tivesse uma nova me. Famlia. Fazia tanto tempo que no tinha uma, excepto o Ian. Tia Beth. Sorriu e sentiu um calorzinho 
na alma.
      - Boa noite, querida. Durma bem. At amanh.
      Trocaram mais um abrao e Jessica subiu meia hora mais tarde ainda pensando em algumas coisas que Bethanie tinha dito. Sobre punir o Ian... ficou conjecturando. 
Exactamente quanta raiva tinha de Ian? E por qu? Porque a tinha chifrado? Ou porque agora. lutava na priso e no estava mais por perto para proteg-la? Porque 
tinha sido "pego" dormindo com Margaret Burton? Teria importado tanto se ela no tivesse sido forada a enfrentar a situao? Ou seriam as outras coisas? Os livros 
que no vendiam, o dinheiro que apenas ela ganhava, a paixo dele por escrever? No tinha certeza.
      
      
      O caf da manh estava esperando por Jessica quando desceu. se manh seguinte. Um bilhetinho alegro assinado "Tia Beth" disse-lhe que havia brioches quentinhos 
no forno, fatias torradinhas de bacon e uma bela vasilha de morangos. O bilhete sugeria que desse um passeio de jipe pelas montanhas,  tarde.
      Assim o fizeram, e se divertiram  grande. Tia Beth contou-lhe histrias sobre as pessoas "horrendas" que haviam morado na linda antes e que tinham deixado 
a casa principal em "condies brbaras".
      - Aposto que o homem era primo-irmo de Atila, o Huno, e filho deles eram simplesmente pavorosos!
      H anos que Jessica no na to fcil o simplesmente, e enquanto cruzavam as montanhas no jipe, deu-se conta de como estava passando bem sem as plulas. Nada 
de tranquilizantes, nem comprimidos para dormir, nada. Estava sobrevivendo com a companhia da Tia Beth, muito sol, e muito riso. Prepararam o jantar tas naquela 
noite, queimaram o molho hollandaise do aspargo, deixaram o rosbife cru, e riram juntas a cada novo engano. Era mais como ter uma companheira de quarto da mesma 
idade do que ser hospede da me de uma amiga.
      - Sabe, meu primeiro marido sempre dizia que eu acabaria por envenen-lo um dia, se ele no tomasse cuidado. Eu era uma cozinheira de lascar no que seja muito 
melhor agora. No tenho muita certeza se os aspargos esto cozidos.
      Mordeu com cuidado um dos talos, mas pareceu satisfeita com o que achou.
      - Voc foi casada duas vezes?
      - No. Trs vezes. Meu primeiro marido morreu quando eu .estava com 20 e poucos anos, o que foi uma pena muito grande. Era um amor de rapaz. Morreu num acidente 
de caa dois anos aps o nosso casamento. E ento me diverti bastante durante certo tempo - ela se animou um pouco, depois continuou - e me casei com o pai de Astrid 
quando estava com 30 anos. E o pai dela morreu quando ela estava com 14. E meu terceiro marido era gentil, mas terrivelmente montono. Divorciei-me dele h cinco 
anos, e a vida tem sido bem mais interessante desde ento.
      Examinou outro talo do aspargo e comeu-o enquanto Jessie ria.
      - Tia Beth, voc  uma bola. Como era o ltimo?
      - J morreu e no sabe. Gente velha pode ser to dolorosamente cacete. Foi muito embaraoso divorciar-me dele. O pobrezinho ficou chocadssimo. Mas superou 
o choque. Eu o visito quando vou a Nova York. Ainda continua um chato, coitado.
      Sorriu angelicamente e Jessica desatou a rir de novo. Tia Beth no fora to leviana quanto gostava de parecer, mas tambm no levara uma vida montona.
      - E agora? Nada mais de maridos?
      Agora eram amigas. Podia perguntar.
      - Na minha idade? No seja ridcula. Quem ia querer uma velha? Estou perfeitamente satisfeita como estou, porque curti a vida quando era mais jovem. No h 
nada pior do que uma velha fingindo no o ser. Ou uma moa fingindo que  velha. Voc e Astrid se saem muito bem nisso.
      - Eu no era assim.
      - Nem ela, quando o Tom era vivo. Est na hora dela encontrar outra pessoa e queimar aquela tumba de manso. Acho que  estarrecedora.
      - Mas  to bonita, Tia Beth. Mais do que bonita.
      - Os cemitrios tambm so bonitos, mas eu nem sonharia  em morar num deles... at que no tivesse outra opo. Enquanto a pessoa tem a opo, deve us-la. 
Mas ela est chegando l. Acho que a sua loja pode fazer-lhe algum bem. Por que no a vende para ela?
      - E ento o que eu iria fazer?
      - Alguma coisa diferente. H quanto tempo tem a loja?
      - Seis anos faz nesse vero.
      -  tempo suficiente para qualquer coisa. Por que no tenta outra coisa?
      Tempo suficiente para um casamento, tambm?
      - Ian queria que eu ficasse em casa e tivesse um filho. Pelo menos era o que estava dizendo recentemente. H alguns anos ele esteve perfeitamente feliz com 
as coisas do jeito que estavam.
      - Talvez voc tenha encontrado uma das respostas que anda procurando.
      - Tal como?
      Jessica no compreendia.
      - Que h alguns anos ele estava "perfeitamente feliz com as coisas do jeito que estavam". Quanto mudou nesses poucos anos? Talvez voc tenha se esquecido de 
fazer mudanas, Jessica, do crescer.
      - Crescemos...
      Mas como? No tinha certeza se tinham crescido mesmo.
      - Creio que no quis ter filhos.
      - No, no  que eu no queira ter tido,  s que ainda no era a hora. Era cedo demais e ns estvamos felizes sozinhos.
      - No h nada errado em no se ter filhos. - Tia Beth olhava para ela diretamente, um pouco diretamente demais. - Astrid tambm jamais quis. Disse que no 
era para ela, o acho que tinha razo. Creio que nunca se arrependeu. Alm disso, o Tom j era meio velhinho quando se casaram. O seu marido  moo, no , Jessica? 
- Esta assentiu. - E quer filhos. Bem, minha querida, voc sempre pode continuar a tomar a plula e dizer a ele que est tentando, no pode?
      Os olhos da mulher mais velha caavam os do Jessie. Jessica desviou ligeiramente o olhar; ficou pensativa.
      - Eu no faria isso.
      - No, ? Que bom.
      E ento os olhos de Jessica voltaram a fitar os da Tia Beth.
      - Mas j pensei nisso.
      - Claro que sim. Tenho certeza de que muitas mulheres pensaram. E muitas delas provavelmente fizeram mais do que apenas pensar. Sensato, em alguns casos, imagino. 
Parece uma pena ter que ser to desonesta. Sabe, nunca tive muita certeza do que queria ler filhos. E Astrid foi uma surpresa. - Tia Beth quase enrubesceu, mas no 
completamente. Foi mais um enternecimento dos olhos enquanto olhava para o passado e parecia esquecer de Jessica por um momento. - Mas acabei por gostar dela de 
verdade. Ela foi uma doura, quando pequenina. E simplesmente horrvel, durante alguns anos posteriores. Mas ainda uma doura, de um jeitinho cativante. Eu a curti 
muito, para falar a verdade. - Fazia Astrid parecer mais uma aventura do que uma pessoa, e Jessie sorriu, olhando para o seu rosto. - Foi muito boa para mim, quando 
o pai morreu. Pensei que o mundo tinha acabado, excepto por Astrid.
      Jessie quase a invejava, enquanto escutava. Fazia parecer que a vida era menos solitria por causa de Astrid, ao invs de ainda mais.
      - Sempre tive, bem, medo, acho. Medo de ter filhos porque achava que seriam um obstculo entre mim e Ian. Achava que isso me faria solitria.
      Bethanie sorriu e sacudiu a cabea.
      - No, Jessica. No se seu marido a ama. Ento, ele apenas a amar ainda mais por causa da criana.  um ele adicional entre vocs, uma extenso de ambos, 
uma mistura do que amam mais e detestam mais e precisam mais e acham mais graa em, de voc dois.  uma coisa muito linda. Posso pensar em vrios bons motivos para 
se sentir medo de ter filhos, mas este no deve ser um deles. Voc no pode amar mais de uma pessoa?
      Era uma boa pergunta, e Jessica decidiu ser sincera.
      - Acho que no, Tia Beth. No mais. H muito tempo que no amo outra pessoa que no o Ian. Portanto acho que no consigo imagin-lo amando algum alm de mim... 
mesmo um filho. Sei que deve parecer muito egosta, mas  assim que me sinto.
      - No parece egosta. Parece assustada, mas no realmente egosta.
      - Quem sabe um dia eu mude de idia.
      - Por qu? Porque acha que deve faze-lo? Ou porque quer? Ou para poder punir ainda mais o seu marido? - Tia Beth no tinha papas na lngua. - Aceite o meu 
conselho, Jessica. A no ser que realmente queira um filho, no o encomende. So uma chatura, e estragam mais os mveis do que os gatos. - Falou com a maior cara 
de pau, enquanto alisava o gato malhado sentado ao seu colo. Jessica nu, surpresa, ante o comentrio. - Quando a trata de bichos de estimao, prefiro os cavalos. 
A gente pode deix-los do lado de fora sem se sentir culpada. - Ergueu os olhos com outro dos seus sorrisos de santa, e Jessica abriu um sorriso. - No me leve sempre 
a srio. E ter filhos  mesmo questo de escolha pessoal. Faa o que fizer, no se deixe pressonar pelo que outras pessoas pensem ou digam... excepto o seu marido. 
E ora, ora, voc no  uma moa de sorte, tendo a mim para deitar falao quando as outras pessoas fazem cerimnia?
      As duas mulheres riram e passaram para outros assuntos. Mas Jessica ficou surpresa ao se dar conta da profundidade dos tpicos que haviam abordado. Surpreendia-se 
revelando segredos e sentimentos para Tia Beth que anteriormente s teria compartilhado com Ian. Parecia estar constantemente mostrando a Tia Beth um pedao ou outro 
de seu ntimo, puxando-o para fora para exibi-lo, tirando-lhe o p, questionando; mas estava comeando a se sentir inteira de novo.
      Os dias na fazenda eram encantadores e relaxantes, cheios de ar fresco e manhs agradveis passadas a cavalo em meios-galopes solitrios pelas montanhas, ou 
em caminhadas ociosas. E as noites passavam voando, rindo na companhia de Tia Beth. Jessica descobriu-se tirando sonecas  tarde, lendo Jane Austen pela primeira 
vez desde a escola secundria, e fazendo pequenos esboos num caderno. Fez at alguns esboos secretos que podiam ser transformados num retracto informal da Tia 
Beth. Sentia-se encabulada de pedir  nova amiga que posasse para um retracto. Mas era o primeiro que tinha vontade de pintar desde o do Ian, h anos. O rosto da 
Tia Beth se prestaria muito bem para esse tipo de coisa, e daria um bolo presente para Astrid... que apareceu, para grande contrariedade de Jessica, duas semanas 
mais tarde.
      - Quer dizer que tenho que voltar para casa, agora?
      Astrid parecia cansada mas feliz, e Jessica teve a sensao de desalento que tinha quando era criana e a me chegava cedo demais para apanh-la numa festa 
de aniversario.
      - No ouse voltar para casa, Jessica Clarke! Vim s ver como mame estava passando.
      - Estamos nos divertindo muito.
      - ptimo. Ento no pare agora. Vou ficar infeliz quando voc voltar para a cidade e me roubar o meu brinquedo.
      Contou a Jessie sobre a viagem de Katsuko a Nova York, e a linha de primavera estava tendo mais xito do que Jessie ousara esperar. Parecia que fazia anos 
desde que comprara aqueles pastis, aos desde que viera para casa e Ian fora preso, sculos desde o julgamento. O choque de tudo aquilo estava finalmente comeando 
a se desvanecer. As cicatrizes mal apareciam. Ganhara dois quilos e pouco, e parecia descansada. Astrid trouxe-lhe uma carta do lia, que ela s abriu mais tarde.
      
 ... No posso acreditar, Jess. No posso acreditar que diria aquelas coisas para voc Talvez esse desastre esteja finalmente fazendo sentir as suas consequncias. 
Voc est bem? O seu silncio  estranho, agora, a sua ausncia mais estranha. E descubro que realmente no sei o que quero: que voc
 reaparea ou que aquele maldito vidro entre ns desaparea. Sei o quanto voc o odeia, querida, eu o odeio com igual intensidade. Mas podemos superar isso. E como 
vo indo as frias? Fazendo maravilhas, estou certo. Voc as mereceu. Suponho que seja por isso que ou no estou recebendo notcias suas. Est "ocupada descansando". 
O que  ptimo, provavelmente. Como sempre, estou envolvidssimo com o livro. Est indo incrivelmente bom, e estou esperando que...
      
      O resto era todo sobre o livro. Rasgou a carta pelo meio e a jogou no fogo.
      Mais tarde, Tia Beth interrogou-a sobre a carta, depois que Astrid tinha ido para a cama. Entre elas havia agora uma espcie de conspirao que exclua at 
mesmo Astrid.
      - Ah, ele diz que me ama e que o livro vai indo bem, tudo no mesmo flego.
      Tentou parecer contente, e s conseguiu soer um pouco menos amarga.
      - Ah-ah! Ento voc tem cimes do trabalho dele!
      Os olhos do Tia Beth refulgiam. Agora via algo que no tinha visto antes, pelo menos com clareza. Estava tudo entrando foco.
      - No tenho cime do trabalho dele. Que ridculo!
      - Concordo inteiramente. Mas por que se ressente do trabalho dele como escritor? O que aconteceria, Jessica, se voc no tivesse mais que sustent-lo? Ento 
no teria controle sobre ele, no  mesmo? E se ele realmente tivesse xito? Ento, o que faria voc!
      - Ficaria radiante por ele.
      Mas no soava convincente, nem mesmo aos ouvidos do Jessica.
      -  mesmo? Acha que conseguiria enfrentar isso? Ou tem tanto cime que nem consegue tentar?
       - Que absurdo.
      No estava gostando da teoria de Beth.
      - ,  absurdo. Mas acho que voc ainda no sabe disso, Jessica. O facto  que ou ele a ama ou no a ama. Se no ama no poder ficar com ele. E se a ama, 
provavelmente no poder perd-lo. E se voc insistir em sustent-lo para sempre, minha querida, ele acabar por encontrar algum a quem possa sustentar, que o deixo 
sentir-se um homem. Algum que poder at dar-lhe filhos. Escute o que estou lhe dizendo.
      Jessica ficou calada, o foram para a cama. Mas as palavras de Tia Beth tinham atingido o alvo. O prprio Ian lhe dissera a mesma coisa, ao seu modo. Em Carmel, 
dissera-lhe que as coisas teriam que mudar. Bem, iam mudar. Mas no do jeito que Ian imaginava.
      
      
Captulo 27
      
      
      - Bom dia, Tia Beth... Astrid.
      Havia um ar de determinao no rosto de Jessica enquanto se sentava para tomar o caf da manh com elas. Aquela expresso era nova para as amigas.
      - Santo Deus, menina, o que est fazendo acordada a essa hora?
      Raramente se levantava antes das dez, desde que estava na fazenda, o Tia Beth ficou surpresa.
      - Bem. - Olhou cautelosamente para Astrid, sabendo o quanto ela ia se sentir desapontada. - Quero aproveitar o meu ltimo dia. Resolvi ir para casa com voc 
hoje  noite, Astrid.
      A amiga exibiu um ar desalentado, ante as palavras de Jessica.
      - Ah, no, Jessie! Por qu?
      - Porque tenho coisas para fazer na cidade, e j fui preguiosa o bastante, querida. Alm disso, se no voltar agora, provavelmente at nunca mais voltarei.
      Tentou usar um tom despreocupado enquanto se servia de torrada com canela, mas sabia que as suas palavras eram um golpe Astrid. E se sentia chateada de estar 
indo embora da fazenda, tambm. Apenas Tia Beth no pareceu perturbada pela noticia.
      - Contou  mame antes de contar para mim, Jessie?
      Astrid notara a expresso do rosto da me.
      - No contou, no. - Tia Beth apressou-se a responder. - Mas eu senti ontem  noite que isso ia acontecer. Jessica, acho que provavelmente est certa em voltar 
agora. No fique com essa cara, Astrid, vai ficar com rugas. O que estava achando? Que ela nunca mais ia voltar para a sua prpria loja? No seja tola. Alguma de 
vocs duas vai andar a cavalo comigo agora de manh? Passou manteiga na torrada com naturalidade e Astrid desfranziu a tosta como uma criana apagando mensagens 
escritas na areia. A me tinha razo quanto a Jessie ter que voltar,  claro. Mas ela curtido a Lady J at mais do que tinha imaginado.
      Jessie estivera observando o rosto da amiga, e agora parecia quase com remorso.
      - Sinto de verdade, querida. Detesto ter que fazer isso com voc.
      As duas mulheres mais moas ficaram caladas e Tia Beth sacudiu a cabea.
      - Como vocs duas so chatas. Vou andar a cavalo. Se quiserem, podem ficar se lastimando aqui. Uma, sentindo-se ridiculamente culpada, a outra sentindo-se 
infantilmente roubada, e as duas fazendo papel de boba. Pico surpresa ao ver que ambas tm tempo a perder com tanta bobagem.
      Jessica e Astrid comearam a rir e resolveram ir cavalgar com a mulher mais idosa e sensata.
      Foi um passeio agradvel e um dia simptico, e Jessie despediu-se de Tia Beth com pesar. Jurou voltar to logo pudesse, e lutou para achar as palavras que 
exprimissem o quanto aquelas duas semanas tinham significado.
      - Elas me restauraram.
      - Voc se restaurou a si mesma. Agora no v desperdi-la voltando para a cidade e fazendo uma bobagem. - Ento ela Era espantoso. No havia nada que se pudesse 
esconder dela. No vou aprovar se voc fizer uma besteira, menina. E no certeza se estou gostando do seu olhar.
      - O que  isso, mame!
      Astrid notou o desconforto de Jessie, e Bethanie no prosseguiu no assunto, depois da interrupo. Simplesmente deu-lhes um de mas, uma lata de biscoitos 
feitos em casa e alguns sanduches.
      - Isso dever mant-las bem alimentadas at chegarem casa. - A sua expresso se suavizou de novo, e ela envolveu meiguice a cintura da Jessica. - Volte breve. 
Vou sentir falta sabe.
      Abraou suavemente a cintura dela, ficou com os olhos de carinho, e Jessica inclinou a cabea para beijar-lhe a face.
      - Voltarei logo.
      - ptimo. E Astrid, querida, dirija com cuidado.
      Acenou para elas da porta at que o elegante Jaguar preto dobrou uma curva e sumiu de vista.
      - Sabe, detesto mesmo ter que ir embora daqui. As duas ltimas semanas foram as melhores que passei h anos.
      - Sempre me sinto assim quando vou embora.
      - Por que voc no se muda para c, Astrid? Eu o faria, se ela fosse a minha me, e  uma regio to bonita.
      Jessica acomodou-se no banco para a longa viagem, reflectindo sobre as duas preciosas semanas, e os ltimos momentos de conversa com Tia Beth.
      - Santo Deus, Jessica, eu morreria de tdio aqui. Voc no, depois de algum tempo?
      Jessica sacudiu a cabea devagar, uma ruga pequena e pensativa entre os olhos.
      - No, acho que no ficaria entediada. Nem pensei nisso.
      - Bom, eu pensei. A despeito da minha me. No h nada aqui para fazer excepto andar a cavalo, ler, fazer caminhadas. Ainda preciso da agitao louca da cidade.
      - Eu no. Quase sinto raiva de ter que voltar.
      - Ento devia ter ficado.
      Durante uma fraco de momento, a garotinha mimada estava presente de novo na voz de Astrid.
      - No poderia ficar, Astrid, tenho que voltar. Mas sinto-me feito um rato, retomando a loja, se  que se pode falar assim. Voc me proporcionou as frias mais 
maravilhosas.
      Astrid sorriu s palavras de Jessie.
      - No se sinta mal. As duas semanas foram um lindo presente.
      Astrid soltou um suspiro suave e acompanhou a estrada rural serena. O sol acabara de se pr atrs das montanhas, e havia um cheiro de flores no ar. Num campo 
distante podiam ver os cavalos ao crepsculo.
      Jessie lanou um longo olhar  paisagem agora familiar, e se afundou no banco com um pequeno sorriso particular. Ela voltaria. Tinha que voltar. Estava deixando 
um pedao da alma ali, e um nova amiga.
      - Sabe de uma coisa, Sra. Bonner?
      Astrid abriu um sorriso, em resposta.
      - O que, Sra. Clarke?
      - Adoro a sua me.
      - Eu tambm. - As duas mulheres sorriram e Astrid lanou um olhar de esguelha para Jessie. - Ela foi boazinha para voc? Ou foi durona? Ela sabe ser, quando 
quer, e eu estava com medo que fosse se espalhar com voc. Foi dura?
      - No de verdade. Sincera, mas no dura. E nunca mesquinha. Apenas franca. s vezes dolorosamente franca. Mas estava de um modo geral. E fez com que eu pensasse 
muito. Salvou a minha vida. - Pois, nem sou mais viciada! - Jessica riu o mordida das mas. - Quer uma ma?
      - No, obrigada. E fico feliz por tudo ter se acertado. A propsito, como parecia o Ian na carta que eu trouxe para voc? J era para lhe ter perguntado, mas 
esqueci.
      O rosto de Jessica ficou duro ante a pergunta, mas Astrid estava com os olhos fitos na estrada, e no viu.
      -  por isso que estou voltando.
      - Algo errado?
      Astrid lanou um rpido olhar de esguelha para Jessica.
      - No, ele est bem. - Mas a sua voz estava estranhamente fria.
      - Vai voltar para v-lo, Jessie?
      Astrid estava um tanto confusa.
      - No. Para ver Martin.
      - Martin? O advogado de Ian? Ento tem alguma coisa errada.
      - No, no... desse jeito. - E ento desviou o rosto e ficam vendo as montanhas passando pela janela. - Vou voltar para me divorciar.
      - Voc o qu? - Ela diminuiu a marcha do carro o se para olhar para Jessie, atnita. - Jessica, no! Voc no quer isso! Quer?
      Jessica fez que sim, segurando o miolo da ma com a trmula.
      - Quero, sim.
      Ficaram caladas durante os 150 quilmetros seguintes. Astrid no conseguia pensar em nada para dizer.
      
      
      Martin estava livre para receb-la quando Jessica o procurar na manh seguinte. Ela foi directo para o escritrio dele, e conduziram-na pelo corredor dolorosamente 
familiar. Parecia-lhe nunca estava l para nada, excepto para os momentos crticos e dramticos da sua vida.
      Como de costume, ele estava sentado  sua mesa com os culos empurrados para cima da testa, e a carranca-padro. Desde dezembro que ela no o via.
      - Ento, .Jessica, como tem passado?
      Olhou-a do alto a baixo enquanto se levantava e estendia a mo. Ainda lhe dava uma sensao de desalento v-lo. Ao seu modo, era um lembrete to doloroso quanto 
o Inspector Houghton.  Era parte de uma era. Mas essa era estava finalmente chegar ao fim.
      - Bem, obrigada.
      - Est com uma cara muito boa. - to boa que o surpreendia. - Sente-se. E me diga, o que a traz aqui? Recebi uma carta do Ian na semana passada. Ele parece 
estar suportando a situao.
      Um lampejo de alguma coisa passou pelos olhos de Martin. Remorso? Tristeza? Culpa? Ou talvez Jessie apenas tivesse do que tivesse vontade e que tivesse passado. 
Por que ele no fora capaz de manter o Ian livre? Por que no o convencera a impetrar um recurso e depois ganh-la? Se o tivesse feito, ela agora no estaria no 
seu escritrio. Ou talvez estivesse.
      - , acho que ele est sobrevivendo.
      - Mencionou que acha que vai vender o livro. Falou que estava esperando mais notcias do seu agente.
      - Ah. - isso era novidade. - Espero que venda mesmo. Faria um grande bem a ele.
      Especialmente agora. Mas era s isso o que Ian queria, de qualquer forma. Outro livro, e desta feita um de peso, um que vendesse bastante. No precisaria dela 
se tivesse um livro. Nem sentiria a sua falta.
      - E ento? Ainda no me disse o que a traz aqui.
      As amenidades estavam agora oficialmente encerradas. Jessica inspirou e olhou bem nos olhos dele.
      - O que me traz aqui, Martin,  um divrcio.
      Mas ele no deixou transparecer nada no rosto.
      - Um divrcio?
      - Sim. Quero me divorciar do Ian.
      Alguma coisa dentro dela tremeu quelas palavras, revirou-se e soltou uma exclamao abafada, e tentou se agarrar ao velho galho conhecido. Mas ela no permitiu. 
No fazia mal se casse num abismo sem fundo; tinha que fazer isso. E sabia agora que sobreviveria ao abismo sem fundo. J estivera ali.
      - Jessica, est cansada de esperar por ele? Ou h outra pessoa?
      As perguntas pareciam indiscretas, mas talvez ele precisasse sabor.
      - No, nem uma coisa nem outra. Bem, talvez um pouco cansada de esperar. Mas apenas porque acho que no teremos mais um casamento quando ele sair. Portanto, 
para que esperar?
      - Vocs tinham um casamento antes?
      Ele sempre se perguntara isso, nunca tivera certeza absoluta. Parecia que tinham um ele forte e um compromisso firme, mas nunca se sabe, do lado de fora.
      Jessica sacudiu a cabea ante a pergunta dele, depois desviou os olhos, as mos apertadas no colo.
      - Pensei que tnhamos um casamento. Mas... eu contava a mim mesma muitos contos do fadas, na poca.
      - Tais como?
      Ela se perguntava por que tinham que discutir tudo isso, agora.
      - Como o facto de pensar que ramos felizes. Isso era uma mentira, entre outras mentiras. Ian nunca foi realmente feliz comigo. Coisas demais se metiam no 
caminho. Minha loja, o trabalho dele, outras coisas. Ele nunca teria ido atrs daquela mulher se fosse feliz.
      - Acredita mesmo nisso?
      - No sei. A princpio no acreditava. Mas agora comeo a ver o que no dei a ele. Amor-prprio, para comeo de conversa. E o meu tempo... minha f, talvez. 
Quero dizer, f verdadeira em que ele poderia ter um grande xito com outro livro.
      - Voc no o respeitava?
      - No tenho certeza absoluta. Precisava dele, mas no sei se o respeitava. E jamais quis que soubesse o quanto precisava dele. Sempre quis que Ian pensasse 
que era ele quem precisava de mim. Lindo, no?
      - No. Mas tambm no  incomum. Ento, por que o divrcio? Por que no limpar a imagem e ficar com o que tem? Ainda  melhor do que a maioria, e voc tem 
sorte... enxerga os erros; a maioria, no. Ian enxerga tudo com a mesma clareza que voc?
      - No tenho idia.
      - No falou com ele sobre isso? - Pareceu chocado, enquanto ela sacudia a cabea. - Ele no sabe que voc quer o divrcio?
      Ela sacudiu a cabea de novo e depois olhou-o diretamente no rosto.
      - No, no sabe. E... Martin,  assim que eu quero.  tarde demais para "limpar a imagem". Pensei muito no assunto e sei que esta  a maneira certa. No temos 
filhos e, bem... esta  uma hora to boa quanto outra qualquer.
      Ele balanou a cabea, mordiscando a haste dos culos.
      - Posso entender o seu modo de pensar, Jessica, e voc  uma mulher jovem. Pode ser um fardo muito grande ser casada com um homem que foi mandado para a priso 
por estupro. Talvez voc deva agora ser livre para comear uma nova vida.
      -  o que eu acho.
      Mas por que parecia ser uma traio to grande ao Ian? Que coisa nojenta de se fazer... mas precisava faz-lo. Precisava. queria isso para si mesma. Tinha 
resolvido. Mas ficava escutando r voz da Tia Beth pouco antes de ter sado da fazenda, na vspera: "No vou aprovar se voc fizer uma besteira." Mas isso no era 
besteira. Era certo. Mas o que diria o Ian?... E por que isso lhe importaria agora? Excepto que se importava. Importava, merda.
      - A sua deciso seria afectada de alguma forma se ele vendesse esse novo livro, Jessica?
      Ela pensou por um momento, depois sacudiu a cabea.
      - No, no afectaria. Porque nada se alteraria. Ele voltaria para casa, amargurado com o tempo passado na priso, e ainda mais amargurado comigo porque eu 
logo o estaria sustentando de novo, e nada teria se alterado. Adiantamentos de livros no duram muito, excepto se o livro for um sucesso.
      - No acha que ele seja capaz de escrever um sucesso?
      O tom da voz de Martin encheu-a de vergonha, e ela baixou os olhos de novo.
      - No quis dizer isso. E o importante no  isso, de qualquer modo. Tudo ainda seria a mesma coisa. Eu ainda teria a loja, a conta bancria.... no, Martin. 
 isto o que eu quero, estou absolutamente certa.
      - Bem, Jessica, voc tem idade suficiente para tomar as suas prpria decises. Quando vai contar ao Ian?
      - Pensei em escrever-lhe hoje  noite. E - hesitou, mas tinha que pedir-lhe - estava esperando que voc fosse l v-lo.
      - Para dar a notcia? - Martin parecia muito cansado enquanto perguntava. Ela balanou lentamente a cabea. - Francamente, Jessica, normalmente no trato de 
assuntos domsticos. Como sabe, o direito marital no  a minha especialidade. - E esse caso ia ser muito delicado. Mas Ian era seu cliente. E a mulher do seu cliente 
estava sentada diante dele, olhando-o como se fosse sua culpa que ela estivesse querendo o divrcio, como se ele lhe houvesse custado o seu casamento. E, que diabos, 
por que sempre se sentia culpado se as coisas no saam exactamente certas?
      - Ah, est bem, suponho que posso cuidar disso para voc. Vai ser uma coisa complicada?
      - No. Terrivelmente simples. A loja  minha. A casa  dos dois, e eu a venderei, se ele quiser, e porei a sua parte do dinheiro mina conta em seu nome. No 
h mais nada. Eu fico com a custdia das plantas e ele com os seus arquivos do estdio. Fim de um momento.
      As nicas coisas que deixara de fora tinham sido os mveis, a que nenhum dos dois dava importncia, excepto as poucas peas que tinham sido dos pais dela, 
e que lhe pertenciam, obviamente. To simples. To miseravelmente simples aps sete anos.
      - Voc faz parecer to rpido e fcil.
      Mas ele parecia incerto, e triste pelos dois.
      - Talvez rpido, mas no, no muito fcil. Ir v-lo em breve.
      - At o final da semana. Voc ir v-lo, tambm?
      Ela sacudiu a cabea, cuidadosamente. Tinha visto Ian pela ltima vez... naquele dia pavoroso em que ele tinha se levantado o se afastado o ela ficara olhando 
por trs de uma janela de vidra com um telefone mudo nas mos. Seus olhos ficaram cheios de lgrimas  lembrana, e Martin Schwartz desviou os olhos. Odiava esse 
tipo de coisa. Parecia-lhe um desperdcio.
      Jessica ergueu os olhos para Martin, contendo as lgrimas. A sua voz mal passava de um sussurro.
      - No, Martin, no vou v-lo mais.
      Ele lhe disse que estaria divorciada em seis meses. Em setembro. Um ano depois que Ian fora preso, o fim do casamento deles comeara.
      
      
      Havia uma carta do Ian  sua espera quando deu uma passadinha em casa para buscar a correspondncia, a caminho da boi tique. Era apenas um bilhetinho. E um 
poema. Leu-o com olhos dilatados e tristes, depois rasgou-o cuidadosamente ao meio e jogou-o fora. Mas ele ficara espetado na sua mente, de alguma maneira. Como 
um espinho do cetim. Foi a ltima carta de Ian que abriu. O poema f-la decidir-se.
      
      
      Voc  a comemorao explosiva
      das minhas alvoradas
      todas as manhs,
      
      Voc  o sussurro
      no fim tardio
      das minhas noites,
      
      Voc  a sinfonia nos meus crepsculos,
      Voc  o esplendor e a glria
      da aurora
      da minha vida.
      
      A alvorada da vida dele tinha passado, com ela, pelo menos. Mas sentia-se como se tivesse matado sozinha o alvorecer. E o cancelado e mandado embora. Feito 
com que chorasse. Quebrado alguma coisa sagrada. Ele, e ela prpria, e a coisa que era eles dois. A coisa que ela agora acreditava jamais existira. Mas sabia tinha 
que fazer o que estava fazendo.
      
      
Captulo 28
      
      
      A butique estava em grande forma. Havia novos mostrurios espalhados por toda a sala principal, e a vitrina parecia uma viso de primavera. A prpria Astrid 
a decorara. E os pastis e beges e tonalidades delicadas que Jessie comprara em Nova York h mais de seis meses ficavam bem em exibio. Havia duas plantas novas 
seu escritrio, com flores amarelas-vivas em pleno vio, e havia ar arrumado, jeitoso, na loja, do qual ela j se tinha quase esquecido. Passara apenas duas semanas 
fora, mas a Lady J renascera, assim como ela. Estava do jeito que era quando Jessie abrira a loja, naqueles dias em que estivera loucamente apaixonada por ele, e 
pusera alma e corao no seu nascimento. Agora ela mostrava os sinais do entusiasmo e do amor recentes de Astrid. No modificar nada radicalmente, apenas dera um 
jeito em tudo. At mesmo o Katsuko e Zina pareciam mais felizes.
      - Como foi de frias?
      Katsuko ergueu os olhos, encantada em v-la, mas nem precisava ter perguntado. Jessie parecia-se com Jessie de novo, s que melhor.
      - Era exactamente o que eu estava precisando. E olhe s para este lugar? Parece que vocs o pintaram, ou coisa parecida. To alegre e bonito.
      -  apenas a nova linha. Est um barato.
      - Que tal est vendendo?
      - Feito cachorro-quente. E espere s para ver o que escolhi para outono. Tudo  laranja ou vermelho. Um bocado de preto, e umas malhas prateadas espectaculares 
para a pera.
      Os castanhos do inverno anterior j tinham sido esquecidos. No ano seguinte seria vermelho. Alegre, movimentado, vivo, talvez fosse um bom sinal para a sua 
nova vida... nova vida. Jesus. Ainda no queria pensar nisso. E haveria tanta gente para contar... para explicar... para...
      Jessica se acomodou no seu escritrio, olhou ao redor com prazer e curtiu a sensao de ter voltado para casa. Aquilo suavizava o fardo da manh, o encontro 
com Martin. Tentou no pensar nele. Escreveria para o Ian naquela noite. Pela ltima vez. No queria trocar muitas cartas com ele. Era bom demais no assunto. As 
cartas seriam... demais. Poderiam acertar tudo atravs do advogado. Quanto menos dissessem um para o outro, mesmo por carta, melhor. Ela j se resolvera. Agora estava 
feito, era para o melhor. Agora tinha que olhar para a frente e se forar a no olhar para  trs, para os anos vividos com Ian. Estavam acabados, amora. Uma parte 
do seu passado, como roupas fora de moda. Jessica e Ian eram pass.
      - Jessie? Tem um minutinho?
      Zina enfiou a cabecinha encaracolada pela porta e Jessie ergueu os olhos e sorriu. Sentia-se mais velha, mais quieta, porm j no cansada. E sentia-se forte. 
Pela primeira vez em meses, as noites sozinhas no a aterrorizavam. A casa no estava mais assombrada. A sua vida no estava mais infestada do fantasmas. A primeira 
noite de volta  casa fora at tranquila. Finalmente.
      Forou a sua ateno a voltar-se para Zina, que ainda esperava no vo da porta.
      - Claro, Zina, tenho tempo de sobra.
      O ritmo mais lento da roa ainda estava com ela. No sentia atropelada, e estava adorando.
      - Est com uma cara ptima.
      Zina sentou-se numa cadeira perto da mesa de Jessie, e parecia ligeiramente constrangida. Fez algumas perguntas sobre as frias de Jessie, e parecia hesitar 
cada vez que havia uma pausa. Finalmente, Jessie resolveu tomar a iniciativa.
      - Ento, moa, o que h?
      - No sei o que dizer, Jessie, mas...
      Ergueu os olhos, e subitamente Jessie o pressentiu. Os meses difceis tinha afectado todo mundo, no apenas ela. E ficou quase surpresa de que nenhuma das 
duas o tivesse feito antes. Provavelmente no o tinham feito porque eram muito leais. Inspirou fundo e olhou dentro dos olhos de Zina.
      - Est se despedindo?
      Zina fez que sim com a cabea.
      - Vou me casar.
      Falou quase como quem pedia desculpas.
      - Vai?
      Jessie nem sabia que Zina tinha um namorado. No tinha, da ltima vez que tinham conversado.... mas quando fora isso? No ms passado? H dois meses? Provavelmente 
h seis. Desde ento el estivera ocupada demais com os prprios problemas para perguntar, ou se importar.
      - Vou me casar daqui a trs semanas.
      - Zina, que notcia maravilhosa! Por que est com essa cara de pena, sua boba?
      Jessie deu um amplo sorriso e Zina pareceu tremendamente aliviada
      - Sinto-me mal em deix-la. Vamos nos mudar para Memphis.
      Jessica riu. Parecia um destino horrvel, mas sabia que Zina no do pensava assim, e agora que a notcia fora dada, Zina parecia radiante.
      - Eu o conheci numa festa de Natal, e... oh, Jessie! Ele  o homem mais lindo do mundo, de todas as maneiras possveis! E eu o amo! E vamos ter um monte de 
filhos! - Riu toda satisfeita, e .Jessica levantou-se de um salto e deu-lhe um abrao. - E olhe s  para o meu anel!
      Era toda uma donzela sulista enquanto exibia um minsculo brilhante.
      - Voc estava usando isso antes de eu entrar de frias?
      Jessica estava comeando a se perguntar quanta coisa teria perdido.
      - No. Ele s me deu na semana passada. Mas eu no queria escrever e contar para voc, portanto resolvi esperar que voltasse. - E Astrid proibira todos os 
comunicados potencialmente perturbadores para Jessie. Como as notcias dos credores que ficavam telefonando sobre as contas que ela no havia pago. -  um anelzinho 
to lindo, no ?
      -  uma graa. E voc  maluca, mas eu a adoro e estou to feliz por voc!
      E ento uma pontada de dor atingiu-a at o mago. Zina ia se casar, e ela ia se divorciar. A gente vem, a gente vai, a gente comea, a gente termina, a gente 
tenta, a gente perde, e quem sabe mais tarde tem outra chance, um novo comeo, e ganha desta vez. Quem sabe. Ou quem sabe no tinha realmente importncia. Esperava 
que Zina ganhasse na primeira tentativa.
      - Sinto-me to mal em dar um aviso-prvio to curto, Jess. Mas ns s resolvemos agora. Juro.
      Estava quase de cabea baixa, mas o sorriso era grande demais para  ocultar.
      - Pare de pedir desculpas, pelo amor de Deus! Ainda bem que eu voltei para casa. Onde vai ser o casamento?
      - Em Nova Orleans, ou a minha me me mataria. Vou para casa daqui a duas semanas e ela j est maluca por causa do casamento. Tambm no a avisamos com antecedncia. 
Ela ligou para mim quatro vezes, ontem  noite, e voc devia ter escutado o papai!
      As duas deram risadinhas, e Jessica comeou a pensar.
      - Precisa de um vestido?
      - Vou usar o da minha bisav.
      - Mas precisa do um enxoval, certo? E um vestido de viagem, e...
      - Ah, Jessie, , mas... no... posso deixar que faa isso...
      - Cuide da sua vida, ou eu a despeo!
      Apontou o dedo para Zina e as duas recomearam a rir. Jessie escancarou a porta do escritrio e conduziu Zina para a sala principal da loja, parando diante 
da espantada Katsuko.
      - Kat, temos uma nova freguesa. VIP. Esta  a Srta. Nelson, e ela est precisando de um enxoval. - Katsuko ergueu os olhos, atnita, depois compreendeu e tambm 
comeou a participar das risadinhas e sorrisos. Estava aliviada por tudo ter sado bem. Estivera preocupada por causa da Zina. Nos dois ltimos meses fora assustador 
lidar com Jessie. Mas agora ela estava bem. Todos podiam ver isso. E agora estava esfuziante, falando do enxoval de Zina. - Vai ser perfeito com todas as cores da 
primavera. Kat, d-lhe qualquer coisa que ela queira, a dez por cento abaixo do preo de custo, e eu vou lhe dar a roupa de viagem como presente de casamento. E 
por falar nisso... Sei exactamente qual !
      Os seus olhos brilhavam, e entrou na sala de estoque e trouxe de l um costume de seda bege de Paris. Tinha uma saia pelo meio da barriga da perna, e uma jaqueta 
que disfararia subtilmente o busto exagerado de Zina. Pegou uma blusa verde-hortel para acompanhar o conjunto, e Zina praticamente babou.
      - Com sandlias bege finas e um chapu... Zina, voc vai ficar incrvel!
      At os olhos de Katsuko brilharam ante o conjunto que Jessie exibia. Zina ficou chocada.
      - Jessie, no! Voc no pode! Este no!
      Falou num sussurro. O preo de venda do costume era mais de 400 dlares.
      - , este sim. - A sua voz agora era meiga. - A no ser que haja outro que lhe agrade mais.
      Zina sacudiu a cabea gravemente, e Jessica deu-lhe um abrao carinhoso, e com um sorriso e uma ltima piscadela para Zina, voltou para o escritrio. Tinha 
sido uma manh espantosa, e agora ela teve outra idia espantosa.
      Conseguiu localizar Astrid no cabeleireiro.
      - Alguma coisa errada?
      Quem sabe Jessie detestara a vitrina, ou no gostara do jeito que ela arrumara o estoque. Estava preocupada, parada ali com o fixador pingando nos seus novos 
sapatos Gucci de camura.
      - No, boba, no h nada errado. Quer um emprego?
      - Est me gozando?
      - No, Zina acaba de se demitir. Vai se casar. E eu posso estar maluca, porque com voc na loja seramos trs capazes de dirigir esta espelunca, mas se no 
se importa de ser o homem super-qualificado na base da pirmide por algum tempo, o emprego  todo seu!
      - Jessie! Aceito!
      Abriu um amplo sorriso o se esqueceu do que estava fazendo com os sapatos.
      - Ento est contratada. Quer almoar comigo?
      - Vou j para ai. No, droga, no posso, meu cabelo ainda est molhado... Oh... merda. - As duas riram e o sorriso do Astrid parecia mais amplo a cada minuto. 
- Estarei l numa hora, Jessie.. obrigada. Adoro voc.
      As duas desligaram com sorrisos felizes e Jessica ficou contente por ter telefonado.
      As quatro fecharam as portas da Lady J s cinco horas em ponto, ao invs de cinco e meia, e Jessica estourou uma garrafa de champanha que tinha encomendado 
de tarde. Zina resolvera sair do trabalho uma semana antes do combinado, agora que Jessica tinha Astrid para tomar o seu lugar. Acabaram com a garrafa em meia hora, 
e Astrid levou Jessica para casa de carro.
      - Quer ir at a minha casa tomar um drinque? Ainda no comemorei meu novo emprego.
      Jessie sorriu, mas sacudiu a cabea. Estava comeando a sentir as efeitos do dia... que comeara com a sua visita a Martin para, tratar do divrcio. Era estranho 
como ficava se esquecendo disso. A manh parecia anos-luz atrs dela. Gostaria que o divrcio tambm j pertencesse ao passado.
      - No, querida, obrigada. Hoje, no.
      - Est com medo de confraternizar com os empregados?
      - No, boba, estou estourada, e j estou meio de porre com o champanha, e... tenho que escrever uma carta.
      e O rosto de Astrid ficou sbrio, enquanto escutava.
      - Para o lan?
      Jessica concordou, gravemente, o riso agora totalmente desaparecido dos seus olhos.
      - . Para o Ian.
      Astrid deu uma palmadinha na sua mo e Jessica deslizou suavemente para fora com um aceno. Destrancou a porta e ficou parada por um momento no hall de entrada 
iluminado pelo sol. Estava to quieto. To insuportavelmente quieto. No mais assustador. Apenas vazio. Quem iria cuidar dela, agora? Era estranho dar-se conta de 
que ningum sabia a que horas ela chegava em casa, ou saia, ou onde estava. Ningum sabia, e ningum se importava. Bem, havia Astrid, mas ningum a quem prestar 
contas, dar explicaes, para quem correr para casa, fazer favores, acordar, ligar o despertador, ningum para quem comprar comida... uma sensao avassaladora de 
vazio a envolveu. As lgrimas lhe escorreram pelo rosto enquanto olhava  sua volta para a casa que j fora o lar deles. Agora era uma casca. Um pavilho de lembranas. 
Um lugar para onde voltar  noite, depois do trabalho. Como tudo o mais, fora repentinamente arremessado para o passado. Tudo estava te movendo to depressa. As 
pessoas estavam indo e se modificando e mudando para longe, novas pessoas tomavam os seus lugares, Zina se casando... Astrid na loja... Ian perdido... e dali a meses 
estaria divorciada. Jessica sentou-se na cadeira do hall entrada ainda de casaco, a bolsa jogada sobre o ombro, enquanto sentia o gosto da palavra em voz alta. Divorciada.
      Era quase meia-noite quando ela lambeu o selo e o colou carta. Sentia-se com 100 anos de idade. Tinha forado Ian a sair sua vida, e no se desviaria da sua 
deciso. Mas agora no tinha ningum, excepto a si mesma.
      
      
Captulo 29
      
      
      - Ora, olhe s para ela! O que est aprontando para hoje  noite? 
      Astrid parecia encabulada enquanto abotoava o casaco de vison. Estavam em maio, mas ainda fazia frio  noite, e o casaco to peles ficava bem nela.
      Jessie acabara de trancar as portas da loja. O esquema estava funcionando bem. Ela, Katsuko e Astrid davam-se bem como se fossem irms, formavam urna equipe 
poderosa, quase poderosa demais, mas estavam gostando, e a boutique estava indo muito melhor. Os telefonemas dos credores eram raros. Dava para ver o alvio no rosto 
de Jessica.
      - Est bem, enxerida - Astrid olhou para Jessica, que a observava divertida - acontece que vou sair com algum.
      Falou como se fosse uma garota de 16 anos, com um leve rubor nas faces, e Jessica desatou a rir.
      - E j est com uma tremenda cara do culpada. Quem  o cara?
      - Um idiota que conheci por intermdio de um amigo.
      Parecia quase aflita.
      - Quantos anos ele tem?
      Jessie desconfiava da paixo de Astrid por homens maiores de 60 anos. Ela ainda estava procurando o Tom.
      - Tem 45.
      Com uma expresso virginal, terminou de abotoar o casaco.
      - Pelo menos tem uma idade decente, para variar.
      - Obrigada, Tia Jessie.
      As duas mulheres riram e Jessica tirou um pente da bolsa.
      - Por falar nisso, tambm vou sair com algum.
      Ergueu os olhos com um pequeno sorriso.
      - ? Com quem?
      A situao agora se invertera, e Astrid parecia estar gostando.
      Jessie andava saindo bastante, nas ltimas semanas. Com homens moos, velhos, um fotgrafo, um banqueiro, at mesmo a. um estudante de direito, certa vez. 
Mas nunca com escritores. E jamais falava no Ian. O assunto era proibido, e qualquer meno do Ian era recebida com silencio ou cara feia.
      - Vou sair com o amigo de uma amiga de Nova York. Ele veio passar apenas uma semana em San Francisco. Mas, que diabo, por que no? Pareceu legal ao telefone. 
Um pouco metido a gostoso, mas pelo menos parece meio inteligente. Tem um senso de humor  flor da pele, pelo menos ao telefone. S espero que te comporte.
      Jessica soltou um suspiro leve, enquanto punha o pente de vol. te na bolsa. O seu cabelo descia at bem alm dos ombros, num lenol louro acetinado.
      - Voc est se preocupando com o comportamento dele? Grande como voc , sempre pode dar-lhe uma surra.
      - Desisti disso quando tinha nove anos.
      - Por que?
      - Encontrei um garoto maior do que eu, e me machuquei.
      Ela sorriu e apoiou os ps na mesa.
      - Quer uma carona at em casa, Jessie?
      - No, obrigada, querida. Ele vem me apanhar aqui. Penei em mostrar-lhe o movimento no Jerry's.
      Astrid assentiu, mas o Jerry's no fazia o sou gnero. Em um bar local "da moda", cheio de secretrias e publicitrio. procurando transar uma trepada. Aquilo 
a fazia sentir-se solitria. Ia jantar no L'Etoile. Fazia muito mais o seu gnero. Seria tambm o gnero de Jessie, se ela permitisse. Mas ela ainda estava buscando 
o seu prprio nvel. Um novo nvel. Qualquer nvel. Jessie sabia que o Jerry's no era para ela, mas o movimento ali dava-lhe algo para observar, enquanto escutava 
as paqueras sendo transadas bar.
      Jessie fez um aceno de despedida, e Astrid cruzou com um jovem nos degraus. Era um pouco mais alto do que Jessie e tinha cabelos escuros e fartos. Usava uma 
suter de gola rol cinzenta, e jeans. Bonito, mas muito "peludo", concluiu Astrid, enquanto sorria e seguia o seu caminho. Perguntou-se como Jessie os suportava; 
todos tinham a mesma cara, no importava a cor dos cabelos como se vestissem, todos pareciam famintos, com teso e chateados. Subitamente, Astrid ficou contente 
por no ter mais 30 anos. Os homens de 30 anos ainda tinham um caminho to longo a percorrer. Com um suspiro, entrou no Jaguar e ligou o motor. Imaginou como andaria 
o Ian. H um ms que tinha vontade de escrever para ele, mas no tinha tido coragem. Jessica podia considerar uma traio. Astrid via as cartas fechadas rasgadas 
ao meio quando esvaziava as cestas de papel do escritrio que agora partilhavam. Jessie sabia ser inflexvel, quando queria. E agora estava querendo. A porta da 
loja se abriu e Astrid viu o rapaz entrar.
      - Oi, Mrio. Sou Jessie.
      Imaginou que ele fosse o rapaz que estava esperando, e estendeu-lhe a mo. Ele a ignorou com um sorriso descuidado.
      - Suponho que trabalhe aqui.
      Nem um comprimento, uma apresentao, um aperto de mo, um ol. Estava examinando o local. E ela junto. Tudo bem, meu chapa, se  para ser assim.
      - . Trabalho aqui.
      Resolveu no contar que era a dona. -
      - . Acho que cruzei com a sua patroa na escada. Uma coroa chique, de casaco de pele. Pronta?
      Jessie j estava irritada. Astrid no era "uma coroa" e era sua amiga.
      Pareceu chateado com o movimento do Jerry's, mas tomou quatro copos de vinho tinto, mesmo assim. Explicou que era dramaturgo, ou estava tentando ser, e ensinava 
ingls, matemtica e italiano como "bico". Tinha crescido em Nova York, num bairro barra pesada do West Side. Pelo menos, era o que ele dizia. Mas Jessie achava 
que no. Parecia mais classe mdia do West Side do que barra pesada. Ou talvez at dos bairros elegantes da periferia. E agora crescera e passara a no se lavar, 
a ser inamistoso e grosseiro. Estava surpresa com os anigos que tinham dado o seu nome para ele. Gente que conhecia profissionalmente, mas mesmo assim... como podiam 
mandar-lhe isso?
      - E que tal Nova York? H algum tempo que no vou at l.
      - ? Quanto tempo?
      - Quase oito meses.
      - Ainda est l. Fui a uma festa de cocana espectacular na semana passada no St. Mark's Pisco. Que tal as transas por aqui?
      - Cocana? No sei.
      Ela sorvia o seu vinho.
      - No faz o seu gnero? - Ele continuou a parecer entediado enquanto se esforava  bea para parecer cnico. Garoto da cidade grande na provncia. Jessie 
estava desejando que ele casse morto ali mesmo. Ou desaparecesse, ao menos. - No gosta do cocana? - insistiu ele.
      - No. Mas esta  uma boa cidade.  boa do se morar.
      - Parece uma merda de chata.
      Ela ergueu os olhos e sorriu animada, esperando desapont-lo. Mrio, o dramaturgo, estava se saindo um p no saco dos mais legtimos.
      - Bem, Mrio, no  to excitante quanto o West Side de Nova York, mas temos os nossos locais de diverso.
      - Ouvi dizer que  um deserto intelectual.
      - Voc tambm , querido.
      - Depende das pessoas com quem se conversa. Aqui h alguns escritores. Bons escritores. Muito bons.
      Estava pensando em Ian e tinha vontade de enfi-lo pela goela daquele palhao abaixo. Ian tinha classe. Ian era encantador. Ian era brilhante. Ian era bonito. 
O que ela estava fazendo saindo com esse porco? Esse grosseiro? Esse...
      - ? Quem, por exemplo?
      - O qu?
      O seu pensamento passara do Mrio para o Ian.
      - Voc falou que aqui h bons escritores e eu falei quem, por exemplo. Est se referindo a escritores de fico cientfica?
      Falou com nojo e com aquele sorriso cnico que fez Jessie sentir vontade de acertar com o clice de vinho nos dentes dele.
      - No, no apenas escritores de fico cientfica. Estou me referindo a fico, fico pura, no-fico.
      Comeou a enumerar nomes e se deu conta de que eram todos amigos de Ian. Mrio escutou, mas no fez comentrios. Jessica estava fervendo de raiva.
      - Sabe o que me deixa pasmo?
      - O qu?
      - Que uma mulher inteligente como voc venda roupas numa loja. No sei, imaginava que voc fizesse algo criativo.
      - Como escrever?
      - Escrever, pintar, esculpir, alguma coisa significativa. Que tipo de existncia  essa, vendendo roupas para coroas de casaco de pele?
      - Bem, sabe como , a gente faz o que pode. -- Jessie testou impedir o seu lbio de se encrespar enquanto soma. - Que tipo de pea est escrevendo?
      - Teatro novo. Um elenco s de mulheres em plo. H uma cena fantstica tomando forma agora, para o segundo ato. Uma cena de amor homossexual depois de uma 
mulher dar  luz.
      - Parece divertido. - Ele no percebeu o tom de voz irnico. - J est com fome?
      E ainda tinha que enfrentar um jantar com ele. Estava pensando em dizer-se acometida de um violento ataque de peste bubnica. Qualquer coisa para se ver livre 
dele. Mas sobreviveria. J tinha sobrevivido a outros, antes. Com mais frequncia do que gostaria de admitir.
      - . At que curtiria uma boa refeio.
      Ela deu vrias sugestes e ele escolheu comida mexicana, porque a boa cozinha mexicana era rara em Nova York. Pelo menos, tinha bom senso nesse aspecto. Ela 
o levou a um pequeno restaurante na Lombard Street. A companhia era um lixo, mas a comida era boa, pelo menos.
      Depois do jantar ela bocejou ruidosamente vrias vezes, esperando que ele se mancasse, mas no se mancou. Queria ver um pouco da "vida nocturna", se  que 
havia alguma. Havia, mas ela no ia participar dela. No esta noite, e no com ele. Ela sugeriu um caf na Union Street, perto de casa. Tomaria um cappuccino e se 
mandaria. Estava precisando do caf, de qualquer maneira. Tomara trs ou quatro copos de vinho durante o jantar. Mas Mrio tomara pelo menos o dobro, depois do consumo 
anterior no Jerry's. Estava comeando a ficar com voz pastosa.
      Acomodara-se no caf, ele com um lrish coffee e ela com um cappuccino espumante, e ele a olhou com olhos apertados sobre a beirada do copo.
      - Voc no  uma guria feia.
      Fazia com que parecesse uma anlise qumica. O seu tipo sanguneo  O positivo.
      - Obrigada.
      - Onde mora, afinal de contas?
      - A uma ou duas ladeiras daqui.
      Bebeu a espuma doce do leite da parte de cima do seu caf e ocupou-se parecendo evasiva. Uma coisa que no estava planejando fazer era partilhar com Mrio 
o seu endereo. J estava mais do que cheia.
      - Ladeiras grandes?
      - Mdias. Por qu?
      - Por que no quero subir porra nenhuma de ladeira grande a p, irm, s isso. Estou podre de cansado. E s um pouquinho bbado.
      Juntou o polegar e o indicador e deu um sorrizinho obsceno. Jessie quase sentiu nsias de vmito ao olhar para ele.
      - No h problema, Mrio. Podemos tomar um txi e terei prazer em larg-lo onde voc est hospedado.
      - Como assim "onde voc est hospedado"?
      Havia uma pequena fagulha de raiva nos seus olhos, ardendo em confuso.
      - Voc  um rapaz esperto. O que lhe pareceu?
      - Pareceu-me por um minuto que voc estava sendo um p no saco cheia de frescura. Imagino que vou ficar com voc.
      Por um momento teve vontade de dizer-lhe que era casada, mas no resolveria nada desse jeito. Alm disso, como poderia explicar o facto de ter ido jantar com 
ele?
      - Mrio - sorriu docemente para ele - voc imaginou errado. No fazemos as coisas desse jeito na provncia. Eu, pelo menos, no fao.
      - O que quer dizer com isso?
      Agora estava desabado na cadeira, com uma expresso desagradvel no rosto.
      - Quero dizer obrigada por uma linda noite.
      - Comeou a abotoar a jaqueta e se levantou com um olhar melanclico. Mas ele se debruou sobre a mesa e agarrou-lhe o brao. O aperto no pulso dela era surpreendentemente 
doloroso.
      - Escute, sua putinha, jantamos juntos, no foi? Quero dizer, porra, o que voc acha...
      Havia uma expresso no rosto dele que ela no queria ver nunca mais, e subitamente a conversa anterior com Astrid veio-lhe  mente... "se ele se comportar 
mal, voc pode bater nele"... e ela livrou o brao, e algo na sua fisionomia disse a ele que no insistisse.
      - No sei o que voc acha, meu chapa. Mas sei o que e acho. E acredito que voc ficar extremamente arrependido se me tocar de novo. Boa noite.
      Ela j tinha ido embora antes que ele pudesse reagir, e foram os garons que lhe aguentaram a raiva, enquanto ele varria a mesa com o brao, derrubando as 
xcaras e os copos no cho. Foram precisos dois garons para convenc-lo de que o que estava querendo era ar fresco.
      A esta altura Jessica estava quase em casa. Enquanto subia sossegadamente a ltima ladeira que levava  sua casa, o ar nocturno era suave no seu rosto, e ela 
se sentia surpreendentemente calma. Tinha sido uma merda de noite, mas estava livre dele. E jamais teria que v-lo de novo. Homens como aquele a deixavam toda arrepiada 
de nojo, mas pelo menos sabia como lidar com eles. E consigo mesma. A princpio, noites como aquela a deixavam apavorada. Mas, a esta altura, j tinha sado com 
todos os tipos... todos os tipos desagradveis na praa. Os bons estavam casados, ou escondidos em algum canto. E os que sobravam eram todos iguais: bebiam demais, 
riam demais, ou no riam, eram afectados ou neurticos ou homossexuais limtrofes, curtiam txicos ou sexo grupal, ou queriam contar que no tinham uma ereco h 
quatro anos por causa do que as ex-mulheres tinham feito com eles. Ela estava comeando a se perguntar se no se sentiria melhor ficando em casa sozinha. A vida 
libertina no era muito divertida.
      
      
      - Que tal foi ontem  noite? - Jessie perguntou primeiro a Astrid, quando esta entrou na loja, na manh seguinte. Estava esperando driblar as perguntas do 
Astrid, desse jeito. No tinha vontade de falar sobre o Mrio.
      - At que foi uma noite agradvel. No desgostei.
      Parecia feliz e relaxada e quase surpresa. Ao contrario de Jessie, ela no esperava divertir-se quando safa com um homem. Aquilo a tornava mais fcil de agradar.
      - Que tal foi a sua noite? Acho que cruzei com o seu gal quando ia saindo.
      - , acho que foi. Uma pena que voc no o fez tropear.
      - Foi to ruim assim, ?
      Astrid parecia estar com pena, o que ainda doa mais.
      - Na verdade, consideravelmente pior. Foi o fim da picada. - Na opinio de Astrid, a cara dele no negava. - Bem, vamos voltar ao batente.
      Jessie conseguiu dar um ligeiro sorriso enquanto folheava a correspondncia, separando as contas das cartas. Parou apenas por um momento para olhar para o 
envelope branco, simples e comprido, antes de rasg-lo ao meio e jogar os pedaos na cesta de papel. Outra carta do Ian. Astrid ficava magoada cada vez que via Jessie 
fazer isso. Parecia to cruel, um desperdcio to grande. Perguntava-se se Ian saberia, ou suspeitaria, que Jessie no estava lendo as suas cartas. Perguntava-se 
o que ele diria naquelas cartas.
      - No fique com essa cara, Astrid.
      A voz de Jessica interrompeu os seus pensamentos.
      - Que cara?
      - Como se eu estivesse arrancando fora o seu corao cada que jogo fora as cartas dele.
      Continuava a separar a correspondncia, parecendo quase indiferente. Mas no totalmente. Astrid viu a mo dela tremer s um pouquinho.
      - Mas por que voc faz isso?
              - Porque no temos mais nada a nos dizer um ao outro. No quero ouvir, nem ler, nem abrir nenhuma porta. No daria certo. No quero marcar bobeira 
de entrar num dilogo com ele.
      - Mas no acha que devia dar-lhe uma chance do dizer o que pensa? Assim parece to injusto.
      Os olhos de Astrid eram quase splicas, e Jessica voltou a olhar para a correspondncia enquanto respondia:
      - No faz mal. Estou pouco me lixando para o que ele diga. J me resolvi. Ele agora s conseguiria tornar as coisas mais difceis. No poderia modificar nada.
      Tom certeza de que quer o divrcio?
      Jessica ergueu os olhos antes de responder, e fitou Astrid dentro dos olhos.
      - Sim. Tenho certeza.
      A despeito dos Mrios, a despeito da solido e do vazio, ainda estava certa de que o divrcio era a coisa certa. Mas isso no significava que no doesse.
      Nesse momento, duas freguesas entraram na loja e pouparam a Jessica o dissabor de novas discusses. Katsuko tinha sado, e Astrid teve que se oferecer para 
ajud-las. Jessica entrou no escritrio e fechou a porta suavemente. Astrid sabia o que aquilo significava. O assunto estava encerrado. Sempre estava.
      Depois disso, foi um dia cheio, uma semana cheia, um ms cheio. A loja agora estava em ptima forma, e o pessoal estava fazendo as compras de vero.
      Recebiam de vez em quando postais de Zina, que j estava grvida, e Katsuko resolvera deixar o cabelo crescer de novo. A vida retornara aos detalhes triviais: 
quem ia para a Europa, qual seria o novo comprimento de bainha, se deviam ou no pintar a fachada da loja, o plantio de novos gernios no pequeno jardim do apartamento 
de Katsuko. Jessie nunca cessava de sentir gratido pelas trivialidades. A orquestrao na sua vida tinha sido sombria por tempo demais; agora era Mozart e Vivaldi 
de novo. Simples e fcil o leve. E tendo tomado a deciso de pedir o divrcio, no sobravam grandes decises.
      Era quase como se a histria de horror nunca tivesse acontecido. O anel de esmeraldas da me estava de volta ao banco, em segurana. Os ttulos de propriedade 
da casa e da loja estavam livres e desimpedidos de novo. A loja estava firme, de novo. Mas aba havido mudanas. Muito mais do que ela gostaria de admitir. E ela 
tambm se modificara. Estava mais independente, menos as sustada, mais madura. A vida seguia o seu curso.
      Estavam todos tomando caf na boutique certa manh, quando Jessie se ps de p e comeou a mexer nos vestidos de uma certa seco.
      - Est planejando cortar dez ou 20 centmetros da sua ai altura? - indagou Astrid com um sorriso, vendo Jessie mexer nu tamanhos 40.
      - Ora, cale a boca. - Olhou por cima do ombro com um sorriso, depois franziu a testa. - Kat, qual  o tamanho que a Zina costuma usar?
      - Ah, Jesus, essa  dureza. Tamanho 38 nos quadris, e 48 na parte de cima.
      - Fantstico. Ento, que manequim voc diria, para uma bata?
      - Manequim 40.
      - Era o que eu estava procurando. - Ianou um olhar vitorioso para Astrid. - Pensei que devamos mandar-lhe um presente. O garoto com quem se casou no tem 
muito dinheiro, e vai ser difcil ela arranjar coisa que lhe sirva, agora que est grvida. O que acham desses?
      Pegou trs vestidos tipo bata da linha de primavera, em coros do sorvete e modelos discretos.
      - Legal! - aprovou Kat instantaneamente, o Astrid pareceu emocionada.
      - Que idia gentil.
      Jessie parecia quase encabulada enquanto sorria e os entregava para Katsuko.
      - Ahhh... que babaquice. - As trs riram e Jessie voltou a se sentar para tomar o seu caf. - Mande-os para ela hoje mesmo, sim, Kat? Acha que devemos mandar 
alguma coisa para o beb?
      No sabia por que, mas queria comemorar o beb de Zina. Como se ele, ou ela, fosse algum especial.
      - Ainda no. S vai chegar daqui a meses. Alm disso, d azar. - Astrid parecia pouco  vontade. - Por que todo esse interesse em artigos de maternidade?
      - Resolvi que, se nunca vou ser me, vou curtir uma de tia. Alm do mais, achei que, se comear a puxar o saco dela bem cedo, pode ser que me convide para 
madrinha.
      Astrid riu e Katsuko dobrou os vestidos cuidadosamente numa caixa cheia de papel fino amarelo. Lanou um rpido olhar para Jessie, mas esta se levantou e se 
afastou. Sentia-se subitamente solitria. Ansiando por um filho pela primeira vez na vida. E por que no? Concluiu que era apenas por que estava pronta para amar 
do novo.
      - Ela vai ador-los, Jessie. E quem falou que voc nunca vai ser me?
      Katsuko estava intrigada. Era a primeira vez que Jessie falava abertamente sobre filhos. Katsuko sempre desconfiara que Jessie devia ter chegado a uma concluso 
sobre filhos, mas era raro para da abrir-se sobre qualquer assunto pessoal. No era uma dessas mulheres que discutem a sua vida sexual e os seus sonhos mais caros 
no escritrio. Mas Jessie parecia estar com uma disposio de tagarelar que lhe era incomum. E no tinha mais o Ian para fazer as suas confidncias. Sentia muita 
falta de algum com quem conversar, actualmente. Sentou-se mais uma vez, antes de replicar.
      - Eu falei que nunca vou ser me. Quero dizer... Jesus, j viram o que anda dando sopa por a? Se o que tenho visto  uma amotragem-padro, no me interessa 
propagar a raa. Deviam citar pensando  em extingui-la! - As duas outras mulheres riram, e Jessie acabou o seu caf. - Abobados, retardados, debilides, imbecis. 
Sem falar naqueles que aniquilaram o crebro com txicos, os filhos da puta que estio enganando as mulheres, e aqueles que no tm senso de humor. Vocs esperam 
que eu me case com um desses amoricos e v ter um beb? - E ento a sua fisionomia ficou sria. - Alm disso, sou velha demais.
      - No seja ridcula - manifestou-se Astrid.
      - No estou sendo. Estou sendo honesta. Quando chegar e hora de ter o beb estarei com 34, talvez 35 anos. velha demais. A gente devo t-lo na idade da Zina. 
Quantos anos ela tem? Vinte o seis? Vinte e sete?
      Katsuko confirmou com a cabea, o depois fez uma pergunta que balanou as estruturas do Jessie.
      - Jessie.... voc agora se arrepende de no ter tido filhos com Ian?
      Fez-se uma longa pausa antes dela responder, e Astrid ficou com medo que ela fosse perder a pacincia, ou a compostura, mas no perdeu.
      - No sei. Talvez me arrependa. Talvez apenas possa dizer isso porque nunca estive num ralo do quilmetros de uma criana. Mas parece triste... mais do que 
triste, um desperdcio, vazio... ter vivido tantos anos com um homem e no ter nada. Alguns livro, algumas plantas, alguns mveis, um carro estourado. Mas nada real, 
nada duradouro, nada que diga "somos", mesmo que j no o sejamos mais, que diga "eu o amei", embora no o ame mais. - Havia lgrimas nos seus olhos enquanto dava 
ligeiramente de ombros o se levantava. Evitou o olhar delas e fez um ar de ocupada enquanto se dirigia de novo para o seu pequeno escritrio. - Bem,  isso ai. De 
volta ao trabalho, senhoras. E no se esquea de mandar logo os vestidos para Zina, Kat.
      S voltaram a v-la de novo na hora do almoo, e nem Astrid nem Katsuko ousaram comentar a conversa.
      Mas estavam todas basicamente felizes. Jessie estava inquieta e cheia dos homens com quem andava saindo, mas no estava infeliz. No havia mais traumas nem 
crises na sua vida. E Astrid ainda estava saindo com o mesmo homem do comeo da primavera. E gostando mais do que queria admitir. Ele a levava muito ao teatro, coleccionava 
obras de escultores jovens e desconhecidos, e tinha uma pequena casa em Mendocino que Astrid finalmente admitiu j ter visitado. Estava passando os fins de semana 
ali, e por isso Jessie no tinha mais noticias dela de sexta at segunda.
      Jessica tambm estava ocupada. Trabalhava aos sbados na Lady J, e sempre havia homens novos. O problema era que nunca havia homens "velhos", homens que conhecia 
h algum tempo, e em cuja companhia se sentia  vontade. Era sempre a festa do aniversrio, nunca os sapatos velhos. Ficava cheia das explicaes constantes. Sim, 
esquio sim, jogo tnis. No, no gosto de dar longas caminhadas. Sim, sei dirigir. No, no sou alrgica a mariscos. Prefiro colches duros, uso sapatos nmero tal, 
vestidos nmero tal, tenho tanto de altura, gosto de anis, adoro brincos, detesto rubis, adoro esmeraldas... tudo do que est citado acima, nada do que est citado 
acima. Era como se estivesse constantemente se candidatando a um novo emprego.
      Estava tendo novamente dificuldades em dormir, mas tinha se mantido afastada dos comprimidos desde a sua temporada na fazenda. Sabia que no eram a soluo, 
o algum dia... algum dinheiro.... algum apareceria e ela ia ter vontade que ele ficasse. Talvez. Ou talvez no. Tinha at mesmo considerado a possibilidade de que 
ningum aparecesse outra vez. Ningum que pudesse amar. Era uma idia horrvel, mas admitia a possibilidade. Fora isso o que a fizera arrepender-se sbita e quase 
cruelmente de nunca ter tido filhos. Sempre pensara que tinha a opo. Agora as suas opes tinham desaparecido.
      Mas talvez no importasse que ela nunca tivesse filhos, ou amasse outro homem, ou... talvez no importasse, afinal. Ficou Imaginando se j teria cumprido o 
seu destino. Sete anos com Ian, uma exploso no final, uma boutique, e alguns amigos. Quem sabe era s isso. A sua vida agora era toda igual, chocha, sem propsito, 
e isso a intrigava. Tudo o que tinha a fazer era se levantar, ir para o trabalho, ficar na. loja o dia todo, fech-la s cinco e meia, ir para casa e mudar de roupa, 
sair para jantar, dizer boa-noite, ir para a cama. E no dia seguinte, tudo recomearia de novo. Estava cansada, mas no deprimida. No estava feliz, mas pelo menos 
no se sentia assustada ou solitria. No estava nada. Estava entorpecida.
      Ian mandara um recado, por intermdio do Martin, para que da no vendesse a casa; compraria a parte dela, no futuro, se fosse preciso, mas no queria que a 
casa fosse vendida. Assim, ela continuava morando l, mas agora no passava de uma casa. Mantinha-a arrumadinha, ela servia s suas necessidades, era confortvel, 
era familiar. Mas pusera todas as coisas do Ian no estdio e o trancara. E a casa perdera metade da sua personalidade quando ela agir. assim. Agora era apenas uma 
casa. Lady i era apenas uma loja. Ela era apenas uma futura-divorciada no mercado.
      
      
      - Bom dia, madame. Quer um encontro?
      Astrid estava carregando lrios-do-vale quando entrou na loja, o largou um ramo junto  xcara de caf de Jessie.
      - Puxa, mas como voc est com uma cara boa para esta hora da manh!
      Jessica tentou dar um sorriso e fez uma careta, arrependendo se da ltima garrafa de vinho branco da vspera. Mas deixava at a Jessie feliz ver Astrid daquele 
jeito, usando o cabelo solto e maioria das vezes, e com uma luz feliz nos olhos.
      - 0K., Srta. Raio de Sol. Que tipo de encontro?
      Tentou outro sorriso, e era genuno. Era impossvel no sorrir para Astrid.
      - Um encontro com um homem.
      Parecia quase uma garotinha.
      -  o que espero. Quer dizer um encontro s cegas?
      - No, eu no creio que ele seja cego, Jessica. Tem apenas 39 anos.
      As duas riram do trocadilho e Jessica deu de ombros.
      - T legal, por que no? Como  ele? 
      - Um amor, e s um pouquinho "no muito, alto". - Astrid olhou cautelosamente para Jess. - Tem importncia?
      - Vou ter que debruar para conversar com ele?
      Astrid deu uma risadinha e sacudiu a cabea.
      - No. E ele  realmente muito simptico.  divorciado.
      - E todo mundo no ?
      Jessie ficava constantemente espantada ao ver quantos casa. mentes falhavam. No tinha conscincia disso antes de pedir o prprio divrcio. Sempre lhe parecera 
que todo mundo que conhecia era casado. E agora todo mundo que conhecia era dado.
      Tinham ido jantar os quatro naquela quinta-feira, e o namorado de Astrid era encantador. Elegante, divertido e bonito. Na verdade era o primeiro homem que 
Jessie conhecia h muito tempo que atraa. Tinha o mesmo tipo gracioso do Ian, mas com cabelos prateados e uma barba estreita e bem aparada. Viajara extensivamente, 
entendia bastante de arte e msica, era muito engraado quanto contava algumas das suas experincias, e era maravilhoso para a Astrid. Jessica aprovou integralmente, 
mas o que mais agradou na noite toda foi ver a felicidade de Astrid. Realmente tinha encontrado o homem perfeito para ela.
      O parceiro de Jessie para aquela noite era agradvel, gentil, insuportavelmente montono. Divorciado, com trs filhos, trabalhava no departamento de fideicomissos 
de um banco. Tambm media 1,70m, e Jessie tinha posto sapatos de salto alto. Ficava quase cabea maior do que ele. Mas quando Astrid sugeriu que fossem danar, Jessie 
no teve coragem de negar. Pelo menos este no a agarrou na porta de casa. Apertou-lhe a mo, disse que ligaria ela, enquanto ela tomava nota mentalmente para no 
esperar prendendo a respirao, e foi para casa sozinho. Ela estava verta de quer em manh seguinte, nem se lembraria do nome dele. Para que se incomodar?
      Tirou a roupa e foi para a cama, mas s conseguiu pegar no Bano dali a duas horas. Sentiu como se acabasse de fechar os olhos. quando o telefone tocou, na 
manh seguinte. Era Martin Schwartz.
      - Jessie?
      - No. Vernica Lake.
      A sua voz era roufenha, e ainda estava semi-adormecida.
      - Desculpe se a acordei.
      - Tudo bem, tenho que ir trabalhar, de qualquer maneira.
      - Tenho uma coisa para voc.
      - O meu divrcio?
      Sentou-se na cama e pegou os cigarros. No tinha certeza se estava preparada para este tipo de notcia.
      - No. Esse s daqui a quatro meses. Tenho uma outra coisa. Um cheque.
      - Pombas, de qu?
      Era tudo muito confuso.
      - Dez mil dlares.
      - Meu Deus. Mas, por qu? E de quem?
      - Do editor do seu marido, Jessica. Ele vendeu o livro.
      - Ah. - Ela expirou cuidadosamente o franziu a tosta. - Bem, ponha-o na conta dele, Martin. No  meu, pela madrugada.
      - , sim. Ele o endossou para voc.
      - Bem, ento desendosse, merda. No o quero.
      As suas mos agora tremiam, o a sua voz tambm.
      - Ele falou que era para reembols-la dos meus honorrios, dos honorrios de Green, o diversas outras coisas.
      - Que ridculo. Diga a ele que no quero. Paguei aquelas contas e ele no me deve nada.
      - Jessica... ele passou o cheque para o seu nome.
      - Estou me lixando. Risque o endosso. Rasgue o cheque. Faa. o que quiser com ele, mas eu no o quero!
      A voz dela estava ficando mais alta, de nervosismo.
      - No pode fazer isso por ele? Parece significar tanto para ele. Acho que  uma questo de integridade. Ian realmente acha que lhe deve isso.
      - Bem, est errado.
      - Talvez eu esteja errado. - Martin podia sentir uma leve camada de suor a porejar-lhe a testa. - Pode ser que ele apenas esteja querendo dar-lhe um presente.
      - Pode ser. Mas seja como for, Martin, eu no aceitarei o cheque. - A voz de Martin fora splice, e ela sacudiu a cabea com veemncia, enquanto apagava o 
cigarro. - Olhe.  simples. Ele no me deve nada. No quero nada. No vou aceitar nada. Estou feliz porque vendeu o livro, acho que  maravilhoso para ele. Agora 
ele deve ficar com o dinheiro e me deixar em paz. Vai precisar de dinheiro quando sair da priso, de qualquer forma.  isso a, Martin. No quero o cheque. Fim de 
papo. Certo?
      - Certo.
      Parecia derrotado, e eles desligaram. Na sua extremidade do fio, ela tremia; na dele, sentava-se espiando a paisagem, perguntando-se como contaria ao Ian. 
Seus olhos tinham estado to cheios de vida enquanto falava em reembolsar Jessie. E agora Martin teria que contar-lhe isso.
      O dia de Jessie comeara mal. Queimou o caf, o banho estava frio. Deu uma topada na cama, e o jornaleiro esqueceu de entregar o jornal da manh. Estava com 
uma cara de meter quando chegou na loja. Astrid olhou para ela, encabulada.
      - Est bem, est bem, eu sei, voc o detestou.
      - Detestei quem? - perguntou Jessie, subitamente sem tender.
      - O cara que lhe apresentamos ontem  noite. Nunca me dera conta que era um chato.
      - Bem, , mas no  por causa disso que estou com raiva, portanto deixe pra l. - E ento ergueu os olhos e viu o rosto de Astrid, magoado e confuso, feito 
de uma criana. - Ah, que Astrid, desculpe. Estou num mau humor fodido. Tudo j deu errado hoje. Schwartz telefonou de manh.
      - Sobre o qu?
      O rosto do Astrid ficou instantaneamente preocupado.
      - Ian vendeu o seu livro.
      - E o que h de errado nisso?
      A preocupao virou confuso de novo.
      - Nada. Excepto que ele est tentando me dar o dinheiro, e eu no o quero, e  um p no saco, s isso.
      Serviu-se de uma xcara de caf e se sentou. Mas o rosto de Astrid agora estava gravo.
      - Agora voc sabe como ele costumava se sentir. Aceitando o seu dinheiro.
      - Como assim?
      - s vezes  mais fcil dar do que receber.
      - Voc est parecendo a sua me.
      - Ainda bem.
      Jessie balanou a cabea e entrou no escritrio. Ficou l at a hora do almoo.
      Astrid bateu na porta fechada ao meio-dia e meia. Um sorriso estava lutando para escapar do seu rosto srio... espere s at Jessie v-lo! Forou as feies 
a reassumirem uma expresso de assunto oficial e pareceu quase solene quando Jessie abriu a porta.
      - O que ?
      - Temos um problema, Jessica.
      - No pode cuidar dele? Estou verificando as facturas.
      - Lamente, Jessica, mas simplesmente no posso tratar disso.
      - Formidvel. - Jessie jogou a caneta na mesa s suas costas e entrou na sala principal. Astrid observava-a nervosamente. Tinha assinado a nota. Talvez Jessie 
a matasse, mas no se importava. Devia esse tanto ao Ian. Jessie olhou ao seu redor. No havia ningum na loja, excepto Katsuko, que estava ao telefone. - Ento? 
Quem est aqui? Qual  o problema?
      Ela estava comeando a parecer extremamente irritada.
      -  uma entrega, Jessie. L fora. Fizeram "onda", e disseram que no iam descarregar aqui dentro. Falaram que no so obrigados a fazer seno entregas de calada, 
resmungaram sobre a guia, e foram embora.
      - Mas que merda! J tnhamos discutido isso no ms passado e eu lhe disse que se...
      Escancarou a porta e saiu em largas passadas, os olhos faiscando, procurando a entrega na calada. E ento ela o viu. Estacionado na entrada para carros, onde 
o Jaguar de Astrid estivera um pouco mais cedo.
      Era um elegante Morgan de corrida verde, com frisos pretos e bancos de couro vermelho. A capota estava arriada. Era uma beleza, e em condies ainda melhores 
do que o seu antigo Morgan. Jessica ficou atnita por um momento, depois olhou para Astrid e comeou a chorar. Sabia que era do Ian.
      
      
Captulo 30
      
      
      Com Astrid enchendo a sua pacincia dia e noite, ela resolveu ficai com o carro. "Como um favor para ele." Ainda no queria admitir o quanto o estava adorando, 
e ainda no abria as cartas de Ian.
      Em junho, resolveu tirar uma frias de cinco dias e ir visitar a Tia Beth na fazenda.
      - Que diabo, Astrid, eu mereo. E vo me fazer bem.
      Sentia-se vagamente embaraada por estar indo, mas no tinha certeza por qu.
      - No precisa me dar desculpas. Vou tirar trs semanas de frias em julho.
      Astrid ia para a Europa com o namorado, mas no queria comentar o assunto. Mantinha a sua vida muito reservada, at mesmo para Jessie. Esta se perguntava se, 
quem sabe, a outra tivesse m de que as coisas no dessem certo.
      Jessica saiu cedo numa tarde de quarta-feira, no Morgan, num ptimo astral, a cabeleira esvoaando atrs de si. Tia Beth ficara encantada ao saber que ela 
viria.
      
      
      - Ora, ora, est de carro novo. Muito bonito.
      Tinha escutado o barulho do carro de Jessica no caminho de cascalho, e viera receb-la. O sol se punha atrs das montanha 
      - Foi um presente do Ian. Ele vendeu o seu livro.
      - Mas que belo presente. E como est voc, minha querida?
      Abraou Jessica com carinho, e a mulher mais jovem inclinou-se para beijar-lhe a face. As suas mos se encontraram e se apertaram com fora. Estavam igualmente 
satisfeitas em se ver.
      - No poderia estar melhor, Tia Beth. E voc est com uma cara maravilhosa!
      - Mais velha a cada dia que passa. E mais braba, tambm ao que me dizem.
      Deram risadinhas felizes e entraram na casa de braos dados. 
      A casa parecia a mesma de dois meses atrs, e Jessica deixou escapar um suspiro enquanto olhava ao seu redor.
      - Sinto-me como se estivesse em casa.
      Olhou para Tia Beth do outro lado da sala, e notou que seu rosto estava sendo cuidadosamente observado pelos olhos azuis penetrantes da outra mulher.
      - Como tem estado, realmente, Jessica? Astrid conta muito pouco, e as suas cartas contam ainda menos. Fico me perguntando como as coisas se resolveram. Uma 
xcara de ch?
      Jessica fez que sim, e a Tia Beth lhe serviu uma xcara de Earl Grey.
      - Tenho estado bem. Pedi divrcio quando voltei, mas j tinha lhe contado isso na minha primeira carta.
      Tia Beth sacudiu a cabea, inexpressivamente, esperando o rosto.
      - Arrependeu-se?
      Jessica hesitou apenas uma fraco de segundo antes de responder, e depois sacudiu a cabea.
      - No, no me arrependi. Mas me arrependo do passado a toda hora, mais do que me agrada admitir. Parece que estou sempre a reviv-lo, pensando "se isso tivesse 
sido assim" e "se a quilo tivesse sido assado". Parece to sem sentido.
      Tinha um ar triste enquanto pousava a xcara de ch e olhava para Tia Beth.
      -  sem sentido, minha querida. E no h nada mais doloroso do que ficar olhando para trs, para tempos felizes que no existem mais. Ou simplesmente para 
o passado. Tem notcias dele?
      - Sim, de certo modo.
      Jessica tentou parecer imprecisa.
      - Como assim?
      - Bem, ele me escreve e eu rasgo as cartas dele e jogo-as fora.
      Tia Beth ergueu a sobrancelha.
      - Antes ou depois de l-las?
      - Antes. No as abro.
      Sentia-se uma tola, e desviou os olhos de mulher idosa.
      - Tem medo das cartas dele, Jessica?
      Para a Tia Beth ela podia dizer a verdade. Balanou lentamente a cabea.
      - Tenho. Medo de recriminaes e splicas e poemas e palavras que so perfeitamente criados para soarem do modo que ele sabe que quero ouvir.  tarde demais 
para isso. Est acabado. Encerrado. Fiz a coisa certa, e no vou ficar discutindo a minha deciso com ele. J vi outras pessoas fazerem isso, e no tem sentido. 
Ele apenas me faria sentir culpada.
      - Voc  que faz isso consigo mesma. Mas sabe, fico pesando. Se ele no estivesse na priso, voc ainda estaria insistindo no divrcio?
      - No sei. Talvez acabasse chegando a esse ponto, de qualquer forma.
      - Mas voc no est se aproveitando da situao, Jessica? Se ele fosse livre, poderia for-la a discutir o assunto com ele. Agora, s o que pode fazer  escrever, 
e voc no lhe faz nem a cortesia de ler as suas cartas. No sei se isso  grosseria, covardia, ou simplesmente maldade. - Eram palavras duras, mas seus olhos diziam 
que ela falava a srio. - E tambm no entendo o negcio do carro. Falou que ele lhe deu o carro novo. Aceitou-o... mas no as cartas dele?
      Jessica crispou-se ante a insinuao.
      - Isso  culpa da Astrid. Disse que eu devia ficar com o carro. Queria me reembolsar o dinheiro que gastei com o julgamento, e eu no quis aceitar o cheque 
do nosso advogado. Ento, Ian mandou que ele me comprasse o cano. Suponho que ficou com o resto do dinheiro.
      - E voc no lhe agradeceu pelo carro?
      Parecia direitinho uma me. O qu? No escreveu um bilhete de agradecimento  sua anfitri? Jessica quase riu.
      - No, no agradeci.
      - Sei. E agora?
      - Nada. O divrcio ser homologado daqui a trs meses. E fim de papo.
      - E voc nunca mais o ver? - Tia Beth parecia em dvida mas Jessica sacudiu a cabea com firmeza. - Acho que voc vai se arrepender, Jessica. A gente precisa 
se despedir. Se no o fizer, de um modo satisfatrio, nunca se tira direito as farpas da alma. Pode causar-lhe mais transtornos desse jeito. No pode apagar sete 
anos da sua vida sem se despedir. Ou ser que pode? Bem, de qualquer modo, voc parece estar resolvida. - Ficou vendo a cabea inclinada de Jessica, enquanto esta 
brincava com o gato malhado. - Est resolvida, no est?
      Queria a verdade, nem que fosse apenas pelo bem de Jessie. 
      - Eu... , bem... ah, droga, no sei, Tia Beth. s vezes fico sem saber. J me resolvi, e vou at o fim, mas de vez em do, eu... ah, imagino que seja apenas 
pesar.
      - Talvez no, filha. Talvez seja dvida. Talvez no mesmo se divorciar dele.
      - Desejo, sim... mas... mas sinto uma falta to grande dele. Sinto falta do jeito como a gente se conhece. Ela  a nica pessoa no mundo todo que realmente 
me conhece. E ou o conheo igualmente bem. Sinto falta disso. E sinto falta do que constumvamos sonhar, do que eu pensava que ramos, do que eu queria que ele fosse. 
Mas talvez eu nem o conhecesse. Talvez apenas pensasse que conhecia. Talvez me enganasse o tempo todo. Talvez aquela mulher fosse namorada dele e o acusou de estupro 
apenas porque estava com raiva por algum motivo. Talvez ele me odiasse por pagar as contas, ou talvez s continuasse casado comigo por causa disso. No sei mais 
nada. Excepto que sinto falta dele. Mas pode at ser que aquilo de que sinto falta jamais tenha existido.
      - Por que no lhe pergunta? No acha que ele contaria a verdade, agora? Ou ser que est com medo de que ele possa realmente contar a verdade?
      - Talvez seja isto. Talvez a verdade seja algo que eu no queira nunca ouvir.
      - Ento fica rasgando cartas e se certificando de que nunca ouvir. E o que vai fazer quando ele for solto? Mudar de cidade o trocar de nome?
      Jessica riu da sugesto absurda.
      - Talvez a essa altura ele tambm no queira falar comigo.
      Mas no parecia acreditar no que dizia.
      - No conte com isso. Mas o mais importante, Jessica, voc ao d conta do que est dizendo? Est dizendo que Ian provavelmente nunca a amou, que no havia 
nada em voc que ele amava excepto a minha capacidade de pagar as contas dele. No  isso?
      - Pode ser. - Mas os seus olhos estavam ficando taciturnos. J estava cheia daquela sondagem dolorosa. - Que diferena faz agora?
      - Toda a diferena do mundo. Significa a diferena entre sabor que foi amada e pensar que foi usada. E se ele a usou, mas tambm a amava? Voc tambm no o 
usou, Jessica? A maioria das pessoas que ama o faz, e no necessariamente de uma maneira ruim. Faz parte do acordo, para preencher as necessidades mtuas...  financeiras, 
emocionais, sejam l quais forem.
      - Nunca pensei nisso dessa maneira. E o gozado  que sempre achei que eu o estava usando. O Ian no tem medo de ficar sozinho. Eu sempre tive. Sentia-me to 
perdida sem a minha famlia, depois que todos morreram. No tinha ningum, excepto o Ian. Eu podia tomar todas as decises do mundo, fazer qualquer coisa que quisesse; 
sentir orgulho de mim mesma... contanto que tivesse o Ian. Ele me mantinha em p para eu continuar enganando o mundo, e a mim mesma, que era durona. Eu o usava para 
isso, eu nunca pensei que ele soubesse.
      Parecia quase encabulada de admiti-lo.
      - E se ele soubesse? E da? No  pecado ter fraquezas, ou usar a fora da pessoa que voc ama. Contanto que no a use maldosamente. E quanto a voc, agora? 
Est mais forte?
      - Mais forte do que eu pensava.
      - E feliz?
      Este  que era o mago da questo.
      Ela hesitou, depois sacudiu a cabea.
      - No. No estou. Minha vida  to... to vazia, Tia Beth. To morta. s vezes sinto que no tenho motivo para viver. Para qu? Para mim mesma? Para me vestir 
todas as manhs e trocar de roupa  seis da tarde? Para sair com um estranho idiota qualquer com mau hlito e sem alma? Para regar as minhas plantas? Para que estou 
vivendo? Uma boutique para a qual estou me lixando?.... Para qu?
      Tia Beth acenou com a mo e ela parou.
      - No aguento isso, Jessica. Voc est parecendo direitinho a Astrid de antigamente. E  tudo bobagem. Voc tem todos os motivos pelos quais viver, com ou 
sem rapazes de mau hlito. Mas na sua idade, acima de tudo, tem a si mesma para quem viver. Tem tudo  sua frente. Tem a juventude. E olhe s para mim, ainda encontro 
coisas pelas quais viver, muitas coisas, e no a contragosto. Curto integralmente a minha vida, mesmo na minha idade.
      - Ento, invejo-a. Acordo de manh e, sinceramente, s vezes me pergunto por qu. O resto do tempo passo me movimentando feito um rob. Mas que diabo eu tenho?
      - Voc tem o que .
      - E o que  isso? Uma mulher divorciada de 31 anos, dona do uma boutique, metade de uma casa, vrias plantas e um carro esporte. No tenho filhos, nem marido, 
nem famlia, ningum que me amo e ningum para amar. Jesus, para que me importar?
      Lgrimas quentes enchiam seus olhos enquanto continuava.
      - Ento encontre algum para amar, Jessica. No tentou? Outros que no os sem alma e com mau hlito.
      Os olhos de Tia Beth brilharam maliciosos e Jessica riu por entre as lgrimas, e depois deu de ombros.
      - Voc devia ver o que est dando sopa por a. So um horror. - Agora as lgrimas comeavam a escorrer pelo seu rosto. - So simplesmente um horror. E... nenhum 
me conhece.
      Fechou os olhos com fora ao dizer as ltimas palavras, e inclinou a cabea.
      - Era isso o que Astrid costumava dizer, Jessica, e agora olhe s para ela. - Tia Beth deu a volta por trs da cadeira do Jessica e acariciou-lhe suavemente 
a cabea. - Est badalando pai a feito uma escolar, fingindo ser "discreta" e se divertindo  grande.  to discreta quanto o nascer do sol. Mas estou contente 
por ela. Est finalmente feliz. Encontrou algum, e voc tambm vai encontrar, minha querida. Leva tempo.
      - Quanto tempo?
      Jessie sentiu-se com 12 anos de novo, pedindo o impossvel do uma me consciente.
      - Isso depende de voc.
      - Mas como? Como? - Jessie virou-se na cadeira para olhar para a Tia Beth. - So todos to horrveis. Rapazes que se acham formidveis e querem ir para a cama 
com voc e com qualquer outra mulher que encontram na rua, que querem deixar os tnis na mesa da sala de jantar e o seu suprimento de drogas na sua casa. Eles fazem 
a gente se sentir como um parqumetro. Colocam uma moeda o voltam mais tarde... talvez... se se lembrarem onde nos deixaram estacionadas. Fazem com que eu me sinta 
como um nada sem nome. E os mais velhos tambm no so nada melhores; esto todos resolvidos a provar que so machos e fingem adorar o movimento do libertao da 
mulher, porque  o que se espera deles... mas o Ian nunca foi... ah, que merda. Tudo me chateia mortalmente. Tudo. As pessoas que conheo me chateiam, e as pessoas 
que no conheo me aborrecem. E...
      Sabia que estava choramingando, mas no parecia chateada, e sim desesperada
      - Jessie, querida, voc me aborrece. Com todo esse lixo. Est certo, voc est precisando de uma mudana.. Vamos concordar com isso. Ento, por que no sair 
de San Francisco, por algum tempo? J pensou nisso? - Jessie balanou a cabea, tristemente, e Tia Beth lanou-lhe o olhar que reservava apenas para as crianas 
muito mimadas. - Est pensando em voltar para Nova York?
      - No... no sei. Isso seria pior. Quem sabe as montanhas, ou a praia ou a roa. Uma coisa assim. Tia Beth, estou to cansada de gente.
      Recostou-se com um suspiro, enxugou o rosto e estirou as pernas. Tia Beth estava com uma cara irritada.
      - Ora, cale a boca. Sabe qual  o seu problema, Jessica? Voc  completamente mimada. Teve um marido que a adorava e a fazia sentir-se como uma mulher, e uma 
mulher muito amada, e tinha uma butique que curtia, e um lar que vocs partilhavam e tambm pareciam curtir. Bem, por escolha prpria, voc no tem mais o marido, 
e espremeu o quanto pode da loja, e quem sabe a casa tambm j deu o que tinha que dar. Portanto, livre-se de tudo. E comece de zero. Foi o que fiz quando me divorciei, 
e estava com 67 anos. Jessica se eu posso faz-lo, voc tambm pode. Vim do Leste para c, comprei esta propriedade, conheci gente nova, o tenho me divertido  grande, 
desde ento. E se daqui a cinco anos eu comear a me cansar daqui, vendo tudo, e vou fazer outra coisa, se estiver viva. Mas se estiver vivo, ento estarei viva. 
Mas no vivendo aqui, semimorta e no mais interessada no que estiver fazendo. Portanto, o que voc vai fazer agora? Est na hora de fazer alguma coisa!
      Os olhos da mulher idosa faiscavam.
      - Ando pensando em me livrar da loja, mas no posso vender a casa. Metade  do Ian.
      - Ento, por que no a aluga?
      Era uma idia, e que nunca lhe ocorrera antes. E ficou um pouco chocada com o que tinha acabado de dizer. Vender a loja? Quando pensara nisso? Ou ser que 
vinha pensando nisso o tempo todo? As palavras tinham simplesmente escapado.
      - Terei que pensar nisso tudo.
      - Aqui  um bom lugar para isso, Jessica. Que bom que voc veio.
      - Tambm acho. Estaria perdida sem voc.
      Foi para junto dela e abraou-a. Tia Beth estava se tornando um sustentculo para ela.
      - J est com fome?
      - Estou ficando.
      - ptimo. Podemos queimar o jantar juntas.
      Fizeram hambrgueres e alcachofras com molho holands, um dos favoritos de Tia Beth, e desta feita no queimaram nem talharam o molho. Foi uma refeio deliciosa, 
e ficaram acordadas at quase meia-noite, falando de assuntos mais amenos do que os discuti antes do jantar.
      Jessica estirou-se na cama do quarto rosa, agora familiar, e ficou vendo o fogo bruxulear enquanto o velho gato malhado se acomodava ao seu lado. Era bom estar 
de volta. Ali ela se sentia em casa. Era um lugar do qual no estava enjoada.
      Tia Beth j tinha saldo para andar a cavalo quando Jessie acordou na manh seguinte, e havia um bilhete explicando qual cavalo que poderia montar, se estivesse 
com vontade. J conhecia o terreno suficientemente bem, graas  visita anterior, para dar um passeio para  poder montanhas sozinha.
      Pouco depois das 11, saiu montada numa simptica gua castanha. Usava um chapu de palha de abas largas e tinha e um livro enfiado uma ma no pequeno alforje. 
Sentia vontade de sozinha por algum tempo, e esta era a maneira perfeita de faz-lo. Depois de uma cavalgada de meia hora, encontrou um peque riacho e amarrou o 
animal a um galho de rvore. A gua no pareceu fazer objeco, e Jessie tirou as botas e foi caminhar na gua. Ria enquanto cantarolava, e desabotoou os punhos 
para enrolar as mangas. Sentia-se mais livre do que jamais se lembrava de ter estado. Foi ento que viu um homem a observ-la.
      Ergueu os olhos, sobressaltada, e ele pediu desculpas com um sorriso. Era assustador encontrar algum de repente no que ela pensava ser o seu deserto particular, 
mas ele era alto e muito bem vestido um traje de montaria castanho-claro. Falava suavemente, e com um sotaque ingls.
      - Desculpe. Pretendia dizer alguma coisa mais cedo, mas voc parecia to feliz. No quis estragar a sua alegria.
      Jessie ficou contente por no ter tirado a camisa, coisa que tinha pensado em fazer.
      - Estou invadindo a sua propriedade?
      Ela estava descala no riacho, uma das mangas enroladas, o cabelo preso frouxamente num coque no alto da cabea. Para ele, era uma viso. Uma deusa grega e 
cabelos dourados em roupas de montaria modernas. No se via muitas mulheres assim... no ali, na "provncia". Perdida numa encosta de morro, descala num riacho. 
Era como uma cena de uma tela do sculo XVIII, e deu-lhe vontade de ir at l e toc-la. Beij-la, talvez. A idia f-lo sorrir de novo enquanto olhava para ela.
      - No, creio que o invasor sou eu. Vim dar um passeio hoje de manh e no estou muito familiarizado com o territrio, limites do propriedades e coisas assim. 
Temo que seja um intruso.
      O sotaque era puro ingls de colgio interno. Eton, quem sabe. O pretenso "intruso" era um cavalheiro da cabea aos ps. Enquanto olhava para ele, ficou impressionada 
com a sua semelhana com Ian. Era mais alto, ombros um pouco mais largos, mas o rosto... os olhos... a inclinao da cabea... o cabelo dele era muito louro, mais 
louro do que o de Jessie. Mas havia algo de Ian nele, o suficiente para mexer com ela. Desviou os olhos o sentou-se enquanto vestir as botas, descendo as mangas 
com cuidado primeiro. quanto isso o desconhecido continuava a observ-la com um pequeno sorriso.
      - No precisa ir embora por minha causa. De qualquer forma, j tenho que ir para casa. Mas, diga-me, mora por aqui?
      Ela sacudiu a cabea lentamente, soltou os cabelos, e ergueu olhos para ele. Era muito bonito.
      - No, sou hspede de uma casa.
      - No diga! Eu tambm. - Mencionou o nome do pessoal com quem estava hospedado, mas ela no se lembrava de ter ouvido Tia Beth falar neles. - Vai se demorar 
muito por aqui?
      - Alguns dias. Depois, tenho que voltar para casa.
      - Onde?
      Era muito perguntador. Quase irritantemente perguntador, s que era to danado de bonito.
      - San Francisco. Moro l. - Ela evitara a pergunta seguinte, e agora era a sua vez. Por que no? - E voc?
      A idia de interrog-lo a divertia.
      - Moro em Los Angeles. Mas devo me mudar para San Francisco daqui a um ms, na verdade.
      Ela quase soltou uma risadinha, enquanto o ouvia falar. Parecia-se com todas as imitaes que ela j ouvira de ingleses empolados. Era to britnico, de 
p na colina no seu traje de montaria impecvel, batendo com o chicote na palma da mo. Era mesmo uma parada.
      - Falei alguma coisa engraada?
      - No, senhor.
      Com um meio-sorriso, ela comeou a subir o morro na direco dele. O seu cavalo estava amarrado perto de onde ele se encontrava.
      - Minha firma est me transferindo para San Francisco. Viu de Londres para c h trs anos, e j me fartei de Los Angeles.
      - Vai gostar de San Francisco.  uma cidade maravilhosa. 
      Era uma conversa totalmente maluca entre dois estranhos no meio do nada; estavam se comportando como se estivessem na Quinta Avenida, ou na Union Street, ou 
no Faubourg St. Honor. Ela caiu na risada quando se achou ao lado dele.
      - Parece que a divirto sem pretender faz-lo.
      Ela sorriu do novo e deu de ombros ligeiramente.
      - Muitas coisas fazem isso.
      - Sei. - Estendeu a mo para ela, e ficou com um ar meia solene, mas o sorriso ainda lhe danava nos olhos. - Como vai? Sou Geoffrey Bates.
      - Ol. Sou Jessica Clarke.
      De p sob a rvore, apertaram-se as mos e ela sorriu para de novo. Visto de perto, ele no se parecia tanto com Ian. Mas muito bonitinho, por si mesmo, o 
Sr. Geoffrey Bates de Londres. ele estava pensando em como gostava do jeito que ela ficava quando sorria. E parecia sorrir um bocado.
      Hesitou por um momento antes de fazer a prxima pergunta, mas finalmente cedeu. Queria saber.
      - Onde est hospedada, a propsito?
      A propsito? isso fez Jessica sorrir de novo, e depois risada.
      - Com a me de uma amiga.
      Foi imprecisa, e ele sorriu enquanto erguia a sobrancelha.
      - E no quer me dizer quem? Prometo no faz-la passar vergonha e aparecer para jantar sem ser convidado.
      Ela riu de novo e sentiu-se boba, mas o rosto do ingls ficado srio. Acabara de se dar conta de que ela bem podia viajando com um homem. Aquilo seria constrangedor. 
Olhara para a mo esquerda dela quase instantaneamente, e ficara aliviado ao ver que no tinha anis, especialmente alianas de ouro. Mas no tinha olhado com ateno 
suficiente para notar a leve marca na carne ou a tira ligeiramente mais clara onde ela usara a aliana durante sete anos antes de tir-la fazia alguns meses.
      - Estou na casa da Sra. Bethanie Williams.
      - Creio que j ouvi algum falar no nome dela. - Parecia enormemente aliviado. - Quer uma ajuda?
      Ela estava parada junto ao cavalo quando ele perguntou, e virou-se para ele com ar divertido.
      - No  necessrio. Mas devo dizer que sim?
      Pensou t-lo Visto enrubescer enquanto subia com facilidade na meia. Era uma pergunta boba para ser feita para uma mulher alta como ela, mas foi ento que 
notou a altura dele. Era pelo menos dez ou 12 centmetros mais alto do que o Ian... 1,95m? l,98m? Nem mesmo o Ian era alto assim... "nem mesmo"... por que ainda 
pensava nele daquele jeito? Como se ele fosse o mximo dos homens. O modelo de perfeio ao qual todos os homens sempre seriam comparados, na mente dela.
      - Posso procur-la na casa da Sra. Williams?
      Jessica balanou a cabea, cautelosa de novo. Este era certamente um meio estranho de conhecer um homem, e ela no tinha a menor idia de quem ou o que ele 
era.
      - No vou me demorar muito por aqui.
      - Ento terei que procur-la logo, no ?
      Filho da me insistente, no? Sorriu de novo, em dvida. Mas ele no parecia um filho da me. Parecia ser um homem simptico. Trinta e tantos anos, olhos cinzentos 
meigos e cabelos sedosos. E roupas que usava pareciam caras. Tambm usava um pequeno anel de ouro no dedo mnimo da mo direita. Ela pensou ter visto um braso riscado 
no ouro, mas no queria bisbilhotar. Tudo nele perecia formal e elegante. Junto com os culotes usava botas pretas engraxadas e uma camisa azul macia com uma gravata 
alta. A jaqueta de tweed castanho-claro pendia de um galho, e ele parecia um tanto estranho naquele ambiente agreste, mas ao mesmo tempo crivelmente bonito. Mais 
e mais, enquanto ela o observava. O que era precisamente como ele se sentia a respeito dela, embora Jessica estivesse comeando a se perguntar se o seu cabelo estava 
muito despenteado.
      - Prazer em conhec-lo.
      Preparou-se para partir com um sorriso e um aceno.
      - Voc no respondeu  minha pergunta.
      Segurava a brida do cavalo dela enquanto fitava os olhos de Jessica. Sabia o que ele queria dizer. E gostava do estilo dele.
      - Sim. Pode me procurar.
      Ele deu um passo atrs em silncio, e com um sorriso radiante, fez-lhe uma reverncia. Ela tambm gostava do sorriso dele. E foi rindo sozinha enquanto se 
dirigia de volta  fazenda.
      
      
Captulo 31
      
      
      - O passeio foi bom, querida?
      - Muito. E conheci um homem muito estranho.
      - No diga! Quem?
      Tia Beth parecia intrigada. Homens estranhos eram uma raridade nas proximidades da fazenda, excepto um capataz aqui e ali.
      -  hspede de algum, e terrivelmente britnico. Mas  tambm muito bonito.
      Tia Beth sorriu  expresso no rosto dela.
      - Ora, ora. Um estranho alto, moreno e bonito na minha fazenda? Santo Deus! Onde est? E quantos anos tem?
      Jessica soltou uma risadinha.
      - Eu o vi primeiro. E alm disso, no  moreno.  louro, e muito mais alto do que eu.
      - Ento  seu, minha querida. Jamais gostei de homens altos.
      - Eu os adoro.
      Tia Beth olhou por cima dos culos de leitura com ar solene.
      - Voc no tem muita escolha.
      Ambas riram de novo e apreciaram um belo pr-do-sol por trs das montanhas.
      Foi mais uma noite serena, e Jessica se levantou s sete, na manh seguinte. Tinha desejos de sair por a, mas desta feita no na gua castanha. Preparou uma 
xcara de caf - pela primeira vez tinha acordado antes da Tia Beth - e partiu no Morgan, fazendo o menos barulho possvel. Nunca tinha rodado multo por ali, e estava 
louca de vontade de fazer uma explorao.
      O sol ia alto no cu quando ela a encontrou. E estava em ms condies. Mas era uma beleza. Parecia que algum a havia perdido na grama alta e depois se cansara 
de procur-la, h dcadas. E agora l estava, sozinha e mal-amada, com um cartaz de ALUGA-SE muito inclinado de banda, perto dos degraus da entrada. Era uma casa 
pequena em estilo vitoriano, mas perfeitamente proporcionada. Experimentou a porta da frente, mas estava trancada. E Jessica pegou-se sentada nos degraus da frente, 
abanando o rosto com o chapu de palha de abas largas, sorridente. No tinha certeza por que, mas sentia-se bem. E incrivelmente feliz.
      Guiou de volta a 80 na estrada rural empoeirada e entrou na casa com um amplo sorriso. Tia Beth estava examinando a correspondncia, e ergueu os olhos, surpresa.
      - Bem, por onde andou? Saiu um bocado cedo.
      Havia malcia naqueles olhos azuis e uma delicada desconfiana.
      - Espere s at saber o que encontrei!
      - Outro homem nas minhas terras? E desta vez um francs. Eu sabia. Minha querida, est tendo vises por causa do sol.
      Tia Beth estalou a lngua, compreensivamente, e Jessica estourou na risada e jogou o chapu bem para o alto.
      - No, um homem no! Tia Beth,  uma casa! Uma em estilo vitoriano, incrvel, linda, maravilhosa! E estou loucamente apaixonada por ela.
      - Ah, Deus, Jessie, no  a que estou pensando? A velha casa dos Wheeling em North Road?
      Sabia exactamente qual era.
      - No tenho a menor idia, s sei que a adoro.
      - E j a comprou e o seu decorador vai chegar de Nova York logo amanh cedo.
      Tia Beth recusava-se a falar a srio.
      - No. No estou brincando. Ela  linda. J ficou recuada olhando para ela? Eu j, durante uma hora hoje de manh, e fiquei sentada nos degraus da frente quase 
o mesmo tempo.  que ser por dentro? Estava trancada, droga. Cheguei a experimentar todas as janelas.
      - S Deus sabe como  por dentro. H quase 15 anos ningum mora nela. Na verdade, costumava ser muito linda, tem muito pouco terreno, portanto ningum quer 
compr-la. Mas agora provavelmente poderia ser adquirida com um pouco mas terreno, porque os Parker que moram logo atrs resolveram que querem vender uma boa parte 
da terra deles. Quase 40 acres, se  que me lembro bem. Mas, ao que eu saiba, a casa dos Wheerling continua vazia. Ano aps ano. Os corretores mostraram-na para 
mim quando vim comprar a estncia, mas no me interessei pelo local. Casa demais, terreno de menos, e eu queria alguma coisa mais moderna. Por que cargas d'gua 
voc iria querer uma casa em estilo vitoriano no meio do fim do mundo?
      - Mas Tia Beth,  to linda!
      Jessica parecia jovem e romntica enquanto sorria para a amiga.
      - Ah, as iluses da juventude. Talvez seja preciso ser jovem e estar apaixonada para querer uma casa daquelas. Eu queria uma coisa mais prtica. Mas posso 
entender por que voc gostou dele. - Estava notando o brilho nos olhos verdes da sua jovem amiga. - Jessica, exactamente o que est pretendendo? A sua voz agora 
era sria e quieta.
      - Ainda no sei. Mas estou pensando. Sobre muitas coisas diferentes. Pode ser que sejam todas idias malucas, mas tem alguma coisa fermentando.
      Jessica parecia claramente satisfeita consigo mesma. Tinha sido uma manh maravilhosa e algo fantstico tinha acontecido na sua cabea ou no seu corao, ela 
no tinha certeza, mas sentia-se viva o excitada e nova em folha de novo. Era mesmo uma loucura. Uma passagem da Bblia que tinha aprendido na escola dominical tinha 
vindo  sua mente enquanto estava sentada olhando para a casa. "Vejam, as coisas velhas desapareceram. Todas as coisas estio ficando novas." Ela ficara pensando 
naquilo, e sabia que era verdade. Todas as coisas velhas estavam sumindo da sua vida... at mesmo o horror do julgamento... at o Ian...
      - Bem, Jessie, deixe-me saber o que voc resolveu quando tudo estiver "fermentado". Ou antes disso, se eu puder ajudar.
      - Ainda no. Mas quem sabe mais tardo. - Tia Beth concordou e voltou para a sua correspondncia, e Jessie subiu escada acima, cantarolando baixinho. E ento 
parou e voltou a olhar para Tia Beth. - Como fao para ver a casa por dentro?
      - Ligue para os correctores. Ficaro encantados. No creio que mostrem a casa seno uma vez a cada cinco anos. Procure o telefone deles no catlogo. Imobiliria 
do Condado de Hoover. Um nome terrivelmente original.
      Tia Beth estava comeando a se admirar... mas no podia levar Jessie a srio. Isso devia ser um capricho passageiro, uma curtio. Mas manteria Jessie entretida. 
S o facto de pensar em outra coisa que no no seu tdio lhe faria bem. Uma coisa era carta... no parecera entediada quando chegara. No naquela manh. E certamente 
no na noite anterior.
      Geoffrey Bates telefonou naquela tarde enquanto Jessie estava fora, e ligou de novo por volta das cinco, quando ela acabara do voltar. Indagou cortesmente 
se podia "aparecer" para tomar um drinque, ou traz-la para conhecer os seus anfitries. Jessie optou pela vinda dele  casa da Tia Beth. E estava animadssima.
      Ele foi terrivelmente encantador, muito divertido, muito comportado, e ficou fascinado pela Tia Beth, o que agradou a Jessie. Mas ficou ainda mais fascinado 
por Jessie, o que agradou a Beth. Parecia ainda mais esplndido do que Jessie anunciara, de blazer e calas de gabardina cor de marfim, uma camisa azul Wedgewood 
e um plastro azul-marinho ao pescoo. Terrivelmente elegante mas tambm muito atraente. E faziam um casal espectacular, ambos altos e louros, com uma graa natural. 
Teriam virado cabeas em toda parte, mesmo da maneira informal como se sentavam na sala de visitas da fazenda.
      - Cavalguei pelas montanhas  sua procura hoje, Jessica, e tudo em vo. Onde estava se escondendo?
      - Numa casa com uma banheira de 1,20 m de profundidade e uma cozinha que parece sada de um museu.
      - Bancando a Cachinhos de Ouro, imagino. Os trs ursos chegaram antes de voc sair, e que tal estava o mingau?
      - Delicioso.
      Riu para ele e enrubesceu ligeiramente quando ele pegou na sua mo. Mas ele a segurou apenas por um segundo.
      - Pensei que voc era uma apario ontem, nas montanhas. Parecia uma deusa.
      - Tia Beth me acusou de estar tendo vises por causa do sol.
      - , mas ela pelo menos no pensou ter visto um deus.
      Tia Beth deu-lhe um fora para ver como reagia, mas ele reagiu bem. Foi muito corts, e foi embora pouco antes do jantar, no antes de convid-las para almoar 
na casa dos seus anfitries, no dia seguinte. Tia Beth fugiu ao convite, alegando que teria coisas para tratar na fazenda, mas Jessica aceitou com prazer. Ele se 
afastou num Porsche cor de chocolate, e Jessica olhou para Beth um brilho juvenil nos olhos.
      - Bem, o que acha?
      - Exageradamente alto. - Tia Beth tentou parecer severa, mas falhou instantaneamente quando o seu rosto se abriu num sorriso. - Mas, fora isso, aprovo de corao. 
Ele  um amor, Jessica! Simplesmente um amor.
      Tia Beth soava quase to entusiasmada quanto Jessica se sentia. Estava tentando lutar contra isso, mas com dificuldade.
      - Ele  simptico, no ? - Pareceu sonhadora por um momento depois fez uma pirueta num p. - Mas no tanto quanto a minha a casa.
      - Jessica, voc me confunde! Estou velha demais para esse tipo de jogo! Que casa? E como ousa comparar um homem a uma casa?
      -  fcil, porque sou m. E estou falando da minha casa. Da que aluguei hoje, para todo o vero!
      O rosto de Tia Beth ficou srio ao ouvir a notcia.
      - Alugou a casa dos Wheeling para o vero, Jessica?
      - Sim. E se gostar, ficarei mais tempo. Tia Beth, sinto-ma feliz aqui, e voc tinha razo, est na hora de mudar.
      - Sim, filha. Mas, para uma coisa como ceia? Isso  vida para uma mulher velha, no para voc. No pode se trancafiar aqui na roa. Com quem ir conversar? 
O que ir fazer?
      - Conversarei com voc, e comearei a pintar de novo. H anos que no pinto, e adoro! Posso at pint-la.
      - Jessica, Jessica! Sempre to avoada! s vezes voc me preocupa. Da ltima vez, se ps de p num salto e correu para casa para pedir o divrcio, e agora o 
que est fazendo? Por favor, querida, pense no assunto com cuidado.
      - Pensei, e estou pensando, e vou pensar. S a aluguei para o vero. Depois, disso, vamos ver. No  uma mudana permanente. Vou experimentar. A nica deciso 
permanente que tomei foi a de vender a loja.
      - Santo Deus, mas como andou ocupada. Tem certeza disso tudo?
      Tia Beth ficou mais do que ligeiramente desconcertada. Sugerira vender a loja, mas no tinha pensado que Jessica a levaria a srio. O que tinha feito?
      - Certeza absoluta. Vou vender a Lady J para Astrid, ou pelo menos oferec-la para ela, quando voltar.
      - E ela vai comprar. Pode ter certeza disso, Jessica. No posso dizer que lamento. Acho que seria bom para ela. Mas, voc no vai se arrepender? A boutique 
parece significar muito para voc, querida.
      - Significou, mas isso agora faz parte do passado. Uma parte da qual tenho que me livrar. No creio que v me arrepender.
      - Espero que no. - Havia mudanas no ar de novo; as duas o pressentiam. Mas, pela primeira vez em longo tempo, Jessie sentia-se viva, e nem um pouco entediada. 
- A casa est habitvel?
      - Mais ou monos, com uma boa faxina. Uma faxina muito boa. 
      - E quanto aos mveis?
      - Vou morar num saco de dormir.
      No parecia nem um pouco perturbada.
      - No seja ridcula. Tenho uns mveis sobrando no galpo, e outros no sto. Sirva-se. Pelo menos estar confortvel.
      - E feliz.
      - Jessie... espero que sim. E por favor, tente no fazer nenhuma coisa importante depressa demais. V com calma. Penso. Pese as suas decises.
      -  isso o que voc faz?
      Tia Beth no pode abafar o riso ante a pergunta.
      - No. Mas  o tipo de conselho que se espera que as mulheres velhas dem s mocinhas. Eu sempre entro directo e fao o que quero, e conserto os estragos depois. 
E para falar a verdade, vou adorar t-la aqui no vero.
      A mulher mais velha sorriu suavemente e Jessica ficou pensativa.
      - E se eu ficar aps o vero?
      - Ah, vou fechar as minhas portas para voc e atirar em voc das janelas da cozinha. O que imagina que faria? Ficaria encantada,  claro. Mas no a encorajaria 
a se mudar para c por minha causa. No fao isso nem com a Astrid.
      Mas no pensava mesmo que Jessie se mudaria; no final do vero estaria cansada da falta de movimentao... e o ingls que ia se mudar para San Francisco parecia 
prometer muito.
      Ele veio buscar Jessie para almoar no dia seguinte, e ela voltou para casa de Tia Beth num ptimo astral. Gostara dos amigos dele, e estes tinham ficado encantados 
 idia da mudana dela para l durante o vero, e a convidaram para aparecer na casa deles sempre que tivesse vontade. Eram um casal na casa dos 50 que convidava 
amigos de Los Angeles para ficar com eles, com frequncia. Geoffrey era um deles...
      - Parece que vou passar um bocado de tempo aqui nessa vero - falou.
      - ?
      - , e  uma viagem longa  bea de San Francisco para c. Voc podia ter escolhido um lugar mais prximo para o sou refugio de vero, Jessica. - Ainda no 
lhe tinha dito que estava pensando em se mudar de vez. Tinha olhado risonha nos olhou de Geoffrey enquanto ele a ajudava a sair do carro, na casa de Tia Beth. - 
Por falar nisso, Srta. Clarke, quando vai voltar para a cidade?
      - Amanh.
      Mas o "Srta. Clarke" mexera com ela.. Srta.? Parecia estranho. To... to vazio.
      - Tambm vou voltar para Los Angeles amanh. Mas, a propsito - olhou para ela quase astutamente, e definitivamente satisfeito consigo mesmo - estou planejando 
estar em San Francisco na quarta-feira. Que tal jantarmos juntos?
      - Eu adoraria.
      - Eu tambm.
      Pareceu surpreendentemente srio enquanto caminhavam para a casa, e discretamente envolveu a mo dela com a sua.
      
      
Captulo 32
      
      
      Astrid ficou atnita com a oferta de Jessica, mas radiante. Desde. a primeira vez que vira a boutique que tivera vontade de compr-la.
      - Mas voc tem certeza?
      - Absoluta. Fique com ela. Vou lhe dar uma idia do quanto vale o estoque, falar com o meu advogado, e acertaremos o preo.
      Falou com Phillip Wald, e dois dias mais tarde eles deram o preo. Astrid no hesitou.
      Pediu aos prprios advogados para prepararem os papis. A Lady J seria sua pelo preo de 85.000 dlares. Tanto ela quanto Jessica ficaram satisfeitas com o 
preo. A nica pontada que Jessica sentiu foi quando Astrid falou em trocar o nome da boutique para Lady A. O som em ingls era quase o mesmo, e no fazia faria 
diferena para as clientes. Mas no seria mais a mesma coisa. Ela seria da Astrid. O fim de uma era finalmente chegara.
      Estavam no escritrio dos fundos discutindo os planos para a venda quando Katsuko apareceu  porta com um sorriso no rosto.
      - Tem algum a procurando por voc, Jessie. Algum muito bonitinho, se me permito acrescentar.
      - ? - Enfiou a cabea pela porta e viu Geoffrey. - Ah! Al.
      Mandou que ele entrasse na sala o apresentou-o  Astrid, explicando que a Sra. Williams era a me dela.
      - Conhece a minha me?
      Astrid ficou surpresa. A me no conhecia ningum como Geoffrey.
      - Tive o prazer do conhec-la no fim de semana, na fazenda. - As sobrancelhas de Astrid ergueram-se enquanto lanava um olhar de surpresa para Jessica, e Geoffrey 
acrescentou rapidamente:
      - Eu estava l visitando amigos.
      E subitamente o rosto de Astrid falou que ela entendia por que Jessica estava planejando passar o vero ali, naquela velha casa alugada em estilo vitoriano. 
Astrid quase se perguntou se seria por esse motivo que ela estava vendendo a loja. Mas sentia como se tivesse perdido alguma pecinha da histria. Ser que Jessica 
andava guardando segredos? Olhou para Geoffrey o viu que este fitava Jessica carinhosamente. E Astrid prendeu as perguntas que estavam na ponta da lngua. Como? 
Quando? E agora? Ser que ele... ele iria... ele faria... Geoffrey interrompeu os pensamentos dela com outro sorriso incandescente.
      - Posso convidar as duas lindas senhoras para almoar?
      Chegou mesmo a abranger suavemente Katsuko com um olhar do pesar; sabia que algum precisava ficar cuidando da loja. Os modos dele eram impecveis. E Astrid 
gostava disso. Sentiu-se quase tentada a aceitar o convite, de pura curiosidade, mas no queria fazer isso com Jessie. Mas Jessica rapidamente cortou o convite pare 
o almoo.
      - Nem nos tente, Geoffrey. Estvamos discutindo negcios, a venda da loja e...
      - Ora, pelo amor de Deus, Jessica! - Astrid interrompeu os protestos conscenciosos de Jessica. - No seja boba... podemos falar de negcios mais tarde. De 
qualquer forma, tenho algumas coisas a fazer. Preciso ir  cidade - olhou pesarosa Geoffrey - mas vocs dois tratem de ter um almoo gostoso. Encontro-a de volta 
aqui na loja por volta do duas, duas e meia.
      -  melhor duas e meia, Sra. Bonner.
      Geoffrey aproveitou rapidamente a deixa. E Jessica s olhando. Gostava do jeito como ele lidava com as coisas. Estava acostumado a exercer o poder, o que era 
evidente. Aquilo a faria sentir-se segura, mas no ameaada. Agora que no sentia necessidade de que cuidassem dela, as suas atenes eram um luxo, no um plasma 
vital. Estava curtindo a diferena, e pegou-se perguntando como teria sido com o Ian, se as suas necessidades no fossem to desesperadas, se tivesse tido mais confiana 
em si mesma. Mas afastou o pensamento da cabea.
      Almoaram ali porto, num restaurante aberto na Union Street e foi uma refeio muito agradvel. Ele era louco por cavalos, pilotava o prprio avio, estava 
planejando uma viagem para a frica no inverno seguinte, e cursara Cambridge, depois do Eton. E estava evidente que estava muito impressionado com Jessie. E cada 
vez que ele sorria aquele seu sorriso encantador, ela se derretia toda.
      - Voc parece muito diferente aqui na cidade, Jessica.
      -  impressionante a diferena que faz quando penteio o cabelo. - Ambos sorriram  lembrana do seu primeiro encontro. - At mesmo uso sapatos, aqui.
      -  mesmo? Que interessante. Deixe-me dar uma espiada. - Afastou jocosamente a toalha da mesa para dar uma olhada nos sapatos dela, e viu um belssimo par 
de sapatos do camura do Gucci, cor de canela. Eram quase exactamente da mesma cor da saia de camura que estava usando, com uma blusa de seda cor do salmo. O tom 
de salmo era a cor favorita de Ian, e ela tivera que forar-se a vestir a blusa naquela manh. Ento era a preferida do Ian, e dai? No havia motivo para larg-la 
do lado. H meses que no usava a blusa, como se, por no faz-lo, estivesse de alguma forma renunciando a ele. Agora parecia uma tolice. - Aprovo os seus sapatos. 
E, a propsito, est usando uma blusa multo bonita.
      Enrubesceu ante o elogio, principalmente porque ele lhe fazia lembrar Ian. Havia algo no Geoffrey...
      - No que estava pensando?
      Tinha visto uma sombra passar rapidamente pelos olhos dela.
      - Em nada.
      - Que vergonha, contando mentiras. Algumas coisa sria lhe passou pela cabea. Coisa triste?
      Assim lhe parecera.
      - Claro que no.
      Estava encabulada porque ele tinha visto tanto. Demais. Era muito observador.
      - Nunca se casou, Jessie? Parece incrvel ter a sorte de encontrar uma mulher como voc, livre o sem compromissos. Ou ser que estou fazendo pressuposies?
      Porm desde que a conhecera que tinha vontade de saber.
      - Est fazendo a pressuposio certa. Sou livre e sem compromissos. E sim, j fui casada.
      O senso de oportunidade dele era impressionante, era como se tivesse lido os pensamentos dela.
      - Tem filhos?
      Ergueu uma sobrancelha com um ar curioso.
      - No. Nenhum.
      - ptimo.
      - ptimo? - Que coisa esquisita de se dizer. - No gosta do crianas, Geoffrey?
      - Muitssimo. Das outras pessoas. - Sorriu com naturalidade. - Na verdade, sou um to perfeitamente maravilhoso. Mas daria um pai perfeitamente terrvel
      - Por que diz isso?
      - Circulo demais. Sou egosta demais. Quando amo uma mulher, detesto compartilh-la nas coisas importantes, e se voc vai ser uma me como manda o figurino, 
tem que se dividir entre marido e rebentos. Talvez eu mesmo seja um tanto criana, mas quero aproveitar noites longas e romnticas, viagens inesperadas a Paris, 
esquiar na Sua sem trs filhotes de nariz escorrendo chorando dentro do carro... Posso lhe dar mil motivos horrivelmente egostas. Mas todos sinceros. Isso a choca?
      No pedia desculpas pelo que estava dizendo, mas estava disposto a aceitar que ela no aprovasse. H muito tempo que cessara de dar desculpas. Na verdade, 
ele tinha tomado as suas providncias para que no mais houvesse a possibilidade de um "escorrego". Tinha se resolvido, e agora no havia como voltar atrs.
      - No, no me choca. Sempre senti a mesma coisa. Na verdade, exactamente a mesma coisa.
      - Mas?
      - O que quer dizer?
      - Havia um "mas" na sua voz.
      Ele o disso muito suavemente, e ela sorriu.
      -  mesmo? No tenho certeza. Costumava ter idias muito definidas a esse respeito. Mas, no sei... mudei muito.
      - Mudar  natural, se a gente se divorcia. Mas, de repente, voc se pega desejando filhos? Imaginei que desejaria a liberdade permanente.
      - No necessariamente. E tambm no fiz nenhuma mudana de poltica grandiosa sobre filhos. S que comecei a me fazer um bocado de perguntas.
      - Para falar a verdade, Jessie - segurava-lhe a mo meigamente, enquanto falava - acho que voc seria mais feliz sem filhos. Voc parece ser muito semelhante 
a mim. Resoluta, livre; aprecia o que faz; no consigo imagin-la abandonando tudo isso por uma pessoinha chorona do fraldas.
      Ela sorriu  idia.
      - Deus.
      - Exactamente.
      Riram por um momento o tomaram um gole do vinho enquanto a segunda leva de fregueses para o almoo comeou a chegar. J estavam sentado. ali h quase duas 
horas. Era estranho estar repentinamente conversando com ele sobre filhos. Teve a sensao de que o tpico era importante para ele, e que queria livrar-se dele logo. 
E sem dvida partilhava das opinies que Jessica tinha h uma dcada.
      Ela estirou as pernas e acabou o vinho, perguntando-se se deveria voltar para a loja, o subitamente se lembrando que devia estar atrapalhando os compromissos 
dele, tambm. Mas as horas que estavam passando juntos eram to agradveis que era difcil dar-lhe um fim.
      - Vou a Paris a negcios na semana que vem, Jessica. Posso trazer-lhe alguma coisa de l?
      - Que gentileza. Paris. - Os olhos dela danavam  idia. Paris. - Deixe ver... podia me trazer..... o Louvre..... SacreCrour... o Caf Piore... a Brasserie 
Lipp..... o Champs Elyses... ah, e o Faubourg St. Honor inteiro.
      Deu uma risadinha ante a brincadeira.
      -  disso que eu gosto. Uma mulher que sabe o que quer. A propsito, por que no vem comigo?
      - Est brincando!
      - Claro que no. Ficarei fora apenas trs ou quatro dias. Voc tambm pode se afastar daqui por to pouco tempo, no pode?
      Sim, mas com um estranho completo? Sabe l Deus quem ele era.
      - Eu estava pretendendo ir para Nova York para a loja, mas agora no preciso mais e... Paris?
      No sabia o que dizer. Depois do todos aqueles cretinos que tinham rastejado  sua volta, de repente pintava um homem perfeitamente divino, e queria lev-la 
para Paris.
      - Ns no... - Parecia constrangido, mas era uma graa.
      - No precisamos partilhar o mesmo quarto. Se voc ficaria mais confortvel...
      - Geoffrey! Voc  um anjo. E pare com isso, se no acabarei indo e negligenciando todas as coisas que preciso fazer aqui. Fico muito sensibilizada por voc 
me ter convidado, mas no posso, de verdade.
      - Bem, vamos esperar para ver. Voc pode mudar de idia. 
      Puxa. Geoffrey era mesmo um espanto. Paris. Quase teve vontade de dizer sim, mas... por que no? Bolas, por que no? Paris... Deus, seria uma delcia, mas... 
que merda, por que se sentia como se estivesse enganando o Ian? Que diferena fazia agora? Estava livre. Ele nem saberia. Ela nem o via mais, mesmo. Mas... de alguma 
formas.... ele estava ali... com uma expresso de dor nos olhos, como se no quisesse que ela fosse. Tentou afastar o rosto dele do pensamento, e sorriu para Geoffrey.
      - Obrigada pela oferta.
      - Gostaria que voc viesse. Est vendo o que falei sobre gostar de viagens de improviso? Adoro esse tipo de coisa! No  muito divertido se a gente tem que 
arrastar junto uma bab e quatro capetinhas, ou deix-los em casa e se sentir culpado. Ser to  realmente muito mais simples. Tem sobrinhos ou sobrinhas? - Ela 
balanou a cabea, suavemente. - Irmos ou irms?
      - No. Eu tinha um irmo, mas morreu na guerra.
      Geoffrey pareceu intrigado, por um momento.
      - Na segunda, ou na Coria? De qualquer modo, devia ser bem mais velho.
      - No. No Vietn.
      - Claro. Mas que estupidez a minha. Que coisa horrvel. Vocs eram muito chegados?
      A presso na mo dela aumentou um pouco, como que a dar-lhe apoio. A gentileza dele agradou muito a Jessie.
      - Sim. ramos muito chegados. Fiquei muito perturbada quando ele morreu.
      Era a primeira vez que era capaz de dizer isso. Os ltimos meses a tinham libertado de mais maneiras do que ela tinha conscincia.
      - Sinto muito.
      Ela balanou a cabea e sorriu.
      - E voc, quantos irmos e irms tem?
      - Duas irms, e um irmo muito empolado. Minhas irms so loucas de pedra. Mas muito divertidas.
      - Ainda passa muito tempo na Europa?
      - Bastante. Alguns dias aqui, outros ali. Gosto muito, desse jeito. A propsito, Jessica, no est na hora de lev-la de volta  loja para seu encontro com 
Astrid?
      - Cristo! J tinha me esquecido. Tem razo!
      Olhou pesarosa para o relgio e sorriu para ele de novo. Tinham sido umas horas deliciosas.
      - Desconfio que tambm estou atrapalhando os seus compromissos.
      - , eu... - Mas o riso tomou o lugar da seriedade, e ele olhou para ela com um sorriso malicioso. - No, eu no tinha um s compromisso. Vim para c exclusivamente 
para v-la.
      Recostou-se na cadeira e riu de si mesmo, como que muito satisfeito.
      - Foi? - perguntou Jessica, espantada.
      - Sem dvida. Espero que no se importe.
      - No. S estou surpresa.
      Muito surpresa, e um pouco desconcertada. O que significava aquilo? Ele viera para v-la.... e a sugesto da viagem a Paris.... que merda. Ele ia ser igual 
a todos os outros, esperando trocar uma refeio pelo corpo dela?
      - Ah, mas a cara com que voc est, Jessica!
      - Que cara?
      Havia riso e embarao na voz dela. E se ele realmente soubesse o que ela estava pensando? Parecia fazer isso com frequncia.
      - Quer saber que cara?
      - Quero. Vamos ver se voc adivinha.
      Era melhor no fazer charme.
      - Bem, e se eu lhe disser que tenho um quarto no Huntington, voc se sentir melhor?
      - Ora! Seu! - Bateu nele com o guardanapo. - Eu no estava..
      - Estava, sim!
      - Estava, mesmo!
      Ambos riram e ele deixou uma nota de valor no prato do garom e se levantou para ajudar Jessica a vestir a jaqueta.
      - Peo desculpas pelos meus pensamentos.
      Jessica deixou pender a cabea, com amplo sorriso.
      - E deve pedir, mesmo.
      Mas ele lhe deu um abrao amistoso enquanto safam do restaurante, e foram brincando e rindo at chegarem na loja. Astrid os esperava com um sorriso descontrado, 
quando entraram. Ela ficava satisfeita em ver Jessie feliz de novo, e com um homem.
      - Vou deix-las agora com as suas reunies e seus negcios o seus seja-l-o-que-vocs-fazem. E Jessica, a que horas devo apanh-la?
      - Aqui?
      Pareceu surpresa. Era estranho ser paparicada de novo, acompanhada e cuidada, apanhada e entregue de volta. H tanto tempo que no tinha isso, que j no sabia 
como se comportar do novo. Era como voltar a usar sapatos depois de meses andando descala.
      - Prefere que v encontr-la depois do trabalho?
      - Como voc quiser.
      Olhou para ele toda feliz, e por um momento nenhum dos dois falou. Estivera prestes a oferecer-lhe o carro, mas no teve coragem. No... no o Morgan. Sentia-se 
um lixo por no oferec-Io, mas no podia.
      - Por que no lhe deu tempo de ir para casa e descansar um pouco? Posso apanhar voc l?
      Como ele j sabia que ela era um tanto arisca, os dois riram, mas ela concordou.
      - Ser ptimo.
      - Digamos s sete? Jantar s oito.
      - Jia. - E ento, subitamente, ela teve uma idia. Ele j estava quase na porta da loja, quando ela se dirigiu rapidamente para junto dele. - No conhece 
San Francisco muito bem, no ?
      - No muito. Mas desconfio que posso me virar.
      Parecia divertido com a preocupao dela.
      - Gostaria de uma excurso no final do dia?
      - Com voc?
      -  claro.
      - Que idia esplndida.
      - ptimo. Onde voc estar por volta das cinco horas?
      - Onde voc mandar.
      - Muito bem. Apanho voc diante do Hotel St. Francis s cinco. Est bem?
      - Est excelente.
      Fez-lhe uma breve continncia e desceu correndo os degraus da loja enquanto Jessica se voltava para Astrid.
      Foi difcil para ela concentrar-se no que estavam dizendo enquanto discutiam a venda da Lady J.
      - Certo, Jessie?
      - H? - Astrid exibia um largo sorriso quando ela ergueu os olhos. - Ora, merda.
      - No me diga que est se apaixonando.
      - Nem de longe. Mas ele  um homem muito simptico. No ?
      Desejava a aprovao de Astrid.
      -  o que parece, Jessie.
      Jessica ergueu os olhos para a amiga e riu feito uma colegial. Pareceu levar horas at terem resolvido tudo, embora as duas mulheres tivessem ficado satisfeitas 
com os resultados. Jessica levantou-se radiante da sua mesa, fez uma pirueta sobre o salto de um dos lindos sapatos do Gucci, e olhou para o relgio.
      - E agora, tenho que ir andando. - Pegou a bolsa, jogou um beijo para Astrid e parou feliz no vo da porta, por um momento.
      - Daqui a 15 minutos tenho que apanhar o Ian.
      Com um rpido aceno tinha sado porta afora e descido a escada... sem se dar conta do que tinha dito. Astrid sacudiu a cabea e se perguntou se algum dia ela 
se esqueceria dele. Mais do que isso, perguntava-se como andaria o Ian. Sentia falta dele. E o facto de pensar nele diminuiu o seu entusiasmo quanto ao novo amigo 
de Jessie. Esta j estava dando marcha  r com o carro para ir buscar Geoffrey.
      
      
Captulo 33
      
      
      - Estou atrasada?
      Parecia preocupada quando estacionou diante do St. Francis. Tinha encontrado um trnsito inesperadamente congestionado rumo ao centro da cidade. Mas ele parecia 
feliz e descontrado, como um homem que est contente por ver algum, no como um homem que ficou esperando.
      - Ah, faz horas que estou aqui.
      - Mentiroso.
      - Cus! Mas que desaforo chamar um homem de mentiroso!
      Mas pareceu encantado por v-la, e permitiu-se inclinar-se para ela e dar-lhe uma beijoca na face. Ela gostou do gesto amistoso. Os abraos antes que a paixo 
entrasse em jogo. Os pequenos toques, o rpido beijo na face. As coisas ficavam menos assustadoras, assim. Estavam ficando amigos. Estava comeando a gostar dele.
      - Para onde est me levando?
      - Para todo canto.
      Olhou-o com prazer enquanto subiam Nob Hill.
      - Que promessa. Bem, sei onde estamos agora, de qualquer forma. Aquele  o meu hotel.
      Ela o ignorou, e ele abriu um sorriso.
      - Aqui  Nob Hill.
      E ela apontou para ele a Grace Cathedral, o Pacific Union Club e trs dos hotis mais luxuosos da cidade. De l desceram pela California Street at o Embarcadero, 
o Ferry Building e uma rpida vista das docas. Subiram na direco da Ghirardelli Square e do Cannery, onde ela mostrou a colmeia de boutiques logo depois de terem 
passado o Cais dos Pescadores (onde ela parou e comprou para ele uma xcara bem cheia de camares frescos e um naco grande de po tpico).
      - Que excurso. Minha cara, estou fascinado.
      E ela tambm estava se divertindo  grande.
      De l, seguiram para ver os velhos jogando bocha na orla da baa, depois foram at a bacia dos iates e o St. Francis Yacht Club. A seguir, deram um passeio 
tranquilo por quadras e mais quadras de manses elaboradas. Depois disso refugiaram-se no Golden Gate Park. E o clculo de tempo dela foi perfeito. Era quase hora 
do crepsculo, e a luz nas flores e relvados era dourada e rosa e muito linda. Era a hora favorita do dia, para Jessica.
      Passaram por canteiros interminveis, por caminhos curvos, por pequenas quedas d'gua , rodearam um pequeno lago, at que finalmente chegaram ao jardim de 
ch japons.
      - Jessica, a sua excurso  extraordinria.
      - s ordens, senhor.
      Fez uma curvatura formal para ele, que envolveu seus ombros num rpido abrao. Tinha sido um lindo dia, e ela estava comeando a sentir como se realmente o 
conhecesse.
      Gostava das reaces dele, do seu modo de pensar, do seu senso de humor, do jeito meigo com que parecia preocupar-se com o que ela sentia. E parecia-se tanto 
com ela. Tinha o mesmo tipo do jeito livre e descuidado, o mesmo anseio de independncia. Parecia gostar do seu trabalho e certamente no parecia estar em dificuldades 
financeiras. Parecia o companheiro perfeito. Por algum tempo, ao menos. E era bonzinho para ela. Tinha aprendido a ser grata por isso, sem exigir demais dele.
      - O que voc mais gosta de fazer na vida, Jessica?
      Estavam tomando ch verde e comendo pequenos biscoitos japoneses no jardim de ch.
      - Mais do que tudo? Pintar, acho.
      - Verdade? - Pareceu surpreso. - E pinta bem? Uma pergunta idiota, mas a gente sempre se sente forado a faz-la, embora seja intil. Os que pintam bem insistem 
em que so pssimos, e os pintam mal,  claro, dizem que so os melhores.
      - E agora, o que digo? - Ambos riram e ela partilhou o ltimo biscoito com ele. - No sei se pinto bem ou no, s sei que adoro pintar.
      - Que tipo de coisas voc pinta?
      - Depende. Gente. Paisagem. Qualquer coisa. Trabalho com aquarela e tinta a leo.
      - Ter que me mostrar, qualquer dia desses.
      Mas parecia indulgente, e no como se a estivesse levando muito a srio. Tinha um jeito paternal e apaziguador, s vezes, que fazia com que ela se sentisse 
uma garotinha. Era estranho que, agora que ela se acostumara a ser adulta, aparecesse algum que a deixaria continuar a agir como criana. Mas no tinha certeza 
se ainda queria ser criana.
      Quando o jardim de ch fechou, voltaram a passos lentos para o carro. E Geoffrey pareceu v-lo pela primeira vez.
      - Sabe, Jessica,  mesmo uma beleza. Hoje em dia eles so quase artigos de coleccionador. Onde o arranjou?
      - No estou certa se se deve admitir esse tipo de coisa, mas foi um presente.
      Parecia orgulhosa enquanto falava.
      - Santo Deus, e que belo presente.
      Ela balanou a cabea, calada, e ele lhe lanou um olhar sem fazer a pergunta. Mas fosse quem fosse que lhe tivesse dado o carro, ele sabia que era algum 
importante na vida dela, e provavelmente o marido. Jessica no era do tipo de mulher de aceitar presentes de valor de qualquer um. Isso ele j sabia a seu respeito. 
Era uma mulher de raa, de classe considervel.
      - J voou alguma vez? Quero dizer, voc mesma pilotando? - Ela riu ante a idia, e sacudiu a cabea. - Quer experimentar?
      - Est falando a srio?
      - Por que no? Podemos voar no meu avio, qualquer hora dessas. No  difcil pilotar. Voc pode aprender brincando.
      - Que idia gozada.
      Ele estava cheio de idias gozadas, mas Jessie gostava delas. E gostava dele.
      Partilharam uma noite maravilhosa. A comida no L'Etoile estava soberba, o piano no bar suave, e Geoffrey era uma companhia encantadora. Dividiram um chateaubriand 
com trufas e barnaise, aspargos brancos, palmitos com salada de endivida num delicado molho de mostarda, e uma garrafa de vinho Mouton-Rothschild, 1952, "um ano 
muito bom", assegurou-lhe ele no seu jeito ingls conciso, mas aquecido por um sorriso produzido apenas para ela. Sempre conseguia criar uma atmosfera de intimidade 
sem faz-la sentir-se pouco  vontade.
      E depois do jantar foram danar no Alexis. Foi uma noite bem diferente daquela que passara ali com o parceiro-surpresa que Astrid arranjara para ela. Geoffrey 
danava que era uma beleza. Foi uma noite completamente diferente de qualquer uma que tivesse passado h anos. Havia nela luxo e romance e excitao. Detestou ter 
que ir para casa e v-la terminar. Ambos detestaram.
      Foram at a casa dela em silncio, e ele a beijou meigamente  porta de entrada. Era a primeira vez que a beijava de verdade, e o beijo no estourou nenhum 
foguete na sua cabea, mas puxou cordes pelas suas coxas acima. Geoffrey era um homem totalmente magntico. Afastou-se dela lentamente, com um sorriso mnimo repuxando-lhe 
um dos cantos da boca.
      - Voc  uma mulher extica, Jessica.
      - Quer entrar e tomar qualquer coisa?
      No tinha certeza se queria que ele acoitasse, e o modo como fez o convite o revelava. Quase esperava que ele recusasse. No queria... ainda no. Mas ele era 
to atraente, e fazia tanto tempo.
      - Tem certeza de que no est cansada demais?  muito tarde, mocinha.
      Ele parecia to meigo, to cheio de considerao, to parecido com... com Geoffrey. Forou os seus pensamentos a voltarem par. o presente, e sorriu fitando-lhe 
os olhos.
      - No estou cansada demais.
      Mas enrijeceu um pouco, e ele o pressentiu. Sorriu para as costas dela enquanto a moa abria a porta com a sua chave. No tinha nada a temer da parte dele. 
Queria muito mais do que ela podia dar-lhe numa noite. No ia forar a barra. J sabia o que queria, e o que queria era para valer.
      Ela abriu a porta e acendeu luzes, e ele acendeu as velas enquanto ela servia conhaque em dois belos clices apropriados.
      - Serve conhaque?
      - Perfeito. E a vista tambm.  uma casa e tanto. - Mas no estava surpreso. Tinha esperado alguma coisa no gnero. - E que bela mulher voc ... gosto... 
classe... elegncia... beleza... inteligncia... uma mulher de mil virtudes.
      - E convencida, se voc no parar agora. - Passou-lhe o clice de conhaque e sentou-se na sua cadeira preferida. -  uma linda vista, daqui.
      - . Vou procurar uma coisa parecida, daqui a algumas semanas.
      - Vai mesmo? - No pode resistir e deu uma risada. - Ou tambm inventou aquela histria de se mudar para San Francisco?
      Ele deu um sorriso juvenil.
      - No, isso era verdade.  muito difcil encontrar casas como esta?
      - Est querendo comprar?
      Tinha suposto que iria alugar.
      - Depende.
      Olhou-a nos olhos, depois fitou o copo de conhaque enquanto ela o observava.
      - Quem sabe alugo esta casa para voc durante o vero.
      Ela estava brincando, e ele ergueu uma sobrancelha.
      - Est falando a srio?
      - No. - Os olhos dela ficaram tristes enquanto fitava e vela, e falou: - Voc no seria feliz aqui, Geoffrey.
      E ela no o queria na casa "deles". Aquilo a deixaria constrangida.
      - Voc  feliz aqui Jessica?
      - No penso na coisa desse jeito. - Voltou a fitar os olhos dele, que ficou surpreso ante a dor que viu ali  espreita. F-la subitamente parecer anos mais 
velha. - Para mim agora  somente uma casa. Um telhado, um amontoado de cmodos, um endereo. O rosto j se foi.
      - Ento devia se mudar daqui. Quem sabe encontraremos... eu encontrarei..... um lugar maior. Voc pensaria em vender este?
      - No, apenas em alugar. No disponho dele para vender.
      - Sei. - Tomou Outro gole do conhaque e depois sorriu para ela de novo. - Est na hora de eu ir embora, Jessica, ou voc vai ficar terrivelmente cansada amanh. 
Tem compromisso para o caf da manha?
      - No costumo ter - respondeu, rindo da idia.
      - ptimo. Ento por que no tomamos caf num lugar divertido qualquer antes de eu pegar o avio para Los Angeles? Posso vir busc-la de txi.
      Adorou a idia do tomar caf com ele. Teria preferido preparar a refeio para ele, e sentarem juntos e nus  mesa da cozinha, ou misturar morangos e creme 
fresco e comer na cama. Mas quase se perguntava se a gente fazia aquele tipo de coisa com o Geoffrey. Ele parecia que decerto usaria robe e pijamas do seda. Mas 
havia nele tambm uma sensualidade patente.
      - O que voc como no caf da manh?
      Era uma pergunta maluca, mas estava com vontade de saber. De repente aquilo tinha importncia para ela. Tudo tinha.
      - O que como? - Pareceu achar graa. - Geralmente alguma coisa leve. Ovos poch, torrada de centeio, ch.
      - S isso? Nem mesmo bacon? Nem waffles? Nem rabanadas? Nem mamo? S ovos poch e torrada do po de centeio? Puxa!
      Ele desatou a rir com a reaco dela e comeou a curtir o jogo.
      - E o que voc como de manh que  to mais extico, amor?
      - Manteiga de amendoim e gelia de abric com bolinhos ingleses. Ou requeijo e gelia do goiaba com rosquinhas. Suco de laranja, bacon, omeletes, manteiga 
de ma, bananas fritas...
      Soltou a imaginao.
      - Todos os dias?
      -  claro.
      Tentava ficar sria, mas estava difcil.
      - No acredito.
      - Bem, tem razo... sobre a maior parte. Mas a parte da manteiga de amendoim e do requeijo  verdade. Gosta de manteiga do amendoim?
      - No. Tem gosto de cimente molhado.
      - J comeu muito disso?
      Olhava para ele com interesse.
      - Do qu?
      - Cimente molhado.
      - Sem dvida.  uma delcia com torradinhas finas. Agora, falando srio, quer vir tomar caf comigo amanh? Estou certo que poderemos conseguir manteiga de 
amendoim com croissants. Serve? 
      - Perfeito. - Ela estava comeando a ser a Jessie, agora, e isso o divertia. Gostava de tudo nela. A moa tirou os sapatos o puxou as pernas para cima da cadeira. 
- Geoffrey - tentou paro. cor solene - voc l histria em quadrinhos?
      - Claro. Especialmente o Super-Homem.
      - O qu? No l o Batman?
      - Claro que sim, mas o Super-Homem sempre foi o meu preferido. - Parou de brincar por um momento e fitou o seu copo. - Jessica... gosto de voc. Gosto muito 
de voc.
      Surpreendeu-a com a franqueza das suas palavras, e ela ficou emocionada com o modo como as disse. O seu estilo era uma estranha mistura de formalismo e calor. 
No imaginara que tal combinao fosse possvel, mas aparentemente era.
      - Tambm gosto de voc.
      Estavam sentados um em frente do outro, e ele no fez nenhum gesto para se aproximar dela. No queria apress-la. Era uma mulher de quem algum se acercava 
aos poucos, depois do muito pensar.
      - Voc no falou muito a respeito, na verdade no falou nada, mas tenho a sensao de que voc sofreu muito. Muitssimo, at.
      - O que o faz pensar assim?
      - As coisas que voc no diz. As vezes em que recua. A parede atrs da qual se esconde, de vez em quando. No a magoarei, Jessica. Prometo que me esforarei 
muito para no faz-lo.
      Ela ficou calada, olhando para ele e se perguntando quantas vezes as promessas viravam mentiras. Mas queria que ele provaste que estava errada, e ele queria 
tentar.
      
      
Captulo 34
      
      
      - Bem, e que tal foi a sua noite?
      Astrid j estava na loja Quando Jessie chegou l, no dia seguinte. Jessie no estava mais chegando cedo. No precisava. E nem queria.
      - Maravilhosa. - Abriu um sorriso, mais encantada ainda com o caf da manh que tinham tomado juntos no Top of the Mark, mas no estava disposta a coment-lo 
com Astrid. - Muito, muito agradvel.
      Parecia reservada e muito satisfeita consigo mesma.
      - Eu diria que ele tambm  "muito, muito agradvel".
      - Calma Mame. No faa presso.
      As duas mulheres riram, e Astrid levantou a mo inocentemente, protestando.
      - E quem precisa fazer presso? Ele mesmo faz a sua prpria propaganda. Est apaixonada por ele, Jessie?
      Astrid parecia sria, e Jessica tambm.
      - Sinceramente? No. Mas gosto dele. H muito tempo que no conheo um homem to simptico.
      - Ento, quem sabe o resto vir depois. D-lhe uma chance.
      Jessica meneou a cabea e examinou a correspondncia que lhe pertencia. No mais gostava de dividir a loja. Agora era diferente. Era como prolongar o fim. 
Queria dizer adeus  Lady J e sair da cidade. Isso era parecido com mais um divrcio. E havia outra carta do Ian junto com o resto da sua correspondncia. Ela a 
pegou e a deixou separada. Astrid reparou, mas ficou calada. Esta era a primeira vez que Jessie no rasgava uma das cartas dele. Ela notou o olhar de Astrid e deu 
de ombros enquanto se servia de mais uma xcara de caf.
      - Sabe, fico pensando que talvez devesse lhe escrever um bilhete agradecendo o carro. Parece o mnimo que eu posso fazer. A sua me e eu discutimos o assunto 
no fim de semana passado.
      - O que foi que ela falou?
      - Nada de especial.
      O que significava que Jessie no estava disposta a contar.
      No fim das contas, acabou jogando fora a carta que ele enviara.


      Reuniram-se com os advogados nas duas tardes subsequentes e tudo ficou acertado. No sbado de manh, Jessie foi a trs corretoras imobilirias e colocou a 
sua casa no mercado de aluguel por temporada. Mas queria que os inquilinos fossem escolhidos a dedo; ia deixar todos os seus mveis na casa. E o estdio de Ian permaneceria 
trancado. Achava que devia isso a ele.
      Era quase meia-noite de domingo quando ela se sentou para lhe escrever um bilhete sobre o carro. No final, rabiscou apenas cinco ou seis linhas, dizendo-lhe 
o quanto ficara satisfeita, como era lindo, e que ele no precisava ter feito aquilo. Queria cancelar a dvida entre eles. Ele no lhe devia nada. Mas ela levou 
quase quatro horas para compor o bilhetinho.
      Dali a cinco dias a casa j fora alugada para o perodo de 15 de julho at 1.0 de setembro, o ela estava quase pronta para sair da cidade. Esperava ir embora 
dentro de uma semana. Geoffrey queria voltar  cidade para v-la de novo, e at mesmo a convidara para passar um fim de semana em Los Angeles, mas ela estava ocupada 
demais. Tinha encontrado duas casas e um apartamento que talvez agradassem a ele, mas estava envolvida demais nos prprios afazeres. No parecia sobrar lugar para 
Geoffrey, naquele momento, e ela queria que ele ficasse afastado at ela ter fechado a casa, cedido a loja, enterrado o passado. Queria ir para ele "limpa" e nova, 
se ele lhe desse tempo. Tinha que faz-lo desse jeito. Ficar sozinha para cortar as ltimas amarras por si mesma. Assim era mais difcil mas ele ainda no se encaixava 
na vida dela. V-lo-ia no interior, depois que estivesse instalada.
      Raramente ia  loja agora, excepto para responder s perguntas de Astrid. Mas agora Astrid sabia bastante bem como tudo funcionava, e Katsuko era de grande 
ajuda. Ia continuar trabalhando na Lady J. E Jessie no tinha mais vontade de estar l. Os operrios estavam ocupados trocando o cartaz, o cartes estavam sendo 
enviados para todos os seus fregueses anunciando a pequena troca do nome. Aquilo ainda doa, mas Jessica disso a si mesma que todas as mudanas doam, talvez especialmente 
aquelas que eram para melhor. No ia se arrepender depois de ter deixado a cidade. Mas, ento, o que iria fazer? Est bem, pintar... mas por quanto tempo? No estava 
pronta para se tornar uma outra Vov Moses. Mas algo surgiria... algo melhor. Geoffrey? Quem sabe ele era a resposta.
      Jessica passou na loja pela ltima vez numa Sexta-feira  tarde. Partiria dali a dois dias, no domingo. Tinha guardado todos os pequenos tesouros que no queria 
partilhar com os seus inquilinos. E fotos do Ian. Tinha desenterrado tanta coisa, enquanto fazia as malas. Tudo agora doa. Parecia que cada momento estava pleno 
do lembretes dolorosos do passado.
      Encostou o carro atrs do de Astrid, na entrada, e entrou discretamente na loja. Ela j estava diferente. Astrid acrescentara algumas coisas, e um lindo quadro 
no que agora era o seu escritrio. Agora era tudo de Astrid. E o dinheiro da venda era todo de Jessie. Era engraado como isso agora pouco representava para ela. 
H nove meses, sete meses, seis... ela teria implorado por um dcimo daquele dinheiro... e agora... ele no tinha importncia. As contas estavam pagas, Ian tinha 
ido embora, e do que ela precisava? De nada. No sabia o que fazer com o dinheiro, e nem estava se importando. Ainda no se apercebera de que tinha ganho muito dinheiro 
vendendo a loja. Mais tarde ficaria satisfeita, mas ainda no. E ainda sentia como se tivesse vendido o seu nico filho. Para uma boa amiga, mas mesmo assim... havia 
abandonado a nica coisa que havia criado e ajudado a crescer.
      - Correspondncia para a senhora, madame.
      Astrid entregou-lhe as cartas com um sorriso. Parecia feliz, actualmente, e at mesmo mais jovem do que quando Jessie a conhecera. Era difcil acreditar que 
tinha feito anos recentemente, e que chegara ao 43 aniversrio. E em julho Jessie faria 32 anos. O tempo estava passando. Rapidamente.
      - Obrigada. - Jessica enfiou as cartas no bolso. Daria uma olhada nelas mais tarde. - Bem, estou com tudo arrumado e pronta para viajar.
      - E j est com saudades.
      Astrid adivinhara. Levou-a para almoar e tomaram vinho branco demais, mas Jessie se sentiu melhor. Aquilo ajudou. Foi para casa sentindo-se bem melhor.
      Abriu as janelas e sentou-se numa nesguinha de sol no cho, olhando ao seu redor para a sala em que tantas vezes se havia sentido com o Ian. Podia v-lo esparramado 
no sof, ouvindo-a falar da loja, ou contando alguma coisa brilhante que tinha dito num novo captulo. Era isso o que estava faltando... aquele entusiasmo de partilhar 
as coisas que gostavam de fazer; de rir o serem duas crianas num dia de sol quente, ou numa tardo fria de inverno enquanto ele acendia o fogo. Um homem como Geoffrey 
a mimaria, a levaria aos melhores hotis o restaurantes do mundo todo, mas no tiraria uma farpa do seu calcanhar ou coaria as suas costas justo onde estava coando... 
no arrotaria tomando cerveja enquanto assistia a um filme de terror na cama, ou pareceria um garotinho quando acordava de manh. Seria muito atraente, e cheiraria 
 colnia que usara naquele jantar.... e no tinha estado presente quando Jake morrera... ou os pais dela... mas Ian tinha. No se podia substituir isso. Talvez 
nem se devesse tentar.
      Ficou divagando enquanto fitava a baia, e depois se lembrou das cartas que Astrid lhe entregara antes do almoo. Voltou a elas agora, remexendo no bolso da 
jaqueta... esperava... no esperava... e esperava... o l estava ela... uma carta do Ian. Seus olhos correram cleres pelas linhas. Ele recebera o bilhete dela sobre 
o carro.
      
 ...escrevo estas linhas agora para mim mesmo, perguntando-me apenas por um momento se voc as l. E ento, de repente, algumas linhas nervosas e ligeiras da sua 
parte, mas voc ficou com o carro.  s o que importava. Queria que voc ficasse com aquele carro mais do que pode imaginar, Jess. Obrigado por ficar com ele.
 Imagino que no abra as minhas cartas... conheo voc. Um rasgo, a lata de lixo e pronto.
      
      Ela sorriu da imagem. E,  claro, ele estava certo.
      
 Mas pareo ter necessidade de escrev-las, do qualquer forma, como assobiar no escuro ou conversar com os meus botes. Com quem voc conversa agora, Jessie? Quem 
segura a sua mo? Quem a faz rir? Ou a abraa quando chora? Voc fica um horror quando chora, e Deus, como sinto falta disso Imagino-a agora, dirigindo o novo Morgan, 
e aquele bilhete do outro dia... parecia algo que voc escreveria ao melhor amigo da sua av. "Obrigada, caro Sr. Clarke, pela graa de carro. Precisava de um daquela 
cor para combinar com a minha melhor saia e minhas luvas o chapus predilecto". Querida, eu a amo. S espero que voc seja mais feliz agora. Seja com quem, onde. 
Voc tem o direito. E sei que precisar de algum. Ou ser que tem o direito? Meu corao di tanto s de pensar nisso, no entanto no consigo me batendo os ps e 
criando caso. Como teria coragem de dizer alguma coisa, depois do tudo isso? Nada, excepto boa sorte... e eu a amo.
 Me deixa triste o facto de que, agora que o livro vendeu e dei uma reformulada na minha vida, voc no esteja para curtir as mudanas. Eu cresci, aqui dentro.  
uma escola dura onde se aprender, mas aprendi muito a seu respeito e a meu prprio. No basta apenas ganhar dinheiro, Jessie. E estou me lixando para quem pague 
as contas. Quero pag-las, mas no creio que v ficar mais com lceras cada vez que voc assinar um cheque. A vida  to mais plena e simples do que isso, ou pode 
ser. De uma maneira estranha a minha vida  plena, agora, no entanto to vazia sem voc. Jessie querida e impossvel, ainda a amo. V embora, saia dos meus pensamentos, 
me deixe em paz, ou volte. Ah, Deus, como eu gostaria que voc fizesse isso. Mas no o far. Eu compreendo. No estou zangado. S me pergunto se teria sido diferente 
se eu no me tivesse afastado naquele dia, deixando-a ali com o telefone na mo. Ainda vejo o seu rosto naquele dia... mas no, no  tudo por causa daquele dia 
nojento. Estamos ambos pagando por pecados muito, muito antigos, agora... porque ainda acredito que ambos estamos sofrendo essa perda. Ou voc est livre dela, agora? 
Talvez j nem se importo mais. Nem posso lhe dizer a sensao de vazio que isto me d, mas suponho que  o que acontecer, com o tempo. Nenhum de ns dois estar 
se importando a mnima. No  uma coisa que eu espere com ansiedade. Um bocado de bons anos "do p para o p". Perdidos. E eu ainda a vejo e vejo e vejo. Toco os 
seus cabelos e sorrio para os seus olhos. Quem sabe voc possa senti-lo, agora... meu sorriso nos seus olhos enquanto voc segue o seu caminho. V em paz, Jessie 
querida, e cuidado com os lagartos e as formigas. Eles no a mordero, prometo, mas os vizinhos podem chamar a polida quando voc gritar. Deixe o laqu e mo, e 
cuido-se. Sempre, seu Ian.
      
      Riu por entre os lgrima. enquanto lia a carta... lagartos e formigas. As duas coisas de que tinha mais medo. Alm da solido. Mas j vivera com ela, agora, 
portanto quem sabe at se acostumaria com lagartos e formigas... mas com a vida sem Ian? Seria to mais difcil. No se dera conta do quanto sentia falta da voz 
dele at ler a carta. Estava l. As suas palavras, seu tom de voz, sua risada, sua mo desmanchando o cabelo dela enquanto falava. O olhar que lhe lanava e que 
fazia com que ela se sentisse segura. 
      Sem pensar, ps-se de p e foi at a escrivaninha. Ali ainda havia algum papel. Passou a mo na caneta e escreveu para ele, contando-lhe que havia vendido 
a loja, e falando da casa perto da estncia da Tia Bethanie. Descreveu a casa at os mnimos detalhes, como ele lhe ensinara a fazer quando ela pensara que queria 
escrever. No tinha jeito para escrever, mas aprendera a fazer descries cuidadosas, para que quem as Jessie pudesse ver tudo o que ela via. Queria que ele visse 
a casa fanada em estilo vitoriano em todo o seu esplendor possvel, agora aninhada no meio das ervas daninhas. Ia limp-la e deix-la bonita. Aquilo a manteria ocupada 
por algum tempo. Deu-lhe o endereo e mencionou que tinha alugado a casa, mas para um casal simptico sem filhos ou bichos de estimao. Eles cuidariam bem dela, 
e fez questo de dizer a ele que o estdio estava trancado. Os arquivos dele estavam seguros. E ela tentaria se manter longe dos lagartos e das formigas. Tudo fluiu 
para a carta. Era como escrever para um melhor amigo que no se via h muito. Ele sempre fora isso. Colou um selo no envelope e foi at a caixa colectora que havia 
na esquina, depositando-a ali. Foi ento que reparou em Astrid, que ia passando a caminho de casa. Acenou, e Astrid parou o carro na esquina.
      - O que vai fazer logo mais, Jessie? Quer jantar comigo?
      - Quer dizer que no est ocupada, para variar, Sra. Bonner? Que espanto.
      Jessica riu, sentindo-se feliz como h muito no se sentia. Estava ansiosa para partir. Durante as ltimas semanas, quase se perguntara se tinha feito a coisa 
errada. Era tudo to brutal, to definitivo. Mas agora sabia que tinha agido certo, e estava contente. Sentia-se aliviada, o como se tivesse mantido contacto com 
a sua alma. Ian ainda vivia ali. Na sua alma. Mesmo agora. Jessica tentou afastar os pensamentos do Ian enquanto sorria para Astrid.
      - No, sabichona, no estou ocupada. E estou louca de desejo de comer espaguete. E as malas?
      - Tudo pronto. O espaguete est ptimo.
      Jantaram no barulho e caos do Vanessi's, e depois foram para um caf de calada, tomar cappuccino. Viram os turistas comeando a aparecer, a primeira onda 
do vero, e o ar estava surpreendentemente clido.
      - Bem, querida, como se sente? Assustada, infeliz ou contente?
      - Quanto a ir-me embora? As trs coisas.  um pouco como sair de casa para sempre...
      Como deixar o Ian.... de novo. Enquanto empacotava os sem tesouros particulares e miscelneas, tantos sentimentos tinham voltado  tona. Sentimentos que agora 
ficariam melhor enterrados. ela no desarrumaria aquelas caixas de novo, e tinha separado as sus coisas das do Ian. Agora seria muito fcil, se algum dia vendes. 
sem a casa. Os seus bens terrenos no estavam mais numa pilha s.
      - Bem, aquela sua casa ir mant-la ocupada. Mame falou que est uma baguna.
      - E est. Mas no por muito tempo.
      Jessica parecia orgulhosa enquanto dizia as palavras. J adorava o lugar. Era como um novo amigo.
      - Vou tentar dar um pulo l para v-la antes de irmos viajar, em julho.
      - Eu gostaria muito.
      Jessica sorriu, sentindo-se leve e feliz. Um peso que no conseguia identificar direito tinha sido retirado dos seus ombros. Sentira a sua ausncia a noite 
toda. Era como no sentir mais uma dor de dentes ou uma cibra com a, qual vivera durante meses, sem realmente ter conscincia dela, mas sendo subtilmente prejudicada 
pela sua presena.
      - Jessica, voc parece feliz, agora. Sabe, eu me senti terrivelmente culpada durante algum tempo, por ter tirado a loja de voc. Tinha medo que voc me odiasse 
por isso.
      Astrid parecia jovem e insegura, enquanto olhava no rosto de Jessie. Mas esta apenas sorriu e sacudiu a cabeleira loura.
      - No. No precisa se preocupar com isso. - Deu uma palmadinha na mo da amiga. - Voc no a tirou de mim, Astrid. Eu a vendi para voc. Precisava faz-lo. 
Para voc, ou para outra pessoa qualquer, mesmo que tenha dodo um pouco. E melhor que fosse para voc Estou feliz que agora seja sua. J tinha passado a minha fase, 
acho. Mudei multo.
      Astrid concordou.
      Sei que mudou. Espero que tudo d certo.
      - , eu tambm.
      O sorriso dela era quase pesaroso, e as duas mulheres terminaram o seu caf. Eram como dois soldados que passaram por uma guerra juntos e agora no tm mais 
nada para conversar excepto dar palpites ocasionais sobre a paz. Ser que daria certo? Jessie esperava que sim. Astrid se questionava. As duas tinham percorrido 
iam longo caminho, nos ltimos meses. E Astrid sabia que agora tinha o que queria. Jessica ainda no tinha a mesma certeza.
      - Alguma notcia de Geoffrey esta semana, Jessie?
      - Sim. Ligou e disso que ia me ver no interior na semana que vem.
      Fora sensvel o bastante para saber que ela precisava ficar sozinha na cidade.
      - Isso lhe far bem.
      Jessica fez que sim com a cabea, mas no falou mais nada.
      
      
      A campainha da porta tocou s nove e quinze da manh seguinte. As suas malas j estavam prontas e Jessica estava lavando a loua do caf pela ltima vez, de 
olho tambm na paisagem. Queria lembrar de tudo, ficar l mais aquela hora, e depois ir embora. Rapidamente. Sentia-se quase como se sentira na manh em que fora 
para a universidade, o passado empacotado com naftalina e uma nova vida  sua frente. Planejava voltar, pelo menos  o que dizia, mas ser que voltaria? No tinha 
muita certeza. Tinha a estranha sensao de que estava partindo por mais tempo do que um vero. Quem sabe para sempre.
      A campainha tocou de novo e ela secou as mos nos jeans e correu para a porta da frente, afastando os cabelos do rosto, dota cala, a camisa abotoada, mas 
no o bastante. Estava precisamente como quando Ian a adorava mais: pura Jessie.
      - Quem ?
      Ficou parada junto  porta da frente com um sorrizinho no rosto. Sabia que era provavelmente Astrid, ou Katsuko. Um ltimo adeus. Mas desta feita ela ia rir, 
no chorar como tinham todas chorado na loja.
      -  o Inspector Houghton.
      Tudo dentro dela virou pedra. Com mos trmulas, destranco a porta e abriu-a. O alto astral tinha subitamente desaparecido, e pela primeira vez em meses havia 
terror nos seus olhos de novo. Era espantoso como tudo podia voltar de roldo. Meses de reconstruir lentamente os alicerces, e no espao de tempo que se levava para 
tocar uma campainha, a vida dela estava aos pedaos de novo. Ou pelo menos era como se sentia.
      - Sim?
      Os olhos dela pareciam de ardsia verde-acinzentada, e o seu rosto estava feito uma mscara.
      - Bom dia. Eu... bem.... esta no  exactamente uma visita oficial. Encontrei as calas do seu marido no outro dia na sala dos pertences e pensei em vir traz-las 
e ver como est passando.
      - Sei. Obrigada.
      Entregou-lhe uma sacola de papel pardo com um sorriso seu graa. Jessie no retribuiu o sorriso.
      - Vai viajar?
      Os olhos dele dirigiram-se para as malas e caixas no hall, ela olhou por cima do ombro, e depois rapidamente de novo para ele. Filho da me. Que direito tinha 
de estar ali agora? Jessie balanou a cabea em resposta  pergunta dele, e baixou os olhos para os ps. Era uma boa hora para acabar com a guerra, para estender 
a mo num gesto de paz, para ir embora suavemente. no conseguia. Ele lhe dava vontade de gritar de novo, de soc-lo de arranhar-lhe o rosto. No suportava nem v-lo. 
O terror e o dio a inundaram como um macaru, e ela teve o sbito desejo escorregar de parede abaixo e se amontoar no chio e chorar. Sentia-se como se tivesse sido 
carregada num furado e depois lanada de lado pelas prprias emoes. Ergueu os olhos de repente para ele, com a dor nua estampada nos olhos.
      - Por que veio aqui hoje?
      No rosto dela havia o ar de uma criana que no compreendo, e ele desviou os olhos para as mos.
      - Pensei que ia querer as calas do seu... - A sua voz foi sumindo e seu rosto endureceu. Ter vindo v-la fora uma bobagem, agora estava certo disso. Mas h 
dias que estavas com aquela vontade. De v-la. - As calas do seu marido estavam largadas l na sala dos pertences. Pensei...
      - Por qu? Por que pensou? Ser que ele vir para casa e precisar delas num futuro imediato? Ou no esto mais usando calas de brim na priso? No estou 
sabendo direito. Faz algum tempo que no vou l.
      Lamentou instantaneamente ter dito as palavras. Os olhos dele demonstraram interesse e ficaram ligeiramente mais clidos.
      - ?
      - Tenho estado ocupada.
      Desviou os olhos.
      - Problemas?
      Urubu. E ento ela fitou-lhe os olhos de novo.
      - E o senhor no est se lixando?
      No conseguia desfitar os olhos dele. Tinha vontade de arranc-los fora.
      - Talvez no esteja me lixando. Talvez... desculpe. Sabe, sempre senti pena da senhora, durante todo o caso. Parecia acreditar tanto nele. Mas estava errada. 
Sabe disso agora, no ?
      Ela odiava o tom de voz dele.
      - No. Eu no estava errada.
      - O jri disse que estava.
      Parecia to presunoso, o filho da me, to certo do "sistema". to certo de tudo, inclusive da culpa do Ian. Tinha vontade de bater nele. O mpeto agora estava 
quase incontrolvel.
      - O jri no fez com que eu estivesse errada, Inspector Houghton.
      Agarrou com fora o saco de papel pardo que ele lhe tinha dado e cerrou os punhos.
      - Est... est livre agora, Sra. Clarke?
      - Isso quer dizer, ser que deixei o meu marido? - Ele fez que sim com a cabea e tirou um mao de cigarros do bolso do casaco. - Por qu?
      - Curiosidade.
      - Foi para isso que voltou? Por curiosidade? Para ver se eu tinha deixado o meu marido? Isso o faria feliz? - Ela agora estava fervendo. - E por que no levou 
isto para a loja?
      Estendeu o saco com as cala de Ian.
      - Levei. Estive l ontem. Disseram-me que no trabalha mais l. Verdade?
      Ela balanou a cabea.
      - . E agora?
      Fitou-o nos olhos de novo e de repente quase um ano de medo desapareceu. Ele poderia tentar fazer qualquer coisa que quisesse e ela o mataria. Com prazer. 
Era um alvio defront-lo. Olhou para ele de novo e seis meses de dor passaram dos olhos dela para os dele. Foi uma viso nua a que o inspector enxergou, de um ser 
humano profundamente marcado e ele deu uma longa tragada no cigarro e desviou o olhar.
      - A que horas vai viajar? Tem tempo para almoar?
      Ah, Jesus. Era de se rir, s que ainda lhe dava vontade de chorar.
      Sacudiu a cabea devagar de olhos baixos, e ento lentamente ergueu o olhar de novo enquanto as lgrimas enchiam-lhes os olhos e escorriam-lhe pelas faces. 
Agora estava tudo acabado. O restinho de raiva e do horror, do terror e da dor escorriam lentamente pelo rosto dela; o julgamento, o jri, o veredicto, a priso 
e o Inspector Houghton, tudo se fundiu em lgrimas silenciosas, que se derramavam lentamente pelo seu rosto. Ele no suportava olhar para ela. Era muito pior do 
que uma bofetada na cara. Lamentava ter vindo. Lamentava muito.
      Ela inspirou fundo, mas no fez nada quanto s lgrimas. Precisava delas para lavar toda a sujeira.
      - Estou saindo desta cidade para me afastar de um pesadelo, Inspector. No para comemor-lo. Por que haveramos de que almoar juntos? Para falar dos velhos 
tempos? Para ficar rememorando o julgamento? Para falar do meu marido? Para...
      Um soluo ficou preso na sua garganta e ela se apoiou contra a parede de olhos fechados, ainda segurando o saco de papel. Tudo vinha de novo de roldo. Ele 
trouxera tudo de volta num saco de papel pardo. Levou a mo  testa, apertou com fora os olhos, inspirou lentamente e depois abriu os olhos de novo. Ele tinha ido 
embora. Ouviu a porta do carro dele bater naquele exacto momento, e um momento mais tarde o sed verde se afastou. O Inspector Houghton no olhou para trs. Ela 
fechou lentamente, a porta da frente e sentou-se na sala de visitas.
      As calas que ela tirou do saco tinham buracos grandes cotados cuidadosamente nas virilhas, onde o laboratrio da polcia tinha feito os testes de esperma. 
Enquanto olhava para elas, lembrou-se da primeira vez em que vira Ian na cadeia, com as calas de pijama brancas. As calas eram um grande presente de despedida.
      Porm agora ela sabia mais uma vez por que estava indo embora da cidade. E estava contente. Enquanto continuasse ali, tudo permaneceria com ela. De um jeito 
ou de outro. Sempre ficaria imaginando se Houghton iria aparecer de novo. Quando. Como. Onde. Agora ele tinha desaparecido. Para sempre. Assim como o pesadelo. E 
o julgamento. A coisa toda. At mesmo o Ian. Mas ela tivera que abandonar tudo. No havia mais como separar o joio do trigo. Era tudo ruim, corrupto, venenoso, canceroso. 
E de repente no estava mais com raiva do Ian. Nem do Inspector Houghton. Enxugou o rosto e olhou ao seu redor e se deu conta de uma coisa. No era mais dela. Nada 
era. Nem as calas, nem os problemas, nem o inspector, nem as lembranas ms. No mais lhe pertenciam. O seu lugar era no lixo junto com as calas que segurava. 
Estava partindo. Tinha partido.
      Tudo agora tinha ficado para trs. Os papis dele no estdio. Os velhos canhotos dos cheques dela arquivados em caixas no poro. Estava abandonando tudo isso 
para sempre. O que estava levando com ela eram os belos momentos, as lembranas temas do pasmado, o retracto de Ian que pintara logo que se casaram (no podia deix-lo 
com os novos inquilinos), livros predilectos, tesouros do estimao. Apenas o que era bom. Resolvera que s tinha espao agora para eles. Para o diabo com o Inspector 
Houghton. Estava quase contente por ele ter vindo. Agora sabia que estava livre. No querendo ser livre, ou tentando ser livre, ou se esforando por ser livre. Mas 
livre.
      
      
Captulo 35
      
      
      Deixar San Francisco foi mais fcil do que ela imaginara. No se permitia pensar. Simplesmente entrou na auto-estrada e continuou guiando. Ningum viera acenar 
lenos ou chorar lgrimas amargas, e ela ficou contente.
      Depois da visita do Inspector Houghton, tomara uma xcara de ch, terminara de lavar a loua, calara os sapatos, verificara a casa e as janelas uma ltima 
vez, e fora embora.
      A viagem para o sul foi linda, e ela se sentia jovem e aventureira quando chegou  sua casa decadente da velha North Road. E ficou emocionada quando entrou 
e viu o que Tia Beth tinha feito. A casa estava imaculadamente limpa, e o saco de dormir que deixara ali antes agora era desnecessrio. Havia uma cama estreita no 
quarto, com uma alegre colcha de retalhos dobrada cuidadosamente ao p da cama. Era a colcha do seu quarto na casa de Tia Beth. Uma escrivaninha vitoriana de mocinha 
ficava a um canto, e dois abajures davam luz ao quarto. A cozinha estava abastecida, e havia duas cadeiras de balano e um mesa grande na sala, e uma poltrona grande 
ao p do fogo. Havia velas por toda parte e achas de lenha junto ao fogo. Tinha tudo de que precisava.
      E o jantar com Tia Beth no dia seguinte foi uma ocasio jovial. Passara a primeira noite sozinha na nova casa. Quisera-o assim, e havia vagado de quarto para 
quarto como uma criana, no se sentindo sozinha, apenas excitada. Era como o comeo de uma aventura. Sentia-se renascida.
      - Ento, o que est achando? Pronta para voltar para casa?
      Tia Beth pilheriava enquanto tomavam ch.
      - De jeito nenhum. Estou pronta para ficar aqui para sempre. E graas a voc, a casa est muito aconchegante.
      - Vai precisar mais do que isso para faze-la aconchegante, minha querida.
      Mas o que Jessica mandara em dois caixotes ajudou um pouco. Retractos, jardineiras, uma pequena coruja de mrmore, uma coleco de livros de estimao, dois 
quadros alegres e o retracto do Ian. Havia tambm cobertores e castiais de lato e miscelneas que ela adorava. E encheu a casa com plantas e flores vivas. No final 
da semana, tinha acrescentado aos seus velhos tesouros alguns novos adquiridos num leilo. Duas mesas baixas e toscas e um tapete oval feito  mo. Colocou-os na 
sala de visitas e deu um passo atrs, admirando-os. Parecia-se mais com um lar a cada dia que passava. Tinha mandado para l os livros em males, e os seus apetrechos 
de pintura estavam instalados num canto, mas ainda no tivera tempo de pintar nada. Estava ocupada demais com a casa.
      O filho do capataz da estncia da Tia Beth passou o fim de semana tirando ervas daninhas e aparando a grama, e eles tinham at descoberto um mirante caindo 
aos pedaos bem l nos fundos. E agora ela estava querendo um balano. Dois balanos. Um para ficar pendurado numa rvore alta perto do mirante, onde ela podia balanar-se 
bem alto e ver o pr-do-sol nas colinas, e outro para ficar na frente da casa, do tipo em que os casais jovens se sentam para sussurrar "eu te amo" nas noites quentes 
do vero, rangendo lentamente para l e para c, certos de serem nicos no mundo.
      A carta de Ian chegou no sbado de manh. Ela estava na sua casa nova h seis dias.
      
 E l est voc, garotinha engraada, com poeira nos cabelos e um sujinho na ponta do nariz, sorrindo com orgulho da ordem que est tirando do caos. Posso v-la 
agora, descala e feliz, com um talo de trigo entre os dentes. Ou usando os seus Gucci e detestando tudo? Como  que est sendo? Posso ver a casa perfeitamente, 
embora no consiga imagin-la feliz num saco de dormir no cho. No me diga que virou to primitiva! Mas parece formidvel, Jessie, e ir lhe fazer bem. Embora eu 
tenha ficado chocado ao saber da loja. No vai sentir falta dela? Mas me parece um preo danado de bom. O que vai fazer com o monte de grana? Por essas bandas de 
c, estou ouvindo falar que vo fazer um filmo do livro. No prenda a respirao; eu no estou prendendo. Essas coisas nunca acontecem. S se fala nelas. Embora, 
por outro lado, nunca pensei que voc fosse vender a loja. Como se sente? Magoada, aposto, mas quem sabe aliviada? Tempo para fazer outras coisas. Viajar, pintar, 
limpar o palcio que arrumou para o vero... ou mais tempo? Ouvi qualquer coisa no tom da sua ltima carta. Parece amor pela casa, pela regio, e pela Tia Beth. 
Ela deve ser uma mulher notvel. E como esto indo os lagartos e as formigas, at agora? Mantendo-se afastados? Ou todos usando o seu melhor laqu e adorando?
      
      Ela ria baixinho enquanto lia; corta vez tentara matar um lagarto no quarto de hotel deles na Flrida com o laqu de cabelo. Eles tinham tido que sair do quarto, 
asfixiados, mas o lagarto tinha adorado.
      Terminou de ler a carta o foi se sentar  mesa grande que Tia Beth tinha dado. Queria contar a ele sobre as coisas que Tia Beth tinha posto na casa, e as maravilhas 
que encontrara no leilo. No parecia justo deixar que pensasse que ela estava dormindo no cho.
      A correspondncia comeou a ser trocada desse jeito simples, e sem a determinao da parada anterior de comunicao. No pensava no que estava fazendo, simplesmente 
escrevia a Ian para dar as notcias. Era inofensivo, e ela estava satisfeita por ele quanto ao filme. Quem sabe desta vez aconteceria. Esperava que sim, por ele.
      Ficou surpresa com o tamanho da sua resposta. Cobria seis pginas escritas com letra apertada, e estava quase escuro quando ela selou o envelope e colou os 
selos. Preparou o jantar no velho fogo, foi para cama cedo o se levantou bem cedo na manh seguinte. Foi at a cidade, botou a carta no correio e deu uma passadinha 
na casa de Tia Beth para tomar um caf. Mas Tia Beth no estava, tinha ido cavalgar.
      A tarde foi quieta e bonita. Jessie fez alguns esboos, sentada na varanda da frente, balanando os ps. Sentia-se como a irm mais velha de Huck Finn, de 
macaco o camiseta vermelha e ps descalos. O sol queimara forte no seu rosto. Era um lindo dia, e o seu cabelo parecia fios de ouro presos em cachos frouxos no 
alto da cabea.
      - Boa tarde, mademoiselle.
      Jessica deu um salto, e o bloco de desenho voou das suas miou. Pensara que no havia ningum nas proximidades da casa. Mas quando ergueu os olhos, deu uma 
risada. Era o Geoffrey.
      - Meu Deus, voc quase me mata de susto!
      Mas ela pulou graciosamente da varanda enquanto ele pegava o bloco e o olhava, surpreso.
      - Puxa vida, mas voc sabe desenhar! Porm, o que  ainda mais interessante, voc  um amor e eu a adoro! - Envolveu-a num grande abrao carinhoso e ela sorriu 
para ele, os ps descalos na grama alta que cercava a casa. Ainda no tinham conseguido tirar todas as ervas daninhas. - Jessica, voc est absolutamente linda!
      - Desse jeito?
      Riu para ele, mas relutou em sair dos seus braos. Estava comeando a se dar conta do quanto sentira a falta dele.
      - , eu a adoro desse jeito. Da primeira vez que a vi, voc estava descala, e com o cabelo preso assim mesmo. Eu lhe disse que voc parecia uma deusa grega.
      - Cus!
      - Bem, no vai me mostrar a casa toda, depois de ter-me mantido longe tanto tempo?
      - Claro, claro! - Riu, encantada, e apontou majestosamente para a casa. - No quer entrar?
      - Daqui a pouco. - Mas primeiro tomou-a nos braos para um beijo longo e terno. - Agora estou pronto para ver a casa.
      Riu para ele, depois parou e lanou-lhe um longo olhar.
      - No, no est.
      - No estou? - Parecia confuso. - Por que no?
      - Primeiro trate de tirar a gravata.
      - Agora?
      - Claro.
      - Antes de entrarmos?
      Ela balanou a cabea insistentemente, e, sorrindo para ela, ele tirou a gravata azul-marinho com bolinhas brancas, que ela adivinhou correctamente ser de 
Dior.
      -  uma linda gravata, mas no precisa dela aqui. E prometo que no direi a ningum que voc a tirou.
      - Promete?
      - Solenemente. - Levantou a mo, e ele a beijou. A sensao no centro da palma foi deliciosa. - Ah, que gostoso.
      - Voc  uma provocadora. Est certo, ento, estou pronto? - Ela o examinou de novo e sacudiu a cabea. - O que ?
      - Tire o palet.
      - Voc  impossvel. - Mas tirou o casaco, jogou-o sobre o brao e fez-lhe uma curvatura. - Satisfeita, milady?
      - Perfeitamente.
      Imitou o sotaque dele, e ele riu, enquanto, finalmente, a seguia para dentro da casa.
      Ela o levou de cmodo em cmodo, prendendo um pouco a respirao, com medo de que ele a detestasse. E queria que ele a adorasse. Era importante para ela. A 
casa significava tanto para ela. Era simblico de tantas coisas que haviam mudado nela. E ainda estava um pouco vazia, mas gostava dela mesmo assim. Tinha espao 
para crescer, e para coleccionar novas coisas. Sentia-se mais livre ali do que se sentira em San Francisco. Aqui, tudo era novo e fresco.
      - Bem, o que achou?
      - No  exactamente superdecorado, ? - Sorriu enquanto ele dava uma risadinha baixa, mas queria que ele gostasse da casa, no debochasse dela. - Est certo, 
Jessica, no seja to susceptvel.  linda, e deve ser muito divertida para se passar um vero.
      Mas, e para passar toda uma vida? Ainda no dissera nada para ele sobre ficar morando ali, porque no tinha certeza, portanto no havia motivo. E isso realmente 
no tinha importncia. Se ele se apaixonasse por ela, poderia vir v-la no seu avio particular. Aquilo lhe daria os dias teis para, sozinha, pintar, caminhar, 
pensar e passar um tempinho com a Tia Beth, e os fins do semana com ele.
      - No que afinal est pensando? - Ela deu um salto quando ele interrompeu os seus pensamentos. - Tinha o sorrizinho mais matreiro no rosto.
      -  mesmo?
      Mas ela no podia lhe dizer o que estava imaginando. Aquilo tinha que crescer lentamente, no podia fazer-lhe um esboo da situao antes do tempo.
      - , sim, e eu adorei a sua casa.  uma graa.
      Mas ele fazia com que ela parecesse bobinha, e Jessie ficou desapontada. Ele tinha boas intenes, mas no compreendia.
      - Quer uma xcara de ch?
      Era um dia quente, mas Geoffrey parecia gostar de ch quente independente do clima. Ch, ou usque. Ou martnis. Isso ela j sabia.
      - Adoraria. E depois, .Jessica, meu amor, tenho uma surpresa para voc.
      - Tem mesmo? Adoro surpresas! Pode me dar agora.
      Parecia uma garotinha de novo enquanto se largava ao sof o esperava.
      - Agora, no. Mas pensei que podamos fazer alguma coisa especial hoje  noite.
      - Por exemplo?
      Ela tambm queria fazer uma coisa especial, o que era evidente no seu sorriso, mas ele deixou passar.
      - Quero lev-la a Los Angeles. Vai haver uma festa no consulado. Pensei que voc talvez gostasse
      - Em Los Angeles?
      Mas por que Los Angeles? Ela queria ficar ali mesmo.
      - Vai ser uma festa muito boa. Claro, se voc prefere no ir...
      Mas o jeito que ele falou no lhe dava muita escolha.
      - No, no... eu adoraria... mas  que pensei...
      - Bem, e o que faramos aqui? Pensei que seria muito mais agradvel dar um pulinho na cidade. E quero apresent-la a alguns amigos meus.
      Falou com tanto jeitinho que ela se sentiu mal pela sua relutncia. Era s que estivera com vontade de partilhar uma noite tranquila com ele na nova casa. 
Mas haveria outras vezes. Muitas delas.
      - Est certo. Parece formidvel. - Ia entrar no esprito da coisa. - Que tipo de festa ?
      - Gravata branca. Jantar tardio. E deve haver muita gente importante presente.
      - Gravata branca? Mas isso significa casaca!
      - Via de regra, sim.
      - Mas Geoffrey, que diabo eu vou vestir? No tenho nada aqui. S um bocado de roupa de roa.
      - Imaginei que seria esse o caso.
      - Ento, o que vou fazer?
      Estava horrorizada. Gravata branca. Cristo. Nem sequer vira uma gravata branca desde todos aqueles ridculos bailes de debutante a que a me a obrigara a ir, 
15 anos atrs. E no tinha nada nem remotamente possvel de usar. Tudo que era sofisticado ainda estava em San Francisco.
      - Jessica, se no vai ficar muito zangada comigo, tomei a liberdade de... - Nunca o vira to nervoso. Sabia que ela tinha um gosto excelente, e estava apavorado 
com o que havia feito. - Espero que no v ficar aborrecida, mas dadas as circunstncias.... quero dizer, eu...
      - Mas afinal que est acontecendo?
      Estava meio divertida, meio assustada.
      - Comprei-lhe um vestido.
      - Voc fez o qu?
      Estava atnita.
      - Eu sei, foi uma coisa ridcula de se fazer, mas eu presumi que voc provavelmente no tinha nada aqui e... - Mas ela estava rindo dele. No estava zangada. 
- No est aborrecida?
      - Como poderia estar aborrecida? Ningum nunca fez isso para mim antes. - Certamente no um homem que mal conhecia. Que homem espantoso ele estava se revelando! 
- Que coisa linda do se fazer. - Abraou-o e riu de novo. - Posso v-lo?
      - Claro.
      Saiu porta afora e voltou dali a cinco minutos, j que estacionara o carro a curta distncia dali. Quisera fazer uma surpresa quando chegou, e o Ponche no 
se prestava muito para surpresas. Mas estava de volta com uma caixa enorme nos braos, e uma sacola grande que parecia conter vrias caixas menores.
      - Mas o que foi que andou fazendo?
      - Fui fazer compras.
      Parecia satisfeito consigo mesmo, agora. Largou tudo em cima do sof e deu um passo atrs com ar de prazer e expectativa.
      Jessica abriu lentamente a caixa grande o soltou uma exclamao abafada. O tecido era o mais delicado que j vira. Era um crepe de seda, o mais leve imaginvel. 
Parecia flutuar por entro os seus dedos, e era uma cor clida de marfim, que realaria perfeitamente o bronzeado dela. Quando tirou o vestido da caixa, viu que ele 
parecia ficar preso num ombro, deixando o outro nu. E quando olhou para a etiqueta, esta explicou o modelo e o tecido. Geoffrey lhe comprara um vestido de alta costura, 
que devia ter. lhe custado no mnimo 2.000 dlares.
      - Meu Deus, Geoffrey!
      Ela estava sem fala.
      - Voc o detestou.
      - Est brincando?  magnfico. Mas como pode me compra isso?
      - Voc gostou, droga?
      Ele no conseguia fazer sentido do que ela estava dizendo, e. aquilo o deixava nervoso, esperando para descobrir.
      - Claro que gostei. Amei! Mas no posso aceit-lo.  um vestido terrivelmente caro.
      - E da? Voc precisa dele para logo mais.
      Ela riu da lgica dele.
      - No exactamente.  como usar um carro novo.
      E um Rolls, ainda por cima.
      - Se voc gosta, quero que o use. Ser que serve?
      Ela chegou a pensar em no experiment-lo, mas estava morrendo de vontade de saber como ficava, como se sentiria com ele. S por um momento.
      - Vou experimentar. Mas no vou ficar com ele. Do jeito algum.
      - Bobagem.
      Mas ela foi experimentar, o quando voltou estava sorrindo. E viso que ele captou f-lo sorrir tambm.
      - Santo Deus, voc est linda, Jessica. Nunca vi ningum vestir uma roupa desse jeito. - Parecia que tinha sido feito para ela. - Espere, tem que experiment-lo 
com isto. - Meteu a mo na cola e tirou de l uma caixa de sapatos. Tirinhas finas do cetim do marfim sobre saltos delicados. Novamente, serviram  perfeio. Geoffrey 
sem dvida sabia como fazer compras. Uma bolsinha de miangas branca e prateada. Tudo junto, era do ofuscar. E os dois estavam igualmente embasbacados. Ele por olhar 
para ela, da por estar usando aquilo. Estava acostumada com boas roupas, mas essas eram extravagantemente lindas. E escandalosamente caras.
      - Bem, ento est decidido. - Parecia resoluto, e satisfeito. - Cad o meu ch?
      - No espera que eu v servir ch usando isso, vai?
      - No. Tire-o.
      - Sim, amor, e vai ficar tirado.  to bonito, mas simplesmente no posso.
      - Pode e vai, o eu no vou discutir mais.  isso ai.
      - Geoffrey, eu...
      - Quieta. - Ele a silenciou com um beijo e ela teve a sensao de que o assunto estava fora do seu alcance. Quando ele queria, era muito decidido. - Agora, 
v buscar o meu ch.
      - Voc  impossvel.
      Ela tirou o vestido e foi preparar-lhe o ch, mas no final das contas ele venceu. s seis horas ela saiu da banheira, maquiou-se, penteou-se e vestiu-se. Sentia-se 
ligeiramente como se estivesse se prostituindo. Um vestido de dois mil dlares no era um presentinho. Ele dera um jeito de fazer parecer com que fosse um leno 
de cabea ou de bolsa, mas isso no era um lencinho. Enquanto enfiava o vestido pela cabea, estava praticamente babando.
      E ele fez o mesmo quando a viu, 20 minutos mais tarde,  porta do seu novo quarto de dormir. A casa certamente no estava acostumada a essas idas e vindas 
grandiosas nos seus corredores. Geoffrey tinha ido trocar de roupa na casa dos amigos, e voltara Impecvel, de casaca e gravata branca. O peito da sua camisa era 
perfeitamente engomado. Nada nele parecia se mexer. Parecia sado de um filme de 1932. E Jessica sorriu quando o viu.
      - Est lindo, senhor.
      - Madame, a senhora no tem idia de como est extraordinria.
      - Devo admitir que tudo isso est jia. Mas sinto-me como a Gata Borralheira. Tem certeza de que no vou me transformar mima abbora  meia-noite?
      Ainda estava mais do que um pouco embaraada por toda aquela extravagncia, mas, por algum motivo, tinha se deixado levar pela mar da insistncia dele. E, 
tinha que admitir, era um barato.
      - Est pronta para ir, querida?
      O "querida" era novidade, mas ela no se Importava. Podia acostumar-se com ele. Supunha que podia me acostumar com um bocado de coisas, se tentasse.
      - Sim, senhor. - Olhou para as mos nuas, e desejou tu jias e luvas. Num acontecimento to formal como esse obviamente seria, parecia que era imperativo usar 
luvas longas de pelica branca, e jias... jias.... pensou numa coisa quando j estavam saindo. - Espere um segundo, Geoffrey.
      Trouxera-o com ela, e tinha se esquecido totalmente dele. Tinha-o escondido, por medida de segurana. Mas estaria perfeito.
      - Algo errado?
      - No, no.
      Sorriu misteriosamente e voltou correndo para o quarto, onde se debruou cuidadosamente para procurar um pacotinho amarrado  parte inferior da cama. Fora 
o nico lugar de que se lembrara. Mas quisera traz-lo consigo. No sabia por que, mas quisera. Tirou rapidamente a caixa do sou esconderijo e depois abriu-a, tirando 
o estojo de camura da caixa, e depois derramando a jia na mo. Era mais linda do que nunca, e por um momento, o seu corao parou ao v-la. Trazia consigo tantas 
lembranas dolorosas, mas tambm tantas agradveis. Podia v-la na mo da me... e depois tirando a jia por causa do Ian... recolocando-a quando o julgamento acabara. 
Era o anel de esmeraldas de sua mo. Nunca conseguira se dispor a us-lo como uma jia, uma coisa, um enfeite. Mas esta era a noite para us-lo como uma coisa do 
beleza o orgulho, como algo especial que lhe fora dado. Esta noite ele significava um novo comeo na sua vida. Era perfeito. E os seus olhos ficaram cheios do lgrimas 
enquanto o colocava no dedo. Sentia a me aprovando.
      - Jessica, o que est fazendo? Temos uma longa viagem at Los Angeles... apresse-se.
      Sorriu consigo mesma enquanto o colocava na ruo. Era exactamente o que precisava. Tambm tinha um par de brincos de prolas que Ian lhe dera h anos. Fora 
a nica jia que trouxera, alm do anel, que na verdade no tinha planejado usar. Deu uma ltima olhada no espelho e sorriu para si mesma enquanto saa ao encontro 
de Geoffrey.
      - J estou indo!
      - Tudo bem?
      - Maravilha.
      - Pronta?
      - Sim, senhor.
      - Ah, a propsito, esqueci de dar-lhe isto.
      "Isto" era mais duas caixas, uma comprida, chata e fina e um pequeno cubo.
      - Mais? Geoffrey, voc est maluco! O que est fazendo?
      Era como o Natal. E por que estava fazendo isso? Ela nem queria os presentes, mas ele pareceu to magoado quando ela recusou, que comeou a abrir os pacotes. 
Nenhum homem jamais fizera uso com ela antes.
      Quando ela comeou com a caixa longa e fina, Geoffrey subitamente exclamou:
      - Jessica, que lindo. Que jia extraordinariamente bonita. - Estava admirando o anel da me dela e com a mo trmula, ela deixou que ele o examinasse. - Significa 
multo para voc, no ? - Ela fez que sim com a cabea, e depois de uma pausa, a voz dele se suavizou. - Foi o seu anel de noivado quando se casou?
      - No. - Olhou para ele gravemente. - Era da minha me.
      - Era?... Ela...
      Ento era por isso que nunca falava da famlia. Tinha falado no irmo, mas nunca mencionara os pais. Agora ele compreendia.
      - Sim, ela e meu pai morreram, com intervalo do poucos meses entre um e outro. Faz muito tempo, agora, suponho, embora no me parea. Mas nunca... nunca usei 
o anel, como hoje.
      - Sinto-me honrado que queira us-lo comigo. - Puxou-lhe o rosto para junto do si, suavemente, com a ponta do dedo, e beijou-a muito cuidadosamente. Aquilo 
deixou-lhe o corpo todo tinindo. E ento, ele deu um passo atrs e sorriu. - Ande. Acabe de abrir as suas coisas.
      Tinha se esquecido das caixas, o agora voltou a elas.
      A caixa longa e fina deixou ver as luvas em que tinha pensado quando estava se vestindo. Era como se ele lesse os seus pensamentos. De novo.
      - Voc pensa em tudo! - Elas a fizeram rir, mas estava encantada enquanto calava uma delas. - Como sabia todos os meus nmeros?
      - Uma dama no deve nunca fazer uma pergunta dessas, Jessica. Insinua que tenho conhecimento em demasia das mulheres.
      - Ah-ah! - A idia a divertia. E ela passou  caixa seguinte. Era to pequena que cabia na palma da sua mo. Geoffrey a observava com interesse enquanto ela 
rasgava o papel e chegava  pequena caixa de couro azul-marinho. Era fechada com uma presilha, e Jessica abriu-a e soltou uma exclamao abafada. - Jesus. Geoffrey! 
No!
      Ele no sabia dizer se Jessica estava zangada ou satisfeita, mas tomou suavemente a caixa da mo dela e tirou-as de dentro, segurando as lgrimas de brilhantes 
junto s orelhas dela.
      - So exactamente o que voc precisa. Coloque-os.
      Era uma ordem suave, mas Jessica deu um passo atrs e olhou para ele.
      - Geoffrey, no posso. No posso mesmo. - Diamantes? Mal o conhecia. E os brincos no eram assim to pequenos. Eram divinos, mas no uma coisa que ela pudesse 
aceitar. - Geoffrey. Sinto muito.
      - No seja boba. Use-os essa noite. Se no gostar, poder devolv-los.
      - Mas imagine se eu perder um deles.
      - Jessica, eles so seus.
      Mas ela sacudiu a cabea, calada, mantendo-se firme.
      - Por favor. - Parecia to desconsolado que sentia pena dele, mas no podia aceitar diamantes deste homem... j tinha aceitado a roupa que estava usando, e 
que j era um presente caro alm da conta. Mas diamantes? Quem, em nome dos cus, era ele? No importa quem, ela sabia quem ela era e o que podia e no podia fazer. 
Isso no podia. No. Mas ele estava olhando-a com tanta tristeza que ela finalmente vacilou por um instante. - Experimente-os.
      - Est certo, Geoffrey, mas no vou us-los hoje, nem vou ficar com eles. Guarde-os. E quem sabe, algum dia...
      Tentou fazer com que se sentisse melhor quanto aos brincos, enquanto erguia a mo para tirar um dos prprios brincos, e depois se lembrou de que estava usando 
as prolas do Ian.
      As prolas eram muito menos grandiosas do que os diamantes, mas ela as adorava. Experimentou uma das lgrimas refulgentes do Geoffrey e ficou fantstica na 
sua orelha esquerda... mas na direita estava a prola pequena o delicada do homem que a amara... do Ian...
      - No gosta deles.
      Parecia arrasado.
      - Adoro. Mas no para agora.
      - Ainda h pouco parecia que alguma coisa a tinha deixado terrivelmente triste.
      - No seja ridculo. - Sorriu, entregou-lhe de volta o brinco, depois deu-lhe um beijo casto na face. - Nenhum homem jamais foi to bom para mim, Geoffrey. 
Nem sei direito como agir.
      - Relaxe o aproveito. Bem, l vamos ns.
      Ele no insistiu quanto aos brincos, e eles os deixaram cuidadosamente escondidos na gaveta da escrivaninha. Sentiu-se aliviada por no os estar usando. Geoffrey 
tinha razo. Tirar as prolas do Ian a teria deixado triste. Ainda no estava pronta para tanto. Com
      O tempo, estaria. Ainda se agarrava a algumas das suas lembranas. Como o retracto dele, pendurado em cima da lareira.
      A festa parecia sada de um filme multimilionrio. GaIes do champanha, pelotes do mordomos de libr, exrcitos de empregadas de uniforme preto. Cada 60 centmetros 
do piso de mrmore trabalhado parecia coberto pela sombra imponente de um imenso lustre de cristal. E pilastras e colunas e tapetes Aubusson e mveis Lus XV, e 
uma fortuna em diamantes e esmeraldas e safiras e centenas de visons. Era o tipo de festa sobre a qual a gente l, mas nem de leve imagina que poderia estar presente. 
E l estava ela, com Geoffrey. Quase todos ali eram ou ingleses ou famosos, ou as duas coisas. E Geoffrey parecia conhecer todo mundo. Estrelas de cinema que Jessie 
conhecia apenas de jornal vinham correndo cumpriment-lo, prometiam ligar para ele, ou deixavam marcas de batom na sua face. Embaixadores encurralavam-no perto do 
pat, ou instavam Jessie a danar. Empresrios e diplomatas, gente da sociedade e polticos, astros de cinema e celebridades de fama duvidosa.
      Todo mundo estava l. Era o tipo de festa para a qual voc batalha anos para ver se arranja um convite. E l estava ela, com Geoffrey, que se revelou ser no 
"Sr.", mas "Sir."
      - Por que no me contou?
      - Por qu?  uma bobagem. No acha?
      - No. E  parte do sou nome.
      - Ento agora voc sabe. Tem importncia? - Parecia divertido, e ela sacudiu a cabea. - Est certo, ento. Agora, que tal danar comigo, Lady Jessica?
      - Sim, senhor. Sua majestade. Sua Graa. Sua Senhoria.
      - Ora, cale a boca.
      A festa continuou at as duas horas, e eles ficaram at o fim. Eram quase quatro horas quando chegaram de volta  pequena casa em estilo vitoriano enfiada 
no meio das colinas.
      - Agora sei que sou a Gata Borralheira.
      - Mas voc se divertiu?
      - Tive uma noite fabulosa.
      Sentira-se um pouquinho como se ele a tivesse posto no mostrurio, como uma boneca nova e bonita, mas ele a havia apresentado a todo mundo, e como podia se 
queixar? Quantos acompanhantes do s moas com quem saem vestidos de baile do 2.000 dlares e brincos do diamantes? Que noite. Olhou para o anel da mo de novo 
enquanto saam do carro. Sentia-se feliz por t-lo usado. No apenas porque era uma esmeralda, mas porque pertencera e mo.
      - Voc esteve radiante, hoje, Jessica. Tive tanto orgulho do voc.
      - Foi apenas o vestido.
      - Babaquice.
      - O que? - Ela soltou uma risadinha cansada e olhou para ele, divertida. - Sir Geoffrey falou "babaquice"? No pensei que voc falasse esse tipo de coisa!
      - Falo, o falo um bocado de outras coisas que voc desconhece, minha cara.
      - Parece interessante. - Trocaram um olhar de interesse mtuo diante da casa dela. - No sei se devo oferecer-lhe conhaque, caf, ch, ou aspirina. O que vai 
ser?
      - Podemos resolver isso l dentro.
      Ela deslizou escada acima com a graa de uma borboleta, no magnfico vestido branco. Mesmo no final da noite, parecia uma viso, e mal parecia cansada. Agradava-o 
enormemente. Na verdade, ele resolvera no esperar por muito mais tempo. Ela era tudo o que ele desejava, o estava na hora dele. Esperara por Jessie durante muito, 
muito tempo. Sabia que no estava completamente pronta, mas logo estaria. Ele a ajudaria a limpar as teias de aranhas do seu presente. De quando em vez ela via velhos 
fantasmas atormentando-lhe os olhos, mas estava na hora de abandon-los. Ele precisava dela. E ela se sara lindamente na festa. Todo mundo comentara.
      - Vai a festas como essa com frequncia?
      Abafou um bocejo enquanto tirava as sandlias que ele lhe dera.
      - Com frequncia razovel. Gostou mesmo?
      - E que mulher no gostaria, pelo amor de Deus? Geoffrey... desculpe, Sir Geoffrey.... - ela abriu um sorriso -  como ser rainha por um dia. E todas as pessoas 
do mundo inteiro estavam l. Devo dizer que fiquei muito impressionada.
      - E eles tambm.
      - Com o qu?
      - Com voc. Era a mulher mais linda da festa.
      Mas ela sabia que no era verdade, e que mais da metade da ateno que recebera fora por causa do vestido. Ele a equipara bem para o seu dbut, incluindo o 
vestido branco virginal. Mas algumas das grandes beldades do mundo estavam naquela festa. Ela no era propriamente preo para elas. No era esse tipo de mulher. 
No do tipo que pinga brilhantes do orelha a orelha, enquanto arrasta atrs do si uma pelo de chinchila, no ltimo vestido de Givenchy. Aquelas mulheres eram do 
primeirssimo time.
      - Obrigada. - Era mais simples no discutir. - Ch?
      - No, obrigado.
      Olhava para ela pensativamente, um tanto distrado.
      - Quer que eu acenda a lareira?
      Sentia vontade de sentar e bater papo com ele, como costumava fazer com... No! No podia deixar-se fazer isso.
      - Quem  aquele? - Fez um gesto para o rosto juvenil que enciumava a lareira, e Jessica sorriu. - Seu irmo?
      - No. Outra pessoa.
      - O Sr. Clarke? - Ela fez que sim, o rosto agora grave. - Ainda conserva o retracto dele no lugar?
      - Fui eu que o pintei.
      - Isso no  motivo. Ainda o v?
      Presumia que ela no o via, embora nunca tivessem tocado no assunto.
      - No. No vejo mais.
      -  o melhor. - E ento ele fez uma coisa que fez o corao de Jessica parar. Muito tranquilamente, sem pedir, sem dizer uma palavra, tirou o quadro de onde 
estava e pousou-o no cho, suavemente, perto da escrivaninha dela, de cara para a parede. - Acho que esta  uma boa hora para guardarmos isto, no , querida?
      Mas no havia pergunta na voz dele, o por um momento ela ficou atnita demais para falar. Ela o queria pendurado. Gostava dele. Trouxera-o especialmente de 
San Francisco. Ou ser que ele tinha razo? No havia mais lugar para aquilo? No devia ter havido, e ambos o sabiam.
      - Quer ch?
      No pode pensar em mais nada para dizer, e a sua voz era apenas um grasnido.
      - No.
      Com um sorriso meigo, sacudiu a cabea o veio lentamente para junto dela. Parou  sua frente e deu-lhe um beijo cheio de desejo. Aquilo mexeu com ela at a 
ponta da alma. Agora precisava dele. Estava arrancando dela uma coisa de que precisara para sobreviver, e agora estava comeando a precisar dele. No podia tirar 
o Ian dela, mas ia faz-lo, e ela estava deixando. Ficaram ali juntos, as bocas descobrindo-se esfomeadas, e muito meigamente ele soltou o colchete no ombro do vestido 
dela. Quando ele se abriu, o vestido caiu-lhe frouxamente at a cintura, e ele baixou a boca lentamente at os seios dela, enquanto todo o seu corpo parecia se estirar 
na direco dele... mas alguma coisa dentro dela dizia no.
      - Geoffrey... Geoffrey...
      Ele continuava a beij-la, e o vestido caiu lentamente ao cho. Todo aquele crepe de seda delicado amontoado aos seus ps, enquanto, cuidadosa e implacavelmente, 
ele a despia.. Ela tentou tirar o peitilho branco engomado, mas no conseguiu. S o que podia tocar era a salincia nas calas dele, mas at mesmo seu zper parecia 
resistir-lhe. E dali a um momento ela ficou nua diante dele, ainda completamente vestido, de casaca e tudo.
      - Meu Deus, Jessica, como voc  linda, meu amor... linda, linda, meu pssaro elegante...
      Levou-a devagar para o quarto, falando palavras de amor o tempo todo, e ela o acompanhou, como que em transe, at que ele a pousou cuidadosamente na cama e 
tirou devagar o palet, ou quanto ela esperava. Parecia ronronar para ela, que se sentia fascinada por ele. J tinha tirado o palet, mas o peitilho engomado ainda 
estava no lugar. Dava-lhe a aparncia de um cirurgio, e enquanto ela virava a cabea no travesseiro, algo lhe beliscou a orelha. Ainda estava usando os seus brincos, 
e ergueu a mo para tir-los e sentiu as prolas carem na sua palma. As prolas... as prolas de Ian... e c estava esse homem se despindo na frente dela. Ele a 
tinha despido. Ela estava nua, e ele ia ficar, e ele tinha tirado o retracto de Ian da parede...
      - No!
      Ela deu um salto e se sentou na cama, fitando-o como se de tivesse jogado gua fria no seu rosto.
      - Jessica?
      - No!
      Sentou-se ao lado dela e tomou-a nos braos, mas ela se livrou deles, ainda agarrada aos brincos do prola.
      - No tenha medo, querida, eu serei delicado, prometo.
      - No, no!
      As lgrimas vinham aflorando  sua garganta, e ela passou por ele, puxou a colcha da Tia Beth do p da cama e cobriu-se com ela. Mas, o que havia de errado 
com ela? Por um momento pensou que estava maluca. Poucos minutos antes desejara-o to desesperadamente, ou assim imaginara. E agora sabia que no. No podia. Agora 
sabia de tudo.
      - Jessica, que diabo est acontecendo?
      Ela estava encolhida junto da janela, as lgrimas escorrendo-lhe pelo rosto.
      - No posso ir para a cama com voc. Desculpe... eu...
      - Mas, o que aconteceu? H um momento...
      Pela primeira vez, ele estava totalmente atarantado. Isto nunca lhe acontecera. No desse jeito.
      - Eu sei. Desculpe. Deve parecer loucura,  s que...
      - Que o que, diabos? - Estava parado diante dela, parecendo muito desconcertado pela experincia. O seu palet jazia de modo estranho no cho, como se tivesse 
sido jogado ali. - O que lhe aconteceu?
      -  s que no posso.
      - Mas, querida, eu a amo.
      Foi para junto dela de novo e tentou abra-la, mas ela no deixou.
      - Voc no me ama.
      Era uma coisa que ela sentia; no uma coisa que pudesse explicar. E, o que era mais importante, ela no o amava. Queria am-lo. Sabia que devia am-lo. Sabia 
que ele era o tipo de homem que se supe que as mulheres devam amar, e implorar para terem como marido. Mas ela no o amava, e no podia, e sabia que jamais amaria.
      - Como assim, eu no a amo? Que diabo, Jessica, quero casar com voc. Que tipo de jogo acha que andei fazendo? Voc no  o tipo de mulher que um homem toma 
como amante. Acho que a teria levado  festa hoje se no estivesse levando a coisa a srio? No seja absurda.
      - Mas voc no me conhece.
      Era um queixume que vinha do canto.
      - Conheo o bastante.
      - No, no conhece. No sabe de nada.
      - Voc no nega a classe.
      Ah, Jesus.
      - Mas, e quanto  minha alma? O que eu penso, o que sinto, o que sou, do que preciso?
      - Aprenderemos isso um sobre o outro.
      - Depois?
      Ela parecia horrorizada.
      - Algumas pessoas fazem desse modo.
      - Mas eu no.
      - Voc no sabe que diabo faz. E se tiver um pingo de crebro, vai se casar com um homem que lhe diga o que fazer, e quando fazer. Ser muito mais feliz assim.
      - No, esse  o problema. Eu costumava querer isso, Geoffrey, mas no quero mais. Quero dar, alm de tomar, quero ser a adulta, alm da criana. No quero 
ser mandada e exibida e enfeitada. Foi isso o que voc fez, hoje. Sei que teve boa inteno, mas no passei de uma boneca Barbie, e nunca passaria disso. No! Como 
pode!
      - Desculpe se a ofendi.
      Abaixou-se e apanhou o palet. Estava comeando a se questionar quanto a ela; era quase como se fosse um pouco maluca.
      Mas subitamente ela no estava se sentindo nada maluca. Estava se sentindo bem, e sabia que estava fazendo a coisa certa. Talvez ningum mais pensasse assim, 
mas ela sabia.
      - Voc nem mesmo quer filhos.
      Era uma acusao ridcula para se estar fazendo s cinco da manh, enrolada numa colcha, conversando com um homem de casaca.
      - E voc quer filhos?
      - Talvez.
      - Bobagem. Essa coisa toda  uma bobagem, Jessica. Mas no vou ficar aqui discutindo com voc. Sabe qual  a minha posio. Eu a amo e quero casar com voc. 
Quando voltar ao seu juzo perfeito, de manh, ligue para mim. - Olhou para ela significativamente, sacudiu a cabea, foi at o canto, beijou-lhe o alto da cabea 
e deu-lhe uma palmadinha no ombro. - Boa noite, querida. Vai ao sentir melhor do manh.
      Ela no disso uma palavra enquanto ele se retirava, mas depois que ele se foi arrumou todo os presentes que ele lhe dera na caixa grande e branca do vestido. 
Pela manh mandaria tudo para a casa em que ele estava hospedado. Talvez fosse uma loucura fazer isso, mas estava bem certa. Nunca estivera to certa de uma coisa 
na vida.
      Tinha posto os brincos do prola na mesinha-de-cabeceira, e agora nem estava com sono. Ficou ali feliz e nua na sua sala do visitas, tomando um caf preto 
fumegante, enquanto o sol nascia nas colinas. O retracto estava de volta  parede.
      
      
Captulo 36
      
      
      - E como vai o seu namorado?
      Ela e Tia Beth estavam tomando ch gelado depois de um longo passeio a cavalo, e Jessica tinha estado muito quieta.
      - Que namorado?
      Mas no estava enganando ningum.
      - Sei. Vamos brincar de gato e rato, ou ele saiu do preo?
      Os olhos de Tia Beth perscrutaram os dela, e Jessie arriscou um sorriso. Gato e rato, ora essa!
      - Ponto seu. Saiu do preo.
      - Algum motivo especial? - Daquela vez, ficou surpresa. -VI uma foto bastante espectacular de vocs dois, numa tosta muito chique em Los Angeles.
      - Que diabo, onde a viu?
      Jessica no estava satisfeita.
      - Ora, ora. Ele devo ter mesmo cado em desgraa! Vi a foto no jornal de Los Angeles. Uma festa num consulado, ou coisa assim, no ? Um bocado do gente ilustre 
parecia rondar vocs.
      - No notei.
      Jessie parecia chateada.
      - Estou impressionada. - E Jessie tambm estava. Mas no agradavelmente. Estava se perguntando quem mais teria visto a foto. No havia razo para ter seu nome 
ligado ao de Geoffrey agora. Ora, bem... como tudo o mais, as fofocas acabariam por cessar. E era provavelmente bem mais difcil para o Geoffrey. ele tinha que viver 
com toda aquela gente. Ela, no. - Ele fez alguma coisa inconveniente, era simplesmente um chato, ou ser que no devo me meter no que no  da minha conta?
      - Claro que no. No, eu simplesmente no pude,  a nica maneira de me expressar. Queria forar-me a am-lo. Mas no pude. Ele era perfeito. Tinha tudo. Fazia 
tudo. Era tudo. Mas... eu... no consigo explicar, Tia Beth. Tinha a sensao de que ele ia tentar me transformar naquilo que queria
      -  uma sensao desagradvel.
      - Eu ficava sentindo que ele estava me examinando como a um cavalo de corrida. Sentia-me to... to solitria, com ele. No  uma loucura? E no havia motivo 
para isso. - Contou-lhe sobre o vestido e os brincos de diamantes. - Eu devia ter ficado entusiasmada. Mas no fiquei. Aquilo me assustou. Era demais... no sei. 
ramos uns estranhos.
      - Qualquer um ser um estranho, a principio. - Jessica balanou a cabea e terminou o seu ch gelado. - Ele parecia bem simptico, mas se aquele ingrediente 
especial no est presente, aquela magia especial... no h por que insistir.
      Aquilo fez Jessica voltar o pensamento para aquela noite.
      - Receio que no recuei com muita elegncia. Fiquei doidona.
      Sorriu  lembrana, e a mulher mais velha riu.
      - Provavelmente fez bem a ele. Era to certinho.
      - Era mesmo. E estava usando casaca enquanto eu pirei e praticamente comecei a arremessar coisas. Mandei de volta todos os presentes no dia seguinte.
      - Jogou-os pela janela?
      Beth parecia muito divertida, e quase torcia para que ela o tivesse feito. Os homens precisavam de movimento.
      - No. - Enrubesceu por um momento. - Mandei um dos empregados da sua fazenda lev-los na casa dele.
      - Ento  assim que eles passam as tardes deles.
      - Desculpe.
      - No se desculpe. Estou certa de que quem foi curtiu imensamente a coisa toda.
      Ficaram sentadas por um momento com os copos de ch gelado, e Jessica estava de testa franzida.
      - Sabe tambm o que me incomodou?
      - Estou ansiosa para saber.
      - Pare de implicar.... estou falando a srio. - Mas ela gostava das brincadeiras com a amiga. - Ele no queria ter filhos.
      - E nem voc. O que a incomodava nisso?
      -  uma boa pergunta, mas tem alguma coisa acontecendo. No acho que a idia de ter filhos me assuste mais tanto. Fico pensando que... no sei, j estou muito 
velha, de qualquer jeito, mas fico pensando que...
      Sabia que no era velha demais, mas queria que algum lho dissesse.
      - Quer um beb? - Beth estava espantada. - Est falando a srio?
      - No sei.
      - Bem, certamente que no  tarde demais, na sua idade. No tem nem 32 anos. Mas, deixe que lhe diga, estou surpresa.
      - Por qu?
      - Porque o seu medo era to profundo. No pensei que voc algum dia tivesse autoconfiana suficiente para suportar a competio. E se tivesse uma filha bonita? 
Ser que aguentaria? Penso isso. Pode ser muito doloroso para uma me.
      - E provavelmente muito compensador. No parece uma cafonice dizer isso? Sinto-me feito uma besta. J vem me incomodando h algum tempo, mas no tive coragem 
de contar para ningum. Todo mundo tem tanta certeza de que sou o que sou. Mulher do carreira, do cidade grande, contra crianas, agora alegro divorciada. Mesmo 
quando a gente pra de ser a mesma pessoa, parece que ningum quer deixar que se retire os velhos rtulos.
      - Ento queime-os. Coisa que voc certamente fez. Livrou-se do marido, da loja, da cidade. No sobra muito para mudar. - Falou pesarosa, mas com afecto. - 
E para o diabo com os rtulos das outras pessoas. Existe muita coisa que no podemos mudar, mas se h coisas que voc quer e pode mudar, v em frente e aproveite.
      - Imagine ter um beb...
      Ficou ali, sorrindo, saboreando a idia.
      - Imagine voc. Eu nem mesmo me lembro, e no tenho muita certeza de que quero me lembrar. Nunca me senti muito romntica sobre esse assunto, mas amo a Astrid 
profundamente.
      - Sabe,  como se ou tivesse vivido vrios captulos da minha vida de uma maneira, e agora esteja pronta para seguir em frente. No jogar o passado pela janela, 
mas continuar. Como uma viagem. J passamos tempo bastante num mesmo pas; depois de algum. tempo,  preciso seguir adiante. Acho que  o que aconteceu. Segui em 
frente para lugares diferentes, necessidades diferentes. Sinto-mo nova outra vez, Tia Beth. A nica coisa triste  que no tenho ningum com quem partilhar essa 
sensao.
      - Mas voc podia ter tido o Geoffrey. Penso s no que perdeu! - Mas a Tia Beth no achava que ela perdera grande coisa. Faltava fogo naquele homem, audcia 
o sonhos loucos. Ele viajava por um curso bem programado. Teria sido muito aborrecido, peio menos. Sabia que Jessie tinha feito a coisa certa. Admirava-se apenas 
com a violncia da reaco de Jessie. - H outra coisa que tambm a est incomodando, ultimamente, no ?
      - No sei o que quer dizer.
      - Sabe sim. Ora, se sabe. Sabe no apenas o que quero dizer, como todo o resto. Na verdade, aposto que foi esse o problema. com o Geoffrey, no foi? Teve muito 
pouco a ver com ele, afinal de contas. 
      Jessica estava rindo, mas no queria dizer nada.
      - Voc me conhece bem demais.
      - , o voc finalmente est comeando a se conhecer, tambm. E fico contente com isso. Mas agora o que vai fazer a respeito?
      - Estava pensando em ir para tora durante uns dois dias.
      - No est querendo a minha permisso, est?
      Tia Beth estava rindo, e Jessica sacudiu a cabea.
      
      
      Comeou a viagem s seis da mana seguinte, enquanto o sol metia o nariz por cima do morro da Tia Beth. Tinha um longo caminho a percorrer. Seis horas, talvez 
sete, e queria chegar a tempo. Vestira uma camisa leve para a viagem, e uma saia, que era mais fresca do que calas. Tinha levado uma garrafa trmica cheia de .caf 
gelado, um sanduche, um saquinho de mas, algumas nozes e biscoitos numa lata que o filho do capataz lhe trouxera alguns dias antes. Estava bem equipada. E resoluta. 
E tambm com medo. H dois meses que vinham trocando cartas duas a trs vezes por semana. Mas as cartas eram bem diferentes. Fazia quatro meses que no via o rosto 
de Ian. Quatro meses desde que ele lhe dera .as costas e se afastara, depois que ambos tinham jogado pedras que no deviam ter sequer apanhado do cho. E tanta coisa 
tinha mudado, agora. Ambos eram cautelosos nas suas cartas. Cuidadosos, temerosos, e no entanto alegres. Em cada pgina apareciam exploses de graa, comentrios 
bobos, referncias descuidadas, bobagens, e depois cautela de novo, como se cada um estivesse com medo de se mostrar demais para o outro. Mantinham-se presos aos 
assuntos seguros. A casa dela, e o livro dele. Ainda no havia novidade sobre o contrato de filmagem, mas o livro devia ser publicado no outono. Ela estava entusiasmada 
por ele. To entusiasmada quanto ele com .a casa. Tomava sempre cuidado em cham-la de "dela", e o era. Por enquanto.
      Agora eram pessoas separadas, no mais feitas do mesmo pedao de tecido. Tinham sido separados  fora pelo que lhes acontecera, pelo que haviam feito um com 
o outro, pelo que no mais podiam fingir. Ela se perguntava se haveria jeito de voltar, depois de uma coisa daquelas. Talvez no, mas precisava saber. Agora, antes 
de esperarem mais tempo. E se ele esperasse nunca mais rev-la? Parecia ter quase aceitado o facto. Nunca pedia uma visita. Mas ia ter uma. Queria v-lo, olhar no 
rosto dele e ver o que estava l, no apenas escutar o eco da voz dele por carta.
      Chegou ao prdio j familiar  uma e meia da tarde. Eles a examinaram minuciosamente, revistaram a sua bolsa, e depois ela entrou e escreveu o seu nome num 
formulrio na recepo. Sentou-se e esperou uma meia hora interminvel, os olhos dardejando inquietos entre o relgio de parede e a porta. O corao batia com muita 
fora, agora. Estava ali. E estava apavorada. Por que viera? O que diria? Talvez ele nem quisesse v-la, talvez fosse por isso que no tocasse no assunto visita. 
Foi uma loucura ter vindo... insanidade... estupidez...
      - Visita para Clarke... visita para Ian Clarke.
      A voz do guarda anunciou monotonamente o nome dele, e Jessica levantou-se da cadeira de um salto, lutando para manter o andar normal enquanto se dirigia para 
o homem uniformizado que estava de sentinela na porta da rea de visita. Era uma porta diferente daquela pela qual costumava passar antes, e quando olhou para alm 
dela percebeu que Ian agora estava numa seco diferente. Quem sabe no haveria agora janelas de vidro entre eles.
      O guarda destrancou a porta, examinou o pulso dela atrs do carimbo com que tinham marcado as costas da sua mo no porto principal, e depois se afastou para 
que ela passasse. A porta dava para um gramado pontilhado de bancos e emoldurado por canteiros, e no havia fronteiras aparentes, apenas uma longa faixa de grama 
bem cuidada mais alm. Atravessou lentamente a soleira e viu casais andando por caminhos dos dois lados do gramado. E ento viu Ian, na extremidade oposta, parado, 
olhando para ela, atnito. Era como uma cena de filme, e os ps dela pareciam de chumbo.
      Ela ficou ali parada, e Ian tambm, at que um amplo sorriso comeou a tomar conta do rosto dele. Parecia um garoto alto e desengonado, olhando para ela e 
sorrindo, os olhos amidos, porm no mais do que os dela. Era uma loucura... meia quadra de relva entre eles e nenhum dos dois se mexia... ela precisava... tinha 
vindo at aqui para v-lo, para falar com ele, no apenas para ficar parada olhando-o com cara de boba e um sorriso. Comeou a descer lentamente o passeio, e ele 
comeou tambm a caminhar na direco dela, o sorriso no rosto espalhando-se mais, e ento, de repente, finalmente, ela estava nos seus braos. Era o Ian. O Ian 
que ela conhecia. Tinha cheiro de Ian, jeito de Ian, o queixo dela se encaixava no mesmo lugar no ombro dele. Estava em casa.
      - O que aconteceu? Acabou o laqu ou os lagartos esto sendo demais para voc?
      - As duas coisas. Vim para c para voc me salvar.
      Estava tendo um trabalho para conter as lgrimas, mas ele tambm estava, e mesmo assim os sorrisos deles eram como o sol vivo numa chuva de vero.
      - Jessie, voc  maluca.
      Abraou-a com fora, e ela riu.
      - Acho que devo ser. - Estava agarrada a ele com fora. Como era bom. Levou a mo  cabea dele e sentiu a seda dos seus cabelos. Reconheceria aqueles cabelos 
de olhos vendados numa sala cheia de homens. Era o Ian. - Jesus, mas que gostoso tocar voc.
      Afastou-se dele para olha-lo. Estava fabuloso. Magricela, um pouco cansado, um pouco bronzeado, e totalmente embasbacado. Fabuloso. Ele a puxou para junto 
de si de novo e apoiou a cabea dela no seu ombro.
      - Ah, meu bem, nem pude acreditar quando voc comeou a escrever. J tinha perdido as esperanas.
      - Sei. Sou uma bosta. - Sentiu-se mal, de repente, pelos longos meses de silncio; agora, olhando bem no rosto dele, podia ver como eles o haviam magoado. 
Mas precisara faz-lo. - Sou uma super bosta.
      - , mas uma super bosta to linda. Est maravilhosa, Jessie. At engordou um pouquinho.
      Afastou-a um pouco de si e olhou-a da cabea aos ps. No queria solt-la. Estava com medo de que ela fosse sumir de novo. Queria prend-la, certificar-se 
de que era real. E que estava de volta. E que era sua. Mas, talvez... talvez ela tivesse vindo apenas fazer uma visita... dizer al... ou adeus. Os seus olhos revelaram 
subitamente a dor do que estava pensando, e Jessica perguntou-se o que passaria pela sua cabea. Mas ela no sabia o que dizer. Ainda no.
      - A vida na roa est me deixando gorda.
      - E feliz, pelo tom das suas cartas. - Abraou-a de novo e depois deu-lhe um belisco no nariz. - Vamos sentar. Meus joelhos esto tremendo tanto que mal passo 
ficar em p.
      Ela riu dele, e enxugou as lgrimas das prprias faces.
      - Voc est tremendo! Eu tinha medo de que voc no me enxergasse!
      - E deixar passar a chance de deixar os outros caras babando? No seja ridcula.
      Notou ento que ela estava usando o feijo-lima de ouro, e tomou suavemente a mo dela na sua.
      Encontraram um banco vazio junto ao relvado e se sentaram, ainda de mo dadas. Ele a envolvia com um dos braos, e a mo dela tremia na dele. E ento as palavras 
comearam a jorrar. No podia mais se controlar. A represa finalmente cedera.
      - Ian, eu o amo.  tudo to nojento sem voc.
      Parecia uma cafonice, mas fora isso que viera dizer-lhe. Agora tinha certeza. Sabia o que queria. E agora era mais uma questo de querer do que precisar. Ainda 
precisava dele, mas de modo diferente. Agora sabia o quanto o queria.
      - A sua vida no parece nojenta, meu bem. Parece boa. O interior, a casa... mas... - olhou para ela, com a gratido inundando o seu rosto - ...que bom que 
sinta que  nojenta, mesmo que seja s um pouquinho. Ah, Jess... que bom.
      Voltou a tom-la nos braos.
      - Ainda me ama um pouquinho?
      Estava usando a sua voz de garotinha. H muito tempo ningum a ouvia, h muito tempo ele no a ouvia. Mas, e se ele no a quisesse mais? Ento, o que faria? 
Voltaria para o Geoffreys da vida, e os dramaturgos cabeludos idiotas de Nova York? E o vazio do uma casa e um mirante e um balano e um mundo feito para o Ian... 
mas sem ele? Voltar para o qu? Para fitar o retracto dele? Pensar na sua voz? Usar os brincos de prola que ele lhe havia dado?
      - Ei, moa, est sonhando. No que estava pensando?
      - Em voc. - Olhou-o directo nos olhos. Precisava saber. - Ian, ainda me ama?
      - Mais do que posso lhe dizer, meu bem. O que voc acha? Jessie, amo-a mais do que nunca. Mas voc queria o divrcio e parecia justo. No podia pedir-lhe que 
passasse por tudo isso.
      Fez um gesto vago para a priso s suas costas. Ela ficou com o olhar cheio de preocupao.
      E voc? Est sobrevivendo?
      Afastou-se para olhar para ele de novo. Parecia muito mais magro. Saudvel, mas muito mais magro.
      - Estou me saindo bem melhor que imaginava. Desde que terminei o livro. esto deixando que eu d aulas na escola, agora, e estou escalado... - Pareceu hesitar, 
olhou para alguma coisa por sobre a cabea dela, e inspirou fundo. - Estou escalado para uma audincia em setembro. Podero me soltar. Na realidade,  quase certo 
que soltem. Por algum milagre, acabaram com a famosa sentena indeterminada da Califrnia, desde a minha chegada aqui, o como ru primrio a minha sentena pode 
estar quase acabando, se forem receptivos. Assim, parece que no devo demorar muito para voltar para casa.
      - Quanto tempo?
      - Talvez seis semanas. Talvez trs ou quatro meses. No mximo seis meses. Mas no  a que estou querendo chegar, Jessie. E quanto a todo o resto? E quanto 
a ns? O facto de eu estar na priso no era o nosso nico problema.
      - Mas tanta coisa mudou.
      Ele sabia que era verdade. Lera nas cartas dela, sabia pelo que ela fizera, e agora podia v-lo no seu rosto. Ela era mais mulher do que jamais fora antes. 
Mas uma coisa mgica tambm lhe dizia que ainda era dele. Parte dela era. Parte dela agora pertencia apenas  Jessie, mas ele gostava desse jeito. Ela fora assim 
h muito, muito tempo. Mas estava melhor, agora. Mais rica, mais cheia, mais forte. Era ntegra. E se ainda o quisesse, agora, eles teriam realmente alguma coisa. 
E ele tambm tinha crescido muito.
      - Acho que muita coisa mudou, Jess, mas um pouco no mudou e um pouco no mudar. E talvez seja mais do que voc queira enfrentar. Voc podia encontrar coisa 
melhor.
      Olhou para ela, perguntando-se sobre a foto que vira no jornal. Tinha visto o mesmo artigo que Beth vira. E se ela podia ter Sir Geoffrey Sei-L-do-Qu, por 
que diabos ainda ia quer-lo?
      - Ian, gosto do que tenho, se  que ainda o tenho. E no podia encontrar coisa melhor. No quero encontrar coisa melhor. Voc  tudo o que quero.
      - No tenho dinheiro.
      - E da?
      - Escute, consegui um adiantamento de 10.000 dlares pelo livro, e metade disso foi para o seu carro novo. E os outros 5.000 no vo durar muito, quando eu 
sair. L vai voc ter que me sustentar de novo. E, querida, tenho que escrever. Sei realmente disso.  uma coisa que tenho que fazer, nem que precise bancar o garom 
num boteco para me sustentar enquanto escrevo. No vou desistir de escrever de jeito nenhum, para ser "respeitvel".
      Parecia pesaroso, mas firme. E Jessie parecia impaciente.
      - Quem est se lixando para a "respeitabilidade"? Ganhei uma fortuna vendendo a loja para Astrid. Que porra de diferena faz agora quem ganha o que, fazendo 
o que... e da, bobo? O que acha que vou fazer agora com todo aquele dinheiro? Vesti-lo? Podamos fazer tantas coisas legais com ele.
      Estava pensando na casa. E em outras coisas.
      - Tais como?
      Sorriu ao som da voz dela, e abraou-a mais forte.
      - Ah, um monte de coisas. Comprar a casa no interior, um jeitinho nela... Ir para a Europa... ter um beb...
      Ergueu o rosto e sorriu para ele, nariz com nariz.
      - O que foi que disse?
      - Voc me ouviu.
      - No tenho muita certeza. Est falando a srio?
      - Acho que sim.
      Sorriu misteriosamente e beijou-o.
      - A troco do que, essa histria?
      - Um processo simples, querido. Fiquei adulta, depois da ltima vez que o vi. E  uma coisa em que tenho pensado, ultimamente. E me dei conta de mais uma coisa. 
No quero apenas "um beb". Quero o seu beb. Quero o nosso beb. Ian... eu s quero voc, com filhos, sem filhos, com dinheiro, sem... no sei de que outra maneira 
lhe dizer. Eu o amo.
      Duas imensas lgrimas deslizaram pelo rosto dela o olhou para Ian com tanta intensidade que ele teve vontade de abra-la para sempre.
      Jogou os braos  sua volta e abraou-a com um amplo sorriso no rosto.
      - Sabe o que vai acontecer, Jess? Qualquer minuto desses um cretino com uma lanterna elctrica vir at junto de mim, sero duas horas da madrugada e eu acordarei, 
segurando o travesseiro. Porque isso no pode ser real. Sonhei demais com isso. No est acontecendo. Quero que esteja, mas... diga que  verdade.
      -  verdade... mas voc est quase quebrando o meu brao esquerdo.
      - Desculpe. - Afastou-a de si por um momento, e ambos riram. - Meu bem, eu a amo. Nem me importo mais se voc quer um beb, ou no. Eu a amo, naquela casa 
desconjuntada e vazia que voc arranjou, ou num palcio, ou seja onde for. E, alm disso, acho que voc  pinel. No sei o que a fez voltar, mas estou feliz s pampas 
que tenha voltado.
      - Eu tambm. - Ela jogou os braos  volta dele, mordiscou-lhe a orelha, e depois o mordeu. - Eu o amo - sussurrou na orelha dele, e Ian a beliscou. Fazia 
tanto tempo que no a tocava, a abraava, a sentia. At mesmo belisces e mordidas eram uma gostosura. Era tudo um luxo, agora. - Puxa, Ian, o que h com voc?
      - Como assim?
      Pareceu subitamente preocupado.
      - Voc nem gritou quando eu o belisquei. Sempre grita quando eu o belisco. No me ama mais?
      Mas os olhos dela danavam, como no o faziam h anos. Talvez como nunca o tivessem feito antes, pensou Ian.
      - Voc veio at aqui para que eu gritasse com voc?
      - Claro. E para que eu pudesse gritar com voc. E abra-lo e beij-lo e implorar-lhe para dar logo o fora daqui o vir para casa, pelo amor do Deus. Ento 
quer fazer o favor do vir, porra? Por favor!
      Meu Deus. Doze horas atrs ela nem estivera certa do que ele ainda a queria. Mas queria! Graas a Deus, queria!
      - Eu vou, eu vou. Que presa E essa? O que  que tem l naquele lugar, cobras? Aranhas?  por isso que voc me quer, certo? O exterminador... conheo o seu 
tipo.
      - Tolice. Nem aranhas, nem cobras, mas...
      Abriu um largo sorriso.
      - Ah!
      - Formigas. Entrei na cozinha outro dia de noite para fazer um sanduche de manteiga de amendoim, e berrei to alto que... do que est rindo? Droga, do que 
est rindo?
      E ento de repente ela estava rindo tambm, e ele a abraava e a beijava de novo, e ambos riam por entre as lgrimas. A guerra tinha acabado.
      E oito semanas mais tarde, ele voltou para casa.

      ***FIM***

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